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sábado, 22 de outubro de 2022

Coisas da Minha Infância - Dartacão

Esta semana morreu aos 82 anos Claudio Biern Boyd, o criador de Dartacão e de Volta ao Mundo de Willy Fog, desenhos animados de grande sucesso na década de oitenta. 

Dartacão estreou na RTP em 1983, teria eu uns seis anos e o impacto foi tão grande que é das coisas que mais recordo da infância. Tudo naquilo cativava, da música do genérico aos desenhos das personagens que eram quase todas cães (excetuando Milady que era um gato e Richelieu que é um graxaim-do-campo) bem como o enredo e as aventuras em que Dartacão e os Moscãoteiros se envolviam. 

Contou o autor que quando nasceu não havia televisão, então, tornou-se um devorador de livros e os que havia na sua época era o Dumas, Júlio Verne, Salgari, Dickens. 

Como toda a gente sabe Dartacão foi a transposição para a animação da obra clássica "Os três mosqueteiros" de Alexandre Dumas que, confesso, que nunca li. 

Como é normal quando era criança eu consumia desenhos animados que, diga-se, quando tinha seis ou sete anos nem davam muito na televisão porque, não esquecer, quase só havia um canal. Dava ao fim-de-semana de manhã (e ainda tínhamos que gramar com a missa, o TV Rural ou o 70x7) mas depois sim,  com o passar do tempo começou a dar cada vez mais. 

Nessa altura os desenhos animados tinham conteúdo, não eram violentos e transmitiam uma mensagem. Eu só vi desenhos animados aí até aos meus 15-16 anos. E como não tenho filhos nem sobrinhos não acompanho o que se dá agora às crianças para ver, mas suspeito, até pelo que vou ouvindo, que muito disso se perdeu.

Os episódios de Dartacão tinham 25 minutos. Hoje, pelo que vou ouvindo, duvido que uma criança consiga estar quietinha durante quase meia hora como eu estava quando tinha seis anos. 

Outra coisa que se irá perder é que, daqui por quarenta anos esta geração de crianças que tem hoje seis anos não terá memórias coletivas. Hoje, todas as pessoas na casa dos quarenta recordam Dartacão, Wily Fog ou Era uma vez... Como também todas as pessoas na casa dos setenta recordam hoje a Gabriela que parava o país à hora que dava. Hoje cada pessoa vê a sua série, a sua novela, e cada criança tem o seu próprio canal de desenhos animados preferidos.

Há quarenta anos todos víamos à mesma hora Dartacão na RTP.

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Cândido (ou a Arte da SIC Aldrabar os Espectadores)



A última novela que terei visto na televisão foi Kubanacan em 2004. E foi por essa altura que deixei de ver novelas. O mais curioso é que nem sequer cheguei a ver o final da novela porque a SIC, sem qualquer respeito pelo espectador, andava sempre a mudar a merda da novela de horário, e, ainda por cima, nessa altura, ainda não existia aquela coisa de puxar a fita atrás e ver o que deu no dia anterior.

Eu continuo sem ver televisão. É verdade que tenho aqui no quarto um televisor mas que se o ligar não funciona porque nem sequer tem a caixa maravilhosa da Televisão-da-Treta (TDT). Serve para ligar o leitor de DVD e ir vendo uns filmes. Contudo, geralmente pelas 19h, quando chego a casa, e a minha mãe anda de volta da cozinha e está na companhia do meu padrasto, eu junto-me a eles. E, se nos últimos anos sempre foram clientes do Preço Certo com o Fernando Mendes, a verdade é que, depois da curiosidade da primeira temporada daquele programa "Quem-quer-andar-a-passear-de-jipe-com-o-agricultor-que-apanha-menos-sol-que-um-gótico?" foram-se deixando ficar pela SIC, e logo no primeiro episódio que apareceu a novela Eta Mundo Bom que eles a foram acompanhando e eu também por arrasto.

E não teremos sido caso único, porque a minha colega me ia dizendo que a novela já ia rivalizando com o Preço Certo a nível de audiências, o que é de facto algo de assinalar, visto que a RTP e o Fernando Mendes aquela hora não costumam dar hipóteses a ninguém.

"Eta Mundo Bom" é, curiosamente, uma novela inspirada no romance "Cândido (ou o Otimismo)" de Voltaire (1759) que até foi o último livro que comprei recentemente para ler quando tiver oportunidade. A novela, que acabou nesta segunda-feira, teve um tom de comédia, muito leve, recheada de maus e trapaceiros, mas e em que o lema do ingénuo Cândido, citando o seu mestre e professor de filosofia Pancrácio, é: "tudo o que acontece de ruim na vida da gente, é para melhorar" (no livro de Voltaire: "tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis")

Só que, parece-me, a SIC nunca soube muito bem o que fazer com este Ferrari de audiências. E foi triste constatar que, quinze nos depois de Kubanacan, a estação adota os mesmos métodos vergonhosos, sem olhar a meios para atingir os seus fins. Sem qualquer respeito pelos espectadores, mudou a novela constantemente de horário, mais para trás e mais para a frente; vários dias deixou de a transmitir, prolongando a novela anterior até ao noticiário, e, pior, começou a editar vergonhosamente a novela, que tem quarenta minutos, mas da qual passou só a transmitir quinze! Num dado momento a polícia persegue os bandidos, na cena seguinte já está tudo bem sem o espectador perceber nada do que acabou de acontecer.

E entretanto os meus pais regressaram ao Preço Certo.

domingo, 7 de abril de 2019

O Outro Lado dos Provérbios III - Chuva e Frio em Abril, Onde Já se Viu?

Habitualmente levo comida de casa para almoçar na empresa, mas na sexta-feira isso não aconteceu e fui almoçar ao restaurante mais perto. Eu por norma até me sento de costas para a televisão, mas já no restaurante e a pensar em tirar o livro que estou a ler do saco, sento-me na primeira cadeira da primeira mesa livre que encontro, mas desta feita de frente para o grande televisor (ou telecrã) plano lá ao fundo da sala. 

Meto a mão ao saco para sacar do tal livro que ando a ler e me abstrair do que se passa ao meu redor, mas constato que, afinal, o livro tinha ficado no carro. Merda! E pronto, lá fiquei eu sentado, sozinho, como se fosse a primeira vez que ia a uma praia de nudistas, com uma mesa de seis pessoas mesmo coladinha a mim, todos nus a conversar lá sobre as suas vidas. E não tive outro remédio se não olhar em volta. 

Como é muito raro não levar comida de casa (nem que seja só uma sopa) são raras as minhas visitas a este restaurante. Reparei na empregada de mesa nova, de cabelo preto apanhado para trás, que muito vagarosamente tomou nota de todos os pedidos da mesa de seis pessoas ao meu lado, mas que a mim preferiu não me ver, ou fez de conta, ou acho talvez aquela mesa estivesse destinada a outros empregados. Não sei. Mas o que sei é que se eu fosse preto já podia já dizer que fui vítima de racismo, não sendo preto, acho que fui vítima de outra descriminação qualquer. Incompetência, provavelmente. 

Tudo demasiado lento. Talvez quando já se tratam os clientes pelo nome e se conhece as suas preferências, já achem que se podem desleixar, porque este no dia seguinte voltará. Ainda assim eu não facilitaria, e segundo sei o que não faltam por ali são restaurantes.


Contei as mesas, reparei nas pessoas e constatei que, apesar de só haver dois pratos do dia, apesar de só ser preto ou branco, houve pelo menos dois pratos que chegaram à mesa e o cliente disse que não foi aquilo que havia pedido. Tudo muito lento e nem por isso eficaz.
E pronto, lá fui olhando também para a televisão que estava no mesmo canal de sempre: a TVI. Talvez neste restaurante ainda não tenham sabido da notícia que a Cristina Ferreira foi para a SIC, e que é líder de audiências, ou então porque deve dar muito trabalho mudar de canal; ou então porque talvez achem mesmo que, aquela hora, e apesar dos não sei quantos canais de televisão que os restaurantes têm, talvez achem mesmo que, aquela hora de almoço, o melhor que se podem mostrar aos clientes é um programa a fazer conversa de café a falar de assassinatos.

Entretanto começam as notícias das 13h. Bem, deixa-me lá ver quais são as notícias mais importantes do dia para a TVI, pensei. 
Notícia de abertura: Estava a nevar na Serra do Alvão mas a reportagem mostra de imediato neve na Serra da Estrela! E lá estava um reporter a tilintar de frio e a entrevistar um casal e um criança. De seguida sim, fazem uma reportagem na Serra do Alvão. Terceira notícia mais importante do dia: "Choveu no Algarve e afastou os turistas das esplanadas"! Quarta notícia: "Acidente na A1 provoca quatro feridos ligeiros"! 

Para a TVI, a notícia mais importante no dia 5 de Abril de 2019 é que estava chuva e frio. Acho que estes jornalistas certamente não andaram na escola, ou se andaram, ficaram em casa quando se deram alguns dos muito provérbios de Abril:

"Em Abril águas mil"  ou "Em Abril queima-se o carro e o carril". 

Mas para os jornalistas da TVI (bem como para muitos outros canais)  há agora um novo provérbio: "Chuva e frio em Abril - onde já se viu"?

domingo, 21 de janeiro de 2018

Rádio Errática

Quarta-feira passada fiquei até mais tarde no trabalho. Na vinda para casa apanhei o programa "Prova Oral" do Fernando Alvim na rádio Antena 3. Este é um programa que não tenho por hábito ouvir, precisamente porque não apanho no carro e não o ouço nem na rádio nem na internet. 

Este episódio versou sobre o Shifter e os seus fundadores, que é um site de informação na net que pretende ser independente, e falou-se genericamente sobre o jornalismo dos dias de hoje. E a determinado momento o apresentador Fernando Alvim diz o seguinte:

"Esta história de nós transmitirmos no Facebook, foi algo que eu no início tive alguma resistência, até porque as pessoas pessoas diziam "porque é rádio, a magia da rádio e tal". Sim, eu de certa forma também achava isso romântico, só que depois de perceber o boost que é teres uma transmissão ao vivo no Facebook e a quantidade de comentários que se multiplicam a cada minuto, tu percebes que seria errático não fazeres isso. É inevitável."



Errático Alvim? Porquê?

Eu também sou dessas pessoas que gosta da magia da rádio, de ouvir uma bonita voz e imaginar quem será que está por detrás dela. E é por isso que se chama rádio e não se chama televisão, vídeo-conferência ou outra coisa qualquer. No fundo o que tu estás a dizer é que fazes rádio porque se te desse a oportunidade de fazer o Prova Oral num canal de televisão mudavas-te logo, como se usasses a rádio para algo maior. Ou estou errado?

A magia da rádio, é por exemplo, eu, de repente, ter começado a ouvir uma mulher nas manhãs da Antena 3, uma tal de Inês Lopes Gonçalves, que me impressionou pela sua inteligência e humor refinado, e ter ficado intrigado porque sabia que conhecia aquela voz de algum lado. E mais tarde lembrei-me que era alguém que eu costumava ver no Canal Q, quando ainda tinha televisão. Só que houve um problema, eu troquei-lhe o corpo. Durante muito tempo fui pensando que era uma mulher magrinha, de cabelo curto e óculos de massa, e mais tarde, porque me cruzei com ela num qualquer telecrã sintonizado na RTP3 percebi que o corpo era outro. E já me disseram que ela anda pelo Cinco para a Meia-Noite... quem sabe comece a cuscar na net.  

Mas é precisamente por isso que se eu fosse radialista nunca que partilharia a minha imagem em lado nenhum. A alma e a magia da rádio é voz. A rádio não é imagem, para isso já existe a televisão. A pessoa que faz rádio vale-se desse único instrumento que são as suas cordas vocais. Se agora se transmite em direto um programa para a internet , nomeadamente para o Facebook (ou outras redes sociais) então isso para mim já não é rádio. Chamem-lhe outra coisa qualquer.

Bem sei que a pressão da imagem e da alimentação do ego é cada vez maior. E é ver os programas todos de rádio no Youtube ou nos seus sites em Podcast, em que a imagem de fundo é agora, quase sempre o corpo do radialista. Afinal, tem de se colocar ali qualquer coisa. Mas também se poderia muito bem colocar ali só o logótipo do programa, não? 

Eu ainda me lembro de um outro programa de rádio que, outrora, fruto de outro horário de trabalho apanhava todas as sextas-feiras na TSF. Esse programava chamava-se e chama-se ainda "Governo Sombra". E eu ainda me lembro muito bem de ouvir de o Carlos Vaz Marques, o moderador do programa, dizer que aquele era um programa de rádio, e que sempre recusou e recusaria qualquer proposta para o levar para a televisão. Mais. Ele até defendia que era precisamente por ser em rádio que aquele programa funcionava tão bem e tinha tanta audiência. Hoje, como todos sabemos, o "Governo Sombra" é um programa que passa na TVI. Está visto que o Carlos Vaz Marques também mudou de opinião e achou que seria errático não se vender e dar o dito pelo não dito. 

Eu sei que as coisas mudam e evoluem e todos temos de nos deixar levar, adaptar ou então resistir. Eu sei que o mundo gira atrás do dinheiro e que se as coisas não dão dinheiro, inevitavelmente deixarão de existir. E sei que as pessoas procuram protagonismo, e procuram mais público, e que tal como disse o Alvim, que seria "errático" não se vender. Mas onde é que fica a coerência no meio disto tudo? Admito perfeitamente que talvez o errático seja eu. Eu também poderia ir para as redes sociais para me promover, promovendo também os meus blogues; na volta ninguém me lê, basicamente porque são uma valente merda, mas eu comecei a escrever para mim, nunca pensei num blogue para tentar ganhar dinheiro ou para tentar mostrar como sou fixe. Talvez o errático seja mesmo eu. Humildemente admito que sim. Bem sei como é bem mais fácil deixarmo-nos levar pela corrente, do que nadar contra ela. Mas eu sou eu, e se eu me vender passarei a ser uma mercadoria. Deixarei de ser coerente e isso não me agrada. 

E será que vale tudo em troca do protagonismo e das audiências? É  mesmo preciso vender a alma ao Diabo? Eu achava que não. 

domingo, 22 de outubro de 2017

Em Portugal Há Mais Hipocrisia que Eucaliptos



"Para acabar fica aqui o meu beijinho lambuzado para os canais televisivos informativos do querido Portugal. Agora estão cheios de imagens e entrevistas sobre o incêndio e muito pesar pelo abandono a que as pessoas foram sujeitas, mas na noite do drama estavam a dar programas de bola na TV, e às 3 foram todos para a cama e estavam-se para as tintas para o drama. Coisas docinhas não é?

Em Portugal há mais hipocrisia do que eucaliptos. É pena não arder a primeira."

Bruno Nogueira / Mata Bicho / 20 de Outubro de 2017

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Conversas Improváveis VI

Hoje, estava eu no trabalho e à hora do lanche e liga-me a senhora minha mãe:

"Olha, ouve isto e vê se sabes o que é..."

Do outro lado quase não ouvia nada, e a minha mãe coloca o telemóvel junto à coluna do televisor e esclarece e aí sim fiquei a perceber o insólito da situação:

"São os Moonspell que estão no programa do Goucha a tocar! O vocalista até tem um cabelo assim do tamanho do teu... e até é muito giro"!!



Enquanto falava com a minha mãe caía uma mensagem no telemóvel. Depois de desligar a chamada fui ler, e era uma amiga minha a contar-me a novidade que eu já sabia!

"É o fim do mundo" disse ela.. "Nota-se que é Black Friday"!

Bom, depois disto eu já esperava tudo, mas de facto, muitas vezes, as pessoas conseguem surpreender-nos!

Depois de uma ida ao Preço Certo do Mendes e de ter estado no programa das manhãs do Goucha, qual será o próximo passo dos Moonspell? Tocar no programinha-peditório deprimente de domingo à tarde da TVI?

- Ou será que o Fernando Ribeiro se prepara para posar nu para a revista da Cristina Ferreira?


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Viver sem televisão

A caixa mágica entrou na minha vida a preto, branco e numa escala de cinzentos, pois a cor só chegaria aos televisores portugueses em 1980. Em criança tinha dois canais, mas no fundo era um canal e meio, pois o segundo canal da RTP só abria as emissões ao fim da tarde. A televisão esteve também presente durante dois anos da minha educação, no primeiro e segundo anos da Telescola, em que nos primeiros dez minutos de cada aula, ligava-se a televisão na RTP2 e alguém explicava a matéria que se ia abordar nesse dia.

À noite, o Telejornal tinha só meia-hora porque não se enchiam os noticiários com chouriços como hoje, mas ainda assim, naquele tempo, pareciam-me que demorava uma eternidade a passar, pois queria era ver a novela que dava a seguir, e que aquela hora, toda a gente a via religiosamente. E depois de uma história, ou de um curto desenho animado, chegava a música do Vitinho, que apareceu a meio da década de oitenta e mandava as crianças para cama, numa altura em que as crianças não ficavam, como acontece hoje, acordadas e com televisão no quarto, até de madrugada. E de madrugada não havia publicidade noite dentro, as emissões acabavam, muito respeitosamente, ao som do hino nacional.


Só na década seguinte chegaria a concorrência dos canais privados, primeiro a SIC e depois o canal da igreja, a TVI. E foi à custa do canal de Deus, que o padre aqui da paróquia ainda embolsou uns valentes cobres, pedindo aos fieis que comprassem ações da TVI! E que boa ação que ele fez! Acho que o meu avô ainda deu cinco contos, e ficou sem eles, e sem as boas ações de Deus!
Nos meados da década de noventa chegava também a oferta da TV Cabo, e eu já estava eu a acabar a adolescência e já não me sentia minimamente atraído por programas infanto-juvenis. Gostava deles sim, mas foi no momento próprio, quando era criança, e quando infelizmente a oferta era muito escassa quando comparando com o que se passa hoje. 

Com os canais privados chegaram também as audiências, os patrocínios e a publicidade, e a obrigatoriedade de determinado programa, e do próprio canal privado ter audiências para assegurar a sua viabilidade económica. Se até então só existia um canal onde fazer publicidade, a RTP, canal esse que não tinha concorrência, e os programas eram integrados mais num serviço público de cultura, educação e divertimento, desde o alargamento da televisão aos canais privados, que a única preocupação que as televisões passaram a ter foram as audiências. No final dos anos noventa a SIC, poucos anos depois de ter aparecido no ar, já liderava as audiências, a curta distâncias ficava a RTP e a TVI afundava-se cada vez mais.

A SIC chegou, e trouxe consigo o programinha-deprimente, que explora a vida íntima das pessoas, com programas como Perdoa-me, All you need is love, Ponto de Encontro, entre muitos outros dentro do género, a fazerem a delícias do voyeurista português. Eram também os tempos da "televisão em direto", em que os homens das câmaras apareciam às frente das câmaras que estavam a filmar, era tudo ao monte e supostamente muito modernaço, nos tempos do do Big Show SIC do Baião e do macaco Adriano, e do Muita Lôco do Figueiras.



Curiosamente seria a mesma SIC a recusar o maior filão, o programa que trouxe a verdadeira televisão em direto, o maior explorador da vida alheia de sempre!
Eu já estava a trabalhar quando eu 2000 apareceu o Big Brother - O Grande Irmão, e não se falava noutra coisa. Era o programa dos dramas da "vida real"! E eu fui acompanhando esta primeira edição, desde logo porque queria saber como era, depois porque do ponto de vista da análise do comportamento humano achei que poderia ser interessante. O programa foi tendo o seu sucesso, mas foi depois de um concorrente agredir uma outra concorrente, com direito a abertura no Telejornal da TVI e tudo, que finalmente a coisa disparou, e o canal se tornou, até aos dias de hoje, líder de audiências.

Correndo atrás do prejuízo, a própria SIC, que recusou o Big Brother, passa rapidamente ao contra-ataque, numa coisa ao género do "se não consegues vencê-los junta-te a eles"! E aparece então com vários genéricos, mas de qualidade ainda mais duvidosa, como Acorrentados, Masterplan - O Grande Mestre (com Herman José e Marisa Cruz) ou o Bar da TV, mas os efeitos destes medicamentos genéricos não seriam os mesmo da droga original da TVI e rapidamente saíram de cena, ao passo que o conceito Big Bother, quatorze anos do primeiro, e de não sei quantas edições depois, continua no ar, sendo sempre - e não sei como! - líder de audiências em Portugal.


Televisão por cabo só tive muito recentemente, durante os últimos cinco ou seis anos talvez. Não acompanhei o fenómeno de uma juventude, que parece que foi o Curto Circuito e o canal onde dava e continua a dar, a SIC Radical. Mas eu tive televisão por cabo, não desejo específico, mas simplesmente porque foi a forma mais barata de ter Internet, e então, em relação ao que pagava, passei a ter uma Internet melhor, com a oferta da televisão por cabo, e como dividia a fatura com outra pessoa de família, pareceu-me ótimo.

Quando comecei a ver televisão por cabo fiquei como o outro, "maravilhado"! principalmente pelos documentários. Mas rapidamente o encanto desvaneceu-se, pois apercebi-me que no cabo a coisa repete-se, e repete-se e repete-se! E é uma verdadeira seca! Ultimamente tinha não sei quantos canais, na maioria em duplicado com os HD, e era só para fazer ginástica aos dedos, porque programação de jeito e que não fosse repetida era complicado encontrar. Com a televisão por cabo quase que deixei de ver os quatro canais de sinal aberto, excetuando uma ou outra coisa da RTP2, como o Biosfera ou algum documentário.

A maior maravilha e revolução que a televisão por cabo trouxe, foram as gravações automáticas, porque com as gravações tinha-se acabado de vez com a publicidade, e além disso, se não estava a dar nada de jeito no momento, podia-se sempre ver o programa que não pude ver e que deu noutro horário, num outro qualquer dia e isso era uma enorme vantagem.

Mas recentemente a pessoa da minha família, que vive no piso debaixo, e dividia a fatura de televisão e internet comigo, passou a trabalhar fora e só regressa a casa ao fim de semana, logo não pode usufruir nem da televisão (que já não via) nem da internet, e logicamente, estava a pagar um serviço que não usava, ao passo que agora precisava era de um serviço móvel de internet. E decidimos acabar com a nossa sociedade de televisão e internet. Ora eu sozinho, não ia pagar o valente roubo que o único prestador deste serviço cobra aqui na zona, e como tal comprei unicamente uma internet portátil e caguei para a televisão por cabo, porque quem não tem dinheiro (não deve) ter vícios. Mas já agora deixo o concelho - Quer baixar o o custo da sua fatura de televisão e internet? Não negocie o valor! Diga que vai cancelar o serviço! Ligam-se logo a dizer que fazem por menos de metade do valor! Interessante não é?

E de um dia para o outro fiquei sem televisão.
É verdade que tenho um televisor no quarto, mas que não dá televisão nenhuma, pois a partir do início do ano de 2011, assistimos, por um lado, a um dos maiores roubos generalizados de sempre, e por outro a um tremendo retrocesso tecnológico.

Tinha chegado a televisão digital terrestre, a TDT. As promessas iniciais era que as pessoas iriam ter mais canais em sinal aberto. Foi mentira. Outra das promessas era a de que a televisão passaria a ter mais qualidade que anteriormente. Outra valente mentira! Desde a introdução da TDT que os programas mais parece que são todos feitos em playback, sem falar que de vez em quando a imagem congela, ou então começa a desfazer-se aos bocados! Depois não é preciso ser muito inteligente para perceber que todo o processo entre o regulador ANACOM e a empresa regulada, a PT, foi tudo muito escuro e pouco transparente, beneficiando a PT duplamente. Por um lado a PT beneficiou pois financiou-se à custa das pessoas que tiveram de comprar os descodificadores, quando inicialmente seria a própria PT (como seria normal que fosse) a pagar para repor a televisão às pessoas, depois, aliciando as pessoas a aderir a um serviço pago da PT-MEO, e não terá sido coincidência que tenha aumentado o número de clientes em 185% no período de implementação da TDT. Ah pois é! Paga trouxa!

Quando fiquei sem televisão por cabo, refleti e cheguei à conclusão, que a oferta dos quatro canais não justificam sequer que compre um descodificador. A oferta televisiva é, nos dias de hoje, pobre, muito pobrezinha mesmo. Se em tempos gostava, por exemplo, de ver o Telejornal, hoje nem isso. Os Telejornais, se antigamente tinham meia hora como já disse, hoje têm o dobro do tempo na RTP, e nos privados tem mais de hora e meia! Os Telejornais já não são noticiários, hoje são mais manipulação, entretenimento e enche-chouriços. Os Telejornais, agora até têm convidados "independentes", geralmente dos quadros do PSD, em formato tempo-de-antena, que depois explica as notícias às pessoas, como se estas fossem umas deficientes mentais, que não as soubessem interpretar convenientemente. Assim é muito melhor, dá-se a notícia já devidamente higienizada e filtrada pelo crivo da manipulação política.

Se um canal se lembra de trazer um programa idiota mas que tem audiência, logo rapidamente os outros dois o seguem, seja para fazer programas de culinária, sobre gordos, crianças a cantar, ou os programinhas deprimentes das festinhas da terra, muito em voga agora. Se determinada pessoa tem um programinha deprimente com algum sucesso em determinado canal, logo é assediada e transfere-se para outro, ganhando um salário milionário, em algo muito parecido com o que se passa com as transferências dos jogadores nos clubes de futebol.

Por estes dias, enquanto passava os olhos pelas capas dos jornais, vi uma pequena referência à Ana Bola, que dizia que "A televisão começa a ser uma coisa para velhos". E tem toda a razão. Estou em crer que cada vez mais, a televisão como a conhecemos, ficará cada vez mais confinada aos velhos, ou aos doentes dos hospitais, ou a quem não tem outras alternativas, como a internet por exemplo.

Eu deixei de ver televisão. Há quem diga acertadamente, que a televisão estupidifica, quem sabe mesmo se eu não passe a ficar menos estúpido. Espero que sim!