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domingo, 14 de outubro de 2018

Como é que os Ricos Decapitam os Governos de Esquerda (para Totós!)

A Conspiração

"Tal como o Candidato tinha previsto, os socialistas, aliados com o resto dos partidos de esquerda, ganharam as eleições presidenciais. O dia da votação decorreu sem incidentes numa luminosa manhã de Setembro. Os de sempre, acostumados ao poder desde tempos imemoriais, ainda que nos últimos anos tivessem visto as suas forças debilitar-se muito, preparavam-se para celebrar o triunfo com semanas de antecipação (...)

O senador Trueba seguiu a votação na sede do seu Partido, com perfeita calma e bom humor, rindo-se com petulância quando algum dos seus homens se punha nervoso com o avanço indissimulável do candidato da oposição. Antecipando-se ao triunfo, tinha quebrado o seu luto rigoroso pondo uma rosa vermelha na lapela do casaco. Entrevistaram-no para a televisão e todo o país pode escutá-lo: "Ganharemos nós, os de sempre", disse com soberba, e logo convidou a um brinde pelo "defensor da democracia". 

À meia-noite soube-se que tinha ganho a esquerda. Num abrir e fechar de olhos, os grupos dispersos engrossaram, incharam, estenderam-se e as ruas encheram-se de gente eufórica que saltava, gritava se abraçava e ria. Ataram tochas e a desordem das vozes e o vaivém da rua transformou-se numa alegre e disciplinada comitiva que começou a avançar até às bonitas avenidas da burguesia (...) 

- Disse-te que ganharíamos às boas, Miguel! - riu Alba. 
- Ganhámos mas agora há que defender o triunfo - replicou. 
No dia seguinte, os mesmos que tinham passado a noite de vela aterrorizados nas suas casas saíam como uma avalancha enlouquecida e tomaram de assalto os bancos, exigindo que lhes entregassem o seu dinheiro. Os que tinham algo de valioso, preferiram guardá-lo debaixo do colchão ou enviá-lo para o estrangeiro (...)

Trueba estava mais surpreendido que que furioso (...)

- Uma coisa é ganhar eleições e outra muito distinta é ser presidente - disse misteriosamente aos seus chorosos correlegionários.  
A ideia de eliminar o novo Presidente, no entanto, não estava ainda na mente de ninguém, porque os seus inimigos estavam seguros que acabariam com ele pela mesma via legal que lhe tinha permitido triunfar. Isso era o que Trueba estava pensando. No dia seguinte, quando foi evidente que não havia que temer a multidão festiva, saiu do seu refúgio e dirigiu-se a uma casa de campo nos arredores da cidade, onde houve um almoço secreto. Ali se juntou com outros políticos, alguns militares e com os gringos enviados pelo serviço de inteligência, para traçar o plano que derrubaria o novo governo: a desestabilização económica, como chamaram à sabotagem (..)




Todos eles, menos os estrangeiros, estavam dispostos a arriscar metade da sua fortuna pessoal na empresa, mas só o velho Trueba estava disposto a dar também a vida. 
- Não o deixaremos em paz nem um minuto. Terá que renunciar - disse com firmeza. 
- E se isso não resultar, Senador, temos isto - acrescentou o general Hurtado pondo a arma do regulamento sobre a toalha. 
- Não nos interessa um golpe militar, general - respondeu o agente da embaixada no seu correto castelhano. - Queremos que o marxismo fracasse estrondosamente e caia por si, para tirar essa ideia da cabeça dos outros países do continente. Compreende? Este assunto vamos resolvê-lo com dinheiro. Ainda podemos comprar alguns parlamentares para que não o confirmem como presidente  Está na sua Constituição: não obteve a maioria absoluta e o Parlamento deve decidir. 
- Tire essa ideia da cabeça , mister! - exclamou o senador Trueba. 
- Aqui não vai conseguir subornar ninguém! O Congresso e as Forças Armadas são incorruptíveis. É melhor destinar esse dinheiro para comprar todos os meios de comunicação social. Assim poderemos manejar a opinião pública, que é a única coisa que na realidade conta. 
- Isso é uma loucura! A primeira coisa que os marxistas vão fazer é acabar com a liberdade de imprensa! disseram várias vozes em uníssono.
- Acreditem-me cavalheiros - respondeu o senador Trueba. - Eu conheço este país. Nunca acabarão com a liberdade de imprensa . Além disso esta nos seu programa de governo, jurou respeitar as liberdades democráticas.
Apanhá-lo-emos na sua própria armadilha .
O senador Trueba tinha razão. Não conseguiram subornar os parlamentares e no prazo estipulado pela lei a esquerda assumiu tranquilamente o poder. E então a direita começou a juntar os ódios (...)

A direita realizava uma série de ações estratégicas destinadas a destruir a economia e a desprestigiar o governo. Tinha nas suas mãos os meios de difusão mais poderosos e com a ajuda dos gringos, que destinaram fundos secretos para o plano de sabotagem. Em poucos meses puderam-se apreciar os resultados. O povo encontrou-se pela primeira vez com dinheiro suficiente para cobrir as suas dificuldades básicas e comprar algumas coisas que sempre desejara, mas não o podia fazer, porque os armazéns estavam quase vazios. Tinha começado o desabastecimento, que chegou a ser um pesadelo coletivo. As mulheres levantavam-se ao amanhecer para ficarem de pé nas longas bichas onde podiam comprar um magro frango, meia dúzia de fraldas ou papel higiénico. 
Produziu-se a angústia da escassez, o país estava sacudido por ondas de rumores contraditórios que alertavam a população sobre os produtos que iam faltar e as pessoas compravam o que houvesse, sem medida, para prevenir o futuro.... 


sábado, 20 de janeiro de 2018

Por que é que a Igreja é de Direita se Jesus era de Esquerda?

"Pedro Tercero continuava a ser delgado, com o cabelo teso e os olhos tristes, mas ao mudar a voz adquiriu uma tonalidade rouca e apaixonada com a qual seria conhecido mais tarde, quando cantasse a revolução. Falava pouco e era escuro e rude no trato, mas terno e delicado com as mãos, tinha grandes dedos de artista com que esculpia, arrancava lamentos das cordas da guitarra e desenhava com a mesma facilidade com que segurava as rédeas de um cavalo, brandia um machado para cortar lenha ou guiava o arado. Era o único em Las Tres Marias que enfrentava o patrão. Seu pai, Pedro Segundo, disse-lhe mil vezes que não olhasse o patrão nos olhos, que não lhe respondesse, que não se metesse com ele, e no seu desejo de protegê-lo, chegou a dar-lhe grandes sovas para lhe baixar a grimpa. Mas o filho era rebelde. Aos dez anos já sabia tanto como a mestre-escola de Las Tres Marias e aos doze insistia em fazer a viagem ao liceu da povoação, a cavalo ou a pé, saindo da casinha de tijolos, às cinco da manhã, chovesse ou trovejasse. Leu e releu mil vezes os livros mágicos dos baús encantados do tio Marcos, e continuou alimentando-se com outros que lhe emprestavam os sindicalistas do bar e o padre José Dulce Maria, que também o ensinou a cultivar a sua habilidade natural para fazer versos e para traduzir em canções as suas ideias. 

- Meu filho, a Santa Madre Igreja está à direita, mas Jesus esteve sempre à esquerda - dizia-lhe enigmaticamente entre dois golos de vinho  de missa com que celebrava as visitas de Pedro Tercero. 

Assim foi que um dia Esteban Trueba, que estava descansando no terraço depois do almoço, o ouviu cantar qualquer coisa de galinhas organizadas que se uniam para enfrentar o raposo e o venciam. Chamou-o. 
- Quero ouvir-te. Canta, para ver! - ordenou-lhe. 
Pedro Tercero pegou na guitarra com um gesto apaixonado, acomodou a perna numa cadeira e dedilhou as cordas. Ficou-se a olhar fixamente o patrão enquanto a sua voz de veludo se elevava apaixonada na calmaria da sesta. Esteban Trueba não era parvo e compreendeu o desafio. 
- Aí está! Vejo que a coisa mais estúpida se pode dizer cantando - grunhiu. - Aprende a cantar canções de amor!
- Eu gosto patrão. A união faz a força, como diz o padre José Dulce Maria. Se as galinhas podem enfrentar o raposo, o que detém os homens?

A Casa dos Espíritos / Isabel Allende / 1982

domingo, 15 de outubro de 2017

Porque lhe faltava tudo o resto

"Clara descreveu esta cena com minúcia no diário, pormenorizando com cuidado os dois quartos escuros, cujas paredes estavam manchadas pela humidade, a pequena casa de banho suja e sem água corrente, a cozinha onde havia sobras de pão velho e um tacho com um pouco de chá. o resto da vivenda de Férula pareceu a Clara congruente com o pesadelo que tinha começado quando a sua cunhada apareceu na sala de jantar da grande casa da esquina para se despedir (...)




*Esteban afastou-se a grandes passadas levando Clara pelo braço quase de rastos, se dar atenção à água suja que salpicava as impecáveis cinzentas que o alfaiate inglês. Estava furioso porque a irmã, mesmo depois de morta. conseguia fazê-lo sentir-se culpado, como quando era uma criança. Recordou a sua infância, quando ela o rodeava com as suas solicitudes obscuras, envolvendo-o em dívidas de gratidão tão grandes que não conseguiria pagá-las em todos os dias da sua vida. Tornou a sentir o sentimento de indignidade que frequentemente o atormentava na sua presença e o detestar o seu espírito de sacrifício, a sua severidade, a sua vocação para a pobreza e a sua inabalável castidade, que ele sentia como uma acusação pela sua natureza egoísta, sensual, e ansiosa de poder. "Que o Diabo te leve, maldita! disse entredentes, negando-se a admitir, nem no mais íntimo do coração, que a sua mulher tão-pouco chegou a pertencer-lhe depois de ter posto Férula fora de casa. 

- Porque vivia assim, se lhe sobrava dinheiro? gritou Esteban.
- Porque lhe faltava tudo o resto - replicou Clara docemente."

(*cena que não aparece no filme)


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A Clarividente

"Clara era uma aparição de rendas brancas de Chantilly e de camélias naturais, 
libertando-se como um periquito feliz dos nove anos de silêncio, 
dançando com o noivo debaixo dos toldos e lampiões, 
alheia por completo às advertências dos espíritos que lhe faziam sinais desesperados
 por detrás das cortinas, mas que no meio da multidão e do barulho ela não via."

Para mim ler sobre a Clara é quase como ler sobre Ti, apesar de tão diferentes serem uma da outra. É ler também sobre as várias pessoas que fui e vou conhecendo ao longo da vida e que são uma espécie de tinha telefónica para o mundo espiritual. Dizem, não sei se é verdade ou não, que todos nós temos essa faculdade, de nos conetarmos com o lado de lá da linha telefónica, mas comigo, e acredito que seja o caso da maioria das pessoas, a linha nunca funciona. Esses serviços de valor acrescentado estão barrados e quando se tenta ligar nunca dá qualquer sinal.

O meu anjo da guarda ou os meus guias espirituais, se é que os tenho, ou seja lá quem for que eu possa ter e que esteja do lado de lá e me queira ligar, na esperança de me alertar para algo, todos eles, bem que podem tentar, podem até gritar bem alto, que sabem que irão estar a gastar o seu latim inutilmente, pois eu não os vou conseguir ver, ouvir ou sentir. A linha do telefone está sempre interrompida. Daí que eu ache que essas almas perdidas que andam por aí, contactem precisamente quem saibam que à partida possa atender o telefone. E nem de propósito, neste exato momento, alguém bateu aqui, como se tivesse pegado num martelo, e dado com bastante força no teto desta casa. Talvez só se quisesse só fazer notar, ou então, fazer parte deste texto. É muito comum aqui, está sempre a acontecer, mas eu não sei o que eles querem. Eu só ouço as pancadas. A mensagem, essa,  nunca me chega porque a linha do telefone está cortada.

E talvez até possa parecer estranho a quem me conhece hoje, com esta idade, mas eu, ainda jovem, creio até que foi em dois períodos diferentes da adolescência, peguei na bíblia, como que, tentando que se fizesse alguma luz. Acho que tentava dar uma oportunidade a Deus, na esperança de que aquilo fizesse algum sentido para mim. Mas feliz ou infelizmente, aquilo para mim nunca fez qualquer sentido. Parecem umas historizinhas de horror e de arrepiar, para assustar meninos mal comportados. E acho que não me levarás a mal, se eu te disser que aquele, não é, definitivamente, o meu Deus. Sorrio agora, lembrando quando no início me disseste que eras uma mulher de fé, da religião católica e que querias casar pela igreja. Sorrio também, quando penso que acabaste a concordar comigo. A grande maioria dos padres são mesmo uns grandes filhos da puta!

Virei-me então para outros lados, e cedo comecei também a interessar-me por temas místicos. Fui lendo bastante sobre muitas coisas diferentes e prestando sempre muita atenção, sempre que me contavam histórias de espíritos, de bruxarias, de invejas e maus olhados. E depois, como sabes, também passei por umas coisitas. Nada que se compare a quem tem sempre rede no telefone onde quer que vá, mas serviu para reforçar as minhas convicções e para tentar começar a formar a minha própria opinião de como talvez as coisas se passem. E sem nada saber, que é precisamente o que eu acho que sei sobre o assunto - nada - fui no entanto, começando a ter alguma sensibilidade para a coisa, essencial para perceber melhor com o que me vim a confrontar mais à frente.

E ler sobre a Clara é também ler sobre Ti. Relembro quando me dizias que eles te alertavam acerca de mim, tal como no passado te tinham alertado para outras coisas mais. E eu sei que eles nunca te falharam. Nem falharão. E eu dei voltas e mais voltas à minha cabeça. Quase em desespero. Revoltado. Por que é que eles não queriam que te entregasses a mim? Porquê, se ninguém como eu te queria tanto bem? Eu sei que há coisas que estão para além do nosso entendimento. Do meu entendimento, até do teu, e do de toda a gente. E tu podias não me ter dito nada. Talvez a sensatez te devesse aconselhar a nada me dizeres, até porque não sabias como eu reagiria. Mas tu, sempre com uma honestidade e sentido de justiça notável, contaste-me. E depois eles são eles, e tu és tu. E és tu que tens de viver a tua vida por ti, tomando as tuas próprias decisões, para o bem e para o mal. Os nossas pais também acham sempre que sabem o que é melhor para nós. Muitas vezes talvez até saibam, mas temos de ser sempre nós a tomar as nossas decisões. O nosso livre-arbítrio como tu dirias.

E tantas vezes que me tu disseste que eras uma mulher normal, uma pessoa comum, igual a todas as outras, talvez por eu te colocar num patamar acima de mim na escala da evolução espiritual. Mas a minha admiração e fascínio por ti, tu sabes muito bem ao que se devia. Tu estiveste lá também, viveste as coisas como eu. Disseste-me até que nunca tinhas sentido nada assim. Tantos anos depois de teres nascido, tantas pessoas com quem te cruzaste nesta vida, e aceitaste conhecer a primeira pessoa, vinda lá desse mundo perdido que é a Internet, e disseste-me que nunca tinhas sentido nada assim. E eu também não. "Isto foi um reencontro" disseste-me. Era a tua energia que sempre me puxou para ti, que junto com a minha energia me fazia brilhar. Sempre foi a nossa energia. Sabes que nunca teve nada a ver com a tua clarividência. Aliás, sabes o que te disse, quando te ofereceste para me iluminares o meu futuro. Disse-te que não queria saber de nada. E nunca nada te pedi, só te pedi mesmo, já em desespero de causa, que ficasses comigo... Mas se calhar já não tinha de ser, disseste-me.

Mas revoltava-me saber que eles te alertavam contra mim. Eu poderia não ser o melhor para ti, aceito isso com humildade. Eu sei que não sou a melhor pessoa do mundo. Mas também deveriam saber que ninguém te quis ou quererá tanto, mas principalmente te quererá tão bem, quanto eu te quis. Eu pelo menos tenho sempre de acreditar nisso. E eu sei que eles nunca te falharam, nem falharão. Talvez outros planos te estivessem destinados, e eles só te estivessem a guiar. Não sei. Mas ninguém nunca te pôde querer tanto bem como eu quis. E continuarei, sempre, a querer-te bem. Talvez porque haja coisas que estão para além da nossa compreensão.

Mas se havia coisa que me deixava feliz, era saber que tu sabias. Nós podemos tentar mostrar e dizer a outra pessoa o quanto gostamos dela, mas se não sentirem, tudo se torna quase num ato de fé. Afinal pode não ser bem assim. Podemos estar a confundir as coisas... Mas no nosso caso tu sabias. Tu sentias! E certa vez, contaste-me. Eu apareci-te mesmo, junto a ti, na tua cama. Eu saí de mim, e mesmo não sabendo onde tu vivias,  apareci-te... E para mim, isso só pode ter sido qualquer coisa de muito especial...

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

A Casa dos Espíritos: Clara

"Os poderes mentais de Clara não causavam incómodo a ninguém e não produziam desordem de maior; manifestavam-se quase sempre em assuntos de pouca importância e na estrita intimidade do lar. Algumas vezes, à hora da refeição, quando estavam todos reunidos na grande sala de jantar da casa, sentado em absoluta ordem de dignidade e hierarquia, o saleiro começava a vibrar e deslocava-se depois pela mesa fora entre copos e pratos, sem ter havido para isso nenhuma fonte de energia conhecida nem truque de ilusionista. Nívea dava um puxão às tranças de Clara e com esse sistema conseguia que a filha abandonasse a distração lunática e devolvesse a normalidade ao saleiro, que acabava de recuperar a imobilidade. Os irmãos tinham-se organizado para que, no caso de haver visitas, aquele que estivesse mais perto de deter com a mão o que estivesse andando sobre a mesa antes que os estranhos desses conta disso e apanhassem um susto. A família continuava a comer sem comentários. Também se tinham habituado aos presságios da irmã mais nova. Ela anunciava os tremores de terra com alguma antecipação, o que resultava muito útil naquele país de catástrofes, porque dava tempo de pôr a salvo a baixela e deixar ao alcance da mão as pantufas para sair noite dentro. 

A Casa dos Espíritos / Isabel Allende / 1982