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quarta-feira, 4 de junho de 2025

Conversas Improváveis 87 - Diferença entre Público e Privado

O meu colega foi uma semana de férias a Pariu. Como ia com as expectativas em baixo comentou que tudo correu bem e até ficou agradavelmente surpreendido, não se confirmando algumas coisas que lhe diziam como "os franceses só falam francês" ou "há muita criminalidade e insegurança por todo o lado". "Senti-me tão seguro como aqui no Porto, apesar de passarem muitas carrinhas da polícia e os franceses falam inglês como nós". 

Tudo correu bem exceto na viagem de regresso. E quando começa a narrar as peripécias e a ansiedade que foi conseguir embarcar no avião a tempo, e uma viagem que não acabou no Porto mas sim Espanha começa por contar:

"Estávamos a tentar apanhar um UBER para o aeroporto e estavam sempre a cancelar".
De imediato, e porque tudo na vida das pessoas é politica, eu respondo:

"Isso é a diferença entre público e privado. O serviço público é para servir os interesses de toda a gente; já o serviço privado é exclusivamente para gerar lucro". 


No que se refere aos transportes públicos, estes têm horário marcado e rotas pré-definidas, quer vão ter muitos ou poucos passageiros. Está assim definido para servirem a população em geral. O serviço privado de transporte, como tudo que é privado, é feito para gerar lucro. Ora, se o motorista acha que aquele percurso não lhe gerará receita, simplesmente rejeita-o.

Acontece nos transportes, na alimentação, tal como, mais importante na saúde, e vimo-lo melhor na pandemia quando os hospitais privados fecharam as portas a tratamentos que não lhes interessavam. 

Quando vamos ao hospital privado, este não está interessado em curar-nos, está interessado em retirar do cliente o maximo lucro possível. Por isso é que, por exemplo, há tantas cesarianas, não que seja o melhor para as grávidas, mas é o melhor para os acionistas. 

Mas, infelizmente, parece que não aprendemos nada e as pessoas continuar a votar em massa em partidos que querem privatizar tudo, só falta mesmo - como disse Saramago - privatizar também a puta que os pariu a todos.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A Francesa que tem Orgulho na sua Floresta e Não Gosta de Viver em Paris

A Morgane é alta. Bom, pelo menos é mais alta que eu, e em Portugal acho que é considerada uma mulher alta. Trazia um gorro na cabeça que lhe escondia os cabelos castanhos claros, volumosos, e vestia um casaco castanho por cima de uma camisa branca, e umas calças com cintura subida, também castanhas, que lhe ficavam justinhas nas nádegas. Gostei particularmente dos sapatos, Doc Martens vermelho-escuro, com aquele picotado caraterístico à volta, a fazer lembrar os modelos de algumas décadas atrás. 

Enquanto eu guiava pelas ruas do Porto, elas iam conversando em inglês porque ela percebe-nos mas não fala português. Ouvi-a falar com orgulho da região onde vive e da sua floresta. E até pegou no telemóvel e mostrou uma fotografia da paisagem da sua terra. Eu só vi de relance, porque tinha era de estar atento ao trânsito, apesar de ser hora de jantar e as ruas do Porto, apesar do pouco estacionamento, estavam bastante desertas, talvez por aquela hora o FCP estar a jogar no Dragão.

Depois ouvi-a falar de Paris, cidade para onde foi estudar e que detesta. Claro que é muito bom para passear e fazer turismo, e tem magníficos museus e sítios para visitar disse, mas onde ela não gostou de viver. Onde é tudo impessoal e ninguém se preocupa com ninguém. Onde uma mulher pode estar grávida, com uma enorme barriga e ninguém se preocupar em dar-lhe o lugar. Onde já ninguém diz "Bom dia" ao motorista do autocarro e como às vezes se sente quase uma extra-terrestre, quando ficam todos a olhar para ela, só porque quebra essa indiferença e trata as pessoas com educação, tal como deveriam ser sempre tratadas. "It's a human being" disse. É um ser humano que está ali.