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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Começamos Só por Ver as Semelhanças - Acabamos só a Ver as Diferenças

Seja lá de que forma for, pessoalmente ou, como agora se diz, de forma virtual, e por que motivo for, de repente tropeçamos em alguém que nos começa a deixar interessados. Interessados em descobrir mais daquela pessoa. O que pensa sobre isto e aquilo, o que gosta de fazer, qual a sua história de vida, o que gosta de fazer, que tipo de música gosta de ouvir, etc, etc. Quanto mais vamos desvendando, mais nos interessamos e mais semelhanças encontramos. É um jogo que se poderia chamar: "descubra as semelhanças". São tantas as coisas que temos em comum que podemos achar que somos almas gémeas. Tínhamos mesmo que nos ter conhecido e encontrado, porque em todo o mundo não há duas pessoas tão parecidas quanto nós os dois. 

Mas tudo que é bom um dia terá que ter um fim. Foi bom enquanto durou. E um dia, seja lá por que motivo for, um de nós quererá partir e nada do que o outro possa dizer fará diferença. Nada mais importa porque a decisão já está tomada. Mas se calhar é preciso que nos convençamos a nós mesmos que estamos certos. Precisamos de argumentos que sustentem de forma sólida as nossas decisões. E quando esse dia chegar as semelhanças já não mais importarão. Já só teremos olhos para as diferenças. Queremos convencer o outro, ou se calhar convencer-nos a nós mesmos que, afinal, não éramos assim tão parecidos como pensávamos ao início. E para todo o lado que olhemos já só veremos diferenças. Diferenças e mais diferenças é o que veremos. Talvez a culpa tenha sido da ilusão. Estávamos afinal tão iludidos, tão toldados pelo encantamento que não conseguimos ver o que nos separava. 

Talvez em todas as relações isto aconteça. Começamos só por ver as semelhanças; e no fim, infelizmente, acabamos só a ver as diferenças. 


domingo, 7 de julho de 2019

Há Escritores que Escrevem Sempre o Mesmo Livro?

Há dois ou três meses não fazia ideia de quem era Haruki Murakami. Muito menos que era o "escritor da moda" como ouvi depois alguém dizer-me. E por obra do acaso, acabei a ler de seguida dois livros deste autor japonês. E ler dois livros de seguida de um autor que desconhecemos permite-nos perceber algumas coisas. E eu percebi por que é que é tão lido, porque se lê muito facilmente e quer-se logo saber mais do que vai acontecer, porque cria ambientes e enredos entre as personagens muito cativantes, porque tem diálogos e pensamentos muito interessantes...



Só que, ao acabar o segundo livro fiquei com a sensação que estava como que a entrar no primeiro, e o que me pareceu é que, apesar das histórias serem completamente diferentes, o homem como que me voltou a contar a mesma coisa.

Se em "After Dark" era a irmã de Mari que passava a vida a dormir e entrava pelo espelho e de lá não conseguia sair. Em "Sputnik, meu amor" é a Sumire, aspirante a escritora, que desaparece, e os textos que deixa escritos no computador, e o sonho que relata com a mãe que já morreu há muitos anos. Ou quando Miu está na roda gigante a ver pelos binóculos o Fernando, que tem uma pila descomunal, e que está no seu quarto a agarrar o seu outro Eu...

E depois são estes romances, e se calhar hoje em dia é assim que se escreve (não sei, leio poucas coisas do século XXI), com finais completamente abertos, mas se calhar, digo eu, demasiado abertos que para a minha compreensão, pois aos meus olhos não chegam a lado algum, e em que, muitas vezes nada encaixa com nada, sem lógica nenhuma. Em Sputnik, meu amor, por exemplo, já o romance caminhava mesmo para o fim, o que é que interessou para a história o aparecimento da personagem Cenoura que é apanhado a roubar e se remete ao silêncio quando confrontado por K.?

Este tipo de escrita, apesar de muito interessante, tem mais ou menos o mesmo objetivo de duas equipas de futebol, que vão para um campo jogar à bola, mas sem qualquer intenção de fazer golos. Fazem jogadas espetaculares, mas quando se aproximam da grande área, voltam para trás, e recomeçam de novo. E quando faltarem cinco minutos para o jogo acabar, o árbitro interrompe o jogo, por uma razão qualquer, e os espetactores saem do estádio sem saber qual será o resultado final, simplesmente porque o jogo não se voltará a realizar!

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Estar Atento

"Uma vez, durante as férias grandes do meu primeiro ano da universidade, fui até ao Norte do Japão, e no comboio conheci uma mulher oito anos mais velha do que eu, também ela a viajar sozinha, com quem passei uma noite. Na altura, lembro-me de ter pensado que tudo aquilo parecia tirado das primeiras páginas do Sanshiro.

Ela trabalhava na secção de operações cambiais num banco de Tóquio. Sempre que tinha uns dias de férias, agarrava num punhado de livros e metia-se à estrada por sua conta e risco. - Viajar sozinha é muito menos cansativo - confidenciou-me. 

Tinha o seu encanto e ainda hoje estou para perceber como se foi logo interessar por um estudante universitário de dezoito anos, magro e taciturno como eu. E, contudo, parecia sentir-se nas suas sete quintas, ali sentada à minha frente naquela carruagem de comboio, a falar de tudo e mais alguma coisa. Fartava-se de rir à gargalhada. Por uma vez, até eu dei por mim a falar pelos cotovelos. Por mero acaso, saímos ambos na estação de Kanazawa.

- Tens onde ficar? - perguntou-me ela. 
- Não - respondi eu, que nunca na vida fizera uma reserva de hotel. 
- Tenho um quarto disse-me. - Se quiseres, podes ficar comigo. Não te preocupes - acrescentou -, o preço é exatamente o mesmo quer esteja ocupado por uma ou duas pessoas. 

Estava nervoso na primeira vez que fizemos amor, o que fez com que o meu desempenho deixasse algo a desejar. Apresentei-lhe as minhas desculpas. 
- Mas que bem educado me saíste! - exclamou ela. - Não precisas de pedir desculpa por tudo e por nada. 

(...)

Pronto, imagina o seguinte. Supõe que vais fazer uma longa viagem de carro com outra pessoa qualquer, e que vão conduzir por turnos. Nesse caso que tipo de pessoas escolhias? Uma que guiasse bem, mas que fosse imprudente, ou uma que não guiasse tão bem, mas que fosse prudente?
- A segunda, provavelmente - respondi eu.
- Também eu - retorquiu ela. - Temos aqui uma situação muito parecida. Ser bom ou mau, ser despachado ou desajeitado, isso são coisas de somenos. Na minha opinião, o que é importante é estar atento. Ficar calmo, estar atento ao que se passa à nossa volta. 
- Atento? repeti eu.

Ela não respondeu e limitou-se a sorrir. Mais tarde quando fizemos amor pela segunda vez, tudo correu na perfeição. Tive a sensação de começar a perceber o significado de "estar atento". Foi também a primeira vez que vi como reage uma mulher quando se abandona a um prazer intenso. 

No dia seguinte, depois de tomarmos o pequeno-almoço juntos, foi cada um para seu lado. Ela seguiu o seu caminho, e eu o meu. À despedida, contou-me que se ia casar daí a dois meses com um colega de trabalho. 
É ótima pessoa - acrescentou - toda sorridente. - Já andamos juntos há cinco anos, e agora vamos finalmente oficializar a situação, o que significa que, uma vez casada, vou deixar de poder andar a viajar por aí sozinha. Talvez seja esta a última vez. 

Eu era ainda muito jovem e pensava que histórias como excitantes destas aconteciam com frequência. Mais tarde, acabei por compreender, e de que maneira, que as coisas não eram bem assim. 

domingo, 19 de maio de 2019

Alphaville é um bom nome para um Motel

"
- Boa pergunta. Creio que foi o patrão que escolheu o nome. É preciso ver que os nomes dos love hotels não querem dizer nada. Afinal, trata-se de um local onde homens e mulheres se encontram para aquilo que toda a gente sabe. Tudo o que é preciso é uma cama e uma casa de banho. Toda a gente se está nas tintas para o nome, desde que lhes cheire a love ho. Porque perguntas?
- Ahphaville é o título de um dos meus filmes preferidos. De Jean-Luc Godard.
- Nunca ouvi falar.
- É um velho filme francês dos anos 60.
- Deve ser daí que vem o nome. Da próxima vez que estiver com o patrão, já lhe pergunto. Quer dizer o quê, Alphaville?
- É o nome de uma cidade imaginária do futuro - explica Mari. - Uma cidade algures na nossa galáxia. 
- Nesse caso, trata-se de um filme de ficção científica? Como A Guerra das Estrelas?
- Não, não tem nada que ver com A Guerra das Estrelas. A acção e os efeitos especiais são coisas que não existem. Como explicar? É um filme abstracto, mais conceptual. A preto e branco. Povoado de diálogos. Passa muito nos cinemas de arte e ensaio...
- Conceptual? E isso quer dizer o quê?
- Por exemplo, em Alphaville, as personagens que choram são presas e executadas em público.
Porquê?
Porque em Alphaville as pessoas não podem ter sentimentos profundos. Como tal, não existe amor. Assim como não há lugar para a ironia nem para a contradição. Tudo se resume a fórmulas matemáticas, de maneira concentracionária.
Kaoru franze a testa.
- Ironia?
- Ironia é quando as pessoas se observam a si mesmas e analisam os outros à luz de um olhar objetivo, para aí descobrirem o lado cómico e grotesto da coisa. 
A explicação de Mari deixa Kaoru pensativa.
- Não se pode dizer que compreenda lá muito bem - confessa ela. - Diz-me uma coisa: e em Alphaville, existe sexo?
- Sim, há sexo em Alphaville.
- Sexo não implica amor nem ironia. 
- É isso.
Divertida, Kaoru solta uma gargalhada.
- Pensando bem, Alphaville é um nome bem achado para um hotel de amor.   

After Dark - Os Passageiros da Noite / Haruki Murakami (2007)