segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

As Pessoas Enganam-se Tanto


Primeiro fim-de-semana de novo pseudo-confinamento. Mais uma camada de geada a deixar tudo branco no monte e nas ruas, mas também um belo dia de sol, antes da chegada da chuva, amanhã. Decidi ir fazer o meu "passeio higiénico", neologismo que dá para as pessoas justificarem tudo aquilo que não seja o seu dever de estar em casa confinadas e, logicamente que neste caso contra mim falo porque também saí, ainda que, em minha defesa, possa dizer que quase não me cruzei com viva alma. 

Peguei na bicicleta e fui fazer um pouco de exercício, não que já esteja propriamente redondo, mas, principalmente, arejar um pouco em véspera de mais uma semana de "trabalho". Resolvi ir para montante do rio Douro, aldeia vizinha e freguesa anexada e fui explorar uns caminhos ali pela beira do rio. 

Saí de mochila às costas e roupa comum, botas e caças de ganga justas e elásticas, porque não sou daqueles que para andar de bicicleta têm que vestir o equipamento desportivo todo, como se fossem fazer a volta a Portugal. Saí agasalhado, com gorro preto na cabeça e óculos de sol. Cabelos esvoaçantes e barba de duas semanas. 

Por onde passava e se me cruzava com alguém, educadamente dizia "boa tarde". Imagino que para quem me leia e que viva na cidade isto pareça estranho, mas nas aldeias, quer as pessoas se conheçam, ou não, sempre foi normal cumprimentarem-se, e não vergarem simplesmente os cornos ao chão, fazendo de conta que não vêem ninguém. Até me estou a lembrar, dos sítios onde fui fazendo caminhadas, sempre vi o bom hábito das pessoas se cumprimentarem. Em Espanha, por exemplo, sempre que me cruzava com alguém, quer na Senda Del Cares ou nos Lagos de Covadonga ouvia sempre um "Holla!". 

Então sempre me pareceu natural e instintivo cumprimentar quem passa. Ontem, infelizmente, várias vezes do outro lado respondia-me o silêncio. Numa das ruas, de boas vivendas (a aldeia vizinha não é como a minha, pobre, até porque em tempos até já foi sede de concelho) mas entretanto chego a um cais onde estavam dois pescadores a pescar e, minutos depois, no regresso, cruzo-me de novo com o senhor, um dos que não me respondeu e vi-o a fechar o portão da sua bela vivenda, não fosse eu decidir, sei lá, assaltar-lhe a casa, em pleno fim-de-semana de confinamento com toda a gente em casa!

Pedalar calmamente também é bom para pensar. E eu refletia como há coisas que não mudam. Há uns anos lembro-me (já não sei se contei esta história aqui no blogue) que uns emigrantes radicados em França, numa altura em que estavam de novo cá na aldeia, ficaram estupefactos a olhar para mim quando passei por eles na rua. E eu não vi essa surpresa, mas ouvi ao longe uma vizinha, que seguia no carreiro do campo de carro-de-mão carregado: "Não tenhais medo, é o filho da Rosa Maria"!

E, não deixa de ser muito curioso que, ainda por estes dias em conversa com a minha amiga carioca dizia-lhe que nunca me senti muito discriminado em Portugal por causa deste meu aspeto mais "exótico". E exótico talvez seja uma bela palavra quando tantas vezes sou interpelado em inglês no meu próprio país. Mas, para o bem ou para o mal, nós somos sempre vítimas ou reféns da forma como nos apresentamos e do nosso aspeto físico. No entanto eu sempre arranjei empregos e nunca senti propriamente que o meu aspeto fosse um entrave a fazer a minha vida normalmente. Há sempre reserva e medo com aquilo que não se conhece, ainda que, digo eu, eu não devesse ser motivo para que sejam mal educados quando passo.

Por outro lado, não deixa de ser irónico, que, se um qualquer meliante se vestir bem, como qualquer "pessoa de bem" (expressão muito em voga pelo candidato fascista) e usar um fato e gravata, e for por aí pelas aldeias dizer que vem trocar as notas de Euro, porque como agora o Reino Unido saiu da União Europeia, tem que se retirar do mapa aquele país, aposto que as pessoas os recebem quase de braços abertos. É assim a sociedade, sempre a julgar pelas aparências, e, como diz a minha mãe: "as pessoas enganam-se tanto". 

domingo, 17 de janeiro de 2021

Crónicas da Pandemia: Quando os Média Mentem por Ocultação

https://www.manipalthetalk.org/

As pessoas continuam-me a dizer que tenho que usar máscara na rua porque é proibido andar fora de casa sem máscara. Por estes dias fui dar uma caminhada com o meu padrasto, e ele, a medo perguntou: é melhor levar máscara não é? Mas se nós somos do mesmo agregado familiar, e vamos andar pelo meio do monte, qual seria o sentido de andar com a máscara colocada? O que lhe disse foi que, se prefere, leva a mascara consigo que, caso nos encontremos com alguém, podemos colocar, mas mesmo assim não seria necessário, porque estamos a falar de uma aldeia, onde facilmente, na rua, podemos ficar a dois metros uns dos outros!

Esta foi das coisas que mais me irritou nos média. Ainda me lembro muito bem. A minha colega chega ao trabalho e diz-me "amanhã já vai ser obrigatório andar de máscara na rua". Ao que eu lhe respondi "isso não pode ser verdade", e ela contrapõe "mas eu ainda agora ouvi na Rádio Comercial". Não interessava onde ela tivesse ouvido! Se nesse mesmo dia a lei estava a ser votada no parlamento como é que no dia seguinte já seria obrigatório o uso de máscaras na rua? Era uma impossibilidade! Se a lei é discutida no parlamento, primeiro tem que ser aprovada pelos deputados, depois tem que ser aprovada pelo presidente da república, mas depois ainda tem que ser publicada em Diário da República, e só a partir daí é então lei e alguém pode ser multado pelo seu incumprimento.

Curiosamente logo no dia seguinte fui a uma consulta no hospital e a verdade é que constatei que as pessoas andavam generalizadamente de máscara nas ruas ainda que, em bom rigor a maioria não tivesse que o fazer. Porquê? Porque os média não informaram corretamente. Os média focaram o "obrigatório" mas não leram a lei até ao fim, acabando por semear o medo pela fata da máscara e não informaram corretamente. 


E a correta informação é que SIM, o uso de máscara é OBRIGATÓRIO por lei, mas, sempre que não seja possível o distanciamento de dois metros. E claro que ninguém vai andar com uma fita métrica no bolso para medir se está, ou não, a dois metros de distância dos outros. É uma questão de sensatez. Se eu vou ao Porto e vou passar pela rua Santa Catarina que está com centenas de pessoas, pois com certeza que vou colocar a minha máscara para me proteger e, principalmente proteger os outros. Se estou a caminhar sozinho não faz sentido colocar a máscara se não a estava a usar antes.

Que as pessoas confundam o que ouvem é normal. Mas que sejam os jornalistas, profissionais da comunicação, em que a sua vida é informar os outros, a não o fazer convenientemente e espalhem a desinformação é que já não se admite. 

Outra questão noutro sentido. É sabido que o valor das coimas para o não uso da máscara duplicou. Então e qual é, pergunto eu, a multa para, publicamente, apelar ou difundir ideias de que a máscara e o distanciamento não protege nada? Aquela malta dos Mentirosos pela Verdade foi multada? E a médica que andou a explicar como falsear os resultados dos testes, foi impedida de exercer medicina?

sábado, 16 de janeiro de 2021

Diários de Motocicleta

Em 1952, Ernesto Guevara (Gael García Bernal) tem 23 anos e estuda medicina. Quase no fim do curso, deixa a sua casa em Buenos Aires para seguir numa viagem com o amigo Alberto Granado (Rodrigo de la Serna). Os dois partem na temperamental Norton 500, a mota de Alberto a que chamam "La Poderosa", para realizar um sonho comum: explorar a América Latina. O mapa de viagem que desenham é ambicioso: leva-os de Buenos Aires à Venezuela, passando pelos Andes, pelas costas do Chile e pelas ruínas de Machu Picchu até Caracas, onde tencionam chegar a tempo do 30º aniversário de Alberto. Mas a viagem torna-se mais do que uma descoberta geográfica e conduz os dois amigos numa grande odisseia de descoberta interior. Os dois começam a questionar o valor do progresso dos sistemas da época, que exclui tantas pessoas, e ganham uma consciência de justiça e uma vontade de mudar o mundo para melhor. Enquanto Alberto regressa ao seu trabalho, agora com diferentes objectivos e perspectivas, Ernesto "Che" Guevara tornar-se-á num dos mais importantes líderes revolucionários do século XX.

Há filmes, livros (até pessoas) que nos passam pelas mãos e que rapidamente nos esquecemos. Outros livros e filmes há que nos deixam a pensar dias seguidos. Foi o que me aconteceu com este último filme que vi "Diários de Motocicleta" (The Motorcycle Diaries) filme de 2004 que por estas bandas decidiram, e mal, traduzir para "Diários de Che Guevara" porque, certamente venderia bem melhor. Contudo eu sou da opinião que uma tradução deve ser o mais fiel possível e, neste caso, ainda por cima o filme é de um realizador brasileiro e aborda a história de dois jovens: Ernesto e Alberto, e o filme baseia-se nos diários de ambos. Este edição especial em DVD que tenho, além do filme tem ainda o documentário "A viagem de Che Guevara" (Gianni Miná) em podemos ver as filmagens do filme e os comentários do próprio Alberto Granado ainda vivo e com oitenta anos na altura e que vai relembrando como tudo aconteceu.

Argentina, 1952. Alberto Granado, de 29 anos, bioquímico, planeia uma verdadeira odisseia pela América Latina na sua moto "la poderosa" que tinha comprado em 1946 por 3600 pesos, qualquer coisa como mil euros nos dias de hoje. De Buenos Aires à Venezuela, passando pelos Andes, pelas costas do Chile e pelas ruínas de Machu Picchu até Caracas, onde tenciona chegar a tempo do seu trigésimo aniversário. Mas tem que escolher um companheiro para a desafiante e perigosa viagem, e a escolha recai num finalista de medicina, de 23 anos, chamado Ernesto Guevara, que era conhecido por todos como "Fúser". Ernesto, ou Fúser, como Granado lhe chama, era um grande desportista, porém, sofre de uma doença crónica e tem severos ataques de asma e tem que fazer inalações com a bomba.

A longa viagem iniciática destes dois médicos, irá mudar-lhes radicalmente as vidas ao serem confrontados com tantas injustiças e repressão. Ernesto tinha um grande conhecimento da América Latina pelos livros, mas queria conhecê-la ao vivo. E esta será uma viagem espiritual, de descobrimento e do desejo de transformação do mundo. Transformar o utópico em realidade. Ernesto superará a barreira da dificuldade da doença, e a barreira social, e decidiu a margem do rio que quis ficar. 

Na casa de Ernesto habitava uma família numerosa, além dos pais, cinco filhos, em que "Fúser" era o mais velho. Pela casa podíamos encontrar estantes repletas de livros, bons discos e muitos amigos. Era uma família de intelectuais, onde se conversava e discutia todos os assuntos. O Pai, de origem irlandesa era diretor da companhia de petróleo do Estado argentino e a mãe era uma mulher culta e desde cedo incentivou o filho Ernesto a ler. No livro do pai de Ernesto, este escreveu:
Um dia o meu filho, Che, disse-me: 
"Vou para a Venezuela". 
Fiquei muito surpreendido e perguntei-lhe por quanto tempo e ele respondeu-me por um ano. Quando lhe perguntei pela namorada, respondeu-me que se gostasse dele, esperaria. A namorada chamava-se Chichina. Ernesto e Alberto passariam por Miramar para se despedirem no início da viagem.

Antes da partida, a mãe de Ernesto recomendou Alberto, que era o mais velho, que ele fizesse tudo para que Ernesto acabasse o curso de medicina, porque um curso superior dá sempre jeito. Já o pai pergunta-se, o que é que lhe poderia dizer para impedir o filho de fazer esta viagem, se ele mesmo a quis ter feito?


Alberto refere que ninguém acreditava que eles conseguissem fazer tal viagem, mas diz que que Ernesto era um teimoso duro, ao passo que ele era um teimoso brando. Mas eram os dois teimosos e seria muito difícil desistirem. Contudo "la poderosa" acabaria por chegar ao fim de vida em Los Angeles, perto de Temuco (Chile) e a partir daí a expedição como que passa a ser liderada por Ernesto. 

"A mota mostrou-me um outro lado da vida. Eu nunca fui tímido, mas a mota tornou-me mais destemido, capaz de de fazer qualquer coisa. É algo que devo à mota. E para mim deixá-la custou-me muito. Era como deixar uma velha amiga". 

Depois de terem apanhado um camião até Valparaíso, é aqui que se dá uma grande revelação para o jovem Ernesto. Foi aqui que, depois de terem sido bem recebidos por pessoas bastante acolhedoras que até lhes pagaram o almoço, descobrem uma senhora bastante doente que Ernesto resolve visitar. E o que a senhora tinha era uma pneumonia grave e, ainda por cima havia uma grande falta de higiene. Quando Ernesto chegou até junto de Granado disse-lhe que a mulher estava muito mal, que era empregada e que tinha sido despedida, e que a família a olhava como uma intrusa. Este acontecimento foi tão marcante que Ernesto escreveu no seu diário:

"Está na hora dos políticos se ocuparem mais das pessoas e dos doentes e deixarem de lado a propaganda política". 

Granado conta que, já naquela época, sem ser um revolucionário, Che, tinha essa sensibidade, que fez dele o que fez. Na carta que escreveu à mãe:

"Querida mamã, eu sabia que não poderia ajudar aquela pobre mulher, que até há um mês tinha servido à mesa, ofegando como eu, tentando de viver com dignidade. Havia naqueles olhos moribundos um humilde pedido de desculpas e uma desesperada súplica de consolo, que se perdia no vazio, como se perderá em breve o seu corpo". 

Outro dos momentos importantes no filme é a passagem dos nossos aventureiros pela minas de Chuquicamata, de exploração de cobre, que se dizia serem as minas mais ricas do mundo e que estavam sob o domínio da empresa americana Anaconda Company. Foi em Chuquicamata que despertou o desejo de justiça social. Granado diz que aprenderam muitas coisas nas poucas horas que estiveram lá. Perceberam como a indústria estava muito avançada tecnologicamente. Depois como os operários de uma zona não sabiam o que os outros faziam. Foi por causa destas minas que foram nacionalizas pelo governo eleito democraticamente, que em 1973 os americanos, num golpe organizado pela CIA, assassinam Salvador Allende e lá colocam Augusto Pinochet, um seu fantoche, que impõe uma feroz ditadura que assassinou cerca de quarenta mil chilenos. 

O momento mais marcante do filme é quando os dois jovens são colocados a trabalhar na leprosaria de San Pablo no Peru. De um lado dum braço do Amazonas ficavam as instalações das pessoas saudáveis, do outro, a leprosaria. Os doentes de lepra ou com suspeitas de terem lepra eram alvo de grande descriminação por parte da administração do hospital, porque os médicos usavam máscaras, toucas e  luvas, e quando deixavam os doentes e regressavam de barco desinfestavam-se completamente. E foram estes dois médicos estrangeiros, Ernesto e Alberto, que romperam com todas essas normas instituídas apesar de serem muito criticados porque se misturavam com eles, comiam a comida deles e jogavam futebol com eles, cumprimentavam-nos com um aperto de mão, sem luvas. E isso fez com que se criasse uma espécie de mística sobre eles. 

No documentário, uma senhora leprosa, que tinha 18 anos quando Ernesto e Alberto chegaram a San Pablo refere-se a Ernesto (futuro Che Guevara) como "muito culto e extremamente honesto". 

Até que chega o dia de aniverário de Ernesto, e já de noite, este decide atravessar o rio e ir festejar o seu 24º aniversário com os leprosos. Alberto bem tentou demovê-lo, prevenindo-o que o rio tinha piranhas e bastaria arranhar-se e sangrar para que viesse um monte de piranhas, além disso também há crocodilos e a corrente é muito forte... Mas nada o demoveu. Atirou-se ao rio e conseguiu chegar ao outro lado para gáudio de todos. 

Para o realizar Walter esta é a cena mais emblemática do filme e foi um dos motivos porque quis fazer o filme. No dia do seu aniversário, no dia em que nós fazemos um balanço da nossa vida, Ernesto deseja ir para a outra margem do rio, deixando a margem sã, das freiras católicas e de rituais desnecessários e discriminatórios, e ir para o outro lado onde estão os deserdados, aqueles que são colocados à margem da sociedade.. 

O filme deixou-me a pensar em como os pequenos pormenores podem mudar vidas. A vida destes dois médicos teria sido igual se não tivessem feito esta viagem? E Ernesto teria-se transformado no grande revolucionário do século XX, Che Guevara, se não tivesse feito esta viagem? E estes pequenos acasos, estas pequenas revelações, são coincidências ou é o destino? No documentário, Granado, depois de ter sabido que no local em que estavam a filmar, era onde vivia a viúva de Luna (uma das peripécias que o filme retrata) quando param na cidade de Temuco, disse:
"Julgo que é a força de Che. No ano passado tive um enfarte. Salvaram-me no dia 8 de Outubro, o dia em que morreu o Che. Penso que isto tem tudo a ver com tudo, e ele está metido nisto tudo". 

Independentemente do que possamos acreditar, livre arbítrio, coincidências ou destino, a verdade é que há pequenas decisões que mudam vidas. 

Diários de Motocicleta / Walter Salles (2004)

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Ler é como ir ao Cinema Sozinho

The Book Of Secrets by ShaynART

 Foi quando estava a ler Memórias Íntimas e Confissões de um Pecador Justificado que, ao sentir a falta de ter alguém com quem trocar ideias sobre o enredo que estava a ler e do que tudo aquilo poderia poderia ser, que me lembrei precisamente disto: o ato de ler um livro é  mais ou menos como ir ao cinema sozinho, só que, mas ainda mais solitário.

Quando vamos ao cinema sozinhos não temos ninguém ao nosso lado para falar sobre as expectativas do filme. Quando lemos um livro quanto muito alguém já nos pode ter falado do livro, que é muito bom, que a história prende o leitor, que é muto interessante para conhecer determinados factos da História, etc. Por exemplo, comecei a ler o primeiro livro de Murakami porque coloquei uma fotografia no Instagram de vários livros que tinha recebido e uma pessoa comentou que "Murakami é muito bom". Quando vemos um filme, se formos daquelas pessoas que olham primeiro para o nome do realizador do que dos atores, também já dará para ter algumas informação, ainda que, no meu caso, tal como acredito que seja a larga maioria, as pessoas olham sim para os nomes dos atores e não propriamente para o nome do realizador. Se calhar nem os conhecem, se calhar ninguém sabe quem é o realizador do "Sozinho em Casa" que deu passou mais vezes na televisão do que o número de testes à COVID-19 que o Marcelo fez no último ano! O que não deixa de ser algo injusto para o realizador, porque o artista, a obra, o filme neste caso é do realizador e quem tem quase sempre « os louros da fama são os atores, ainda que todos os realizadores precisem de bons atores  para terem uma boa obra. 

No que aos livros diz respeito, também já podemos conhecer o escritor de uma obra anterior e saber, mais ou menos, ao que vamos. Mas, por mais livros que tenhamos lido, uma obra de ficção é sempre algo novo e diferente. Temos que ser nós, ao contrário, por exemplo, da televisão ou do cinema, a criar os nossos cenários com as descrições que nos vão sendo feitas. E, tal como no cinema, se lá estivermos sozinhos na sala, quando o livro acaba e as luzes se acendem enquanto passam os créditos finais, não temos ninguém ao lado com quem trocar impressões sobre o livro que acabamos de ler como quem pergunta: "então, gostaste do filme"?

Enquanto li "Memórias íntima e confissões de um pecador justificado" senti essa falta de ter alguém alguém com quem conversar sobre o livro. Naquela alegoria, afinal, o homem estaria possuído por espíritos malignos; era o próprio chifrudo do "Balha-me Deuz"; era tudo fruto da sua imaginação e sofria de perturbações mentais, ou sofria de dupla-personalidade? O que é que outra pessoa pensaria daquilo? Se calhar até teria precisamente as mesmas dúvidas que eu, porque o livro foi precisamente escrito desta forma para não dar a papinha toda feira ao leitor, mas para o deixar a pensar.  

Contudo, talvez essa seja a vantagem dos clubes de leitura. Colocar várias pessoas a ler o mesmo livro e a opinar sobre ele. Sei que existem mas nunca estive em nenhum e duvido que venha a estar. Conheço também dos filmes e séries americanas. Em Lost, por exemplo, existia um "Book Club", e ao longo da série muitos livros iam sendo sugeridos sub-repticiamente. Eu não sei se os clubes de leitura funcionam bem ou nem por isso. Mas, na falta de um clube de leitura, cabe-nos conversar connosco próprios e tirar as nossas próprias conclusões. E, quem sabe, sugerir, ou não, um determinado livro aos amigos e colegas. Como quem sugere, ou não, um bom filme. 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

O Admirável Neoliberalismo Americano Que Lucra com os Mortos da Pandemia

Esta história é tão deliciosa e tão pouco conhecida por cá que tinha que a contar aqui. 

Então é assim, como é sabido, o controlo do Senado dos Estados Unidos da América foi decidido agora a 5 de Janeiro numa disputa que deu a vitória aos democratas. Mas a história passa-se com os dois candidatos conservadores, o partido de Trump: David Perdue e Kelly Loeffler.

Posso-vos garantir que estes dois senadores são duas pessoas de "bem" e de boas famílias da direita americanas. Basta olhar para a fotos deles! David Perdue é um empresário que ganhou muitos milhões a importar produtos muito baratos vindos da China (dos tais que depois vêm dizer que a China é um papão). Já Kelly Loeffler é muito mais rica que o seu colega, aliás, segundo a Forbes, é mesmo uma das pessoas mais ricas do Capitólio, com uma fortuna avaliada em cerca de 660 milhões de euros. Para se ter uma ideia, conjuntamente com o seu marido, estima-se que tenha o quadruplo da riqueza do segundo membro do Congresso!

Mas vamos então perceber a maravilhosa história da especulação pandémica. 

Apesar de toda aquela conversa do ainda presidente Trump, que isto era só um "vírus chinês", que ninguém se tinha de preocupar, que era só uma "grizepinha" ou até uma "invenção dos média", a verdade é que em 24 de Janeiro de 2020 houve uma reunião para todo o Senado americano sobre o desastre iminente (lembrar que o primeiro infetado nos Estados Unidos surgiu a 21 de Janeiro de 2020) e então, munidos desta informação confidencial, o que é que estas duas pessoas de "bem" da direita americana resolveram fazer?

Se na saída desta reunião fizeram discursos tranquilizadores para as televisões, que as pessoas não precisavam de se preocupar, muito menos tomar medidas de proteção, nem pensar sequer em usar máscaras como os idiotas dos chineses. Mas o que fizeram em seguida foi um pouco diferente. De imediato começaram a movimentar milhões de dóllars em ações onde sabiam que iriam ter grandes benefícios, nomeadamente em software de teletrabalho. Mas há mais, muito mais, e a cena se calhar até é maravilhosamente macabra.

David Perdue achou por bem que, depois de dizer aos americanos que não se precisavam de preocupar com a pandemia, tratou mas foi de cuidar da sua vidinha - porque a vida custa a todos não é? - e começou a investir milhões numa empresa que se chama DuPont e que fabrica equipamentos de proteção individual, incluindo - veja-se o detalhe sórdido - sacos para embalamento de cadáveres! Não é maravilhoso? Porque não lucrar com a morte de quase trezentos mil americanos? Digam lá que não são tão nacionalistas e tão ferverosamente defensores da pátria esta gente de direita a querer lucrar com a morte dos seus concidadãos!

Quando confrontados com as investigações e o escândalo de corrupção e informações privilegiadas, parece que já os estou a ouvir dizer: "Para serem mais honestos do que eu têm que nascer duas vezes"!

E é esta promiscuidade entre política e negócios, sem qualquer controlo nem conflito de interesses que também em Portugal uma certa direita neoliberal quer. "Menos Estado" ou "Estado Mínimo" gritam eles. No ano passado, em campanha eleitoral até berravam ser contra o financiamento do Estado aos partidos - vejam lá tão honestos que eles são! - e que até abdicariam da subvenção, a que teriam direito, caso elegessem algum deputado. Mas depois de eleito o seu deputado a coisa, como se sabe, foi um bocadinho diferente!

E depois é uma pena criticarem tanto, por um lado o apoio que o Estado dá aos mais desfavorecidos (subsídio de desemprego, rendimento mínimo), por outro são contra o controlo do Estado porque ai-Jesus-que-mais-parece-que vivemos-na-China-e-esta-malta-parece-que-só-leu-o1984, mas depois vem uma "gripezinha" (como eles dizem) e vêm logo de mão estendida para o Estado lhes dar de comer. O que esta gente quer não é acabar com a corrupção, quer é rédea solta. Não quer nenhum controlo, nenhumas regras para voltarmos ao tempo da ditadura em que o trabalhador trabalhava doze horas por dias e ganhava uma bucha de pão e um gole de vinho até porque, como eles dizem, "o aumento do salário mínimo é muito mau para os pobres". Esta gente não quer acabar com a corupção, quer é o exclusivo da corrupção para si.

Sim, Já Tomei a Vacina

https://www.distractify.com/

 Logo às 9h a notícia já tinha corrido. A colega irrompe pelo armazém adentro e pergunta-me:
- Então ouvi dizer que já tomaste a vacina?
- Sim é verdade. 
- Tu és um privilegiado! Nem os médicos todos já tomaram a vacina e tu já tomaste?

Na 6a feira tinha deixado a vacina na frigorífico para que, depois, quando saísse do trabalho, fosse ao centro de saúde tomar a terceira dose da vacina. E  antes de vir embora para fim-de-semana, disse à colega do escritório "bem, vou-me lá tomar a vacina".  
O que se passou depois da minha saída vim a saber depois. Aproveitando esta deixa da vacina a colega que trabalha comigo lembra-se de dizer que, sim, ele vai tomar a vacina da COVID-19!
Logo na segunda-feira, entro na empresa, e, quase como todos os dias, entro  bem disposto e a colega do escritório vendo-me acelerado comentou logo que "são efeitos da vacina"!

- Mas qual vacina, perguntei à colega que falou em privilégio?
Eu tomei foi a terceira dose da vacina da hepatite A e B! 

Desde que cá estou nesta empresa já fui conhecido por ler o futuro nas borras do café; por ter sido presidiário; agora por ter sido uma das primeiras pessoas em Portugal a tomar a vacina da COVID-19!

Sabem o que vos digo? Pró que lhe havia de dar!!