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segunda-feira, 2 de outubro de 2023

A Discriminação Está na Cara

No to discrimination - Wanida Rangcakanok


Por estes dias o Daniel Oliveira escrevia sobre como as cidades cada vez mais, expulsam os pobres que delas não não podem usufruir, e não só na questão da habitação, mas em coisas tão banais como a retirada de bancos em favor das esplanadas:

 "Quando veio a pandemia, foram removidos os bancos e mesas da Praça Paiva Couceiro, em Lisboa, um ponto de encontro para conversas e jogatinas, onde se cruzam jovens, velhos, locais, imigrantes, famílias. Natural. Mas depois, só regressaram 16 dos 48 bancos, não permitindo o uso intenso que tinha. Um grupo de jovens pegou em cadeiras e pôs na praça. Mostrando como há uma relação entre o desrespeito pelo direito ao usufruto do espaço público e o desprezo pela democracia, a Junta da Penha de França, que é PS, chamou a polícia para pôr fim àquele protesto não autorizado. Na última década, multiplicaram-se as esplanadas em Lisboa. É bom, mas temos de garantir que todos têm acesso ao espaço público sem ter de gastar. Com a explosão do turismo, os preços tornaram-se proibitivos nas zonas mais atrativas. Assim dita o mercado e tem de haver espaços livres de mercado. O espaço só é público se não tiver consumo mínimo. Se lá puderem ir os pobres, os ricos e os remediados e, dentro das regras de convivência e da lei, darem-lhe o uso que entenderem. Não é só sendo expulso de casa, com a crise da habitação, que se é expulso da cidade. Também é sendo expulso da rua."

Talvez isso me tenha deixado mais alerta. Reparei nisso nesta semana que passou em que andei a visitar várias cidades. Em Sevilha, com tanto turista de um lado para o outro, reparei que junto à catedral não havia grandes bancos e era ver as pessoas todas sentadas (eu incluído) nos grandes vasos de cimento. Uma família de asiáticos acercou-se do sítio onde eu estava e uma senhora idosa senta-se ao meu lado. Mas o vaso não era lá muito confortável e preferiu ir sentar-se no seu banquinho preto portátil que tinha às costas. Talvez este seja o futuro. Cidades sem bancos, e rapidamente se comecem a vender bancos portáteis para as pessoas se sentarem, isto se entretanto todas as cidades não tiverem sido tomadas pelos bancos das esplanadas.

Estávamos todos à espera de poder entrar no Real Alcázar, até que finalmente, dão ordem para que as pessoas com bilhete para as 16:30 formassem uma linha de entrada. E os asiáticos que me pareciam indonésios colocaram-se à minha frente sob a torreira de calor que fazia. E pareciam-me indonésios porque a menina, sei lá, de vinte anos?, coberta com lenços islâmicos fazia-me lembrar a vocalista da banda Voice of Baceprot.

Achei aquilo tudo muito mal organizado. Era tudo ao monte, grupos inteiros passavam à frente de toda a gente sem se perceber muito bem porquê, a informação não era suficiente e, pior, as duas pessoas com fardas da Prosegur que estavam que estavam a organizar as filas e a verificar as entradas (que posteriormente seriam validadas por outras pessoas através do código QR) pareciam que estavam ali a fazer um enorme favor a toda a gente, nem parecia que ali estavam a trabalhar e a serem pagas para realizar aquela tarefa. Não gostam de trabalhar com turistas? Têm bom remédio, mudem de trabalho.

Duas asiáticas, estas talvez chinesas ou japonesas, passam a fila toda só para pedir informações. A senhora da Prosegur dá-lhes respostas secas, tratando-as como burras. Mas isto não foi o pior. Toda a gente ia mostrando, ou os papeis, com grandes códigos QR ou no formato digital no smartphone. Ela via e deixava seguir, tal como aconteceu comigo. Mas com o jovem indonésio de oculinhos e com meia dúzia de pelos no queixo, foi completamente diferente. Pediu-lhe imediatamente a identificação.

E porquê tudo isso se lá dentro tínhamos até que passar a mochila num raio-X e nós mesmos deixávamos o telemóvel em cima da mesa e tínhamos que passar num detetor de metais? Porquê? Por causa do nome dele? Ou por causa da cara dele?

Um dia ou dois depois aconteceu comigo. Se habitualmente, no Porto ou em qualquer outra parte me tratam como estrangeiro no meu próprio país, então, que fará no Algarve. Umas quantas horas depois de ter pagado o bilhete chego à hora combinada e ao local para preparar-me para embarcar num passeio às grutas de Benagil. A menina que fazia o atendimento e colocava os coletes salva-vidas era toda sorrisos e simpática para os turistas estrangeiros. Eu aproximo-me e falo português para me inteirar dos procedimentos. Pergunta-me o nome e vai ver a lista e de imediato me pede se tenho o comprovativo do pagamento... Mas porquê se em todos aqueles minutos que ali estive não pediu a nenhum estrangeiro? Será que por ser português significa de imediato que sou um aproveitador e que me vou tentar meter num passeio em que não estou inscrito?

A discriminação está na cara. Mas na cara de quem vê com olho de preconceito. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

As Pessoas Enganam-se Tanto


Primeiro fim-de-semana de novo pseudo-confinamento. Mais uma camada de geada a deixar tudo branco no monte e nas ruas, mas também um belo dia de sol, antes da chegada da chuva, amanhã. Decidi ir fazer o meu "passeio higiénico", neologismo que dá para as pessoas justificarem tudo aquilo que não seja o seu dever de estar em casa confinadas e, logicamente que neste caso contra mim falo porque também saí, ainda que, em minha defesa, possa dizer que quase não me cruzei com viva alma. 

Peguei na bicicleta e fui fazer um pouco de exercício, não que já esteja propriamente redondo, mas, principalmente, arejar um pouco em véspera de mais uma semana de "trabalho". Resolvi ir para montante do rio Douro, aldeia vizinha e freguesa anexada e fui explorar uns caminhos ali pela beira do rio. 

Saí de mochila às costas e roupa comum, botas e caças de ganga justas e elásticas, porque não sou daqueles que para andar de bicicleta têm que vestir o equipamento desportivo todo, como se fossem fazer a volta a Portugal. Saí agasalhado, com gorro preto na cabeça e óculos de sol. Cabelos esvoaçantes e barba de duas semanas. 

Por onde passava e se me cruzava com alguém, educadamente dizia "boa tarde". Imagino que para quem me leia e que viva na cidade isto pareça estranho, mas nas aldeias, quer as pessoas se conheçam, ou não, sempre foi normal cumprimentarem-se, e não vergarem simplesmente os cornos ao chão, fazendo de conta que não vêem ninguém. Até me estou a lembrar, dos sítios onde fui fazendo caminhadas, sempre vi o bom hábito das pessoas se cumprimentarem. Em Espanha, por exemplo, sempre que me cruzava com alguém, quer na Senda Del Cares ou nos Lagos de Covadonga ouvia sempre um "Holla!". 

Então sempre me pareceu natural e instintivo cumprimentar quem passa. Ontem, infelizmente, várias vezes do outro lado respondia-me o silêncio. Numa das ruas, de boas vivendas (a aldeia vizinha não é como a minha, pobre, até porque em tempos até já foi sede de concelho) mas entretanto chego a um cais onde estavam dois pescadores a pescar e, minutos depois, no regresso, cruzo-me de novo com o senhor, um dos que não me respondeu e vi-o a fechar o portão da sua bela vivenda, não fosse eu decidir, sei lá, assaltar-lhe a casa, em pleno fim-de-semana de confinamento com toda a gente em casa!

Pedalar calmamente também é bom para pensar. E eu refletia como há coisas que não mudam. Há uns anos lembro-me (já não sei se contei esta história aqui no blogue) que uns emigrantes radicados em França, numa altura em que estavam de novo cá na aldeia, ficaram estupefactos a olhar para mim quando passei por eles na rua. E eu não vi essa surpresa, mas ouvi ao longe uma vizinha, que seguia no carreiro do campo de carro-de-mão carregado: "Não tenhais medo, é o filho da Rosa Maria"!

E, não deixa de ser muito curioso que, ainda por estes dias em conversa com a minha amiga carioca dizia-lhe que nunca me senti muito discriminado em Portugal por causa deste meu aspeto mais "exótico". E exótico talvez seja uma bela palavra quando tantas vezes sou interpelado em inglês no meu próprio país. Mas, para o bem ou para o mal, nós somos sempre vítimas ou reféns da forma como nos apresentamos e do nosso aspeto físico. No entanto eu sempre arranjei empregos e nunca senti propriamente que o meu aspeto fosse um entrave a fazer a minha vida normalmente. Há sempre reserva e medo com aquilo que não se conhece, ainda que, digo eu, eu não devesse ser motivo para que sejam mal educados quando passo.

Por outro lado, não deixa de ser irónico, que, se um qualquer meliante se vestir bem, como qualquer "pessoa de bem" (expressão muito em voga pelo candidato fascista) e usar um fato e gravata, e for por aí pelas aldeias dizer que vem trocar as notas de Euro, porque como agora o Reino Unido saiu da União Europeia, tem que se retirar do mapa aquele país, aposto que as pessoas os recebem quase de braços abertos. É assim a sociedade, sempre a julgar pelas aparências, e, como diz a minha mãe: "as pessoas enganam-se tanto". 

domingo, 27 de dezembro de 2020

A Luta de Classes e o Ódio às Minorias nas Pequenas Coisas do Trânsito


Patrões, trabalhadores, ricos, pobres, capitalistas, anarco-sindicalistas, homens, mulheres, brancos e pretos, esquerda e direita... No fundo em bom português "cada um puxa a brasa à sua sardinha". Mas há coisas muito simples de observar para vermos como as pessoas não se sabem colocar no lugar dos outros e ostracizam sempre o mais fraco. 

Olhemos, por exemplo, para a estrada. Já percebi só de ouvir os colegas e pessoas à minha volta falar, bem como lendo o que se escreve nas redes sociais o quanto os portugueses em geral odeiam os ciclistas. Porquê? Há alguma coisa racional nisto tudo? Se calhar ainda diz muito do país atrasado, ou do pensamento atrasado que ainda temos, ao contrário de muitos países da Europa onde o uso da bicicleta é visto como algo muito positivo, onde até se criam faixas só para bicicletas (como na imagem) enquanto, pelo contrário, o uso do carro é demonizado. 

Fazer ciclismo, seja de lazer como eu e muitos portugueses fazem, seja de forma mais profissional com bicicleta de estrada, a verdade é que é uma prática saudável, que faz muito bem ao corpo e além dos benefícios para a saúde evita gastos com o SNS (que somos todos que o pagamos), mas também, e não é nada de desprezar, é uma prática amiga do ambiente porque não poluiu. No entanto as pessoas odeiam os ciclistas. Faz isto algum sentido?

Não, não faz. As pessoas odeiam os ciclistas como odeiam os pretos, como infelizmente ainda muitos homens odeiam as mulheres, como muita gente odeiam os estrangeiros, ou as pessoas que têm tatuagens, que têm os cabelos compridos, que fazem swing, no fundo, odeiam tudo o que é diferente delas.

Eu ando todos os dias de carro. Mas também uso a bicicleta. E morasse eu mais perto do emprego que certamente iria trabalhar de bicicleta. Quero com isto dizer que estou nos dois lugares. Se calhar quem critica os ciclistas não anda de bicicleta. Mas se calhar, se dum de um dia para o outro os brancos ficassem pretos se calhar entenderiam melhor o racismo. Se calhar se os homens de um dia para o outro virassem mulher, se calhar, entenderiam melhor a discriminação e assédio que as mulheres são alvo. Se calhar, se  também andassem de bicicleta na estrada perceberiam o perigo que é levar uma razante de um carro, e prestariam mais atenção sobre as notícias a dar conta das dezenas de mortes de ciclistas nas estradas portuguesas, vidas que se perdem de forma estúpida, simplesmente causada pela irresponsabilidade de alguns assassinos ao volante. Se calhar, se também andassem de bicicleta nas estradas não se punham a queixar dos segundos que perdem para ultrapassar um ciclista, ainda que eu saiba quão preciosos são esses segundos para poderem atualizar a rede social enquanto conduzem. 

Toda a gente tem direito a andar na estrada: peões, ciclistas, animais, carros, camiões. Os ciclistas foram equiparados aos automóveis, ou sea, agora têm prioridade nas rotundas e sempre que se apresentem pela direita, quando antes isso não acontecia e tinham que parar para deixar passar toda a gente. Bem sei que os maiores anticorpos contra os ciclistas é por causa das ultrapassagens. Mas 'meu amigo', se não há espaço, pois que esperem. Todos nós esperamos nove meses para nascer, não foi? 

Nas estradas há dois ódios de estimação: os ciclistas e os carros sem carta. "Porque só andam a atrapalhar". É como se não tivessem o mesmo direito que os outros a andar na estrada. É o mesmíssimo pensamento que muitas pessoas, que acham que lhes corre sangue azul nas veias, pensam dos pobres nas universidades, pensam dos pobres que estudam doze anos, pensam dos pretos ou das mulheres à frente das empresas ou à frente de um país. 

O trânsito nas estradas pode ser uma boa metáfora para a sociedade e para a politica que rege a sociedade. Devemos viver em comunidade, devemo-nos respeitar uns aos outros, e não achar que somos melhores que os outros, que temos mais direitos que os outros, principalmente que os mais desprotegidos. Se todos fizermos a nossa parte, automobilistas e ciclistas, o mundo, seja nas estradas ou na vida em geral, será bem melhor para todos.