domingo, 15 de novembro de 2020

Aos Vossos Avós Foi Pedido Que Fossem Para a Guerra...



"Penso que foi no Inverno de 2020 que os olhos de toda a gente estavam sobre nós. Eu tinha 22 anos, estudava engenharia quando a segunda onda chegou. Com 22 anos queres é festas, estudar, conhecer novas pessoas, sair e estar com os amigos. Contudo o destino tinha planos diferentes para nós. Um perigo invisível ameaçava tudo aquilo em que acreditávamos. De repente o destino do nosso país estava nas nossas mãos. Corajosamente fizemos o que o nosso país esperava de nós. Fizémos a única coisa certa. 

Nada! Absolutamente nada! Dia e noite enfiamos o cu em casa e lutamos contra a transmissão do vírus. O sofá estava na frente de batalha e nossa arma: paciência. Por vezes temos que rir quando lembramos estes tempos do passado. Foi o nosso destino. 

Foi assim que nos tornamos heróis durante o Inverno de Corona 2020. Sê um herói também e fica em casa. 

(Campanha publicitária do governo alemão) 

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Ana Karenina

 "Todos os géneros de felicidade se parecem, mas todas as desgraças têm o seu carácter peculiar. "

É com esta frase que começa o Ana Karenina, livro de Tolstoi que acabei por estes dias, e que posso garantir que acaba "bem". Este é um livro sobre relações de amizade e de amor, de traições, mas também sobre as dúvidas existenciais que nos assolam. É um livro sobre a vida e por isso intemporal. É um livro sobre todos nós ou, sobre todos aqueles que já amaram; sobre os que amaram e não foram correspondidos, sobre aqueles que se deixaram amar mas por quem as regras da sociedade não acham aceitável; sobre todos aqueles que já amaram e foram trocados por outro; sobre todos aqueles que já amaram e foram correspondidos. É também um livro sobre as dúvidas existenciais que nos assolam, como o medo da morte e sobre o porquê de aqui estarmos e se afinal isto faz algum sentido...

Neste romance identifiuei-me principalmente com a personagem de Levine, que se sentia bem era no campo, que preferia a companhia dos trabalhadores e não tanto a socializar na alta sociedade ou com o seu próprio irmão, destacado escritor e que gostava sempre de lhe ganhar as discussões.


Gostei muito do livro, que acabei por ler em tempo recorde (pensei inicialmente só lá para o Natal o conseguir acabar!) e de seguida vi o filme e nunca tinha visto, nenhum dos vários que já se fizeram. Vi a edição de 1997, com Sophie Marceau no papel de Ana Karenina, Sean Bean como Vronsky e Alfred Molina como Levine. O filme tem uma fotografia muito bonita e lindas paisagens (foi filmado na Rússia) mas logo nos primeiros minutos tudo me começou a parecer como se estivesse a ver unicamente fotografias ou fragmentos dos momentos mais importantes de tudo que li. E como é lógico nem de longe nem de perto o espectador do filme compreenderá a densidade e os dramas de cada uma daquelas personagens, nem todos os pormenores que levaram a certas tomadas de posição, mas há que compreender que não será fácil pegar num livro com tantas páginas (as edições modernas têm mais de mil) e conseguir contar tudo, porque para tal seriam precisas muitas horas.  

De qualquer forma eu recomendo o livro. Achei muito bom. 


terça-feira, 10 de novembro de 2020

Viva a Meritocracia!


É fácil falar-se em "meritocracia" quando segundo a OCDE, uma família portuguesa pobre precisa de 5 gerações até os descendentes terem um salário médio.

Sobre a "meritocracia" o que pouca gente sabe é que é um termo pejorativo, inventado Michael Young, escritor de esquerda, no seu livro satírico de 1958 e que se chamava The Rise of Meritocracy

A obra retrata uma Inglaterra do futuro em que as pessoas são classificadas de acordo com sua inteligência, medida por testes padronizados. Os "mais inteligentes" recebem a melhor educação e têm acesso aos melhores empregos, e os “menos inteligentes” ficam com o que sobra. Mas esse sistema, que Young batiza de “meritocracia”, contém distorções evidentes:  os “mais inteligentes” são-no, em parte, justamente porque recebem educação de qualidade – sem a qual os "menos inteligentes" jamais terão qualquer hipótese de ascender. O livro mostra como um sistema aparentemente justo se pode tornar uma máquina de produzir e agravar injustiças. Termina na Revolta da Meritocracia, uma convulsão social que se passa em 2033. 

Resumindo: o termo “meritocracia” é pejorativo. Isso não impediu que, ao longo das décadas, fosse mudando de significado – e acabasse adotado pela direita como exemplo de coisa positiva, o que Young detestava. "O livro era uma sátira, uma advertência (que, nem preciso dizer, não foi ouvida)”, escreveu ele em 2001, um ano antes de morrer, no artigo Down with Meritocracy publicado no jornal inglês The Guardian.  

Ironicamente a piada de Young virou dogma e hoje dizem-nos que vivemos em tempos de "meritocracia" e que tudo aquilo que alcançamos depende apenas do nosso trabalho árduo. E se não conseguimos a culpa é nossa, é porque não nos esforçamos o suficiente, porque afinal, para direita, todos podemos ser ricos. Viva a "meritocracia"!!

sábado, 7 de novembro de 2020

Conversas Improváveis (57): 400 Matchs no Tinder

"Finalmente cheguei ao fim da lista proposta pelo tinder.  99% de quem entrou em contacto comigo é entediante e tem sempre a mesma conversa: "olá, boa noite, tudo bem, que fazes, se onde és,..." seca ou enviam o whatsapp logo nas 3 primeiras mensagens e insistem por uma foto. 
Não há foto, tirei a exactamente para poder pôr likes em todos os perfis e constatar factos. Há excepções com quem gostaria de continuar a falar mas são mesmo excepções."



Como eu expliquei, mais ou menos, no meu perfil eu fiz swipes para a direita a todos os perfis (antes tinha foto minha e não fazia isso mas tirei para experimentar) fiz a lista até ao fim.

Tive uns 400 matches (calculo que muitos homens façam o mesmo) e não iniciei conversa com nenhum. Mas uns cento e tal iniciaram conversa comigo. Mas como disse umas pouquíssimas são interessantes. Algumas que são interessantes descubro depois que são de homens comprometidos.

Portanto imagina que uns 10 têm conversas interessantes, desses 10, metade é comprometido".

Mais Historiadores, Menos Epidemiologistas


Na pandemia de pneumónica de 1918, difundida pelo mundo por causa do regresso das tropas da casa, a máscara foi o grande método de proteção, conjuntamente com outras recomendações como não cuspir, não tossir nem espirrar em cima das outras pessoas e evitar os grandes aglomerados de pessoas. A pandemia chega aos Estados Unidos em Outubro, e voluntariamente quatro em cada cinco pessoas usa uma máscara para se proteger e para proteger os outros. Entretanto graças a bandalheira que se instaurou, o uso da máscara acabou mesmo por ser obrigatório e com multas pesadas para quem não cumprisse. 

Os jornais publicaram instruções sobre como as pessoas poderiam fazer suas próprias máscaras em casa. Pessoas que não cumpram podem enfrentar pena de prisão, multas ou ter seu nome publicado no jornal, revelando que são os “preguiçosos das máscaras”.
E se hoje em dia os avisos chegam por telemóvel, há cem anos os conselhos importantes como o de arejar as casas eram afixados nos autocarros.


Mas depois do uso generalizado de máscara ter resultado e as infeções tinham baixado muito, as autoridades de saúde resolveram levantar estar restrições logo em Novembro, um mês depois da chegada da pandemia aos Estados Unidos. Houve imensas festas na rua, milhares de máscaras espalhadas pelo chão, com as pessoas a dançar e abraçadas umas às outras. Resultado: as infeções voltaram a subir e a máscara acaba por voltar a ser obrigatória em 1919, só que desta vez há enormes manifestações contra o uso das máscaras, prisões, devido àquilo que se designa por "cansaço pandémico".


Ora, se a política prestasse mais atenção aos historiadores e à história, já teria antecipado que, ou se ataca a dispersão de uma pandemia logo no início, com medidas obrigatórias ou, se deixar as coisas nas mãos da responsabilidade individual a coisa vai descambar com ajuntamentos como os que vimos por estes dias na Nazaré e já com mais de três mil casos diários reportados. Mais. Quando depois quiser impor alguma coisa, começarão a aparecer os negacionistas dos movimentos anti-máscara ou, pior, dos negacionistas da própria pandemia, exatamente como aconteceu em 1918.

Não era preciso inventar muito, bastaria olhar para o que aconteceu há cem anos. As mesmas formas de combater a transmissão da doença, as mesmas reações que as pessoas começaram a ter fruto do cansaço pandémico. Por isso, se calhar, teria sido bem mais importante os governos rodearem-se de historiadores e não tanto de epidemiologistas. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

"Mentirosos pela Verdade"

 Depois de termos sabido que nos "médicos pela verdade" não existia um único epidemiologista, mais engraçado ainda é descobrir-se que nos "jornalistas pela verdade" não existe um único jornalista!!

A fonte é da conhecida jornalista da RTP, Rita Marrafa de Carvalho que fez a  seguinte publicação no Twitter:




Posto isto, eu acho que vou criar uma página intitulada "Mentirosos pela Verdade" para mostrar às pessoas todas as mentiras em que precisam de acreditar! Nós, os mentirosos, nós é que dizemos as verdades!

Editado: Recomendo esta reportagem sobre os "jornalistas e médicos pela verdade". Muito elucidativa: