terça-feira, 26 de maio de 2020

Uma Questão de Solidez Politica

Descubra as diferenças entre a calma da primeira-ministra neozelandesa Jacinda Arden's (de quem certamente deveríamos ouvir falar muito mais do que de Trumps, Bolsonaros, Boris e afins) em direto do parlamento numa entrevista para a televisão quando acontece um tremor de terra de magnitude 5.8 na escala de Richter...



... com o borrar de medo de Francisco dos Santos líder do CDS e aspirante a líder da direita portuguesa, quando fazia um discurso na Madeira e se dá um abalo de 5.3




segunda-feira, 25 de maio de 2020

Amor ao Primeiro Ouvido

Depois dos inúmeros telefonemas que fizemos ao longo do último mês, finalmente conheci o senhor Mário e ele acabou também por me ficar a conhecer a mim. Eu não o imaginava assim mas julgo que ele ficou bem mais surpreendido comigo, e foi por isso mesmo que, depois de me ter metido no carro sorria para mim mesmo, com o ar de surpresa com que ele me olhou, quase boquiaberto.

Se eu passasse por ti na rua sem te conhecer, nunca que diria que és a pessoa que és.

A visão é um dos sentidos mais importantes que temos mas, nas relações humanas, não raras são as vezes que, infelizmente, desvia-nos do essencial e foca-nos no supérfluo. Concentra-nos demasiado no papel que embrulha e ignora o que está lá dentro. Claro que todos nós gostamos de rostos atraentes, de sorrisos bonitos com dentes direitinhos e corpos tonificados e com esta ou aquela característica consoante o gosto de cada um.  Mas já por diferentes vezes eu já me perguntei se por caso fôssemos todos cegos, se escolheríamos as mesmas pessoas com que nos envolvemos romanticamente. E a resposta é: não.

Os ouvidos não vêem. Os olhos vêem mas não prestam atenção.

E o coração, precisa de ver ou de escutar?

A partir do momento que iniciamos a comunicação com uma pessoa que não conhecemos pessoalmente nem sequer imaginamos como é fisicamente, de imediato começamos a pintar-lhe o perfil na tela em branco. E ao longos dos últimos quatorze anos muitas foram as vezes que isto me aconteceu. E a grande aproximação, principalmente se começamos pela escrita, é a voz. E agora que penso, veja-se como já existem video-chamadas há tantos anos, mais de dez certamente, mas as pessoas continuam a colocar os telemóveis nos ouvidos e não nos olhos. Não é curioso isso? Foi assim tão importante essa invenção? Sim, se for para fazer umas poucas vergonhas certamente que tem a sua grande utilidade da estimulação visual, de resto, a verdade é que ainda hoje, seja nas empresas ou do ponto de vista particular, não tem grande utilidade.

É muito curioso que agora, até nas redes sociais e tudo, que me vou apercebendo de coisas que já toda a gente sabia menos eu. Coisas como, num vídeo ou numa fotografia em que alguém está a falar de determinado assunto, as pessoas muitas vezes vão ignorar o que está a ser dito, e vão reparar na estante que está lá atrás ou em todo e qualquer pormenor sem importância e a mensagem que é importante perde-se. Os olhos não filtram, muitas vezes perturbam. Há um termo na fotografia que era revelada em película que se chamava grão ou ruído. E o mesmo se passa com os nossos olhos analógicos. Perante um determinado cenário eles focam-se um determinado ponto que lhe interessam, e tudo à volta fica granulado, com ruído, desfocado.

A este propósito observei por estes dias um bom exemplo. Naquele programa dos agricultores, o mais jovem agricultor tinha em casa três jovens mulheres. De imediato focou-se só numa e toda a sua linguagem corporal denunciava-o claramente. Olhava sempre para a mesma, a que de imediato reclamava mais atenção como se fosse uma cria de pássaro a piar mais alto e a abrir mais o bico que as outras. E ele caiu no engodo e só alimentava aquela cria que ia ficando cada vez mais gorda ao passo que as outras, se calhar tão mais cheias de virtudes, ficaram esquecidas. E o que qualquer homem no lugar dele deveria fazer era tratar todas as convidadas por igual, ouvi-las a todas por igual. Mas não é isso que as pessoas fazem. E eu quase que aposto que, se lhes fossem só mostradas as fotografias das concorrentes, a escolha deles recairia exatamente na mesma pessoa que vão escolher, ao fim de todo aquele tempo para supostamente as conhecer.

Não há amor à primeira vista. Há beleza à primeira vista.
Há beleza à primeira vista para saber se estás, ou não, à minha altura. Há conta bancária à primeira vista, para saber se és, ou não, um bom partido para mim. Há a pressão social. E o que é que os outros vão dizer? E não duvido que na maior parte dos casos é isso que pesa: a pressão social.

Eu namorava contigo mas só se cortasses o cabelo.

Por artes mágicas, foi também numa Primaverava passada, que uma certa desconhecida de uma terra distante para onde, curiosamente, eu  há vinte anos, todos os anos me dirigia, haveria de me telefonar. E eu sempre achei, ou quis achar, ou comecei a querer acreditar porque a vida tem-me mostrado que comigo é assim que vem acontecendo, que nós andamos sempre à volta daquela pessoa com quem eventualmente um dia haveremos de chocar. E nos vinte anos a correr para aquela localidade, é bem provável que já tivéssemos estado bem próximos, mas quis o sortilégio da vida que haveria ser naquela Primavera, por causa dum interesse comum, que só naquele ano é que tinha passado a ser comum. Se naquele ano, por um milhão de pequenos acasos, esse interesse não tivesse sido plantado na sua cabeça, não teríamos tido oportunidade de ter chocado um contra o outro.

E o tal dia que me haveria de telefonar chegou. Os dois desconhecidos chocaram. A conversa decorria com tal sintonia e interesse que até me haveria de esquecer dum encontro lá com a malta do ténis-de-mesa. Todo eu era todo ouvidos e estava a gostar muito do que estava a ouvir daquela pessoa eu não sabia absolutamente nada: idade, estado civil ou índice de massa corporal. Nada. Falava-me da paixão comum das plantas; que certo dia carregou o carro com livros e os doou à biblioteca (logo eu que os continuo a acumular sem ler metade). Falava-me de Mujica e do tempo, e de como todas as coisas que temos não são compradas com dinheiro, mas sim compradas com o tempo que perdemos a trabalhar... E que coisa tão bonita de se ouvir.

Ouvindo-a com atenção, a determinada altura já me tinha decidido encantar-me bem antes de saber se um dia ainda nos iríamos conhecer pessoalmente...

domingo, 24 de maio de 2020

Um Bando de Ratos Com as Mãos Cheias de Sangue


Em Portugal, pouco antes da pandemia (que abafou todos os outros assuntos) os jornalistas portugueses só agora tinham descoberto, graças às revelações de Rui Pinto, que Isabel dos Santos era uma grande ladra - como lhe chamou em direto Ana Gomes. Antes disso eram só entrevistas a mostrar como era uma grande empreendedora!

No Brasil, os jornalistas, que tudo fizeram para retirar do poder Lula e Dilma para lá colocar lá uma figura de direita, erraram na quantidade de pólvora, como diz no vídeo o nosso conhecido José de Abreu, e acabaram por colocar no poder um verdadeiro ditador filho da puta. Mas agora, todos esses jornalistas mostram-se muito surpreendidos quais Madalenas arrependidas! Muito surpreendidos quando todos já conheciam bem a figura de Bolsonaro e ainda por cima quando ele disse ao que vinha! Agora, que está quase instalada uma ditadura no Brasil, em que o próprio presidente diz que interfere na justiça para não se prejudicar nem prejudicar a própria família, agora é demasiado tarde para arrependimentos. Agora, os ratos abandonam o navio mas com as mãos cheias de sangue.  

Cá em Portugal temos outro grande filho da puta, apoiado pelos mesmos média, pelas mesmas igrejas evangélicas, associado a grupos de criminosos de extrema-direita, com as mesmas ideias racistas e xenófobas, que quer aplicar as mesmas leis para que os ricos paguem menos impostos e para meter ainda mais o pé no pescoço dos mais pobres. 

Muitas pessoas dizem que não devemos falar nele para não lhe dar publicidade. Pois eu acho precisamente o oposto: é mostrar o grande filho da puta que ele é, as suas contradições, o seu discursos racista, xenófobo, é mostrar bem para toda a gente veja e que depois não diga que não sabia o grande filho da puta que ele é. Se uma só pessoa que seja parar para pensar e ganhar anticorpos já terá valido a pena. 

Grande José de Abreu. 

Ninguém Pode Compreender Aquilo Que Não Sente

Acendeu um cigarro e continuou com o livro. Bateram à porta. Philip ergueu-se e foi abrir: era Elinor.
- Que tarde! - exclamou ela, atirando-se para uma cadeira. 
- Então que novidades me contas de Marjorie?
- Novidades? Nada que se pareça com isso... - disse Elinor num suspiro, enquanto tirava o chapéu. -A pobre criatura está insípida como sempre. Mas lamento-o sinceramente. 
- Que lhe aconselhaste?
- Nada. Que queres que ela faça? E Walter? - perguntou Elinor por sua vez.  - Achaste ocasião para fazer de papá severo?
- De papá semi-severo, digamos... Consegui que ele se fosse instalar em Chamford com Marjorie.
- Conseguiste? Foi um verdadeiro triunfo!
- Não tanto como julgas. Não tive inimigo contra quem combater. Lucy parte para Paris no próximo sábado .
- Esperemos que ela fique por lá... Pobre Walter!
- Sim, pobre Walter... Mas eu tenho que te falar dos diabos-marinhos.
Falou-lhe. 
- Um dia destes - concluiu - preciso escrever um Bestiário moderno. Que lições de moral! Mas dize-me, como achaste Everard? Tinha esquecido completamente que o tinhas visto.


- Não podias deixar de esquecer... - retorquiu ela desdenhosamente. 
- Achas? Não sei porquê...
- Não, não sabes. 
- Estou esmagado sob o peso do teu desdém - disse Philip com uma humildade fingida.
Houve um silêncio.
- Everard está apaixonado por mim - disse por fim Elinor, sem olhar para o marido, e com uma voz perfeitamente calma e fria. 
- Mas isso é novidade? Julguei que fosse um velho admirador. 
- Mas é a sério - prosseguiu Elinor- Muito a sério. - Ela esperava ansiosamente os comentários do marido. Estes vieram, depois de um curto silêncio. 
- Isso já deve ser menos divertido...
No fim de contas Philip não era um tolo. Ou talvez compreendesse muito bem e estivesse apenas a fingir o comentário; talvez estivesse mesmo secretamente contente com os sentimentos de Everard. Ou era então simplesmente a indiferença que o tornava cego? Ninguém pode compreender aquilo que não sente. Philip não podia compreendê-la, porque não sentia as coisas como ela. Estava confiante na crença de que as outras pessoas eram tão razoavelmente mornas como ele. 
- Mas gosto dele - afirmou Elinor em voz alta, fazendo uma derradeira tentativa desesperada para arrancar do marido pelo menos um simulacro de demonstração de amor. Se ao menos ele se mostrasse ciumento, ou triste, ou zangado, como ela seria feliz, como lhe ficaria reconhecida por isso!
- Gosto muito de Webley - continuou Elinor. - Há alguma coisa de muito atraente. Aquele seu carácter apaixonado, aquela violência...
Philip pôs-se a rir:
Exatamente o irresistível homem das cavernas, hem?
Elinor ergueu-se com um pequeno suspiro, pegou no chapéu e na bolsa e, inclinando-se para o marido, beijou-lhe a testa, como para lhe dizer adeus; depois afastou.-se e, sempre sem dizer palavra, subiu para o quarto.
Philip tornou a abrir o livro que tinha abandonado. Leu;
"Benellia viridis é um verme verde, não muito raro no Mediterrâneo. A fêmea tem o corpo da grossura aproximada de uma ameixa, munida de um apêndice proboscidinano em filamento, bífido na extremidade, fortemente contráctil, e que pode atingir os dois pés de comprimento. Mas o macho é microscópico, e vive no que pode ser denominado o conduto reprodutor (nephridium modificado) da fêmea. Não tem boca a alimenta-se unicamente do que absorve parasitariamente através das suas superfícies ciliadas..."
Mais uma vez Philip largou o livro. Ficou a pensar sobre se devia ou não subir e falar a Elinor. Estava convencido de que ela nunca chegaria a amar realmente Everard. Mas talvez ele, Philip, não devesse ter a coisa como muito certa. A mulher parecera-lhe um pouco transtornada. Talvez esperasse que ela lhe falasse, que lhe dissesse do seu amor e de quanto ficaria infeliz - e furioso - se ela deixasse de o querer. Mas eram estas precisamente as coisas mais impossíveis de dizer. Finalmente decidiu não subir. Ia esperar para ver... transferia para outra ocasião. Continuou a leitura sobre a Bonellia viridis.

Capítulo XXI / Contraponto (Point Counter Point) - Aldous Huxley (1928)

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Número De Infectados Pelas Ideias do Chega Continua a Subir

"Seguimos agora em direto para a Direção Geral de Saúde onde a Doutora Graça Freitas se prepara para fazer um importante anúncio:

Diário de Aveiro


Muito bom dia. Bom, como sabem a DGS está a realizar testes serológicos à população em geral mas especialmente aos taxistas e aos veteranos do Ultramar e a conclusão preliminar é a de que, o número de portugueses infetados pelas ideias do CHEGA de André Ventura poderá ser dez vezes superior ao registado. 


- Dra Graça Freitas, como é que isso isso possível se o CHEGA só foi fundado há menos de um ano?

Bom, na verdade há estudos que dizem que as ideias já circulam entre nós, pelo menos desde 1933, e foram feitas análises ao bolor de algumas propostas do senhor André Ventura, e a datação por carbono14 aponta para a década de trinta ou para o período jurássico da era mesozóica e as ideias nunca foram erradicadas, ao contrário da poliomielite e das calças à boca de sino. 

- E haverá uma vacina em breve?

Bom, há ensaios clínicos a decorrer cujos resultados iniciais são promissores. Houve oito pessoas a quem foi dado a ler um livro de história e todas elas desenvolveram anticorpos contra o André Ventura ao fim de duas páginas. Portanto vamos ter esperança, esta bem?

- E a hidroxicloroquina não resulta?

É prematuro dizer. Eu preço-vos que não tomem isso, a não ser que estejam a ficar com alergia aos Gipsy Kings ou às trivelas do Quaresma. Está tudo, muito obrigado a todos e eu volto amanhã com novos dados e uma nova pregadeira. 

PORTUGALEX 21 DE MAIO / 2020

* há coisas que a Patrícia Castanheira escreve (não faço ideia quem seja) absolutamente geniais. Não é possível escrever todos os dias coisas geniais, há coisas que resultam melhor que outras, mas há episódios como este absurdamente geniais. Logicamente que a interpreção dos atores Manuel Marques e António Machado também ajuda, mas há que valorizar a pessoa escondida dos holofotes, que escreveu e permitiu que os atores brilhassem.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Lei de Karmurphy

O karma, para quem acredita nas ideias budistas, diz que colhemos o que plantamos, ou seja, se tivermos bons comportamentos e agirmos corretamente para com os outros, seremos recompensados no futuro, caso contrário, se procedermos de forma errada, mais à frente, ou mesmo muito mais à frente no tempo ou até numa outra vida qualquer (reencarnação) seremos punidos. E é então aqui  que o karma entra em cena. Isto também poderia ser traduzido por uma 2a lei de Newton adaptada, uma coisa deste género: quanto pior agires sobre os outros o universo responderá com igual força e igual maldade sobe ti. Só que, cá entre nós que o Buda não nos ouve, é uma pena que tenha que se esperar tanto tempo para poder observar tal reação. Quer dizer, um gajo tem que morrer para depois poder ver o Adolf Hitler nascer cigano, ser descriminado e acabar gaseado pelo André Ventura!

Edward Murphy foi um engenheiro aeroespacial que no século passado acabou por ficar na história por dar o seu nome à conhecida lei de Murphy e consequentemente a muitas outras umas espécies de provérbios em que o mais conhecido começa por dizer que "qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível".

Ora, se juntarmos o karma com a lei de Murphy que temos então: a Lei de Karmurphy. Não me digam que nunca tinham ouvido falar? É provável, acabei de inventar agora e diz o seguinte:

Quando menos esperares, se o karma puder correr mal, correrá mal da pior forma possível no pior momento possível.