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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Lições do Meu Avô: Significado de Falência

O meu avô, que mal sabia ler e escrever mas que foi para mim uma referência moral, explicou-me certa vez:

- "Sabes o que é uma falência?
É tirar o dinheiro dum bolso e metê-lo noutro" (sem pagar o que se deve).



segunda-feira, 27 de abril de 2020

quinta-feira, 2 de abril de 2020

A Forma Certa Para o Pé

Sempre vi no meu avô aquela pessoa muito vertical e correta em quem me deveria inspirar. O meu avô não teve uma vida propriamente fácil. Cedo ficou sozinho no mundo com os irmãos pequenos, e sem pais, primeiro porque o pai fugiu com uma brasileira para o Brasil, abandonando cá a esposa grávida, e segundo porque pouco tempo depois a mãe morreu. Eram tempos de muita fome e doenças e as pessoas mais pobres morriam frequentemente. E é por isso que ninguém poderia falar bem do Salazar ao pé do meu avô que ele exaltava-se, porque em tempos de liberdade, ninguém deveria falar bem de um ditador que dava fome ao povo e deixava-o morrer, e depois ainda tinha a grande lata de dizer que mandava as sobras de Portugal para ajudar os países europeus em guerra.

O meu avô ficou ao cuidado de uma tia, irmã do pai, que teve que andar a pedir para alimentar aquelas quatro crianças, que, mal começaram a ter idade, tiveram que ir servir, como se dizia na altura, para casas de pessoas de mais posses, serem basicamente escravas, ainda que, como ainda me lembro de ouvir o meu avô contar, em casas em que se rezava o tercinho todos os dias porque era tudo gente de bem e temente a Deus-Nosso-Senhor mas os criados bem que podiam ir para o Inferno mortos de fome.

O meu avô casou e, ao contrário do irmão gémeo, que cedo tratou de arranjar um trabalho por conta de outrem, o meu avô sempre foi vivendo da terra, naqueles tempos em que se faziam terras, e em que do trabalho que se tinha a plantar, metade do que a terra dava, ainda tinha que se entregar a senhorio. Metade aos melhores senhorios! porque os mais fascistas exigiam duas partes e o rendeiro morria de fome com a parte que lhe restava para alimentar toda a família. E não deixa de ser irónico que, hoje, que os tempos da escravatura felizmente que já passaram, é ver agora todas aquelas enormes quintas aqui em volta, vedadas ao abandono, a silvas e mato. É fácil ser-se empreendedor quando os outros trabalham por nós, mas ainda há quem diga que "agora ninguém quer trabalhar". As pessoas querem trabalhar porque o dinheiro não cai do céu, não querem é ser escravas.

O primeiro filho do meu avô foi a minha mãe, que, ainda muito criança começou a lidar com o gado, a cozinhar e que ia para a escola de socos velhos, muitas vezes sem meias. Ouvi-a contar até que, certo dia, estava tanto frio, que teve que pôr a mala no chão e colocar os pés por cima. Aprendeu costura e, ainda por estes dias de quarentena, de umas meias grossas costurou um belo gorro! Pena não ter tirado uma fotografia às meia para ter o antes e o depois. Mas costura foi profissão que não seguiu porque cedo a vista lhe traiu os planos.
A filha do meu avô foi crescendo e tornou-se uma bonita jovem, recatada, de cabelos loiros, volumosos, e cheia de predicados que interessavam os jovens casadoiros da altura. Mas apesar de atrair também os filhos de boas famílias, que é como quem diz, de famílias de posses, muito superiores aos parco recursos dos meus avós, minha mãe acabou sempre a fugir deles.

O meu avô sempre instruiu a minha mãe que nós devemos procurar uma forma certa para pé, e não devemos querer uma forma que nos fique muito folgada e sempre foi assim que a filha do meu avô procedeu. Mas muitos anos mais tarde, haveria de chegar o dia em que a filha do meu avô se vira para mim e me diz:
- "Acho que ela tem uma forma um bocado grande para o teu pé".

# Origem da Expressão "pé rapado"

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Quando o Meu Avô Rasgou o Cartão de Sócio

Passava os olhos pelas capas dos jornais desta manhã, e uma frase de um treinador ("marcamos mais golos mas não ganhámos") fez-me lembrar de uma das muitas histórias que o meu avô contava e que eu nunca me cansava de ouvir: o dia em que ele, em pleno campo da bola, rasgou o cartão de sócio e decidiu nunca mais ir ver um jogo de futebol.

Apesar de ter ouvido esta história dezenas de vezes (peço desculpa mas o neologismo "estórias" faz-me bué da comichão na psoríase) na verdade já não sei bem todos os pormenores.

Creio que se tratava de um daqueles clássicos, um Medas - Zebreiros (ou seria um Medas - Melres?) jogos que na certa acabam em pancadaria, e que, segundo o meu avô, o árbitro esteve sempre a prejudicar o clube que era associado. E por falar em associado, ainda por cima, o meu avô já andava a ficar chateado porque, lá de longe a longe, quando se lembrava de ir ver um jogo, chegava ao lá e, azar, era "Dia de Clube" e lá tinha de pagar! E até que, nesse tal clássico da terrinha, houve um lance por demais evidente da roubalheira. Farto daquilo, o meu avô, ainda no campo rasgou o cartão de sócio e fez promessa de não voltar a meter os pés num campo de futebol. 

"Ando-me para aqui a chatear, a gastar dinheiro, quando na verdade só ganha quem aqueles senhores de preto quiserem? Não!"

Eu estou em crer que, quando a maioria das pessoas fizer o mesmo, talvez os senhores que mandam tomem de facto medidas para que o futebol deixe de estar aVARiado. 

Imagem emprestada da net

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Faz hoje 26 Anos

17 de Novembro de 1990

Durante a semana arranjei a trocar com um colega da escola uma moeda de 2 Centavos (a mais antiga que tinha) e que datava de 1920 por outra de 5 Centavos de 1927, o ano em que o meu avô tinha nascido. Claro que a moeda que eu tinha era sete anos mais antiga, deveria valer mais alguma coisa ou ser mais rara, no fundo eu estava a perder, mas para mim era mais importante ter uma moeda do ano do meu avô, por isso eu saía sempre a ganhar: uma moeda com os mesmos anos do meu avô?isso era espetacular!

Naquele sábado de manhã eu saí bem cedo de casa, bem agasalhado e fui para casa dos meus avós, especificamente só para mostrar, cheio de orgulho, aquela moeda ao meu avô. 
Metade do percurso o caminho era feito pelo meio do mato, e outra metade num estradão largo de terra batida. Eu vestia um casado preto, que na altura lhe poderíamos chamar de Kispo, mas não era Kispo. Era um casaco de marca, de qualidade, com uma letra ou símbolo vermelho do lado esquerdo do peito, mas de outra marca qualquer. Era um casaco que os meus pais nunca que me poderiam ter dado porque não tinham dinheiro para tal. Foi uma das muitas peças de roupa usada que usei em criança e adolescente. 

A casa dos meus avós era a única casa junto ao rio Douro, num fundão, bem longe das casas mais próximas. Num local daqueles é importante ter um cão, que faz o papel de guarda, avisando quando alguém se aproxima. Quando cheguei a casa do meu avô vi que o cão estava solto mas não liguei, continuei a andar e virei-lhe as costas. Aquele era um cão preto, mas acho que também tinha uns castanhos, e que costumava estar preso a cadeado junto a uma casota, fora de casa e até fora do terreno dos meus avós, abrigado por pinheiros e eucaliptos. 

E eis se não quando, do nada, silenciosamente, e vindo sei lá se onde, sou atacado pelas costas pelo raio do cão. Nunca lhe fiz mal nem bem. Não tinha qualquer relação com o bicho, mas ele conhecia-me bem, pois como é normal eu frequentava a casa dos meus avós com frequência.  

Só sei que do nada senti-lhe os dentes a entrar na minha carne. Ele era grande mas nunca me conseguiu deitar ao chão. Acho que foi a minha sorte. A outra sorte foi aquele casaco bem resistente que trazia vestido. Os meus berros deveriam ser bem altos. Dias depois, algumas pessoas, lá do outro lado do rio, quando por ali passaram por casa dos meus avós - naquela altura havia um barqueiro para atravessar as pessoas de uma margem para a outra - perguntaram o que se tinha passado pois tinham ouvido alguém berrar do lado de cá. 

A minha avó estava a lavar a roupa lá mais abaixo, mesmo perto do rio, num pequeno tanque, aproveitando uma fonte natural que por lá existia. Foram muitos minutos em que estive envolvido com aquele cão a lutar para sair dali o melhor possível. Lembro-me de lhe agarrar com força pelas orelhas e puxá-lo para o afastar de mim.

Foram muitos minutos. Intermináveis. Só quando a minha avó conseguiu chegar cá acima o cão deixou de me atacar. Ironicamente ali mesmo em frente, a poucos metros de mim, dentro de uma pequena casa contígua à casa-mãe que o meu avô construiu para o filho do meio, a mulher desse meu tio escutava tudo o que se passava e não fez nada. Bastava vir cá fora e chamar o cão e tudo acabava. Mas não veio. Deixou-me estar ali a ser mordido uma e outra e outra vez...sucessivamente. 

Lembro-me de estar já deitado na cama dos meus avós e só querer a minha mãe. E a minha mãe haveria de chegar... E haveria de chegar depois a ambulância.

Pediram-me para mentir e eu menti. Quando no hospital a polícia me perguntou, eu disse que tinha sido um cão vadio... como se fosse costume os cães vadios ferrarem as pessoas. Acabou por não acontecer nada ao cão que me mordeu... coitadinho do bichinho lindo! Acabou por morrer mas de morte natural. Também não tomei as injeções que me tinham prescrito por causa da raiva. 

Já não sei em que momento acabei por mostrar a moeda de 5 Centavos de 1927 ao meu avô. Nem sei se ele valorizou... mas claro que ainda a tenho comigo e faz hoje vinte e seis anos que tudo isto aconteceu.


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Histórias do meu avô - O Tavares

Sempre gostei de ouvir as histórias do meu avô materno, o único avô que conheci. Nos últimos anos as histórias repetiam-se, já as conhecia de cor, mas nunca me cansei de as ouvir mais uma vez, talvez por saber que um dia iria sentir saudades de as ouvir  pela voz do meu avô.

Por estes dias, andava a trabalhar no jardim, no caso a acartar umas pedras, e de imediato lembrei-me da história do Tavares!

freeimages.com

O meu avô andava na escola, a preparar-se, já em adulto, para fazer o exame da terceira classe. Certo dia a professora pergunta a um seu colega:

- Um a e um i Tavares? 
- Soco minha senhora! 
(Nunca percebi o que o homem quereria dizer com isto, e acho que o meu avô também não)
- Ò Tavares, vamos supor que o Tavares anda trabalhar, a tombar uma pedra, e atraca-se. O que é que  o Tavares diz?
- Fôôôôôôda-se! (Enquanto o dizia, abanava rapidamente a mão,batendo com indicador no dedo médio!)

domingo, 13 de abril de 2014

A "escola de excelência"

Passava os olhos pelas capas dos jornais, e o cherne Durão, ex-comunista e ex-primeiro-ministro, que abandonou o país, para ir nadar em águas europeias, bem mais ricas que aquilo que as nossas lhe poderiam dar, vem agora, com grande lata, falar da "cultura de excelência" da escola de Salazar. Ainda por cima escolhe o momento certo, quando estamos a duas semanas de comemorarmos os quarenta anos de 25 de abril. E como eu não acredito em coincidências...

Deus, sempre amigo dos fascistas!

Eu já nasci depois do antigo regime ter caído da cadeira, não vivi nesse tempo, mas tive pais e avós, e sei muito bem, ao contrário de alguns, que sempre viveram numa bolha e protegidos da realidade o que se passava na altura. A cultura de excelência da escola dos fascistas, era uma criança ter de andar a trabalhar no campo de manhã bem cedo, para ajudar os seus pais, e depois ir para a escola quando calhasse, além de suja, na maioria dos casos descalça, pois a maioria das pessoas, nem dinheiro tinha, para poder comprar um par de sapatos para dar aos seus filhos.

São tão lindos os "pretinhos" - não são?

A cultura de excelência da educação nos tempos de Salazar era tal, que a larga maioria das pessoas era analfabeta! E com muita sorte, as crianças naquele tempo, tinham a oportunidade de fazer a quarta-classe, mesmo que tivessem capacidades para muito mais. Ainda hoje é o dia, que a minha mãe se lamenta, de não ter tido a oportunidade, de ter podido estudar e fazer mais do que a instrução primária. Olha que sorte teve ela teve em viver na "cultura de excelência" fascista!

Propaganda fascista nos livros de instrução primária
E tu cherne, também  ias para a escola descalço, ou caminhavas com sapatinhos de burguês?