quinta-feira, 11 de junho de 2020

Quando um Doido Governa um País

Esta semana comprei mais dez livros - sim, eu sei, tenho que me inscrever nos compradores-impulsivos-de-livros-anónimos! - e de todos eles interessavam-me especialmente dois volumes sobre a instauração da ditadura em Portugal e mais concretamente sobre a PIDE.



Ainda antes mergulharmos no livro, o choque de uma citação de João Chagas (1863 - 1925) que foi o primeiro uma espécie de 1º Primeiro Ministro da República em 1911. Não sei em que contexto isto foi dito, mas é de uma atualidade assustora:

"Imagine-se um desses doidos ignorados dirigindo a sociedade. Um doido desses espalha a loucura. Dêem-lhe um ano de poder e, ao cabo de um ano, a sociedade está com ele doida. Todos procurarão interpretar os atos da sua razão perdida e como não é possível possível admitir que um doido presida aos destinos sociais, esses atos, por muito extravagantes que sejam, encontrarão sempre quem os procure justificar."

domingo, 7 de junho de 2020

Há Que Continuar a Empurrar o Céu Para Longe...



"Tenho um sentimento que não vai embora...
Percebeste bem... Continuar a empurrar e continuar a empurrar o céu para longe..."


"Push The Sky Away" / Nick Cave (2013)


sábado, 6 de junho de 2020

Como Era a Higiene na Roma Antiga?

Ler um livro escrito por alguém que viveu há mais de dois mil anos e que, por vezes, vai descrevendo como era a sua vida nesse tempo, é extraordinariamente interessante, visto que, além da riqueza do conteúdo e de percebermos neste caso qual o pensamento estóico sobre a vida, podemo-nos também aperceber que a nossa vida hoje em dia não mudou grande coisa.

Se calhar hoje as pessoas podem pensar que há dois mil anos as pessoas eram umas porcas e nem banho tomavam, porque quando pensamos no passado, eu pelo menos penso na Idade Média, mas a verdade é que, pelo menos na Roma Antiga, os hábitos de higiene não eram em nada inferiores ao dos nossos dias.

Para situar no tempo, Séneca foi contemporâneo de Cristo, e Cipião Africano (general romano) que ele retrata neste excerto, viveu cerca de duzentos anos antes:


"Vi ainda o pequeno balneário , bem escuro, segundo a moda de antigamente: os nossos maiores não apreciavam os banhos quentes senão às escuras! Senti então um grande prazer ao confrontar os costumes de Cipião com os nossos de hoje: era em semelhante cubículo que o grande homem  - o "terror de Cartago" -, a quem Roma ficou devendo não ter sido conquistada pela segunda vez, lavava o corpo cansado dos labores agrícolas! Sim, que ele não se eximia ao trabalho, mas seguindo os antigos costumes, arava ele próprio a terra. Cipião viveu sob este teto tão sem graça, pisou estes pavimentos tão ordinários! Nos dias de hoje, quem se resignaria a tomar banho em condições semelhantes? Qualquer um se considera pobre e mesquinho se as suas paredes não resplandecerem com grandes e preciosas incrustações, se os seus mármores de Alexandria não forem decorados com mosaicos da Numídia, trabalhosamente recobertos de verniz como se de pinturas se tratasse, se não tiverem uma cúpula recoberta de vidro, se o mármore de Tasos não revestir as piscinas onde metemos o corpo emaciado pelo banho de vapor, se, enfim, a água não correr de torneiras em prata! E, por enquanto, até estou falando das canalizações da plebe: que não dizer quando me referir aos balneários do libertos! Que multidão de estátuas, que sem número de colunas que nada sustentam, apenas decorativas, só para exibição de riqueza! Que abundância de água caindo ruidosamente das cascatas! Chegamos ao luxo de só poder pisar em pedras preciosas!...
No balneário de Cipião não há propriamente janelas, mas apenas umas fendas estreitas que deixam entrar a luz sem pôr em causa a solidez da construção. Hoje dá-se o nome de "banhos para traças" aos balneários cuja construção permite receber a luz durante o dia todo por janelas enormes. Se é impossível tomar banho e ficar bronzeado ao mesmo tempo, se não se pode contemplar a paisagem de dentro da banheira, já não presta! (...)

Abunda hoje quem acuse Cipião de perfeito provinciano por não ter nos seus banhos quentes largas vidraças para deixar entrar o sol, e não se deixar destilar no meio da luz à espera de fazer a digestão no banho. 
"Oh pobre homem! Nem sabia viver!" Cipião não se lavava com água filtrada, frequentemente ela estava turva, e quando chovia mais, quase ficava no lodo. A ele, aliás, não lhe fazia diferença lavar-se assim, pois ia ao banho para se limpar do suor, e não dos perfumes. Não imaginas o que dizem os delicados de hoje? "Não invejo esse Cipião! Tomar banho em condições semelhantes é de facto viver exilado!..." Pois digo-te ainda mais: ele não tomava banho todos os dias. Segundo os eruditos que referem os velhos costumes de Roma, os antigos lavavam todos os dias os braços e as pernas, ou seja, a parte do corpo onde se juntava sujidade proveniente do trabalho. Banho completo, só de nove em nove dias. Nesta altura haverá certamente quem diga: "Que porcos deviam eles andar!" A que julgas tu que eles cheiravam? A vida militar, a trabalho, a homem em suma. 

Cartas a Lucílio (carta 86) - Séneca 

Quando os Aviões Bombardeiam Nós Jogamos Futebol?

Disseram-nos que isto da pandemia era uma guerra, não foi? 

Muito bem. Então quando os canhões inimigos disparam incessantemente e as anti-aéreas ainda não conseguem abater todos os aviões que não param de nos bombardear,  nós dizemos "que se lixe" e vamos mas é jogar futebol?



Depois de três meses que foi um descanso sem futebol, eis que os responsáveis do futebol, com o total apoio dos responsáveis políticos e governo - que eu saiba nenhum partido se manifestou contra o regresso do futebol - aprovaram o regresso do futebol, esquecendo-se que, apesar de terem proibido os santos populares e os festivais de verão, passado umas semanas, no fim do campeonato os adeptos irão para as ruas festejar o título como se não houvesse amanhã.

Sim, é verdade. Os responsáveis disseram que contam com a responsabilidade dos adeptos. Obviamente, até porque, como todos nós sabemos, os adeptos de futebol são das pessoas mais responsáveis e cumpridoras da lei que conhecemos na sociedade! Não há quaisquer motivos para preocupações. Os adeptos de futebol vão ficar todos em casa vendo pela televisão estas dez jornadas que faltam, não se irão misturar, e quando houver campeão ficarão todos, cada um na sua casa. 

As pessoas insurgiram-se contra cem pessoas no parlamento aquando do 25 de Abril; insurgiram-se aquando da manifestação do 1º de Maio da CGTP e, que se saiba não infetou centenas de sindicalistas; as pessoas vão para as praias fotografar os outros e depois meter nas redes sociais: "vejam como vem toda a gente para a praia em tempo de pandemia". Mas, estranhamente, não vejo manifestações violentas de nenhum partido, nem de milhares de indignados nas redes sociais por causa do futebol. Devo ser só eu que considero isto um perfeito absurdo e que não está tudo bem.   

quarta-feira, 3 de junho de 2020

O Racismo e a Polícia nos Estados Unidos

"Terras boas, diz você? E ninguém as cultiva?

- Não senhor. É assim mesmo. E quando vocês virem isso ficam danados. E ainda não viram nada. Aquela gente tem uma maneira de olhar para nós que até faz ferver o sangue. Olham para nós e dizem: "Não gosto de ti meu filho da puta". Depois vêm os delegados do sheriff e vocês são perseguidos. Acampamos em qualquer lugar à beira da estrada, e eles mandam-nos embora. Basta olhar para a cara deles; logo se vê a raiva que têm à gente. E... vou-lhes dizer uma coisa: eles têm-nos raiva porque têm medo. Sabem que, quando alguém tem fome, trata de arranjar comida, ainda que tenha de a roubar. Sabem que deixar as terras abandonadas é um pecado, e que alguém se dispõe logo a tomá-las . Diabo! Ainda ninguém vos chamou "Okies"?
Tom perguntou:
- "Okies"? Que quer isso dizer?
- Bem, antigamente, "Okie" era aquele que vinha de Oklahoma. Agora é o mesmo que chamar a um tipo filho da puta. "Okie" quer dizer que o sujeito é uma merda. A palavra, em si, não quer dizer nada; o que mete raiva é a maneira como eles a dizem. Mas não vale a pena dizer mais nada. Vocês têm que ver a coisa pessoalmente. Têm que ir para lá. Ouvi dizer que há por lá agora umas trezentas mil pessoas, da nossa região, gente que vive como porcos, porque tudo na California tem dono. Não sobra coisa nenhuma. E os donos disso tudo agarram-se às suas coisas que eu cá sei. Até são capazes de matar. Têm tanto medo que ficam doidos. Vocês vão ver, vão ouvir o que por lá se diz. É a mais linda terra do Mundo, mas o povo de lá é um bocado ruim. Tem tanto medo e tantos cuidados que até desconfia da sua própria gente. 
Tom olhou a água e enterrou os calcanhares na areia. 
- Mas, se alguém trabalhar e fizer economias, pode comprar um pedacinho de terra, não pode?
O homem mais idoso riu e olhou para o filho, e o rapaz, calado, arreganhou os dentes numa expressão quase triunfal. E o homem disse:
- Vocês não conseguirão nenhum trabalho certo. Terão de arranjar dia a dia o dinheiro para a comida. E vão precisar trabalhar para uma gente mesquinha como o Diabo. Se apanharem algodão, podem estar certos que a balança está viciada. Talvez não aconteça sempre, mas geralmente é o que se dá. Terão, por isso, de partir do princípio que todas as balanças estão viciadas, porque lhes é impossível saber quais é que estão certas. E não poderão fazer nada, mesmo nada. 
O pai perguntou em voz baixa:
- Então... então aquilo por lá não é nada bom, pois não?
- É bom, muito bonito tudo aquilo, mas a gente não consegue nada. Há, por exemplo, um pomar cheio de laranjas maduras... e um sujeito armado de revólver, que dá um tiro no primeiro que mexer nelas. E há um sujeito, dono de um jornal, lá perto da costa, que tem um milhão de acres de terra...
Casy ergueu vivamente a cabeça:
 - Um milhão de acres? Que diabo faz o homem com tanta terra?

(...)

- Vocês vão-se embora daqui?
- Não sei, disse Tom. Você acha melhor?
Floyd riu com azedume.
- Não ouviu o que o polícia disse? Se a gente não abalar deitam fogo a todo o acampamento. Se você pensa que esse delegado aguenta uma coisa daquelas sem mais nem menos e não vai tratar de se vingar, é porque não está bom da cabeça. Garanto que essa gente volta hoje mesmo à noite, para queimar tudo(...)
- O que eu não sou capaz de compreender é porque é que aquele polícia se armou se armou em teso. Parece que queria à viva força armar uma zaragata. O que ele queria era aquilo - disse Tom. 
- Nao sei como é a coisa por aqui, mas no norte conheci um polícia que era uma excelente criatura - afirmou Floyd. - Ele contou-me que, na zona dele, os polícias têm de caçar gente para meter no xadrez. O sheriff ganha 75 por dia por cada preso que meter na cadeia e só gasta 25 para lhe dar de comer. Não tendo presos deixa de ganhar dinheiro. O tal polícia disse-me que passou uma semana sem prender ninguém, e então o sheriff disse-lhe que tratasse de arranjar presos ou então que entregasse o emblema. Também esse gajo que esteve por aqui parecia disposto a prender gente de qualquer maneira. 

SIPNOPSE:
Na década de 1930, as grandes planícies do Texas e do Oklahoma foram assoladas por centenas de tempestades de poeira que causaram um desastre ecológico sem precedentes, agravaram os efeitos da Grande Depressão, deixaram cerca de meio milhão de americanos sem casa e provocaram o êxodo de muitos deles para oeste, rumo à Califórnia, em busca de trabalho. Quando os Joad perdem a quinta de que eram rendeiros no Oklahoma, juntam-se a milhares de outros ao longo das estradas, no sonho de conseguirem uma terra que possam considerar sua. E noite após noite, eles e os seus companheiros de desdita reinventam toda uma sociedade: escolhem-se líderes, redefinem-se códigos implícitos de generosidade, irrompem acessos de violência, de desejo brutal, de raiva assassina. Este romance que é universalmente considerado a obra-prima de John Steinbeck, publicado em 1939 e premiado com o Pulitzer em 1940, é o retrato épico do desapiedado conflito entre os poderosos e aqueles que nada têm, do modo como um homem pode reagir à injustiça, e também da força tranquila e estoica de uma mulher. As Vinhas da Ira é um marco da literatura mundial.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Como Hoje Ganhei Uma Medalha Por Grandes Feitos de Bravura

Disseram-nos que isto da pandemia era uma guerra, não é? 

Então eu hoje vou contar-vos como ganhei uma medalha de guerra por grandes feitos de bravura. 

Qual soldado que abandona a trincheira e que atravessa as linhas inimigas e passa por balas rasantes que trespassam muitos colegas, qual quê! 



Eu hoje fui ao hospital. Muito mais aterrador!

Chegado à portaria de máscara não cirúrgica pediram-me para a retirar e deram-me uma. 
Enquanto o segurança me aponta uma espécie de arma à cabeça, pergunta-me ao mesmo tempo se me pode tirar a temperatura. 
Segui a sinalização que separava as pessoas consoante queriam ir para consultas ou para análises e entrei depois propriamente na central de consultas. As pessoas que entram não se cruzam com as pessoas que saem. Entrei e o senhor que estava a receber as pessoas pediu-me para passar as mãos por desinfetante. E voltaram-me a tirar a temperatura e lá me deu a senha. Quantas pessoas tinha à minha frente? Nenhuma! Eu era o próximo. 
E da receção lá me encaminharam para a zona dos vampiros. Nesta fase ainda não se paga nada.
Desci, e lá me encaminhei para a grande sala de espera que estava.... Vazia!! Nem uma só pessoa! As cadeiras estavam identificadas, em quais as pessoas se podiam, ou não, sentar. Eu fiquei de pé e dentro de dois ou três minutos fui chamado. 
Lá dentro explicaram-me. Diariamente são chamadas poucas pessoas para garantir uma distância de segurança, mas mesmo assim, a maioria falta! 

Agora digam lá que eu não sou um verdadeiro herói! Vou imprimir o comprovativo de presença e anexar ao currículo pois certamente é uma grandessíssima mais valia em qualquer recrutamento.