domingo, 5 de abril de 2020

Esta é a Resistência Final


"... Pedido de contramedidas
Para declarar a reivindicação desta minha caverna
Nada a tomar e nada a ser dado
Enquanto a janela fica preta
Um processo deixado para a solidão
A ação é deixada por fazer
Respostas deixadas para o eco
Nos silenciosos corredores de ninguém, oh

O que é que me podes dizer sobre o interior
É tão brilhante quanto todos podem ver?

Derruba as esperanças e aspirações
Fecha as janelas com força
Todos disseram: “Não! Não! Não!"
Redefine os teus medos e boas intenções
Barrado pela vida
Todos disseram: “Não! Não! Não!"

O que é que me podes dizer sobre o interior
É tão brilhante quanto todos podem ver?

Esta é a resistência final


"Final Resistance" / Dark Tranquility (2002)

O Estado de Emergência é Para Todos, Menos Um



Os grandes líderes políticos vêem nas graves crise, tal como os grandes jogadores se vêem nos grandes jogos. Porque sem sermos testados somos todos os melhores da nossa rua. Em plena pandemia, seria de esperar da mais alta figura da nação, postura e sentido de estado, e é tudo que faltado em Marcelo Rebelo de Sousa. 

Ser-se presidente enquanto tudo corre bem é fácil. Aprovam-se as leis, faz-se uns discursos bonitos aqui e ali, aparece-se em todo o lado, distribuem-se abraços e beijinhos, tiram-se milhares de fotografias, condecora-se muita gente e fica-se sempre bem na fotografia. 

O primeiro caso de coronavírus COVID-19 apareceu em Portugal há cerca de um mês. Uma semana depois, Marcelo decide suspender a agenda e fazer um teste, quando o que a DGS disse é que os testes só seriam feitos a pessoas com sintomas. Marcelo não apresentava qualquer sintoma de estar infetado e o resultado deu negativo. Marcelo mesmo assim, manteve uma quarentena voluntária, e quinze dias depois voltou a fazer novo teste!

No dia 18 Marcelo decreta o estado de emergência e diz: "Isto é uma guerra, temos que estar todos unidos". Dia 2 de Abril, um mês depois de conhecido o primeiro caso de coronavírus em Portugal, Marcelo prolonga o estado de emergência e diz: "este é, vai ser, o nosso maior desafio dos últimos 45 anos". 

Dois dias depois e em plena fase crítica, em que todos apelam a  que os portugueses fiquem em casa e limitem os contactos sociais desnecessários, o que é que Marcelo Rebelo de Sousa faz? Vai visitar uma exploração agrícola e ver como vai a plantação de tomate!

Marcelo, como é sabido e exposto pelo próprio é hipocondríaco, e, carrega sempre consigo um monte de medicamentos para qualquer eventualidade. Só que, infelizmente, a falta dos holofotes e do protagonismo político é ainda maior que o medo de ser infetado. Mas o que o país não precisava neste momento era de um presidente da república que em vez de ajudar, atrapalha o trabalho dos outros. Quando o melhor que podia fazer era dar o exemplo e ficar resguardado, não, logo a seguir a prolongar o estado de emergência lembra-se de ir ver como estão os tomates! 

Conversas Improváveis (52) - Na Mercearia: - Tem Álcool?

Na mercearia entra um senhor e depois vira-se para a merceeira e pergunta:
- Tem álcool?
Responde a merceeira:
- Tenho sim. Tenho ali daquele de quinze anos a 30€ e do outro de trinta anos a 75€. Qual dos dois é que o senhor prefere?

sábado, 4 de abril de 2020

Estados Unidos: o Desprezo pela Vida Humana

Reuters
Vivemos um período complicado das nossas vidas e dos diferentes países por todo o mundo, sob a ameaça de um vírus invisível que causa uma doença, e que, nas pessoas de mais idade e nos mais fragilizados, pode levar à morte e tem sido a tragédia que se conhece. 

Apesar de por estes dias não andar a acompanhar grande coisa das notícias, até para a minha saúde mental, vou no entanto vendo o essencial; as capas dos jornais, dou uma vista de olhos, principalmente, no Público e no The Guardian e vou acompanhando o que os jornalistas que sigo no Twitter vão dizendo e partilhando. 

Mas houve uma coisa por estes dias que realmente me chocou, e que acho que deve chocar qualquer pessoa. Nos Estados Unidos, que é um país considerado rico, não é?, em Las Vegas (estado do Nevada mesmo ao lado da Califórnia) foi decidido uma coisa espantosa para ajudar os sem abrigo! Então, neste país rico, dos mais capitalistas e poderosos do mundo, que é que se lembraram de fazer?Decidiram usar um parque de estacionamento e pintar umas linhas de metro e meio, como mandam as regras da distância social, fazendo assim um parque de estacionamento isolado para os sem abrigo! Não é genial? De que mente brilhante terá saído esta ideia genial? É que isto merece um Nobel da economia!

Getty Images
Não, infelizmente não merece e eu estava a ser irónico. É desumano. Não tem outro nome, é desumano. É o desprezo pela vida humana levado ao extremo. Eu certamente teria vergonha de viver num país assim. Com tantos hotéis fechados, com tantos pavilhões desportivos fechados, com tantas outras infraestruturas fechadas e nos Estados Unidos, num dos ditos países mais ricos do mundo, é desta forma que tratam as pessoas? Por que é que, por exemplo, o presidente americano, conhecido empresário multimilionário não dá o exemplo e disponibiliza os seus hotéis e resorts de golfe para ajudar os sem abrigo? Não, tratam-se as pessoas como um monte de esterco.

Já eu vivo em Portugal, num país da Europa mas um país dito pobre. Não fomos à lua, não criamos guerras artificiais para explorar as riquezas dos outros países, vivemos com as nossas dificuldades de salários baixos e em que as pessoas muitas vezes têm que emigrar para terem melhores condições de vida. Mas no meu país pobre, que vive com as dificuldades que se conhece, vindos, ainda por cima, de uma grave crise económica mundial, que nos meteu o pé no pescoço, neste meu país tratam-se todas as pessoas doentes todas por igual, sejam ricos ou sejam pobres. No meu país dito pobre, um adolescente de 17 anos não é impedido de ser tratado num hospital porque não tem seguro de saúde. Nos Estados Unidos esse jovem morreu sem ser tratado. Em Portugal certamente que se tinha feito tudo para que isto não acontecesse. 

Mas veio agora esta pandemia e já nos está a mostrar muitas coisas. Mesmo em Portugal, com gente que defende o capitalismo selvagem americano a quase ter virado comunista!
Branko Milanovic,  um dos mais reconhecidos economistas da desigualdade e autor, por exemplo, dos livros "A desigualdade no Mundo" e  de 2019 "Capitalism, alone", escreveu no Twitter:

"The rich people in the US never thought that a broken health care system will ever matter to them. Now it does."

("Os americanos ricos nunca pensaram que um sistema de saúde falido lhes interessaria. Mas agora interessa)

E o que eu acho é que países ricos têm capacidade financeira para tratar dos seus doentes. Todos, sejam ricos ou pobres. Países ricos não têm 140 milhões e pobres e 41 milhões de sem abrigo como tem os Estados Unidos. Países ricos preocupam-se com todos os seus cidadãos, não se preocupam só com as contas bancárias dos mais ricos fazendo leis para que os mais ricos paguem cada vez menos impostos. Os Estados Unidos é um país rico, mas só para alguns. Muito poucos. 

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Como é Que se Proíbe Algo Que Aconteceu Há 3500 Anos?


Vejo as páginas dos jornais do dia de hoje e desde logo há uma dúvida existencial que me assalta. Segundo vários órgãos de comunicação social (não é só o Correio da Manhã como vemos na imagem) afirmam que, por causa do estado de emergência a Páscoa será proibida. E a pergunta que eu faço aos senhores jornalistas é: como é que se consegue proibir algo que aconteceu há 3500 anos?  


quinta-feira, 2 de abril de 2020

A Forma Certa Para o Pé

Sempre vi no meu avô aquela pessoa muito vertical e correta em quem me deveria inspirar. O meu avô não teve uma vida propriamente fácil. Cedo ficou sozinho no mundo com os irmãos pequenos, e sem pais, primeiro porque o pai fugiu com uma brasileira para o Brasil, abandonando cá a esposa grávida, e segundo porque pouco tempo depois a mãe morreu. Eram tempos de muita fome e doenças e as pessoas mais pobres morriam frequentemente. E é por isso que ninguém poderia falar bem do Salazar ao pé do meu avô que ele exaltava-se, porque em tempos de liberdade, ninguém deveria falar bem de um ditador que dava fome ao povo e deixava-o morrer, e depois ainda tinha a grande lata de dizer que mandava as sobras de Portugal para ajudar os países europeus em guerra.

O meu avô ficou ao cuidado de uma tia, irmã do pai, que teve que andar a pedir para alimentar aquelas quatro crianças, que, mal começaram a ter idade, tiveram que ir servir, como se dizia na altura, para casas de pessoas de mais posses, serem basicamente escravas, ainda que, como ainda me lembro de ouvir o meu avô contar, em casas em que se rezava o tercinho todos os dias porque era tudo gente de bem e temente a Deus-Nosso-Senhor mas os criados bem que podiam ir para o Inferno mortos de fome.

O meu avô casou e, ao contrário do irmão gémeo, que cedo tratou de arranjar um trabalho por conta de outrem, o meu avô sempre foi vivendo da terra, naqueles tempos em que se faziam terras, e em que do trabalho que se tinha a plantar, metade do que a terra dava, ainda tinha que se entregar a senhorio. Metade aos melhores senhorios! porque os mais fascistas exigiam duas partes e o rendeiro morria de fome com a parte que lhe restava para alimentar toda a família. E não deixa de ser irónico que, hoje, que os tempos da escravatura felizmente que já passaram, é ver agora todas aquelas enormes quintas aqui em volta, vedadas ao abandono, a silvas e mato. É fácil ser-se empreendedor quando os outros trabalham por nós, mas ainda há quem diga que "agora ninguém quer trabalhar". As pessoas querem trabalhar porque o dinheiro não cai do céu, não querem é ser escravas.

O primeiro filho do meu avô foi a minha mãe, que, ainda muito criança começou a lidar com o gado, a cozinhar e que ia para a escola de socos velhos, muitas vezes sem meias. Ouvi-a contar até que, certo dia, estava tanto frio, que teve que pôr a mala no chão e colocar os pés por cima. Aprendeu costura e, ainda por estes dias de quarentena, de umas meias grossas costurou um belo gorro! Pena não ter tirado uma fotografia às meia para ter o antes e o depois. Mas costura foi profissão que não seguiu porque cedo a vista lhe traiu os planos.
A filha do meu avô foi crescendo e tornou-se uma bonita jovem, recatada, de cabelos loiros, volumosos, e cheia de predicados que interessavam os jovens casadoiros da altura. Mas apesar de atrair também os filhos de boas famílias, que é como quem diz, de famílias de posses, muito superiores aos parco recursos dos meus avós, minha mãe acabou sempre a fugir deles.

O meu avô sempre instruiu a minha mãe que nós devemos procurar uma forma certa para pé, e não devemos querer uma forma que nos fique muito folgada e sempre foi assim que a filha do meu avô procedeu. Mas muitos anos mais tarde, haveria de chegar o dia em que a filha do meu avô se vira para mim e me diz:
- "Acho que ela tem uma forma um bocado grande para o teu pé".

# Origem da Expressão "pé rapado"