sábado, 30 de novembro de 2024

Quem é Bolsonaro, Aquele que a Direita Portuguesa Nunca Viu Nada de Errado?

Em 2018 a direita portuguesa não via nada de errado em Bolsonaro - não é, Portas? - tal como finge não ver nada de errado em Trump, acusado de não sei quantos crimes e, mesmo assim, conseguiu fazer-se de novo presidente. Bolsonaro tentou um golpe de Estado, mas fez ainda pior, sabe-se agora que tentou matar Lula, Alckmin e Moraes. 

O que eu também gostaria era que algum jornalista perguntasse ao André, aquele que anda sempre com a corrupção na boca e que a propósito da vinda de Lula da Silva a Portugal disse que "o lugar de bandido é na cadeia", o que tem agora a dizer do seu amigo do peito, Bolsonaro, ao ser acusado de não sei quantos crimes e poder ir bater com os costados trinta anos na cadeia.

Aliás, Ventura vai muito mal de amizades. Bolsonaro bem como Trump acusado de dezenas de crimes e Le Pen viu o Ministério Público acusá-la de cinco anos de cadeia por causa de corrupção. Mas, relembremos quem é Bolsonaro, num artigo publicado esta semana na revista brasileira "Isto É", por Germano Oliveira:



"Jair Messias Bolsonaro, o ex-presidente golpista que autorizou militares próximos a ele na execução de um plano satânico para matar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes, de forma bárbara, com envenenamento, tiros de fuzil, rajadas de metralhadoras, explosões de granadas e outros requintes de crueldade, sempre foi um péssimo soldado das Forças Armadas. O que até dá para justificar que chegou-se a tramar o fuzilamento do ministro do STF diante de suas filhas, em seu apartamento funcional – o magistrado esteve sob a mira de armamentos usados pelos diabólicos Kids Pretos, a unidade de táticas de guerra do Exército em Goiânia.

O ex-capitão praticamente foi expulso da caserna, no final da década de 80, depois de tentar explodir bombas em quarteis, por entender que isso pressionaria os comandantes a liberarem aumentos salariais aos fardados. No julgamento por tribunais militares, acertou-se que ele não seria condenado pelos atos de insubordinação e crimes contra a segurança nacional, mas que deveria deixar a farda. Saiu pela porta dos fundos.

E, assim, o Exército ganhou com sua “expulsão”, mas, infelizmente, a política perdeu com a chegada de mais um parlamentar inútil. Ele se lançou na carreira política, elegendo-se deputado federal pelo Rio. Ficou na Câmara por 28 anos, sem ter apresentado nenhum projeto, embora tenha destacado-se por frases amalucadas, como a que disse contra o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Segundo ele, o tucano deveria ser fuzilado, assim como outros 30 mil “comunistas”.

O tempo passou e ele elegeu-se presidente da República, mais porque Lula, o líder popular, estava na cadeia e o candidato do PT, o atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não tinha lá muito carisma. Aproveitando o despertar da direita e dos evangélicos, ele assumiu a presidência e logo lançou-se a soltar asneiras.

Certa vez, bradou aos quatro ventos que era “imorrível”, “imbroxável” e “incomível”. Dizia ser tão macho que teve quatro filhos homens, mas depois “fraquejou” e teve uma filha. Nada mais misógino do que um testemunho como esse. Tanto que, em 2022, perdeu para Lula entre os eleitores do sexo feminino.

Ao sair pela porta dos fundos do governo, como já havia feito no Exército, recusou-se a passar a faixa presidencial a Lula. Segundo o relatório da PF, que o indiciou pelo crime de tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente fugiu para os EUA com medo de ser preso. Agora, transformou-se em “inelegível”,“inescrupoloso” e “indiciado”. Investigado em oito inquéritos, pode ser condenado a mais de 30 anos de cadeia. É o destino de todos os que desafiam o Estado de Direito e o regime democrático. Por sorte, a PF e o STF funcionam com independência.


Recordemos quem é Bolsonaro, noutro artigo, de António Prata, desta feita publicado na Folha de São de Paulo deste domingo:

"Imagina só. É uma história bem doida, tá? Super inverossímil, mas façamos esse exercício mental. Um capitão do Exército, insatisfeito com o salário, faz um plano para explodir quartéis e o fornecimento de água de uma das maiores cidades do país. O plano é descoberto. Sai na Veja: um “croqui feito a mão pelo próprio Bolsonaro que mostrava a adutora de Guandu, que abastece o Rio de Janeiro, e o rabisco de uma carga de dinamite detonável por intermédio de um mecanismo elétrico”.

Imagina que, apesar disso, no Exército - essa instituição que se diz tão ciosa da ordem e da disciplina - o terrorista é absolvido e colocado na reserva. Continua a receber seu salário pago por mim, por você, por sua tia-avó dura que não consegue viver da aposentadoria e pelo resto da população brasileira. Inimaginável né?

Daí, só por um exercício (ou delírio?) mental, imagina que, com esse currículo, o cara concorre a vereador pelo RJ. É eleito. Depois vira deputado federal. Imagina esse cara, a vida toda, dando entrevistas elogiando a ditadura militar. Ou melhor, emendando: “O erro da ditadura foi torturar e não matar”. Imagina ele dizendo na TV que tinha que assassinar trinta mil para resolver o problema do Brasil. 


Sobre a milícia: "Enquanto o Estado não tiver a coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem vindo". Como certas doenças são hereditárias, Flávio Bolsonaro, em 9 de setembro de 2005, concedeu a Adriano da Nóbrega, miliciano, guarda costas de bicheiro e assassino de alugel, a maior condecoração do Poder Legislativo fluminense, a Medalha Tiradentes. O condecorado estava então na cadeia por homicídio. 


Pro presidente da OAB, que teve o pai “desaparecido” na ditadura, Bolsonaro disse: “Um dia, se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Conto pra ele”. Outro “desaparecimento” sobre o qual Bolsonaro pode saber detalhes é o de Paiva (assistam a “Ainda estou aqui”). 


Em 2014, um busto do Rubens Paiva foi colocado na Câmara dos Deputados. Bolsonaro, diante de toda a família da vítima, simulou uma cusparada na estátua. Repito. Bolsonaro simulou uma cusparada na estátua de uma pessoa assassinada pela ditadura, diante dos filhos e da viúva.




Dois anos depois, no impeachment da Dilma (não importa o que você ache do governo ou do impeachment da Dilma) dedicou seu voto ao torturador dela e de muitos outros. “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”. Já tinha dito antes: “Pau-de-arara funciona. Sou favorável à tortura, tu sabe disso”.

Agora, imagina esse sujeito se candidatar a presidente do Brasil. Daí, imagina ele ganhar. Imagina ele enchendo o governo de militares. Imagina ele passando quatro anos falando que as eleições são fraudadas. Imagina que nos setes de setembro ele faça comícios antidemocráticos e bote uns tanques fumacentos para desfilar por Brasília. Imagina que ele diga que só sai do poder preso ou morto.

Pois, tendo imaginado isso tudo, o que vocês imaginam que essa flor de ser humano iria fazer ao perder as eleições? A) Passar a faixa democraticamente ao vencedor? B) Mexer mundos e fundos para dar um golpe de estado e fugir pra Disney? Se as questões da Fuvest fossem tão fáceis, teríamos 100% da população brasileira cursando universidade a partir de janeiro de 2025.

PS.: Bolsonaro é covarde e obviamente vai fugir. Prendam logo".

Mas a direita portuguesa nunca viu nada de "eticamente reprovável em Bolsonaro", não é Portas?



Nesta Black Fraude Comprei Jornalismo de Qualidade

 Na importada Black Fraude lá dos states, não comprei nenhum bem físico. Comprei informação, crónicas e reportagens. Comprei jornalismo, que considero de qualidade. Decidi assinar o jornal "O Público" por 1€ por semana. 



Agora já poderei ler o Miguel Esteves Cardoso, o Pacheco Pereira ou a Ana Sá Lopes (mais aqueles que espero descobrir) bem como posso fuçar em todo o arquivo do jornal...

E, ainda que Mark Twain tenha escrito que se leres jornais estás desinformado 

Regressa Porto de 2010


Já aqui tinha mostradas as fotos da cidade do Porto que tirei em agosto de 2010, em que se vê uma cidade completamente deserta. O que eu não sabia e fiquei a saber foi que 2010 tinha sido o melhor ano do turismo até então. E talvez isto nos ajude a colocar as coisas em perspectiva. 

E qual Porto prefiro, o Porto de 2010 ainda intocado pela massificação do turismo, o Porto das putas e do cheiro a mijo, o Porto deserto às sete da tarde ou o Porto do melhor destino e dos hotéis, o Porto bem iluminado, dos hotéis cinco estrelas mas também o Porto do desprezo pelo STOP, o Porto sem portuenses, o Porto sem lojas típicas, o Porto sem livrarias e o Porto do vírus das lojas de ímanes e recordações?

Lamento, mas o progresso trouxe a miséria. Hoje, um solteiro como eu, com o salário mínimo, não conseguirá sequer pagar uma renda na sua própria cidade. O Porto expulsou as suas lojas e as suas pessoas. 

Lamento, mas eu preferia o Porto do mijo e das putas, o Porto mal iluminado ao Porto Best Urban Destination in the World de 2024. 
 

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Porque é que NÃO Se Deve Celebrar o 25 de Novembro de 1975


 Não sou eu que digo que não se deve celebrar o 25 de Novembro, diz quem melhor sabe: os historiadores. Aqui fica, para memória futura, uma recolha de três opiniões de três historiadores,  começando com uma entrevista a Irene Pimentel que este ano publicou o livro "Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975 - Episódios menos Conhecidos":


A história do 25 de Abril está completa ou ainda há muita coisa por descobrir?

Penso que ainda há coisas para descobrir. Talvez seja dos acontecimentos contemporâneos mais estudados, porque contámos muito com os próprios protagonistas e com as testemunhas dos factos históricos. Mas acho que falta saber mais sobre o pós-25 de Abril. Por exemplo, o 25 de Novembro é uma data histórica que ainda não está bem estudada. Há muitos mitos à volta dela. É por isso que, neste momento, é uma bandeira de algumas forças políticas que dizem que, se comemoramos o 25 de Abril, temos de comemorar o 25 de Novembro. Eu considero que o 25 de Novembro faz parte do processo em que nasceu o 25 de Abril, assim como o 11 de Março. Não foi um golpe de Estado militar das esquerdas contra a direita. Não foi dirigido pelo PCP, que é outra narrativa que existe. Hoje sabemos que o PCP realmente mobilizou os seus militantes, foi buscar armas, mas o que queria era mudar a correlação de forças no Conselho da Revolução, que tinha sido sempre à esquerda a partir do 11 de Março. Dizem que foi a extrema-esquerda que tentou, com os seus militares, fazer um golpe porque tinham importância no RALIS, na Polícia Militar... Mas também não é verdade.

O que foi então o 25 de Novembro?

Foi uma tentativa de vários lados para modificar a correlação de forças. Uns queriam manter-se legais, outros queriam proibir forças políticas opostas. A extrema-direita e a direita quiseram proibir todos os partidos à esquerda do PS – o PCP e todos os outros grupos. Havia imensos nessa altura. Era uma loucura. Uma autêntica manta de retalhos. Penso que certos grupos da extrema-esquerda, como por exemplo o Partido Revolucionário do Proletariado (PRP) da Isabel de Carmo, tinham força em determinados regimentos do COPCON e contaram com o Otelo (Saraiva de Carvalho). Nesta história, o Otelo é outro mistério. Será que foi mesmo para casa dormir nesse dia, como disse? Ele era uma das figuras principais no 25 de Novembro porque era o chefe máximo do COPCON. No entanto, não participou em nenhuma das ações do 25 de Novembro e deixou até um vazio no COPCON. Tanto que há pessoas à esquerda que o culpam pela derrota. O que é certo é que ele foi importante para não haver uma guerra civil.

Qual foi o principal responsável por evitar esse fim trágico da revolução? Há um rosto ou são vários os rostos?

Há muitos rostos. O PS teve muita influência nisso. O PSD também, mas sobretudo o PS, porque também havia setor armado nos socialistas, não era só nos comunistas. E o próprio PCP também teve muita importância porque teve medo da guerra civil e desmobilizou. Por outro lado, a vertente internacional também contou muito. Estávamos na Guerra Fria e o PCP nunca fez grandes manifestações para Portugal sair da NATO. De certa forma, sabia que Angola interessava mais à União Soviética do que propriamente ter uma Cuba na Europa. Neste processo, o Costa Gomes foi também fundamental a vários níveis. Ele reuniu em Belém todos os elementos do Conselho da Revolução durante todo o 25 de Novembro até ao dia 26. Foi a reunião mais longa do Conselho da Revolução. E estavam cercados por forças próximas do Grupo dos Nove porque o Conselho da Revolução ainda tinha alguns elementos gonçalvistas, por exemplo, da Marinha.

O objetivo era retê-los ali?

Era retê-los ali e fazer com que o COPCON não funcionasse. A Marinha e os Fuzileiros não funcionaram. E, do outro lado, já estava o Salgueiro Maia com vários regimentos pelo País, à espera do sinal para avançar. Não foi necessário. O Costa Gomes foi uma figura muito preponderante nesse dia. Na altura, só se falava em guerra civil. E ele fez vários discursos nas vésperas do 25 de Novembro a dizer que não podia haver uma guerra civil. Os militares não se podiam dividir a esse ponto, não podiam ir atrás de alguns políticos. Mas o Grupo dos Nove também foi fundamental porque eram elementos importantes do 25 de Abril que tinham um programa para o socialismo.




Os olhos do mundo viraram-se para Portugal com a Revolução dos Cravos. E teve um efeito de contágio a outros países.

O 25 de Abril é uma data feliz mas é, sobretudo, uma data excecional. Não só para Portugal, mas também ao nível europeu. Nas transições das ditaduras para democracias, a tendência era a negociação entre as velhas e as novas elites. Foi o que aconteceu em Espanha, por exemplo. E a Grécia dos Coronéis acabou em 1974, logo a seguir a Portugal.

Foi uma onda de choque do que aconteceu em Portugal?
Penso que não. Foi uma coincidência, mas há sempre aspetos que têm a ver, como o fator guerra. Na Grécia também havia o diferendo com a Turquia por causa de Chipre.

Mas normalmente as revoluções estão relacionadas com guerras?

Estes casos das transições nos anos 70 estiveram relacionados também com guerras. Sobretudo porque foram militares que depois ficaram no poder e instauraram ditaduras. Aqui em Portugal aconteceu o contrário. O 25 de Abril é excecional porque foi ao contrário, a todos os níveis. Foi uma revolução por rutura. No dia 24 tínhamos uma ditadura, no dia 25, às 6 da tarde, ainda não era a democracia representativa, mas as pessoas estavam livres.

E festejaram.

Exatamente! Tem havido muito interesse na Europa e no Brasil sobre o processo do 25 de Abril. Estive recentemente numa conferência na embaixada de França, com historiadores portugueses e franceses, onde me perguntaram se era possível exportar o 25 de Abril. E eu respondi que a história não se repete. Houve uma conjugação de fatores e, além disso, os indivíduos contam muito. Depois, houve aqui um outro elemento importante que foi a participação popular. Deixou de ser um golpe de Estado e passou para uma revolução. Isso teve muito a ver com o facto de as pessoas desobedecerem e irem para a rua.

Não era isso que se pedia à população.

Pelo contrário! O MFA ficou estarrecido. Podia ter corrido mal. O golpe de Estado é um golpe militar e podia ter havido sangue. É absolutamente extraordinário como as pessoas tiveram a coragem de ali estar no Largo do Carmo. Ouvi recentemente os tiros que o Salgueiro Maia disparou por duas vezes contra o Quartel do Carmo. Aquilo até faz impressão! São rajadas num espaço fechado, cheio de gente. E ninguém saiu! Há alturas da história que não conseguimos perceber muito bem. Os capitães de Abril fizeram um golpe de Estado muito bem feito, com muito sucesso. Em 19 horas resolveram o assunto. Mas também muito devido ao apoio popular. Se houvesse resistência do regime, eles iam agir e aí demoraria mais tempo. Ora, à conta de haver muitas pessoas na rua, o regime não reagiu. Rendeu-se quase de imediato.

Ou seja, o fator povo foi muito importante naquele dia.
Teve imensa importância e isso ninguém podia prever. Pouco tempo antes, o Marcello Caetano esteve no estádio do Sporting, num jogo de futebol, e foi aplaudidíssimo pela multidão.

Nada fazia prever que o regime ia cair?

Para mim, não. E para as pessoas, como eu, que estavam nos grupos da oposição [pertencia ao CMLP “O grito do povo” – organização comunista, marxista, leninista portuguesa], não era previsível. Sei que o PS e o PCP tinham militantes que estavam a fazer o serviço militar obrigatório, que eram alferes milicianos e que lhes transmitiram algumas informações. No caso do PS, foi o António Reis. Mas não disseram o dia do golpe. Tanto que o Mário Soares no dia 25 de Abril estava em Bonne para falar com o Willy Brandt [político social-democrata alemão, que em 1974 era chanceler da República Federal da Alemanha] e já não houve reunião. O Mário Soares meteu-se no comboio e veio-se embora. E o Cunhal estava em Paris e veio de avião.

No seu livro, refere que circulava, tanto no governo de Marcello Caetano como na DGS, a informação de que havia movimentações de militares. Temos a ideia de que eles foram todos apanhados de surpresa, mas não foi assim. Porque é que não fizeram nada?
É um grande mistério. Há várias razões para isso, mas são sempre razões. E, em história, muitas vezes, são vários fatores que se conjugam. 

Eles desvalorizaram de alguma forma essa informação?

Eles dizem que não. É muito complicado perceber, porque há a questão da memória e do que eles querem transmitir. Se formos ver os testemunhos do Álvaro Pereira de Carvalho, chefe dos serviços de informação, a Intelligence do regime), e do Silva Pais, o diretor da DGS, a seguir ao 25 de Abril, eles dizem que o próprio governo e as estruturas militares os obrigaram a vigiar o Kaúlza de Arriaga, porque podia haver um golpe da extrema-direita. E, à conta disso, tiveram de deixar de vigiar os militares, que sabiam que se estavam a reunir. As razões podem ser várias. Havia spinolistas lá dentro da DGS, que foram depois ajudados na sua fuga pelo próprio Spínola e pelo Costa Gomes, que tinha trabalhado como governador e chefe das Forças Armadas em Angola com o São José Lopes [subdiretor da Polícia Internacional e de Defesa do Estado]. É preciso perceber que os militares, sobretudo os profissionais, e a polícia política, funcionavam em conjunto nas colónias. A PIDE/DGS era o aparelho de informações das Forças Armadas. Portanto, nunca pensaram que, se houvesse um golpe militar, significasse perigo. Havia também cumplicidades entre eles. Muitos deles até achavam que o Marcello Caetano tinha de sair do poder porque não contentava nem os ultras, nem os spinolistas. A única prova que temos é que eles escutaram os militares do MFA. Eles sabiam e sabiam quem se tinha reunido. De certeza que havia infiltrações. E as escutas que estão na Torre do Tombo terminam em dezembro 1973. O que é estranhíssimo.

No Movimento das Forças Armadas percebe-se que não tinham todos as mesmas motivações.

No documentário “A Conspiração”, do António-Pedro Vasconcelos, que passou na RTP, vemos que há pessoas com ideias diferentes. Uns militares vão para a reunião de Alcáçovas para travar os radicais. Outros foram lá por questões corporativas. Mas havia outros que já viam um pouco mais longe. Houve várias agendas no 25 de Abril. Há sempre várias agendas num processo revolucionário.

Uma das coisas que percebemos também é que Spínola não queria acabar com a DGS.
Claro que não. Tanto que nomeou um diretor no próprio dia 25 de Abril.

Mas, mesmo dentro do programa do Movimento das Forças Armadas, existia essa intenção de acabar com a DGS?

Há a intenção de acabar com as instituições do regime. E uma delas era, evidentemente, a DGS. Mas também a Legião Portuguesa, as mocidades, a União Nacional... Só que, naquela noite de 25 para 26 de Abril, na reunião no posto de comando da Pontinha onde estava a Junta de Salvação Nacional e as pessoas do programa do MFA, o Costa Gomes disse que, enquanto houvesse guerra colonial, a PIDE tinha de continuar a funcionar nas colónias. Teria outro nome – Serviço de Informação Militar. Isso também saiu furado. Há aqui outro mistério. Porque é que a PIDE não foi um alvo logo no dia 25 de Abril? Ter-se-iam evitado os quatro mortos provocados pela PIDE, na António Maria Cardoso. O que aconteceu foi que, ao receber o poder de Marcello Caetano, isso deu um protagonismo imediato ao Spínola. Tanto que ele não só foi Presidente da Junta de Salvação Nacional como depois foi Presidente da República, não eleito. Foi ele que nomeou ainda um chefe da PIDE e foi ele que não quis libertar todos os presos políticos. Disse que aqueles que tinham cometido crimes de sangue não deviam ser libertados, o que incluía o Hermínio da Palma Inácio, que tinha roubado a dependência do Banco de Portugal da Figueira da Foz, o Francisco Martins Rodrigues e outros da Ação Revolucionária Armada (ARA) que tinham posto bombas. Esses não seriam libertados. E aí também foi a população que não arredou pé até que fossem libertados. Eu estive lá, em Caxias. Foi naquele momento que eu disse: pronto, isto agora já não volta para trás. Para mim, o 25 de Abril foi no dia 26.

A condecoração de Spínola pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa pareceu-lhe adequada neste cinquentenário do 25 de Abril?

Não. Pareceu-me muito desadequada sobretudo porque foi feita praticamente às escondidas. Uma condecoração, em princípio, é uma coisa para ser mostrada. E acho que o 25 de Abril também não foi o momento certo. Spínola não teve nada a ver com o 25 de Abril, a não ser o facto de ter recebido a rendição de Marcello Caetano, o que lhe deu protagonismo. Ele sabia que ia haver um golpe de Estado do MFA porque foi informado e foi informado do programa. Mas o golpe de Estado não é dele.
A Revolução dos Cravos fez soar as campainhas nos Estados Unidos. De início, os americanos não perceberam muito bem o que se estava a passar, mas deram especial atenção aos acontecimentos em Portugal. 

Qual era o receio que tinham?

Tiveram medo de que houvesse qualquer coisa na Península Ibérica que depois contagiasse países europeus com uma forte presença do Partido Comunista, como a Itália, a França e a Grécia. Os americanos não ficaram logo em estado de choque porque tinham uma posição anticolonial. O que fez tocar as campainhas foi a partir do 28 de setembro, porque eles tinham a confiança no Spínola. Inicialmente, até pensavam que o Spínola é que tinha dirigido aquilo tudo. Estavam muito mal informados. A CIA, os serviços secretos franceses e os serviços secretos alemães estavam informados pela PIDE/DGS, que lhes disse que tão depressa não ia acontecer nada. Foi passando uma imagem de tranquilidade e de controlo da situação. Essa é outra das características do 25 de Abril. É um processo só nacional. Muitos dizem que a NATO estava ali à espera de entrar em ação. Então, porque não entrou? Estava, de facto, a fazer exercícios próximos de Portugal, mas não entrou em ação porque não sabia o que se passava. A dada altura, o Kissinger disse: os portugueses que façam a Cuba na Europa e servem de contágio. Como vão falhar, porque nós não os apoiamos, servem de vacina para os partidos comunistas da Europa. Foi o Carlucci, o embaixador, que apostou que os moderados deviam ser apoiados.

Portugal também foi um elemento importante no contexto da Guerra Fria. Estiveram cá elementos da CIA e do KGB ao mesmo tempo.

A seguir ao 25 de Abril, veio tudo. Todos os espiões. Alguns dos países europeus do chamado Ocidente já estavam cá antes e funcionavam com a PIDE, no âmbito da NATO. E, a seguir ao 25 de Abril, ainda vem também o KGB. Muitos vieram como jornalistas. Tinham dupla função. Mas, com os da CIA, era a mesma coisa. Estavam nas embaixadas, junto dos adidos militares ou mesmo junto do próprio embaixador. Isso sempre aconteceu. O KGB, claro que teve uma força redobrada com o 25 de Abril, porque aí o PCP fazia a ligação. Hoje também há outros aspetos que já estão estudados, e que são muito interessantes, sobre a importância da RDA na formação dos serviços secretos, na sequência do 11 de Março. Houve um serviço secreto que se chamou SDCI, que tinha gonçalvistas. Aliás, esse serviço foi logo proibido e desmantelado no 25 de Novembro. Mas a RDA não só deu “know how” para um futuro serviço de informações, como também investiu muito no País porque precisava de lavar dinheiro.

Em que investiu?

Investiu, por exemplo, na HESKA, que era uma grande empresa de publicações dirigida pelo PCP. Havia a grande, e praticamente única, empresa de ar condicionado, a FNAC, que o administrador era do PCP. Por isso mesmo dizia-se que eles montavam o ar condicionado e também montavam escutas telefónicas. Não digo que não. Pode ter acontecido.

Agora que estamos a celebrar os 50 anos do 25 de Abril, os arquivos já estão todos disponíveis para estudar este período da história?

Os arquivos militares já estão praticamente todos disponíveis. Mas penso que ainda não estão todos, embora os militares digam que sim. Tenho lutado bastante, juntamente com outros colegas historiadores, para que neste cinquentenário todos os arquivos sejam abertos. Especialmente os militares, que são os últimos. Aqueles que fizeram o golpe de Estado também guardaram os seus documentos. E não tiveram vontade de fazer um processo político, como a população quis relativamente à PIDE, porque tinham tido contactos com os elementos da PIDE.

Ainda há documentação que está na posse de particulares?
Penso que sim. Houve muita gente que levou documentação da PIDE. Uma parte foi levada para a União Soviética, embora o diretor do arquivo da Torre do Tombo diga que não. Toda a gente sabe. Há testemunhos de soviéticos do KGB que viram a documentação e que depois saíram do KGB e foram para o Ocidente. Há livros sobre isso. Depois, há episódios também que foram relatados. O jornalista José Pedro Castanheira entrevistou o militar que era chefe da PSP na altura, que conta que estava a comer junto ao Teatro São Luiz e viu, a dada altura, documentação a ser metida em carrinhas militares da Marinha. Seguiram-nos e viram que essa documentação foi para um avião da Aeroflot. Essas coisas dão-nos essas pistas. 

O que é que eles queriam?
Queriam sobretudo a documentação sobre o relacionamento dos seus serviços secretos com a PIDE. Estávamos ainda na Guerra Fria. Também as embaixadas dos países europeus, na sequência do 25 de Abril, foram pedir aos militares a documentação que estava no arquivo da PIDE relacionada com os seus serviços. E eles deram.

Mas quem é que deu acesso a essa documentação ao KGB?
Como os militares não percebiam nada da PIDE, recorreram a militantes do PCP, pessoas que tinham sido presas e torturadas e, portanto, que conheciam mais aquela polícia. E depois houve uma coisa muito importante. É que quem tomou a sede da PIDE na António Maria Cardoso, às 9 horas da manhã do dia 26, foram os Fuzileiros. E o Comandante Costa Correia, que comandava o Grupo de Fuzileiros, resolveu ficar na António Maria Cardoso. Lá está outra coisa que não foi planificada. Ele fez isso para defender os arquivos que ainda lá estavam. Uma parte da documentação já estava em Caxias, mas também foram os fuzileiros que continuaram a ocupar a prisão e guardaram essa documentação. Isso
foi muito importante para os ficheiros terem vindo praticamente incólumes. Praticamente. Evidentemente que militantes de todos esses grupos que tinham sido clandestinos, levaram coisas dos seus partidos. O do Cunhal não está lá. Está só uma parte. O do Mário Soares também só está uma parte.

Mas já se sabe onde está essa documentação em falta?
Não.

Uma sondagem do ICS/ ISCTE, publicada no Expresso poucos dias antes do 25 de Abril, revelou que dois em cada três portugueses consideram o 25 de Abril como o momento mais importante da história de Portugal. Essa percentagem de portugueses aumentou e é a mais alta dos últimos 20 anos. Isto apesar da maior polarização política no País. Como é que interpreta estes resultados?

Acho que são extraordinários. É a força do 25 de Abril. A Revolução dos Cravos ficou na história das pessoas como um acontecimento importante e feliz. Por outro lado, vi outra sondagem, no Público, em que 47% dos portugueses não recusariam um homem forte no poder sem eleições. Isto entra um pouco em contradição. Mostra que estamos em crise. É uma crise dos partidos do arco democrático, mas que não atingiu o 25 de Abril. Fico muito contente com este resultado, mas agora quero ver como é que isso se coaduna com as eleições europeias.

Podemos ter a certeza de que os valores de Abril estão a passar para as gerações mais novas? Isso ficou evidente na massa de portugueses que saiu à rua no dia 25 de Abril?

A grande afluência na manifestação do 25 de Abril foi um voto com os pés, no sentido em que as pessoas foram a pé para uma manifestação, para um desfile. Penso que foi uma reação ao resultado das eleições de 10 de março. Foi um voto de preocupação e, ao mesmo tempo, as pessoas foram também para comemorar os 50 anos do 25 de Abril. Há uma evidência muito expressiva de que as pessoas, pelo menos aquelas que se foram manifestar, estão com os valores que recebemos a 25 de Abril. Claro que, de uma manifestação, não podemos retirar todas as conclusões. Mas uma das coisas que essa manifestação revelou foi a presença de muita juventude. Eu estive lá e isso foi uma das coisas que me espantou de forma agradável. Parece que há um legado que está a passar.

Entrevista a Irene Pimental, publicada no Jornal de Negócios de 10 de Maio de 2024

E agora Raquel Varela no Expresso ou aqui:



A 25 de novembro de 1975 um novo golpe de Estado à direita, liderado militarmente por Ramalho Eanes, conduzido civilmente pelo Partido Socialista – com o apoio da direita tradicional, da Igreja Católica, da NATO e do “Grupo dos Nove”, uma ala social-reformista do MFA –, prende mais de 100 oficiais revolucionários e passa à reserva os soldados das unidades onde a dualidade de poderes tinha ganhado expressão embrionária. O golpe de Estado restaurou a “disciplina” nas forças armadas, acabou com a “sovietização” – na expressão do próprio Soares – nos quarteis, e assegurou a estabilização das instituições, restituindo assim a centralidade do Estado português na forma política de um sufrágio universal, Parlamento eleito , a nova Constituição, que sagraria a fórmula dos direitos, liberdades e garantias e um assim-chamado Estado de Direito.

O fim da revolução dá-se por uma fórmula inovadora, que será depois aplicada na América Latina, nos anos de 1980. Mário Soares lidera esta “contrarrevolução democrática” a 25 de novembro de 1975, quase sem mortos e com amplas cedências sociais (o Estado social e direito ao emprego seguro). É de facto um “empate técnico” – os trabalhadores organizados são por fim derrotados politicamente, mas a burguesia é socialmente obrigada a amplas concessões, ao estilo de França e Inglaterra no segundo pós-guerra (1947); o PCP por sua vez aceitou não resistir (ou terá mesmo pré-negociado?, ainda está por investigar a fundo) ao 25 de novembro, assumindo publicamente – o que demonstrei na minha investigação–, pela mão do seu líder de então, Álvaro Cunhal, que a esquerda militar se tinha tornado um fardo para o PCP porque a sua atuação punha em causa o equilíbrio de forças com os Nove e os acordos de “coexistência pacífica” entre os EUA e a Europa Ocidental e a URSS e o Leste Europeu (Acordo de Ialta e Potsdam). A revolução acabou não por um putsch fascista, como no Chile do General Pinochet, mas num golpe civil-militar de novo tipo, com escassa violência e com diminuta resistência. O chamado poder popular – a dualidade de poderes em acto, a democracia participativa – não tinha coordenação geral de nenhum tipo, nada semelhante a um partido bolchevique existia em Portugal, nem a revolução teve efeitos nos países centrais da Europa – Alemanha, RU e França – apenas na Espanha e Grécia.


Esta ambivalência faz com o 25 de Novembro nunca tenha tido celebrações oficiais em Portugal. É um golpe que então sequer recebe este nome por quem o apoia (fala-se de golpe dos paraquedistas, quando estes foram provocados a sair, para justificar o golpe de direita); foi visto pelas elites dirigentes como uma “necessidade” de “normalização” para pôr fim à “sovietização das forças armadas” e demais esferas da vida. Uma “necessidade” – até à queda do muro, quando o PCP mudará sua posição – também assim percebida pelo PCP, que viu tal golpe como um meio eficaz para controlar a esquerda militar, fora parcialmente do seu alcance. Na minha opinião o PCP agiu a la Barcelona em 1937.

O PS oferecia uma terceira via – “escandinava”, dizia-se – contra uma URSS estalinista ditatorial e o imperialismo hegemónico norteamericano. Essa narrativa falhou em duas dimensões. O PCP nunca quis fazer uma revolução em Portugal (queria Angola), e a “Europa connosco” nunca teve lugar. Portugal é já um dos países mais pobres da Europa Ocidental – depois de poucos anos de alívio na sequência da revolução social –, Soares vai, no fim da vida, coerente, erguer-se contra o ordo-neoliberalismo alemão, alguns militares que fizeram o 25 de Novembro, olhando os vis efeitos das políticas austeritárias a partir de Cavaco Silva, questionaram-se, entretanto, se teria valido a pena.

As celebrações dos 50 anos da Revolução dos Cravos – sem surpresa, diga-se – são pouco unânimes. Deputados, quadros e votos dos partidos da direita tradicional e democrata-cristão (o PSD e o CDS em reedição da “Aliança Democrática”), migraram para o novo Partido Chega, com elementos de neofascismo, fazendo desparecer o CDS e tornando difícil a uma ala mais liberal do PSD, de onde sai o seu principal dirigente, sobreviver à deriva neofascistizante nas suas próprias fileiras – as velhas e novas direitas altercam-se e amalgamam-se entre si numa plêiade ultraliberal e hiperconservadora que abarca sectores neofundamentalistas cristãos, inclusivamente fatimistas. A nova vontade de se celebrar o 25 de Novembro emerge daqui. 

A nova extrema-direita plasmada no anti-comunismo da IL e no neofacismo do Chega, normalizado pelos media como “liberais” ou “direita radical”/“extrema-direita” apresentam-se às regras do jogo. Querem celebrar o 25 de Novembro pelo que foi, isto é, um golpe de Estado contra a democracia no trabalho, contra a dualidade do poder popular, enfim, o início do fim da revolução. O princípio da reconstrução do aparelho de Estado capitalista para uma nova reconversão produtiva (e política): de uma burguesia dependente do trabalho forçado – e das colónias africanas – até 1974 para uma burguesia de hegemonia limitada ou um protectorado de facto, dos investimentos, máquinas e capitais alemães, franceses e ingleses (e norteamericanos, espanhóis, chineses, ou outros).

A “contrarrevolução democrática”, conceito político central para apreender o que realmente se passou em Portugal, mostra cada vez menos democracia, e cada vez mais contrarrevolução. Não à tôa, como disse o Padre Martins Junior de modo acutilante, temos 50 neofascistas no hemiciclo depois de 50 anos da Revolução de Abril. A palavra de ordem não poderia ser mais atual: 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais.


E agora, por último, outro historiador, o insuspeito Pacheco Pereira, do PSD, num artigo publicado no Público, intitulado "25 de Novembro e rigor histórico":


"Primeira coisa: o 25 de Novembro não tem qualquer comparação com o 25 de Abril, misturá-los diminui o significado do primeiro. O 25 de Abril foi uma data fundadora que acabou com 48 anos de ditadura, e com três guerras coloniais, em Angola, Moçambique e Guiné. Foi um acontecimento de dimensão mundial. O 25 de Novembro foi uma data correctora, comparável à derrota do golpe de 11 de Março, que teve o mesmo papel. Ambas se fizeram num clima de excesso e esse excesso era perigoso para a democracia e atrasaram a consolidação de uma democracia parlamentar, mas o que é que se podia esperar de uma viragem histórica tão radical como foi a derrota da ditadura? Que seria calma e pacífica?(...)"

E agora acrescento também excertos da entrevista que Pacheco Pereira deu, com Irene Pimentel, ao Diário de Notícias, no triste dia de hoje, em que pela primeira vez se celebrou o 25 de novembro na assembleia da república, não tivéssemos nós, nos cinquenta anos do 25 de abril, 50 fascistas assumidos no parlamento.



"Não há grandes dúvidas sobre o que sucedeu no 25 de Abril de 1974, mas continua o debate sobre o 25 de Novembro de 1975. É o principal interesse da data?

Irene Flunser Pimentel (IFP) – Penso que é. Ramalho Eanes diz que as datas fraturantes, como o 25 de Novembro, não são para comemorar, e sim para estudar e discutir. Os historiadores devem ouvir as várias partes. O 25 de Novembro é estritamente militar. Não há população nas ruas, como no 25 de Abril, e existe a tentativa de dizer que era uma tentativa revolucionária. Estive em mesas de moderação com militares de Abril, alguns de Novembro, do Grupo dos Nove. Cada um contava a sua verdade, e não quer dizer que estivessem a mentir.

Há algo de estruturalmente errado em comemorar a data na Assembleia da República?

IFP – Acho que há, porque quem tomou a iniciativa de comemorar foi a direita e a extrema-direita, neste momento em maioria na Assembleia. São figuras que não participaram no 25 de Novembro. Quem participou verdadeiramente foram os militares moderados do Grupo dos Nove e o PS.

Pacheco Pereira (PP) – Não veria, em princípio, inconveniente em que se comemorasse, desde que de forma rigorosa. O caráter oficial das comemorações, na Assembleia da República, confronta o 25 de Abril. É evidente que o 25 de Novembro tem um papel, como vários acontecimentos daqueles anos, na consolidação do caminho democrático numa altura de grande confusão política e de confrontos enormes. Querem comemorar? Comemorem o Costa Gomes. IFP – Exatamente.

PP – Coisa que a direita, obviamente, não quer fazer. Comemorem o Vasco Lourenço e os militares dos Nove. Coisa que, evidentemente, também não querem fazer, por acharem que isso é uma sombra para o Jaime Neves, o único que querem comemorar. Comemorem Mário Soares e o PS. Comemorem os partidos que conduziram o movimento de resistência à esquerdização, digamos assim, do PREC naqueles anos. Se querem comemorar, comemorem com essas pessoas.

O PS tem tido uma posição saudável sobre o 25 de Novembro?

PP – Não tem, de todo. Podia ter feito um esforço de fazer comemorações rigorosas. Inclusive, referindo o seu próprio papel, o de Mário Soares, de Salgado Zenha e de uma série de pessoas do PS.

IFP – Tens toda a razão. Não se percebe a atitude do PS.

PP – É uma mistura de ignorância, pouco respeito pela História...

IFP – De gente que não se quer identificar com a direita, mas assim tem a narrativa de que a direita faz do 25 de Novembro. Não verdadeiramente o que se passou.

É quase como uma derrota por falta de comparência.

PP – Ao procederem como procedem, deixam o terreno livre.

IFP – Por exemplo, acho péssimo, do ponto de vista do PCP, não estar presente na Assembleia. Toda a gente devia estar presente.

A ausência do PCP não é muito contraproducente quando a ideia de que o partido quis implantar uma ditadura, naquela altura, começa a desaparecer?

IFP – Alguém acredita que o PCP fez um golpe de Estado e ninguém os viu nas ruas? Estavam mobilizados nas sedes? Evidentemente. Como em qualquer das outras ocasiões.

PP – Tinha sempre um pé dentro e um pé fora.

IFP – O PCP percebia muito bem que Portugal não iria ficar fora do campo ocidental, até pela détente entre os Estados Unidos e a União Soviética. O que se sabe é que houve desmobilização. Mas evidentemente que aquilo era uma panela de pressão. Todos os dias se falava em guerra civil, em golpe de Estado, contavam-se espingardas...

E havia algo como uma linha divisória do país em Ri Maior.

PP – O mérito do 25 de Novembro é travar o caminho para a guerra civil.

IFP – Costa Gomes é fundamental. Ele e o Grupo dos Nove travaram a direita e a extrema-direita.

PP – Há duas derrotas. A do dia 25, da ala esquerdista das Forças Armadas, e a do dia 26, que foi a da tentativa de ilegalizar o PCP.

domingo, 24 de novembro de 2024

domingo, 17 de novembro de 2024

Entrevistas ao Pepe Mujica? Coleciono Todas!

Há figuras históricas tão inspiradores, e talvez não haja ninguém tão inspirador quando o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica. Em agosto partilhei uma entrevista que deu ao New York Time, partilho agora também a que deu hoje ao El País, depois dos tratamentos de radioterapia que fez a um cancro:


“Dediquei-me a mudar o mundo e não mudei coisa nenhuma”

Aos 89 anos, venceu o cancro e fala sobre a vida e a morte, o rancor, a felicidade e o seu legado.

Numa tarde de 1970, José Pepe Mujica conversava com outros homens numa mesa do bar La Vía, em Montevidéu. Um cliente reconheceu que eram guerrilheiros tupamaros e denunciou-os. A polícia cercou o local. Mujica levou seis tiros. No Hospital Militar foi tratado por um cirurgião que “era um companheiro, um tupa disfarçado”. “Dá-me um balde de sangue e salva-me. É daquelas coisas que nos fazem acreditar em Deus”, recorda Mujica. 

Passados exatamente 54 anos, está sentado na pequena sala da sua casa rural em Rincón del Cerro, a 15 quilómetros da capital, rodeado de livros, pequenas esculturas, quadros e fotografias. Mujica recupera de um cancro do esófago. “Deram-me 31 sessões de radioterapia às sete da manhã, todos os dias. Acabaram com o cancro, mas deixaram-me com um buraco assim [desenha um círculo grande com os dedos, como uma laranja]. Agora o buraco tem de se fechar e eu sou um velho, tenho 89 anos. Até estar completamente fechado, não consigo comer. Tenho de cuidar dele até endurecer.” Não esconde o mau humor pelas sequelas da doença, que o deixam “sem energia”. 

Minutos depois, Mujica volta a ser o de sempre: o político e o filósofo.

Em algum momento da vida perde-se o medo da morte?
A morte é uma senhora complicada, que não perdoa e está sempre à espreita. Mas, se não existisse, a vida não teria tanto sabor, seria uma chatice. A grande questão é onde gastamos o nosso tempo. Porque, se o desperdiçamos... Qual é o sentido?

Encontrou o sentido da sua vida?
Dediquei-me a mudar o mundo e não mudei coisa nenhuma, mas entreti-me. E fiz muitos amigos e aliados nessa loucura de tentar mudar o mundo para melhor. Dei um sentido à minha vida. Vou morrer feliz por deixar uma geração [seguidores] que me supera largamente.

O que pensa de figuras ultraconservadoras como Trump, Milei ou Bolsonaro?
São o culminar da pregação ultraliberal que se transforma em libertarismo. Se o liberalismo é isso, é um lixo.

Encontrou a felicidade em viver com muito pouco…
Em viver com sobriedade, porque quanto mais tens, menos feliz és.

Mas o mundo parece ir na direção contrária...
O mundo está a caminho do hiperconsumo, porque é regido por uma lei: multiplicar o consumo das pessoas, porque isso é o que garante a acumulação. E isso não é viver.

E o que é viver?
Viver é amar, é ter o prazer de estar a perder tempo com outra pessoa. Viver é, quando se é velho, jogar às cartas com os amigos, falar de recordações. Sou um estoico, filosoficamente falando. A minha definição é a de Séneca: ‘Pobre é quem precisa de muito’.

Quando Mujica saiu da prisão, em março de 1985, já em democracia e após 13 anos preso, sabia que queria comprar uma quinta no campo, longe da cidade. Em janeiro de 1986, ele e a mulher mudaram-se. Nunca mais saíram, nem quando Mujica foi presidente.

Por que ficaram na quinta?
O Estado dava-me um palacete com quatro ou cinco pisos, onde, para tomar um chá, era preciso fazer uma expedição. Então, decidi ficar aqui. Sei que sou um louco para os dias de hoje, mas não tenho culpa do mundo em que vivo.

O que lhe diziam os outros presidentes?
Respeitaram-me muito, mas achavam-me um bicho estranho. Quando fui falar com o rei da Noruega [em 2011], estavam à minha espera com uma gravata. Quando lá cheguei, disse à delegação: ‘Voltamos para trás’. E o tipo recuou, guardou a gravata, e fui falar com o rei. Não sou contra a gravata, mas contra ser obrigado a usá-la.

Que líder mundial mais o cativou?
Lula, de quem sou amigo até hoje. E, curiosamente, tenho de falar bem de Barack Obama.

Por que “curiosamente”?
Era um homem inteligente e que falava. Estive com ele três vezes e tivemos conversas muito interessantes. Reconheceu-me certas coisas. Disse-lhe que era preciso ajudar a desenvolver a América Central, não travar a imigração. E ele respondeu: ‘Tem razão, mas convença os republicanos disso’. Ele via os problemas.

No Brasil está o seu amigo Lula, mas também há Milei na Argentina e a crise na Venezuela. Como vê a situação da América Latina?
O panorama é, infelizmente, complicado. Porque nos unimos muito pouco e não existimos no mundo. Tivemos uma oportunidade com Lula, que é uma figura mundial com certo prestígio, mas não a aproveitámos. Na política internacional, não servimos nem para trazer o café. Precisamos de nos unir para nos defendermos, mas a agenda nacional consome todo o tempo.

Rafael Correa, Cristina Kirchner, Evo Morales, o próprio Lula… Por que não deixaram sucessores?
Cansei-me de dizer que o melhor dirigente é aquele que, ao desaparecer, deixa uma geração que o supera largamente. Porque a vida continua e a luta também, não acaba connosco. O dirigente deve semear e dar oportunidades para que o substituam. Sei que continuo a ser uma figura de peso, mas abri caminho. Agora, o que vai acontecer no futuro, quem sabe?

Por que decidiu virar a página sobre o passado?
Não viro a página; não gasto energia a cobrar, que é diferente. Não se vive de recordações. Na vida há feridas que não têm cura, mas aprende-se a continuar a viver.

Tem muitas feridas abertas?
Claro que sim, tenho coisas inesquecíveis, mas não as vou cobrar. Estive sete anos numa cela mais pequena que esta. Sem um livro, sem nada para ler. Tiravam-me uma ou duas vezes por mês para caminhar meia hora num pátio. Sete anos assim. Se fosse cobrar o que tenho para cobrar… Deus me livre.

Que mensagem deixa aos jovens?
Que a vida é bela, mas é preciso encontrar uma causa para viver. Pode ser a música, a ciência, qualquer coisa. Viver para pagar contas? Isso não é viver.

O que pede hoje à vida?
Que me cure disto. E que ainda consiga “ladrar” um pouco, dar algumas ideias.

El País17 Nov 2024 Federico Rivas Molina | Gabriel Díaz Campanella

O Êxodo

 Uma das coisas que mais me orgulho e, até poderia colocar no currículo, foi ter saído do Twitter quando a grande maioria ainda decidiu ficar. Sabiam que Musk o tinha destruído, até lhe mudou o nome, deixou de ser o que era e passou a ser mau, mas mesmo muito mau. Mas é sempre bom tentar continuar a ser afagado pelos milhares de seguidores e pelos coraçõezinhos. Apesar das montanhas de publicidade, apesar mentiras, dos milhares de bots, e das novas regras absurdas que mudavam consoante o que o Almíscar queria, as pessoas pessoas por lá foram ficando, entrando em negação, suportando o insuportável na tentativa de manter o pequeno consolo do afago no ego. 


É muito bom estar nas redes sociais e ser afagado. É por isso que já há muito poucos resistentes, como eu, que permaneceram nos blogs, porque aqui os comentários e as interações desapareceram. As pessoas já não têm paciência para ler, quando mais abrir um link de uma notícia, quando mais agora ler textos de gente desconhecida e dar-se ao trabalho de comentar. 

Ninguém consegue estar na internet a passar o dedo por mais de quinze segundos, porque é imperioso que se passa ao seguinte vídeo de gatinhos, ao seguinte vídeo de outra merda qualquer, num loop estupidificante eterno. 

Até que se deu, finalmente o Êxoso. Começaram todos a debandar do falecido Twitter chamado agora de X e começaram em massa a migrar para o Bluesky onde andei no último ano e meio. 

Primeiro foi o Guardian a sair, que tinha cerca de oitenta contas oficiais e milhões de seguidores mas a seguir foi o La Vanguardia e muitas outras contas importantes. 

Espero que por lá, no X, fiquem apenas o Musk e o Trump e todos os maluquinhos fascistas. 

Irracionalmente as Pessoas Votam em Quem as Quer Destruir

Este texto de Antonio Muñoz Molina no El País de dia 16 de Novembro, fala sobre as cheias em Valência, e como os valencianos votaram em quem atentou contra os seus interesses, mas poderia ser também sobre os mais jovens que votam em partidos que favorecem a especulação imobiliária, ou sobre os pobres que votam em políticos que defendem os interesses dos mais ricos do mundo, ou sobre os pretos que votam em políticos racistas ou sobre gays que votam em políticos homofóbicos. Este texto é sobre a irracionalidade reinante nos dias de hoje, em que os cidadão, hipnotizados pela agenda dominante dos média e das redes sociais, conseguem votar naqueles que os querem destruir. 


 A retaguarda protetora, a arrière-boutique para a qual Montaigne nos encoraja a retirar-nos de tempos a tempos, não precisa de ser um quarto solitário nem um espaço fechado. O próprio Montaigne, apesar do afastamento dos assuntos mundanos que escolheu aos trinta e poucos anos, continuou muito viajado e ativo até ao fim da vida, que foi ceifada por uma feroz cólica nefrítica. Montaigne percorreu a Itália a cavalo com uma pompa principesca, envolveu-se em assuntos públicos e em diplomacias cortesãs secretas, andou de um lado para o outro com a família e os criados, tentando escapar ao flagelo das guerras religiosas e da peste. E, quando permanecia no seu castelo, nem sempre estava isolado com livros e papéis na torre circular onde tinha instalado a sua biblioteca. Como senhor feudal, não escrevia à mão, mas ditava a um secretário. Das janelas da torre, podia observar a vida nos pátios e galerias do castelo e vigiar as vinhas e florestas das suas propriedades, sempre alerta para a possibilidade de que, por aqueles caminhos traçados sobre a terra fértil, surgissem grupos de bandidos a cavalo ou fanáticos armados das várias seitas religiosas.

Embora a forma dos ensaios de Montaigne fosse o monólogo, quase um fluxo de consciência, o seu instinto não era de isolamento, mas de conversação. Dizia que escrever, para ele, era como começar a falar com um desconhecido na rua. E na origem das suas reflexões e ideias estava um propósito de diálogo frustrado, pois Montaigne quis sempre continuar a conversar com o seu grande amigo e amor da alma, Étienne de La Boétie, que morreu quando ambos eram ainda muito jovens. Nele, Montaigne encontrou, como Adolfo Bioy Casares escreveu sobre outra amizade, “a pátria da sua alma”.

Montaigne não cultivou a tolerância, a liberdade de espírito ou a irreverência face aos dogmas numa atmosfera cultural favorável a esses valores. Fê-no contra a corrente da terrível maré dos tempos, quando protestantes e católicos se massacram com fúria idêntica, e o destino certo de qualquer dissidência era a tortura e a fogueira. O defensor e propagandista dos livros, felizmente multiplicados pela imprensa, que devolviam ao mundo a sabedoria e beleza dos autores gregos e latinos, viu como livros condenados ardiam nas mesmas chamas onde se queimavam os seus autores. E também viu como outros livros propagavam não o conhecimento, mas o obscurantismo, envenenavam consciências, incitavam ao extermínio e forneciam justificações teológicas. Gravuras rudes representavam os inimigos como canibais, ratos, bruxas espetadas em tridentes demoníacos, ou criaturas excrementícias vestidas de frades e freiras, emergindo do traseiro elefantiásico do Papa.

A retaguarda, infelizmente, não é uma escolha, mas um privilégio e, também, um golpe de sorte. Não há espaço para bastidores para as pobres gentes martirizadas de Gaza, agora sujeitas a um cerco de fome, além do terror das bombas; nem houve, há duas semanas, para aquela multidão que, em poucas horas, na província de Valência, viu as suas vidas devastadas por um dilúvio universal que não era só de água, mas de lama, lixo e carros esmagados como brinquedos ridículos. Os antigos conheciam os golpes súbitos de crueldade impessoal da natureza e, sem outro recurso intelectual além de os atribuir à malevolência dos deuses, ao menos tinham acumulado, ao longo dos séculos, as sabedorias necessárias para atenuar a destruição, limpando leitos de torrentes, desenhando ruas e construindo edifícios que, em vez de barreiras ou armadilhas mortais, pudessem ser escoadouros para o colapso das águas, respeitando dunas, pântanos, espécies vegetais e ambientes resistentes e flexíveis às invasões do mar. Precisamos de uma retaguarda, mas somos tão vulneráveis à irracionalidade dos poderosos como às catástrofes naturais, percebendo cada vez mais que uns são tão perigosos quanto as outras, numa escalada assustadora cujo desfecho desconhecemos.

Na véspera da calamidade de 29 de outubro, as principais medidas ambientais do governo valenciano foram extinguir um organismo regional de emergências, cortar fundos dedicados à prevenção e autorizar novas construções ainda mais próximas do mar, seguramente com o objetivo prático de serem varridas rapidamente pelas tempestades, desde que os construtores tivessem tempo de receber os seus lucros e os vereadores e altos cargos corruptos recolhessem as devidas comissões.

Aqui, como em todo o lado, a irracionalidade e a cegueira parecem contagiar uma grande parte da cidadania. Os mesmos que mais sofrem com as alterações climáticas votam massivamente em demagogos que as negam, instigados pela turba macabra da extrema-direita e financiados pelas oligarquias do petróleo, agora aliadas aos antigos apóstolos bondosos das empresas tecnológicas. Nas zonas mais castigadas pelos furacões no sudeste dos Estados Unidos, de Florida às Carolinas, os moradores mal saem das suas ruas inundadas e casas em ruínas para votar em Donald Trump, com o mesmo entusiasmo com que os israelitas estão prontos para votar, assim que possível, em Benjamim Netanyahu e na sua coorte de supremacistas vingativos.

Ligamos o telejornal, e a nossa neta Leonor, de seis anos, que quer ver desenhos animados, pergunta porquê. Quando lhe dizemos que queremos saber o que se passa no mundo, ela fica séria e responde: “Pois eu não gosto do que se passa no mundo.” Nós também não. Assistimos às notícias com apreensão e, às vezes, durante o pequeno-almoço, lemos o jornal em papel ou digital e ouvimos a rádio. Mas o desejo de saber e compreender acarreta o perigo de sermos inundados não apenas pelas informações ameaçadoras, mas pelo lodo pútrido das mentiras, calúnias e bulos, sustentados com fria desfaçatez por quem aprendeu a encobrir a sua incompetência e corrupção acusando outros de serem corruptos. Nesse telejornal que a menina quer que desliguemos rapidamente, vejo Alberto Núñez Feijóo a culpar Pedro Sánchez e Teresa Ribera pela tragédia de Valência. Essa expressão de sarcasmo turvo e máscara de borracha provoca-me um repúdio físico, como uma má digestão. Há graus de vileza que talvez surpreendam, secretamente, até quem os pratica.

Por isso, é necessário recolhermo-nos nos bastidores, desligar a rádio, apagar a televisão, ou deixar que as crianças vejam os seus desenhos animados, buscar o silêncio, passear pelo campo numa manhã de novembro, observar com a paciência de um botânico os últimos abelhões sobre as pétalas desfeitas das últimas dálias, ler um conto às crianças ou assisti-las nas suas leituras. 

Ler Montaigne ou o seu parente espiritual, Miguel de Cervantes. Enviar dinheiro à Cruz Vermelha de Valência. E também sair dos bastidores para nos manifestarmos por um ar limpo, uma habitação digna, cidades não colonizadas por especuladores ou turistas, uma educação pública crítica e humanista para todos, um serviço nacional de saúde universal a salvo dos mercadores, um mundo habitável e justo onde, oxalá, essas crianças possam viver quando forem mulheres adultas e nós já não estivermos cá.

domingo, 10 de novembro de 2024

Os Imigrantes que Devem Ser Proibidos de Entrar em Portugal

Os dados económicos estão excelentes. O desemprego está historicamente baixo e o governo de António Costa diminui o défice e o Estado português teve pela primeira vez lucro! Tal como nos Estados Unidos a economia sob a administração Biden ia muito bem. Mas então porquê tanta raiva e ódio, porque é que os Estados Unidos acabaram de votar o regresso à Idade das Trevas, e porque é que em Portugal, mais de um milhão de portugueses votaram num partido racista e xenófobo, para o qual o principal problema de Portugal são os ciganos e os imigrantes (pobres)?

Dizem que a economia vai bem, mas, no fundo, a economia é como aquela coisa do frango do Pitigrilli.

1% dos milionários come o dinheiro todo, então, teremos todos comido, em média, igual percentagem do crescimento económico cada um. Só que não. Uns compram casas de milhões, e têm uma em cada país, os outros têm que emigrar para conseguir juntar dinheiro para, eventualmente, algum dia no futuro terem dinheiro para ter um sítio onde dormir. 


Eu acompanho o drama da minha colega de trabalho. Tem 25 anos, quer casar e comprar casa. Mas, apesar de ter trabalho, e, muitas vezes ainda trabalhar aos fim-de-semana, e do namorado também ter trabalho e de ambos ganharem bem mais do que o salário mínimo por mês, estão desanimados por estar muito difícil comprar uma casa para viver. E, se não fosse a questão do namorado ter-se despedido para trabalhar e ajudar no negócio dos pais, dizia-me a minha colega, já teriam emigrado. 

Dizem todos os indicadores que a economia vai muito bem, obrigado, mas depois é o caos que se vê na saúde - ainda esta semana morreram dez pessoas por falta de assistência do INEM - são as crianças que continuam sem professores, e, brevemente não haverá professores em todas as disciplinas, e pior, os jovens não têm perspectivas de vida. Há sérias dificuldades. 

Os pobres hoje em dia não são aqueles de antigamente que iam pedir esmola para a porta da igreja (conhecidos por "pé rapado" no Brasil, obrigados a rapar a lama dos pés). Os pobres hoje em dia são todos aqueles que trabalham, têm carro, iPhone e até vão de férias mas ganham menos de 1500€ por mês.



E é por isso que raiva e ódio. A culpa não é das políticas neoliberais. Vêm os novos fascistas a que chamam populistas e tentam meter na cabeça oca das pessoas que o problema não é 1% da população ficar com tudo e outros todos ficarem sem nada. Nada disso. O problema é dos ciganos, dos imigrantes, o problema é sempre outro qualquer que não a verdadeira causa. 

Insatisfeitas com o estado de coisas a que o neoliberalismo em todo o mundo chegou, porque os problemas são os mesmos em todo o lado, as pessoas, em vez de fortalecerem políticas que redistribuem a riqueza, não, viram-se para os fascistas, como os taberneiros do CH, que simplesmente os querem esmagar! 

Os imigrantes que deveriam ser proibidos de vir para Portugal são os ricos que chegam aqui e compram casas e que inflacionam os preços e que depois os jovens portugueses, tal como a minha colega de trabalho, que querem comprar uma casa nunca terão essa possibilidade ou ficarão super endividados para o resto da vida. 

O problema não são os pobres coitados que vêm para aqui à procura da uma vida melhor, quase sempre explorados, lotados em barrações ou garagens, para fazer aquilo que por cá já ninguém quer fazer. 


Mas, infelizmente, são os mais jovens que mais votam na extema-direita, muitos com as mesmas dificuldades da colega de trabalho, que votam também no IL e no PSD (e até no PS que em oito anos também não fez muito para travar o estado de coisas a que chegamos). Votam nos partidos que permitem os vistos dourados, que permitem que a habitação, que é um direito constitucional, seja afinal um negócio e não dá perspectivas de a milhares de jovens deste país. 

Então, que se fodam todos. As pessoas queixam-se mas têm aquilo no qual votaram.  

sábado, 9 de novembro de 2024

Eleições nos Estados Unidos - O Sequestro dos Eleitores

Tal como vaticinei e, contrariamente à opinião de grande parte dos especialistas cá do burgo, Trump venceu as eleições nos Estados Unidos. E na ressaca dos resultados fui lendo muita coisa. Por cá agora alguns comentadores ajustam a argumentação à nova realidade e dão verdadeiras piruetas - mais ou menos como Marques Mendes fez aquando da pandemia, em que primeiro elogiou as medidas do governo de Costa, mas depois, perante a realidade dos mortos, afirmou que se estava mesmo a ver que ia dar mau resultado! 

Mas fui lendo também algumas coisas na imprensa internacional e este artigo em particular, do New York Times, foi dos que mais gostei e aqui vai ficar para memória futura:

"Nas vésperas das eleições de terça-feira para o próximo presidente dos EUA, uma grande maioria dos eleitores americanos afirmava que o país estava a seguir um caminho errado e que se sentiam desapontados com os candidatos. Uma pluralidade de eleitores afirmou que, independentemente de quem fosse eleito, o próximo presidente pioraria a situação. Quase 80% dos eleitores disseram que as campanhas presidenciais não lhes inspiravam orgulho na América.

A responsabilidade por este estado deplorável de coisas recai sobre os partidos Democrata e Republicano, que não apresentaram uma visão capaz de atrair a maioria dos americanos. Trump e Kamala Harris jogaram à roleta com o eleitorado, recorrendo frequentemente a ameaças apocalípticas sobre o fim da democracia para convencer as pessoas de que não tinham escolha senão votar conforme lhes era indicado.

Ambos os candidatos ofereceram políticas impopulares até entre os seus próprios apoiantes, servindo um banquete para os seus doadores enquanto distribuíam migalhas aos seus eleitores. Para um dos candidatos, essa estratégia de desdém resultou. Mas, no geral, falhou com o povo americano.

Apesar de toda a sua postura populista, Trump propôs reduções de impostos que favorecem os ricos, defendeu tarifas que quase certamente aumentariam o custo dos alimentos, criticou o pagamento de horas extraordinárias, elogiou o despedimento de trabalhadores em greve e permaneceu em silêncio enquanto os seus aliados falavam em destruir o Affordable Care Act. Insistiu que a questão do aborto fosse decidida pelos estados, apesar de a maioria dos americanos, incluindo muitos republicanos, acreditar que o aborto deveria ser legal em todo o país. E comprometeu-se a opor-se a novas restrições sobre armas, embora a maioria esmagadora dos americanos apoie leis mais rigorosas.

E o que recebiam os apoiantes de Trump em troca de apoiarem essa agenda impopular? Elon Musk prometia um período de sofrimento económico. Tucker Carlson dizia que Trump daria “uma lição” ao país. Por que razão alguém se comprometeria com isso? Porque, disseram-lhes, a alternativa era a guerra nuclear sob Kamala Harris. Que grande escolha.

Entretanto, Biden e os seus aliados ignoraram a crença do público de que ele era demasiado velho para um novo mandato. Quando finalmente decidiu afastar-se — apenas após um desastre televisivo que arruinou a sua campanha cambaleante — o Partido Democrata contornou a democracia, simplesmente coroando a sua sucessora. Em várias políticas — especialmente no que diz respeito aos direitos reprodutivos — Kamala Harris está alinhada com os eleitores. Mas rapidamente começou a dar sinais de que não iria avançar com políticas económicas progressistas que Biden havia conseguido arrancar das amarras do neoliberalismo.

Recusou-se a afirmar que manteria Lina Khan, a presidente da Federal Trade Commission, conhecida pelo seu combate aos monopólios e altamente popular entre democratas e até alguns republicanos (mas não, essencialmente, entre os seus doadores). Recusou-se a apoiar um embargo de armas contra Israel, embora uma sondagem de Junho tenha revelado que 77% dos democratas e 62% dos independentes o desejavam. E ao mesmo tempo ignorava os eleitores árabes e muçulmanos, aproximava-se da indústria das criptomoedas e exibia orgulhosamente o seu apoio de Dick Cheney, um homem que deixou o cargo com uma taxa de aprovação de apenas 13%. Harris fez uma aposta de alto risco: como Trump realmente representava uma ameaça para a democracia, quando chegasse a hora da verdade, a maioria dos americanos superaria a sua frustração com ela.

Durante a maior parte da última década, o discurso americano tem sido dominado por uma política de emergência: uma insistência coletiva de que estamos à beira do colapso, uma ansiedade que ambos os partidos exploraram para manter os eleitores reféns. Este ano, esse impulso atingiu o seu apogeu.

O que a nação acabou de viver não foi uma eleição; foi uma situação de reféns. Os nossos principais partidos representam os interesses de magnatas do streaming, da indústria de armamento, dos barões do petróleo, dos “gurus” do Bitcoin e da indústria do tabaco, muitas vezes sem sequer fingir ouvir os eleitores. Um sistema político assim está fundamentalmente falido.

Uma sondagem da primavera passada indicou que cerca de metade dos eleitores com menos de 30 anos acredita que não importa quem ganha as eleições. Descrevendo o crescente niilismo desta geração, um analista disse à Semafor: “Os jovens eleitores não vêem figuras boas na nossa política. Vêem um império em declínio, liderado por pessoas que não prestam.”

A teórica cultural Lauren Berlant observou que “as épocas políticas intensas geram devaneios”, períodos breves de romance em que mudanças súbitas parecem possíveis. Esses devaneios não se baseiam em verdadeira esperança, mas numa espécie de “otimismo cruel” que figuras e processos políticos inevitavelmente traem. Uma forma de entender o estado de espírito do país hoje - e o cinismo daqueles que atingiram a maioridade política após 2008 - é como uma longa ressaca do otimismo cruel da Era Obama: a euforia de uma campanha de “esperança” e “mudança” que acabou por se desmoronar, seguida por três eleições presidenciais de “aceitar ou rejeitar”. Contudo, esta década de desespero pode ser, à sua maneira, uma oportunidade.

“O remédio pode vir da mesma fonte do mal”, escreveu o filósofo Edmund Burke, refletindo sobre a disfunção política do seu tempo. Se alguma vez quisermos sair do ciclo de emergência em que estamos presos - onde Republicanos e Democratas se acusam mutuamente de horrores apocalípticos enquanto impõem políticas que só beneficiam as respetivas elites - precisamos de estar dispostos a exigir mais.

Uma ameaça à democracia não isenta os líderes de apresentar aos eleitores um plano para o futuro, que atenda às suas preocupações e reflicta a América que desejam. De facto, quanto maior a ameaça, mais importante se torna o trabalho de ganhar a confiança dos eleitores, em vez de lhes dar um ultimato.

Se os americanos querem sair deste impasse, precisamos de deixar de permitir que os candidatos se aproveitem de desculpas alarmistas. Quando os candidatos nem sequer têm a decência de nos vender ilusões, e nos dizem que simplesmente não temos escolha a não ser votar neles, precisamos de fugir na direção oposta.

E, no auge da frustração, mais de nós precisa de concorrer a cargos - contra os escolhidos, contra os incumbentes, como independentes, se necessário - mesmo que a derrota seja certa, mesmo que gritem que estás a “estragar” uma corrida que já estava estragada antes de alguém votar.

Dizer aos americanos que não têm escolha a não ser votar neles mostra um profundo desrespeito".

Tyler Austin Harper | The New York Times (7 de Novembro de 2024)