quinta-feira, 23 de julho de 2020

Conversas Improváveis (54) - Já Não Há Milagres



Há já algum tempo, e porque muitas vezes não ouve o filho, que a minha mãe tem um dente a abanar. Hoje, e já depois de ter ficado insatisfeita com o trabalho da clínica, deslocou-se a um outro dentista para tentar salvar um dente. 
A minha mãe lá expõe a situação e o médico e solta um:
- Olhe, sabe que não podemos fazer milagres. 
A minha mãe responde:
- Claro que sei. Se houvesse milagres o vírus não pegava em Fátima!


sábado, 18 de julho de 2020

A Incredulidade e a Raiva de Salazar

"Eu tive, na altura, através duma pessoa de inteira confiança, informações de que um inspector da polícia, Pessoa de Amorim, dera conhecimentos dos factos a Salazar, e que o ditador respondeu: "Ora, onde é que ele vai arranjar o dinheiro? Fica muito caro! Não tem viabilidade. Não pense nisso!"

"Mais tarde, após a "derrota" de Humberto Delgado, o polícia teria voltado a escrever ao Primeiro-Ministro, como a censurá-lo por não ter acreditado na notícia e observando que teria sido fácil evitar tantos "aborrecimentos". Bastava, na altura, ter voltado a nomear Delgado para qualquer missão no estrangeiro. Ao que Salazar teria respondido, com um cartão:
"Sr. Pessoa de Amorim, tem você razão, mas continua a ser o mesmo malcriado". Não admitia que lhe chamassem a atenção para o facto de ter errado. O episódio foi-me contado assim e estou convencido de que é exacto.

 Tinha sido muito simples para o governo. Delgado viera de Nova Iorque ou de Washington? Pois iria para adido militar ou outra coisa, noutro lado. Era um oficial, tinha de cumprir. E matava-se a candidatura à nascença. Salazar não acreditou, porque sabia quanto lhe custavam as "eleições", e julgava que, com a Oposição, se passava a mesmo coisa. Não que fazíamos todo o trabalho  sem receber nada e que o dinheiro era o povo, depois, que o dava. A colaboração era espontânea. Ninguém recebia por trabalhar na candidatura. Pelo contrário, oferecia-se dinheiro. Este pormenor foi, afinal, definitivo. Ainda bem que se esqueceu dele, porque assim, felizmente, foi possível ir até ao fim." 

"Obviamente Demito-o - Retrato de Delgado nas Palavras dos Companheiros de Luta" - Manuel Beça Múrias (1975)

segunda-feira, 13 de julho de 2020

A Rua Esburacada Que Deixou de o Ser

Há anos que tenho vergonha do estado em que se encontra a minha rua. E revolta-me que outras sejam feitas de novo, sejam esburacadas duas ou três vezes e de novo ajeitadas ao passo que a minha vai ficando cada vez pior. Eu não consigo perceber, como é que as câmaras municipais gastam por vezes rios e rios de dinheiro, que é de todos os munícipes, em festas e merdas que não lembra o Diabo e depois naquelas coisas básicas de primeira necessidade como uma estrada, fecham os olhos e fazem de conta que não é nada com eles. 

Quando eu ia para a escola a minha rua era em terra batida e foi-lhe colocada brita com algum, pouco, alcatrão por volta de 1990. Lembro-me que em cima do alcatrão foi colocada uma enorme camada de areia, que depois aos poucos os moradores foram varrendo e aproveitando.  Se andássemos de bicicleta o passeio não era sereno mas sim com alguma trepidação fruto da irregularidade da brita asfaltada. 


Apesar da estrada ter pouco movimento, a verdade é que, com o tempo foi ficando em muito mau estado, e piorou muito quando a rasgaram toda para meter os tubos para o saneamento. Até que, recentemente foi construída uma oficina abaixo da minha casa (que era a última da rua) e de cinco em cinco minutos passava um camião cheio de terra. Ora se estava mal muito pior ficou. 

Já há coisa de dez anos fez-se um abaixo-assinado por sugestão dum antigo presidente da junta que se prontificou a entregar na câmara municipal mas que, por certo, devem ter deitado ao lixo visto que nada se fez.

Dois presidentes da junta passaram. O atual estava ao corrente, e ao que parece chegou a dizer (desculpa esfarrapada) que quando fosse para fazer fazia-se bem de vez. Pois é, isso é muito bonito, só que, entretanto as pessoas têm verdadeiras crateras em frente de casa, mesmo à feição de furarem um pneu para saírem ou entrarem em casa. E será que os em frente das casas dos presidentes de junta e da câmara também se espera que se façam as estradas de novo? Suspeito que não.

Farto desta situação comecei a pensar em formas de chamar a atenção e de envergonhar os autarcas. Comecei pela mais simples, antes de optar por métodos criativos e radicais. E foi então que, sem dizer nada a ninguém, decidi escrever para o jornal da cidade. Tirei uma fotografia bastante explícita e expus a situação. Posteriormente, a minha mãe disse que eu poderia lá ter metido as tartarugas no charco!

Mas a verdade é que a minha denúncia foi publicada e, não é que, duas semanas depois (eu ainda nem tinha a edição do jornal) já tinham começado a ajeitar a rua? Anos e anos em que ninguém fez nada e uma notíciazinha no jornal e mexem-se logo? Terá sido coincidência ou quando envergonhados os autarcas mexem-se logo? Ficarei sem saber, mas o que interessa é que fiquei com o problema resolvido, ainda que, como o meu nome veio no jornal, talvez tenha ganho algumas inimizades. Azar.

domingo, 12 de julho de 2020

As Melhores Pessoas São Esquisitas



" As melhores pessoas são esquisitas -
Eu digo e repito na boa!

Quem é bonito e normal demais,
Está fingindo.
Quem é inteligente,
Ama as pessoas esquisitas à sua volta.

Elas são as respostas e a revolta
Que a gente precisa. "

Andanças para a Liberdade

"Emigrar jovem, com a vida pela frente, não é a mesma coisa que emigrar quando já se constituiu família e a necessidade de estabilidade económica se impõe como objetivo maior e urgente.

Para mim, a expressão "governar a vida", na Venezuela daquele tempo (tempo de ditadura), significava uma de duas coisas: ou "honestamente" dedicar-se exclusivamente ao trabalho braçal, sem pensar em mais nada, privando-se de tudo o que não fosse essencial à sobrevivência física e a manutenção da saúde para o trabalhar, embrutecendo para ser um rico "bruto", ou pôr de lado princípios e valores, "perder os escrúpulos" e, traficando influências, manipulando e interagindo com os poderosos corruptos locais, alcançar a fortuna de um dia para o outro. 

Aí comecei a compreender porque os governantes e poderosos , quando corruptos, preferem praticar a corrupção com "gente de fora", com estrangeiros sem relações sociais sucetíveis de serem aproveitadas para os denunciar. 

Sempre me pareceu que voltar sendo alguém pelo que se é e não pelo que se tem era uma opção de difícil concretização, incompreendida pelos mentores dos pátrios esteriótipos sociais reinantes, e para a qual os caminhos eram muito mais reduzidos e incertos do que aqueles que podiam levar a ser alguém pela acumulação e ostentação da riqueza material. Sobretudo para quem os escrúpulos éticos e os valores morais não fossem impeditivos de ilícitos bem lucrativos. 

Sem disso ter então consciência, graças ao ditador de Santa Comba, tive oportunidade de poder encontrar, anos mais tarde, um caminho para o SER... empenhando vida, família e improvável fortuna, na luta pela LIBERDADE do meu país, na luta contra a miséria material e cultural de todos os "pátios fundos" do Mundo, e pela afirmação e universalização de valores que, naquela época, ainda não relacionava com políticas ou ideologias. 

Prestando atenção às projeções do que a memória reteve, suspeito sempre que as reflexões hoje feitas não passem de meras justificações para dar razoabilidade a práticas de vida que não eram nada resultantes de opções conscientes, tão só e apenas, as mais atrativas de um jovem que se vê aos dezoito anos, só e senhor da sua vida e do seu corpo, sem orientações tutelares de qualquer espécie, para além dos ensinamentos práticos retirados da sua curta existência. 

"Andanças para a Liberdade" / Camilo Mortágua (2009)