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terça-feira, 18 de agosto de 2020

Será Que Não Aprendemos Mesmo Nada Com 48 Anos de Fascismo?

Há coisas muito curiosas. Depois de ter terminado o primeiro volume de Andanças para a liberdade e porque gostava de confrontar a opinião de Mortágua com outras opiniões de outras pessoas que privaram de perto com o "general sem medo", Humberto Delgado, o candidato à presidência da república opositor de Salazar, resolvi que não iria ler de seguida o segundo volume, mas sim pegar no "Obviamente Demito-o". Findo este livro lá retomei as andanças do segundo volume.

Mesmo antes do final do livro já tinha pensado para comigo em jeito de piada que, se calhar, a grande  última missão do autor na luta pela liberdade já em tempos de democracia foi as duas filhas que deu à democracia no parlamento.


"Foi numa quarta-feira de manhã, na cave-"poço" da Repro-Rapid, n número 4 da rua de Cretet, Metro Pigalle ou Anvers em Paris, que por volta das nove da manhã ouvi o Idálio gritar: É pá, a rádio está a dizer que houve uma revolução em Portugal...

O dia 27 foi destinado a carregar o Simca e a convencer os colegas da minha decisão inabalável de participar da Festa tão esperada, nem que fosse a última coisa a fazer na vida.

A estrada até Vilar Formoso era o Rio da Alegria, bandeiras e cantares enchiam a paisagem de cores e as gargantas anunciavam aos ventos... Somos livres! Somos livres! Mesmo sem saber se de facto o éramos. Os peitos inchados de orgulho! Finalmente, íamos demonstrar ao mundo que neste país também havia gente capaz de lutar pela sua dignidade, capaz de sacrifícios para alcançar a LIBERDADE.

Chegámos a Vilar Formoso por volta da meia-noite do dia 30 de Abril e a Lisboa ao romper da mais bela aurora da minha vida!
Da minha e, certamente, da de todos os que encheram as estradas da Europa a caminho da pátria em festa, de todas as organizações, de todos os comités. Trotzquistas, maoistas, comunistas, de todas as tendências e inspirações, cruzavam-se, saudavam-se abraçavam-se como nunca tinham feito."

E não é que, no mesmo dia em que terminei o livro do herói revolucionário romântico que lutou como poucos, arriscando muitas vezes a própria vida contra a ditadura de Salazar, nesse mesmo dia da semana que passou, e na sequência da manifestação de cara tapada, ao melhor estilo KKK que a extrema-direita nazi e fascista fez em frente sede da SOS Racismo, nesse mesmo dia venho a saber que a sua filha, Mariana Mortágua, foi ameaçada de morte conjuntamente com outras deputadas e pessoas ativistas anti-racismo? E para a semana ter terminado em beleza, a PSP processou o jornal Público por causa de um cartoon satírico!

Vivemos tempos muito estranhos e não, isto não tem nada que ver com a pandemia. Será que não aprendemos mesmo nada com quarenta e oito anos de fascismo?

domingo, 12 de julho de 2020

Andanças para a Liberdade

"Emigrar jovem, com a vida pela frente, não é a mesma coisa que emigrar quando já se constituiu família e a necessidade de estabilidade económica se impõe como objetivo maior e urgente.

Para mim, a expressão "governar a vida", na Venezuela daquele tempo (tempo de ditadura), significava uma de duas coisas: ou "honestamente" dedicar-se exclusivamente ao trabalho braçal, sem pensar em mais nada, privando-se de tudo o que não fosse essencial à sobrevivência física e a manutenção da saúde para o trabalhar, embrutecendo para ser um rico "bruto", ou pôr de lado princípios e valores, "perder os escrúpulos" e, traficando influências, manipulando e interagindo com os poderosos corruptos locais, alcançar a fortuna de um dia para o outro. 

Aí comecei a compreender porque os governantes e poderosos , quando corruptos, preferem praticar a corrupção com "gente de fora", com estrangeiros sem relações sociais sucetíveis de serem aproveitadas para os denunciar. 

Sempre me pareceu que voltar sendo alguém pelo que se é e não pelo que se tem era uma opção de difícil concretização, incompreendida pelos mentores dos pátrios esteriótipos sociais reinantes, e para a qual os caminhos eram muito mais reduzidos e incertos do que aqueles que podiam levar a ser alguém pela acumulação e ostentação da riqueza material. Sobretudo para quem os escrúpulos éticos e os valores morais não fossem impeditivos de ilícitos bem lucrativos. 

Sem disso ter então consciência, graças ao ditador de Santa Comba, tive oportunidade de poder encontrar, anos mais tarde, um caminho para o SER... empenhando vida, família e improvável fortuna, na luta pela LIBERDADE do meu país, na luta contra a miséria material e cultural de todos os "pátios fundos" do Mundo, e pela afirmação e universalização de valores que, naquela época, ainda não relacionava com políticas ou ideologias. 

Prestando atenção às projeções do que a memória reteve, suspeito sempre que as reflexões hoje feitas não passem de meras justificações para dar razoabilidade a práticas de vida que não eram nada resultantes de opções conscientes, tão só e apenas, as mais atrativas de um jovem que se vê aos dezoito anos, só e senhor da sua vida e do seu corpo, sem orientações tutelares de qualquer espécie, para além dos ensinamentos práticos retirados da sua curta existência. 

"Andanças para a Liberdade" / Camilo Mortágua (2009)