"A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão."
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Ainda Há Esperança na Humanidade
A psicóloga quis conversar comigo na véspera da consoada de Natal porque seria o primeiro Natal que eu passaria sem a minha mãe. Falei-lhe de natais da minha infância, das saudades das mesmas conversas do meu avô e do madeiro que punha a arder. expliquei-lhe que sempre odiei esta época de excessos, de hipocrisia e consumismo. Uma época em que todos se lembram dos outros e até oferecem prendas a quem não gostam, e até os sem abrigo podem comer nestes para que depois se esqueçam deles no resto do ano. Se tivesse que passar este dia sozinho, acho que iria ser um dia como todos os outros em que estou sozinho, provavelmente a comer as mesmas coisas que cozinho no resto dos dias. Mas, felizmente, tive alguns convites para passar a consoada, ainda que, como esperado, nenhum de familiares.
Depois de há dois anos ter esperado cerca de duas horas numa pastelaria, tendo inclusivamente de subir umas escadas em caracol do prédio e ficar numa sala andando aos passinhos muito pequeninos, e ter trazido um bolo-rei para casa que estava completamente recesso (aconteceu o mesmo a um colega de trabalho) e ter prometido que nunca mais compraria um bolo-rei, eis senão quando sou convidado para passar a ceia de Natal em casa da família de uma amiga...
Ó diabo, pensei, tenho de comprar umas coisas para levar!
E, por recomendação, tentei encomendar ainda on-line nesta pastelaria do centro do Porto, mas já não aceitavam encomendas. Consegui uma cunha, porque esta pastelaria fica mesmo perto de casa da pessoa que me aconselhou a comprar lá, e então, às 9h da manhã do dia de consoada ainda iriam ter alguns bolo-rei para vender na loja. E foi assim que ainda consegui comprar um, que veio conjuntamente com um bolo Gaspar ("O Gaspar [26€/kg] é uma criação nossa. Usamos a nossa massa de bolo-rei, sem fruta cristalizada mas com uma selecção muito criteriosa de frutos secos, à qual adicionamos o nosso doce de ovo e apontamentos de chila - ingredientes que o tornam num bolo muito interessante e muito rico”) e ainda comprei mais uns doces conventuais.
domingo, 28 de dezembro de 2025
Um T2 em Lisboa ou um Castelo na Escócia?
Pelo preço de um T2 em Lisboa pode-se comprar o Castelo de Kinloch, que tem 20 quartos e 7 hectares de terreno, na Ilha de Rum na Escócia.
Como o salário mínimo na Escócia é mais do dobro do que em Portugal, ainda pensei vender a minha casita, aí por um milhão de euros e mudar-me. Mas depois pus-me a pensar e é melhor não, porque aquilo é capaz de dar um bocado de trabalho a limpar os vinte quartos. E uma área de jardim equivalente a sete campos de futebol de jardim, se calhar também é capaz de dar um bocado de trabalho!
*imagem retirada do jornal The Guardian de hoje
sábado, 27 de dezembro de 2025
André Ventura Militava no PSD mas Votava no Partido Socialista
Pergunto-me, genuinamente, eu que não sou psicólogo nem das ciências humanas, o que revelará da personalidade de André Ventura, que, enquanto militava no PSD, e onde esteve 17 anos - bem dentro do sistema do poder - mas que, enquanto isso, votava no Partido Socialista de José Sócrates?
Talvez seja isso o que ele quer dizer quando se farta de dizer que antissistema. Se enquanto esteve no PSD votou no Partido Socialista de José Sócrates, um dia ainda vai confessar que depois de ter criado o CH, votava no Bloco de Esquerda de Mariana Mortágua!
Mas volto à pergunta inicial: o que nos diz sobre alguém que está tantos anos num partido mas depois confessa alegremente que votava no partido rival?
terça-feira, 16 de dezembro de 2025
Fogo em Lume Brando
domingo, 14 de dezembro de 2025
Encontrar a Saída
No pântano onde não há vida
Um fedor pútrido apodrece a terra
Apenas as almas solitárias dos mortos
Vivem aqui, tão perto do fim
Uma ténue luz surge no nevoeiro
Brilha como uma estrela no céu
Chama a minha mente a seguir este fulgor
Encanta-me, e não sei porquê
Ignis Fatuus é a luz-guia que conduz os homens perdidos pela noite
Bruma sinistra e o mistério que governam este lugar ao redor
Ignis Fatuus é a única esperança neste pântano sombrio e morto
Deves seguir esta luz mágica para encontrar a saída arcana
Neste pântano, com esta coisa brilhante
Talvez tudo seja irreal
Devia ser mais cauteloso aqui
Nunca se sabe qual é a sua verdadeira vontade
Ignis Fatuus é a luz-guia que conduz os homens perdidos pela noite
Bruma sinistra e o mistério que governam este lugar ao redor
Ignis Fatuus é a única esperança neste pântano sombrio e morto
A Raposa que Promete Guardar as Galinhas
O candidato que se diz "anti-sistema", "que não é um político igual aos outros" porque "PS e PSD corrompem a classe política nos últimos 50 anos", é o político que, enquanto trabalhou como inspetor tributário ajudava empresas a fugir ao fisco. É o tal que, enquanto não era deputado criticava os outros deputados que não trabalhavam em regime de exclusividade mas quando se tornou deputado recebia por dois carrinhos. É o político que esteve 17 anos no PSD e que quis ser líder do partido que posteriormente, quando saiu, apelidou de "prostituta política",
Haver quem ache que um corrupto é que vai acabar com a corrupção é o mesmo que achar que um pedófilo é que seria a pessoa ideal para acabar com a pedofilia. Ou, achar que o melhor é pôr uma raposa a guardar o galinheiro
quinta-feira, 11 de dezembro de 2025
Não Façam dos Trabalhadores Estúpidos
Os direitos são direitos. Nunca obrigaram ninguém a nada.
Não façam dos trabalhadores estúpidos.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2025
Se Precisares de Alguma Coisa, Telefona
Na segunda consulta de psicologia - a propósito, acho que deveria ter feito uma formação para saber como me comportar numa consulta de psicologia, porque cheguei lá, sentei-me, peguei na metralhadora e comecei a disparar durante uma hora e meia - lembrei-lhe que retive três coisas que me disse na consulta anterior:
segunda-feira, 8 de dezembro de 2025
Eloísa de Castro - A Filosofia Heavy Metal - FiloMetal (2)
O heavy seduziu essa criança com os seus casacos de cabedal e cabelos compridos. Também explorou o seu lado científico, pois encontrou o seu gineceu quando pediu que lhe oferecessem um microscópio e um telescópio. “Em pequena queria ser Rosendo e Einstein ao mesmo tempo”, comenta. Dois pro-homens peculiares.
Não tinha referências femininas. Aos oito anos perguntou à mãe: “Sou um rapaz?”, pois os seus gostos pareciam masculinos: fascinava-a o metalero Leo Jiménez, vocalista dos Saratoga e grande figura do metal espanhol. “Não, és uma rapariga, com gostos que também são de raparigas”. E então conheceu Doro, diminutivo de Dorothee Pesch, a rainha do metal. E tudo se acelerou.
“Convido os jovens a experimentar, a serem chonis, rappers, para depois escolherem o seu género e não verem o metal como algo satânico. Infelizmente fizeram-me bullying no secundário por gostar disto. Somos luz dentro da nossa escuridão e procuramos levar cultura às pessoas, não a maldade”, aponta.
| @elodecastrofficial |
Aquela adolescente foi percebendo pouco a pouco que também há mulheres na música sombria, embora demasiadas vezes enfiadas em espartilhos de couro sexualizados. “Pode ser uma ferramenta de expressão, desde que seja escolha delas. Eu gosto de ser mais elegante, não tão provocadora”, diz a filósofa, que hoje enverga um vestido comprido do qual sobressai a tinta da sua pele. Os nomes do irmão e da mãe, tatuados em grego antigo nas coxas. Num braço, o ícone do seu livro Antiética do Narcisista. Também um dragão, um símbolo, junto a uma chave inglesa em memória do seu avô Manolo e, no alto do peito, o núcleo da questão: a palavra Filometal. “É o meu bebé, a fusão entre filosofia e heavy metal, divulgando filosofia e ciência de teses exclusivamente femininas”, recorda.
“Disseram-me que, se não aparecesse com um corpete, uma banda e mais decote, não teria hipótese nenhuma. Eu respondi: ‘Estão a confundir-me com outra pessoa’. Uma mulher que canta, escreve letras e lidera o seu próprio projecto mete medo. Todas as pessoas a quem se pode pedir conselho são homens. Alguns estão bem, mas a outros não lhes agrada que se iguale o seu poder. Se o filometal fosse feito por um rapaz da minha idade, agora estaria a rebentar”, diz a autora, que nas suas obras fala sobre o narcisismo da sociedade e os seus artifícios. Questionada sobre se teme afogar-se no seu reflexo, confessa que a sua psicóloga lhe receita regularmente um: “Não te esqueças de quem és”. Assim consegue aterrar e continuar a criar.
O seu disco de filometal Gineceu (2022) - que terá uma versão em teatro musical em Viagem ao Gineceu, que se apresentará a 27 de Março no Ateneo de Madrid - vai-lhe trazendo ganhos, alguns económicos e muitos morais, como ter conseguido que a sua avó compreendesse o filometal e a incentivasse a nunca se submeter. “A filosofia deve abrir caminho, tal como o heavy metal, através de um palco, lida, ao vivo. Nas redes sociais há muitos divulgadores. Gosto muito da Bea Jordán, tem uma onda muito choni! A filosofia tem de estar na rua, e deve-se debater como se debate A Ilha das Tentações”, ri-se. “Seria espetacular uma Operación Triunfo de filósofas! Levaria a Bea Jordán, a Alba Moreno [uma física divulgadora com estética choni], a La Zowi - estou apaixonada pela La Zowi —, a [a bióloga molecular e candidata a astronauta] Sara García e a Inés Chamil, divulgadora de heavy”.
“Defende o teu direito a pensar, porque até pensar de forma errada é melhor do que não pensar”
“Defende o teu direito a pensar, porque até pensar de forma errada é melhor do que não pensar”, insiste De Castro, que está convencida de que hoje em dia não se pensa, limita-se a seguir a massa. “Em tempos cinzentos, de crise, com pouco acesso à habitação e tudo o resto, os jovens precisam de uma aurora, como falava Zambrano, para nos consciencializarmos de que virá um futuro melhor. A história diz que depois do negro vem a luz”, confia. A artista critica, em tom de brincadeira, o filósofo Immanuel Kant por ter distinguido entre ciências e letras, como se as humanidades fossem inferiores. “As humanidades e a ciência não se entendem uma sem a outra; a filosofia é a mãe da ciência. É valiosíssimo estudar o cancro, mas precisas de ética, de saber ser um bom cidadão, de entender de política, de ter o teu momento artístico. Um bom cientista deve ter uma boa base humanística e vice-versa”.
- Uma mulher que escreve, canta, pinta, faz teatro e filosofa é um homem do Renascimento?
- O Renascimento foi uma boa época. Sem o desmerecer, isto é um remix do Renascimento, é também modernidade. Deveríamos dizer que somos pessoas do Renascimento, agora que estamos a incluir absolutamente tudo.
Para Sempre Completamente Sozinho
"Olho para o céu
o sol desvaneceu-se
o luar brilha sobre mim
os deuses tocam as suas sinfonias
Sinto-me tão perdido que caio de joelhos
Penso nos tempos que já foram
Não consigo encontrar as palavras certas para dizer
Não sei como dizer adeus
Aqui… aqui estou… a vida é luminosa…
…Não há tristeza… nada nos pode deter…
…Mostrou-nos a esperança… anjo da minha floresta…
…Vi a minha perfeição… na minha própria alma… a morte é injusta… isso é dor real…
…Recordo-te… estou quase morto…
…Eu… eu perdi a minha esperança…
…A minha… a minha vontade de viver…
…O meu último adeus… para sempre… completamente sozinho…
Nos meus olhos não vês orgulho
Nos meus olhos não vês luz
Nos meus olhos vês uma lágrima
Nos meus olhos vês o meu medo
Nos meus olhos vês o meu amor
Nos meus olhos não vês aflição
Nos meus olhos vês o meu ódio
Nos meus olhos vês o meu destino
Para sempre completamente sozinho
domingo, 7 de dezembro de 2025
A Nova Bandeira de um Portugal que Vai Passar a Chamar-se Beco Sem Saída
De Manhã na Missa, De Tarde com os Fascistas
Há uns tempos retive o que a minha melhor amiga - que é uma pessoa muito informada no que respeita a política e, ao contrário de mim, acompanha o que se vai passando na televisão - que me tinha dito que o senhor é um perigo e está metido em tudo, além da Igreja, está no comentário político e no futebol e que deveria querer ser o novo Cerejeira.
Vi hoje no Bluesky mas quis ir confirmar não fosse mentira. Infelizmente é mesmo verdade, e esta imagem, fui eu que a retirei da rede social da criatura.
Portanto, o chefe dos gajos que de manhã estão na missa a apregoar os princípios comunistas de Cristo - que devemos amar o próximo como a nós mesmos e vender tudo e dar aos pobres - é depois o mesmo que de tarde está com os apóstolos fascistas do Chega que querem matar pessoas.
Ai Konigvs não digas isso. O Chega não quer matar ninguém!
Não quer? Ora pensa lá um bocadinho:
E quantos votantes do Chega não estarão na missa a bater com a mão no peito que amam o próximo como a si mesmo, e de seguida saem e estão nas redes sociais a mandar os indianos para a sua terra?
Não há maior contrassenso do que ser religioso e apoiar o Chega. Absolutamente nada.
Cada vez mais tenho nojo da Igreja.
Jesus Cristo: O Revolucionário Anarquista e a Inversão da sua Política
Acabemos com os Juízes
sábado, 6 de dezembro de 2025
Canção do Desenrasque
Tu vives sozinha e sozinho vivo
E há impostos pra poupar
Porque não fazer o IRS unidos
Porque não vamos ficar
Na aventura dos adquiridos?
Cada Povo Tem o Chico-Esperto que Merece
A credibilidade de uma pessoa fica bem demonstrada quando, apesar de ter muito dinheiro, vai a tribunal mentir sobre uma mera peça de roupa. Aconteceu com o Luís Montenegro quando foi a tribunal tentar sacar uns euritos a um estudante que o atingiu com tinta num protesto contra as alterações climáticas.
E isto revela bem uma personalidade de um chico-esperto, medíocre e desprezível. E, infelizmente, foi um ser chico-esperto desprezível que os eleitores portugueses preferiram colocar ao leme do país.
Na oposição o agente imobiliário que tem 55 casas e que, nas horas vagas do golfe faz de conta que é o primeiro-ministro de Portugal, dizia na oposição que o António Costa não era sério e que deveria baixar o ISP para pôr os combustíveis mais baratos. Há um ano no governo e o que faz o Luís? Aumenta sistematicamente os impostos sobre os combustíveis!
O que é que o Luís está a fazer:
Mas que é que o Luís disse quando estava na oposição?
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
Conversa com uma Leoa
No filme Only Lovers Left Alive, que fui ao cinema ver com uma amiga por quem lhe treme as virilhas pelo Tom Hildston, os humanos estavam tão contaminados que os vampiros tinham extrema dificuldade em encontrar sangue de qualidade. E arranjaram um contacto no hospital que lhes fornecia sangue de qualidade do tipo O negativo.
Diz-se agora que a geração que tem agora 20 anos nunca saberá o que era um mundo sem internet e sem telemóveis. É verdade, mas também nunca saberá o que é pão saboroso, carne saborosa ou um bolo-rei com brinde e fava e a saber a bolo-rei.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
Obrigado, Mariana
Mariana Mortágua entalou banqueiros em comissões de inquérito e isso terá sido o seu grande pecado. Assustou os grandes capitalistas - ela sim abalou, e de que maneira, o sistema! E é jovem, bonita, competente, ainda por cima homossexual. E é extremamente inteligente. E isso, infelizmente, é proibido em Portugal. Daí que tenha sido alvo de uma campanha absolutamente vergonha, caluniosa, nunca antes vista na democracia portuguesa. Ironicamente, ou de forma quase simbólica, foi eleita coordenadora do Bloco de Esquerda a 28 de Maio.
Mas é triste ver os competentes saírem e observar, impotente, os medíocres a governar o país, roubando os pobres para dar aos ricos. Mariana Mortágua, que estou convicto, teria dado uma extraordinária ministra das finanças ou excelente primeira-ministra, abandona a coordenação do Bloco de Esquerda, e eu decidi transcrever algumas palavras sobre ela, de um homem que cedo me habituei a admirar, ainda quando era líder do Partido Socialista Revolucionário.
Da minha parte, aqui fica o meu singelo obrigado a Mariana Mortágua e toda a luta que travou na defesa dos que menos têm.
A Filosofia Metaleira - e o Porquê dos Metaleiros Serem Pessoas Pacíficas e Felizes
Deixo aqui um artigo publicado ontem no El País sobre a filosofia do Heavy Metal. E, já agora, no fim, e porque vem a propósito, adicionei um documentário que já tinha visto no Youtube há uns tempos, sobre o porquê dos metaleiros serem das pessoas mais felizes e pacíficas e estar cientificamente provado que o heavy metal tem um impacto positivo na saúde mental.
"As chaves da filosofia metaleira: cepticismo, intensidade e honestidade brutal
É uma rocha a que agarrar num mar de disparates. “É mais do que música, é uma forma de olhar o mundo com lucidez e rebeldia, de encontrar sentido e irmandade no meio do caos”, reflecte por e-mail David Alayon, consultor e responsável pelo podcast Heavy Mental juntamente com o humorista Miguel Miguel e o engenheiro Javier Recuenco. “A forma como um metaleiro olha o mundo parte de uma mistura de cepticismo, intensidade e honestidade brutal. Não se trata de negar a escuridão, mas de a encarar de frente, transformá-la em força e converter a dor, a raiva ou o desespero em algo criativo e colectivo.”
Alguns relacionam as letras do metal com o pensamento existencialista. A jornalista Flor Guzzanti escreve na revista Rock-Art que aquilo que Black Sabbath ou Judas Priest exprimem através da distorção não é assim tão diferente do que Camus e Sartre escreveram: o confronto com o absurdo, a alienação e a liberdade. Descartar o metal é descartar a filosofia feita de som. Alayon concorda. “Partilhamos uma visão existencialista, aceitando que o mundo é duro e que a única coisa autêntica é manter-te fiel a ti mesmo e aos teus.” E vem à cabeça a voz do recentemente falecido Ozzy Osbourne a cantar Electric Funeral, que incita a não nos deixarmos prender numa cela em chamas.
Para Andrés Carmona, autor de Filosofía y heavy metal , o universo sónico da cultura heavy (na sua vertente proto-heavy, thrash, death, grunge, e também hard rock - embora a definição e os limites deixemos para os puristas) é uma boa ferramenta de aprendizagem filosófica. “Ainda que não nos apercebamos, andamos o dia todo a pensar no bom, no justo, no belo. Não podemos não filosofar, e a música ajuda”, explica por telefone. Carmona, professor de Filosofia num liceu de Ciudad Real, usa a canção Gaia, dos Mägo de Oz, para apresentar aos alunos Lynn Margulis e a sua teoria sobre o peso da cooperação na evolução, e explica o conceito de liberdade utilizando Ama, ama y ensancha el alma, uma canção dos Extremoduro que contém versos como “hay que dejar el camino social alquitranado / prefiero ser un indio que un importante abogado” (do poeta Manolo Chinato).
Num artigo da revista Crawdaddy, William Burroughs escreveu que o rock era uma tentativa de sair deste universo morto e sem alma e devolver magia ao mundo. Se assim é, a sua vertente mais heavy procura uma catarse colectiva através da experiência física. A música tem o poder de transformar e, no caso do heavy, “algumas bandas actuam como uma unidade de ressonância que move o público, que quer ser chamado em busca de contacto e transformação junto com outras pessoas”, segundo Hartmut Rosa. Porque, enquanto o presente e o futuro se dirigem para as abstrações do digital, na cultura heavy o ritual físico é fundamental. Há a viagem, o vestuário, o encontro prévio, a explosão da música ao vivo vivida em comunidade e o seu caloroso reencontro quando voltamos a ouvir essas mesmas canções a sós. “Num concerto combinam-se sentimentos, emoções, cantar um tema com outras pessoas ao mesmo tempo. E há também o disco, em vinil ou em CD, a importância das capas, das letras… Não gosto de listas de reprodução”, ri-se o sociólogo alemão.
Na parafernália heavy metal há luz e trevas, há anjos e demónios, infernos e céus, fadas e monstros - uma encenação alimentada por uma imaginação que joga com certa ironia romântica, que leva as coisas meio a brincar, meio a sério. Mas há uma certeza: seja na Alemanha, em Espanha, na Noruega, no Japão, no Irão, na Argentina ou na Austrália, para a irmandade metaleira a música é fundamental. Segundo um estudo do psicólogo Nico Rose — autor de Hard, heavy & happy, um best-seller na Alemanha -, quase 40% dos 6 mil inquiridos concordaram que o metal os afastou de pensamentos negros, com a sensação de que “lhes tinha salvo a vida pelo menos uma vez”.
O embrião do heavy metal está em Birmingham, um dos epicentros da revolução industrial inglesa (e com uma riquíssima tradição musical nos anos sessenta do século passado). Os seus maiores representantes no início dos anos setenta - Black Sabbath, com Ozzy Osbourne à cabeça, ou Judas Priest - vinham da classe trabalhadora ou eram quase marginalizados. E outros grupos, como Saxon, Iron Maiden, Slayer, Anthrax ou Metallica, também. Talvez por isso as suas canções sejam hinos contra a ordem social, o controlo ou a falta de liberdade, e os seus seguidores constituam uma imensa “comunidade de marginalizados voluntários que encontram nos riffs, nos concertos e na estética do metal uma forma de pertença sem submissão. Ninguém te exige que acredites em nada, apenas que sintas e resistas”, segundo Alayon.
Mas será que essa comunidade aceita todas as pessoas por igual? Há quem considere que o universo heavy é sexista e heteronormativo até ao paroxismo. No entanto, faz mais de 25 anos que Rob Halford, vocalista dos Judas Priest — considerado o Deus do Metal — se assumiu abertamente como gay, e figuras como Girlschool, Thundermother, Doro Pesch ou Arch Enemy desmentem essa uniformidade masculina. Mas ainda há trabalho pela frente. Como reflecte Guzzanti, “hoje, os colectivos feministas reclamam espaços em festivais, fanzines e plataformas online, afirmando que a resistência deve ser interseccional. A sobrevivência do metal depende de abraçar esta inclusividade”.
Nietzsche dizia que a vida sem música é um erro, uma fadiga, um exílio. É preciso continuar a procurar - e talvez não seja má ideia fazê-lo através da crueza metaleira. “É preciso aguentar sem medo a dança sobre a fenda existencial: este parece-me ser o feito do heavy metal”, sentencia Hartmut Rosa. Como cantam os AC/DC, for those about to rock (we salute you): A todos os que vão rockar… saudamos-vos.
EL PAÍS – 30 Nov 2025 – por Mar Padilla
domingo, 30 de novembro de 2025
Porque é que NÃO Se Deve Celebrar o 25 de Novembro (2)
No ano passado recolhi e partilhei aqui no blog excertos de vários historiadores: Irene Pimentel, Raquel Varela e Pacheco Pereira sobre o 25 de Novembro. Este ano vou deixar aqui alguns excertos de duas excelentes entrevistas no jornal Público a Rodrigo de Sousa Castro, que esteve no 25 de abril e fez parte do Grupo dos Nove ("moderados) no 25 de novembro, mas entrevistou também Manuel Duran Clemente, outro militar de abril, um dos ícones do 25 de Novembro mas ligado à ela da esquerda (PCP).
E basta ouvir os dois para perceber o ridículo que é, ver agora a extrema-direita que nos governa, e que perdeu em toda a linha no 25 de Novembro a querer agora reescrever a História vendendo um punhado de mentiras. No fundo mostrar, como escreveu a Constança Cunha e Sá no Twitter em 2019 "O 25 de Novembro é o 25 de Abril dos que não gostam do 25 de Abril".
Informem-se, leiam o que dizem os historiadores, o que diz quem viveu por dentro o 25 de abril, o 11 de março, o 28 de setembro mas também o 25 de novembro. Porque Não se aprende História com memes da internet. Como escreveu Orwell no 1984 "Quem controla o passado controla o futuro. Quem controla o presente controla o passado", e estamos a vivê-lo em direito.
Peçam nas bancas os jornais Público dos dias 23 e 25 de Novembro e leiam na totalidade estas duas entrevistas. Retirem as vossas próprias conclusões. No entanto, o Público que me perdoe, mas aqui deixo os excertos mais importantes:
Por outro lado, sem o golpe spinolista de 11 de Março de 1975, “não teria havido PREC”. Em termos militares, os moderados eram muito mais fortes do que os extremistas de esquerda, por isso, nunca teria havido uma guerra civil no 25 de Novembro, diz o antigo porta-voz do Conselho da Revolução. O Documento dos Nove, fundador do suposto golpe de direita, era, afinal, “um programa de esquerda”. E a direita e a extrema-direita, que tentaram fazer valer as suas causas no 25 de Novembro, perderam em toda a linha. Por isso, diz o coronel, não faz sentido que queiram agora comemorar o 25 de Novembro. Logo eles, que não conseguiram cumprir nenhum objectivo (...)
Reconhece que a esquerda se apoderou da data do 25 de Abril?
O 28 de Setembro de 1974 é um episódio extremamente importante do ponto de vista político, porque há, inclusivamente, a detenção do Presidente da República e a sua substituição.
Há uma viragem brusca. Nós estávamos a caminhar para garantir uma Constituição, eleições livres, que eram a principal reivindicação dos capitães de Abril. Havia até um plano económico-social à beira de ser aprovado, elaborado por economistas moderados da área social-democrata, que ficou conhecido por “Plano Melo Antunes”. Era um plano abrangente, que preconizava uma certa intervenção do Estado na economia, mas não as nacionalizações.
E então o Spínola, juntamente com a ala direitista e com os seus “mosqueteiros”, que tinha trazido da Guiné, tenta o golpe, que fracassa. E foi nessa altura que as forças mais radicais de esquerda, que eram o Partido Comunista e os vários partidos de extrema-esquerda, empurraram o país para a esquerda.
Fazendo um exercício de História contrafactual: não teria havido PREC se não tivesse ocorrido o 11 de Março?
De certeza absoluta. Teríamos tido um percurso muito melhor. E teríamos tido uma coisa que é muito importante: tempo. Se não tivesse havido esta aventura do Spínola, é justo pensar-se que teria havido uma transição para uma democracia avançada, no sentido social. Teríamos tido uma social-democracia a sério.
A determinada altura começam a verificar-se três linhas muito claras. Havia uma esquerda radical, mas que seria integrada no sistema político, que era o Partido Comunista. Depois, havia a esquerda dita revolucionária, a que não chamo folclórica, porque era muito perigosa, com capacidade de organização militar, mas que não era homogénea. E, por fim, o grupo dos moderados, que daria origem ao Grupo dos Nove, que começaram a perceber que as Forças Armadas, principalmente o Exército, estavam num processo de desagregação a que era preciso pôr cobro.
A importância do documento não é o seu conteúdo. Aí é que está a grande questão. Se lermos o documento, e eu tenho-o praticamente na cabeça, ele não aponta uma via que hoje fosse sustentável do ponto de vista político.
Exatamente. Mas mesmo de esquerda, uma esquerda que já nem se vê por aí. Embora contivesse aquele princípio de respeito pela liberdade e a democracia. Mas era um documento de esquerda. Rejeitava a social-democracia como era praticada na Europa Ocidental, defendia o socialismo e uma sociedade sem classes e sem exploração.
Sim. E começam a dividir-se as águas. E à medida que se vão dividindo, o antagonismo aumenta. De uma forma muito agressiva, porque se vivia um ambiente de liberdade total. Isso também tem de ser dito: não havia nenhum cerceamento à liberdade de expressão.
Havia o perigo de ocorrerem pequenas confrontações. Embora os líderes dos partidos moderados tenham ido todos para o Norte, políticos, alguns deputados. Dizem que o Mário Soares até só parou na Galiza.
Não, não estivemos à beira da guerra civil. Se calhar a direita tem pena que isso não tivesse acontecido, para justificar as suas perdas.
Deixou de haver a confrontação entre os militares mais radicais e os mais moderados, com estes a vencerem em toda a linha. Mas não houve grandes mudanças políticas. O VI Governo Provisório, de Pinheiro de Azevedo, que estava em funções, continuou. Nem sequer mudou de número, continuou a ser o VI. O Presidente [da República] também não mudou. As pessoas pensam que houve uma grande revolução. Não houve nada.
Eles estavam debaixo da mesa. É certo que fizeram uma campanha contra os partidos da esquerda.
Não, porque o que eles faziam caía na esfera criminal. As acções deles eram crimes, ainda que na altura não houvesse força para os impedir.
Sim, cada um teria o seu projecto. Mas o seu desejo mais óbvio era ilegalizar o Partido Comunista.
Também nisso é evidente que perderam. Mas não conseguiram nenhuma das suas reivindicações?
O irónico é que as pessoas que querem agora comemorar o 25 de Novembro são as que perderam, porque nenhum dos seus objectivos foi cumprido.
É chocante e dramático. Há um claudicar de princípios morais. O problema é que, no dia 26 de Abril de 1974, havia 10 milhões de democratas. Ninguém era salazarista. Ou não podia dizer que era. Mas ficou aquilo a que, em cada um, podemos chamar subconsciente fascista. E, na colectividade, subconsciente autoritário (...)
Na altura, tivemos de lidar com o CDS, que era o partido legal mais à direita. Mas o CDS tinha gente civilizada e culta na sua liderança. Está a ver o Freitas do Amaral, o Adelino Amaro da Costa ou o Francisco Lucas Pires a reescreverem a História de Portugal? Está a vê-los a dizer: não, o 25 de Abril não foi uma revolução, a revolução foi o 25 de Novembro? Não estou a vê-los.
Na altura, tivemos de lidar com o CDS, que era o partido legal mais à direita. Mas o CDS tinha gente civilizada e culta na sua liderança. Está a ver o Freitas do Amaral, o Adelino Amaro da Costa ou o Francisco Lucas Pires a reescreverem a História de Portugal? Está a vê-los a dizer: não, o 25 de Abril não foi uma revolução, a revolução foi o 25 de Novembro? Não estou a vê-los.
A entrevista pode ser lida na íntegra aqui
Como é que é possível dizer que havia gente de esquerda e próxima do PCP com armas? Quem?
Em vésperas do 25 de Novembro? Em vésperas, muito menos. Aliás, toda a história, todaa fantasia de uma guerra civil tem seu o quê de exagero e serviu para assustar as pessoas e foram fomentadas pelo clero reaccionário. Que cidadãos andaram de armas na mão antes do 25 de Novembro? Quem andou de armas na mão foi a extrema-direita. O ELP (Exército de Libertação de Portugal), o MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal) e até gente importante, gente da hierarquia do clero, como padres, como bispos “melos” [referência ao cónego Eduardo Melo, da diocese de Braga], que até mataram. Eu pergunto a quem põe e propaga a ideia de que andavam comunistas com armas na mão: quem é que nós matámos?
Claro que foi uma armadilha, uma chantagem. Mas quem evita a guerra civil, que esteve muito longe de acontecer, somos nós. Não é mais ninguém. Os que são atingidos, que são, a maior parte deles, despedidos da sua profissão, não são reconhecidos como quem evitou a guerra civil.
O momento em que hoje se vive não é o momento em que se vivia antes de Abril, durante o PREC. Muitos jovens não percebem que estávamos num momento especial de uma revolução que foi pacífica. O maior erro que houve entre os militares é que, havendo três, quatro ou cinco facções entre nós – moderados, gonçalvistas, otelistas, spinolistas e saudosistas, que é uma quinta facção de que ninguém fala –, se todos fôssemos efectivamente democratas, tínhamos conversado. Se fosse democrata, o general Morais e Silva [que tinha decidido passar para a reserva os pára-quedistas revoltosos de Tancos] não tinha feito o que fez, que foi provocar... Mas essa provocação está para se saber se foi feita de propósito para quem estava a fazer um golpe na retaguarda. Com isto não quero dizer que o Vasco Lourenço, o Grupo dos Nove, onde há muita gente que estimo, incluindo a ele, não pudessem ter razão. Mas se tinham razão, podíamos ter conversado e eles podiam ter dito ao Morais e Silva que não era a altura de fazer o que fez com os pára-quedistas. Portanto, a dúvida que eu tenho, não é muito dúvida, é quase certeza, é que foi de propósito. Foi uma forma de fazer com que houvesse um golpe. Portanto, isto é extremamente complexo. Esta farsa de Novembro é das coisas mais inacreditáveis da História de Portugal. Eu não sabia, nem nenhum de nós sabia, o que ia acontecer.
Não só autorizei, como a promovi em consciência. Hoje é muito difícil as pessoas, os jovens, perceberem o que é um contexto revolucionário, a que chamam PREC com carga pejorativa. O período do PREC é dos 515 dias portugueses mais interessantes da História portuguesa. Não andava tudo à tareia, não andava tudo ao tiro. E quem andava ao tiro nunca foi julgado nem despedido, como muitos de nós. Mas há quem tenha a grã-cruz e fez muito menos pelo 25 de Abril do que eu.
Quando recebe uma delegação dos comandos que tentavam anular a revolta dos pára-quedistas, alerta-os para a existência de um forte dispositivo armado na RTP, que incluía bazucas anticarro colocadas nos telhados. Estava preparado para resistir militarmente aos comandos?
Não, não era por parte dos comandos. Era por uma parte que eu não sabia se era contra a Revolução de Abril. Se um homem que andou a lutar por Abril durante tantos anos vê a possibilidade de ser atacado, não deve prevenir-se? Foi o que eu disse ao capitão dos comandos mandado por Jaime Neves. Sim. O herói Jaime Neves. A organização militar tem formas de actuar. E uma das formas de actuar é dar autorização ou capacidade às companhias de fazerem o que entenderem. E elas foram para a rua, e instalaram-se para a defesa da televisão.
Não, não fiquei. Ficaram os trabalhadores. Disse aos trabalhadores: “Quem está com a defesa de Abril fica, quem não está pode ir embora”. Os que ficaram acabaram também por ser despedidos ou tiveram processos disciplinares. Mais de 100 pessoas, funcionários civis, que foram despedidos e maltratados por causa da acusação falsa sobre o 25 de Novembro.
Já sabia que ia parar porque nós tínhamos funcionários da televisão na antena que era nossa. E esses funcionários avisaram-me através de adjuntos meus: “Diz ao capitão que eu ando a fugir com a cavilha”. A antena só emitia da Lousã para baixo, porque no Porto já estavam a ver o Danny Kaye…
Tenho visto várias vezes e até gostava de ver o Danny Kaye antes dessa cena. Não tenho nada contra o Danny Kaye. O que acho é que é simbólico ver que se passa da revolução para a comédia que existe até hoje. Desde o 25 de Novembro, temos assistido a uma comédia de democracia. É a minha opinião. Mas defendo-a. Em tribunal se for preciso.
Mal e ilegalmente. Nunca fui julgado, fui despedido sem ser julgado. A primeira vez que fui ouvido, mandaram-me para casa, porque achavam que não havia nenhuma acusação consistente. O juiz do Ministério da Defesa que me ouviu, tinha 40 acusações, todas elas não valiam um caracol, disse-me: “Não vejo aqui nenhuma razão para ser preso”. Quando isto passou, foi tudo considerado ilegal e, 27 anos depois, a reconstituição da carreira foi-nos dada.
















