quinta-feira, 8 de junho de 2023

Macron Não "Houve" Ninguém

Entrevista no Diário de Notícias ao escritor franco-marroquino Tahar Ben Jelloun.

De repente deparo-me com esta atrocidade:

"A França passa por um mau momento. Por um lado, há um chefe de Estado que não houve ninguém e é arrogante, e isso é muito mau".

Vamos acreditar que foi só a inteligência artificial, e que sendo artificial não sabe distinguir o verbo ouvir do verbo haver



quarta-feira, 7 de junho de 2023

ChatGPT - Risco de Extinção da Humanidade

Tenho lido dezenas de artigos de opinião sobre a Inteligência Artificial, quer artigos nacionais quer estrangeiros. Já ouvi também um ou outro programa sobre o assunto. Até fui rever o filme I.A. do Spielberg. Mas esta reportagem "A Próxima Palavra" de Isabel Meira na Antena 1 acho que é obrigatório ouvir.



"Agora poderia perguntar ao Chat GPT como fazer uma reportagem sobre o Chat GPT. Mas não o vou fazer.

"Quantas mais palavras conhecemos mais somos capazes de dizer o que pensamos e o que sentimos" (Saramago)

O silêncio quase absoluto aconteceu na vida de Catarina durante dez dias. 
"Quando a pessoa fica sem nada, ou seja, fico só eu comigo própria, sem qualquer outro estímulo. Catarina tem 26 anos, acaba de regressar de um retiro de silêncio em Espanha. 
"Uma pessoa entrega o telemóvel, não pode ler, não pode falar com os outros. São dez dias de meditação em silêncio, não é aceite sequer trazer cadernos para escrever. A pessoa tem que acordar às 4, 4 e meia começa a primeira meditação, depois duas horas de meditação e pequeno-almoço, um bocadinho de descanço, três horas de meditação, almoço, quatro horas de meditação lanche, não tínhamos jantar, eram duas peças de fruta, mais três horas dormimos. Esta rotina tem que ser mantida. Foi muito duro. 

Escolho falar sobre o silêncio e penso: "porquê falar do silêncio numa reportagem sobre o Chat GPT? A rádio não lida bem com o silêncio. O Chat GPT nunca fica em silêncio. Qual é o lugar do silêncio na vida?

Pequeno-almoço, almoço, jantar. Estava sempre com um livro ou um filme. Não podia estar comigo própria com os meus pensamentos no silêncio. Não para mim não existia. Tinha de ocupar a minha mente sempre com informação. Precisava de estar constantemente a consumir este tipo de informação.

O Chat GPT em particular foi treinado para uma coisa muito simples, que é prever a próxima palavra numa sequência de palavras. 

O que é que é diferente nestes modelos de linguagem? Eles foram treinados com grandes volumes de dados, quase com a internet toda, não é exatamente coma  internet toda mas com grande parte. Só para ter uma ideia o ChatGPT foi treinado com dados que, se um de nós fosse a ler durante 24 horas por dia demoraria cerca de 5 mil anos a ler. 

Esta noção da abrangência não é consensual. A investigadora Joana Gonçalves de Sá, um dos nomes mais destacados no estudo sobre enviesamentos e desinformação fala sobre desertos de dados e desconstrói a ideia de que o mundo está todo representado na internet. 

"Por exemplo, quando se diz "toda a internet" uma pessoa pensa logo em todas as redes sociais. Não é verdade. Tem uma grande preponderância duma rede social em particular, que se chama Reddit que se sabe que tem uma muito maior participação de jovens dos Estados Unidos. Portanto há uma grande sub representação da forma como pensam e falam e agem, esses jovens que estão nessa rede social. Que é uma minoria da população. Porque a internet também é enviesada e porque os sítios da internet escolhidos para treinar o modelo muitas vezes só porque os dados são disponíveis também são enviesados, estes modelos são naturalmente enviesados. Estes vão transmitir uma cultura particular, uma ideia particular, valores particulares e é muito mais fácil pensarmos que, se toda a gente está a usar esta ferramenta vai haver uma uniformização do tipo de informação a que eu tenho acesso e até quase do tipo de estrutura de pensamento e de comunicação a que eu posso chegar

A partir do momento que nós criamos um modelo de linguagem que fala como nós que faz o discurso estruturado que até pode usar vocabulário ou mais académico ou mais cuidado ao que nós tipicamente vemos na discussão do café, ainda mais credibilidade pode ter a informação que lá está. E existe muitas vezes a ideia que é muito difícil de combater que as coisas que são mais intuitivas ou que parece que fazem sentido, que é lógico, são erradas. Mas é fácil usar esse tipo de enviesamento de nós pensarmos "ah faz sentido" ou é provável para nós acharmos que é real. O que estes modelos de linguagem é provável. Portanto nós com facilidade podemos pensar que é real

E agora com o ChatGPT, escrevemos mais ou menos?
O filósofo e linguista norte-americano Noam Chomsky tem sido uma das vozes mais críticas considerando, numa das muitas entrevistas em que falou sobre o tema, que o ChatGPT serve apenas para evitar aprender e é basicamente uma forma de plágio de alta tecnologia

No senado norte-americano o presidente executivo da Open Ai foi questionado sobre o impacto do ChatGPT no mercado de trabalho. Aconteceu em todas as revoluções tecnológicas, normalizou-se diz Altman. O argumento é: muitas tarefas vão ser automatizadas com ganhos para os seres humanos. É uma espécie de mantra que tem acompanhado o norte-americano de 38 anos em digressão mundial. Sam Altman diz-se otimista mas pede aos governos que avancem com a regulação. Admite, por exemplo, que os modelos podem ser usados para manipular resultados eleitorais. O maior receio, diz, é que as tecnológicas causem um dano significativo ao mundo

Quatro meses depois de ter lançado o ChatGPT a Open IA apresentou o GPT4 e fez outra coisa para mostrar que já é tão bom ou melhor que os humanos em algumas profissões: passou o exame de admissão à Ordem dos Advogados norte-americana. 

A grande maioria destas revoluções que nós estamos a viver na era digital estão a ser lideradas por empresas privadas quase sem controlo nenhum dos Estados. 

Eu acho que é a primeira vez da era moderna em que nós estamos a desresponsabilizar-nos, nós cientistas e nós os Estados de ser atores muito participativos muito ativos em algo que é uma revolução científica e tecnológica. Portanto, estas empresas estão a conseguir fazer isto porque podem porque têm financiamento para ter acesso a estes dados, para ter capacidade computacional para os fazer e, eventualmente, até para toda a parte da curadoria humana. O ChapGPT depois tem humanos a corrigir não é? E eu não conheço centro de investigação nenhum que tenha este tipo de recursos. 

Para ilustrar o impacto que o fenómeno ChatGPT pode ter na sociedade a investigadora faz uma comparação simples: Nós lançarmos produtos destes para o mercado sem estarem regulados é quase como nós lançarmos medicamentos sem os testarmos antes. 

Eu tenho dado muitas vezes o exemplo da revolução industrial. Entre a descoberta da máquina a vapor e a primeira legislação a limitar o trabalho infantil nas fábricas passaram 70 anos. E esta primeira legislação ainda dizia coisas do tipo "crianças de 9 anos não devem trabalhar mais de 12 horas por dia. Coisas que para a nossa sensibilidade de agora são chocantes. E eu acho que quase sempre que aparece uma destas tecnologias e uma revolução tão grande nós temos um período que eu vou chamar a "idade negra" do desenvolvimento dessa tecnologia. Nós vamos fazer todas as coisas que nos vamos arrepender agora. E estamos a fazê-las muito rapidamente. Mas agora é a altura em que estamos a ter as crianças a morrer nas minas de carvão

Sam Altman avisa: se correr mal pode correr muito mal. E a tradução pode ser "risco de extinção da humanidade"

domingo, 4 de junho de 2023

No Princípio era o Amor

 No princípio era o amor

Veio depois o Império do Ter

auxiliado pela Religião e pelo Poder 

O Amor viu-se vilmente escorraçado 

e mais tarde sacrilegamente crucificado

Da Morte ergueu-se vigoroso

quando mais parecia destruído

No fim é também o Amor 

Agora é ainda o Tempo

a luta de classes 

onde o Amor progride

sempre que é escorraçado 

por Homens da Religião e do Poder 

estupidamente ao serviço do Império do Ter

Pelo Amor assim maltratado 

Jamais hei-de chorar 

mas por quem assim o maltrata 

soluço dia e noite inconsolável

(Mário de Oliveira / Janeiro 1980)



- "Tornei-me, um dia - disse, a dada altura, Judite - propriedade e proprietária de um homem mediante um contrato de casamento. Como quase todos os jovens, educados nesta e por esta sociedade informada pelo capitalismo e pela Cristandade que ideologicamente a aguenta e justifica, também eu confundi Amor entre homem e mulher com posse de um pelo outro. Possuí e deixei-me possuir. E, com isso, reconheço, hoje, à luz do que este acontecimento nos vem inundando que, afinal, matei o Amor, no momento em que convictamente o afirmava. Dez anos somo já, em que fui propriedade privada de um homem em nome do Amor que é, de sua natureza, dom gratuito. Vivi para a casa, para o marido e para os filhos que nos nasceram. Como o capitalista explorador vive para a fábrica, para os negócios e para o lucro".  

quinta-feira, 1 de junho de 2023

Devíamos Experimentar Viver em Democracia. Funcionaria!

Quem me vai lendo por aqui sabe que digo constantemente que não vivemos em democracia. Vivemos sim numa ditadura das maiorias e da manipulação dos media. Chamem-lhe o que quiserem mas isto que temos não é democracia nenhuma. 

A seguinte entrevista que achei muito interessante saiu no El País no dia 21 de Maio: 


 A filósofa francesa Barbara Stiegler (52 anos) é uma revolucionária. Acredita que estamos mergulhados no neoliberalismo, que somos incapazes de ver o mundo sem esses óculos, e tem alguma esperança nos movimentos sociais que recentemente abalaram seu país. Professora de Filosofia Política na Universidade de Bordeaux Montaigne, ela estruturou o seu pensamento em torno dessa corrente e de Nietzsche, além de ser uma participante ativa no debate público francês. Como ativista, juntou-se aos coletes amarelos e escreveu "Du cap aux grèves". 

Apaixonada pela Grécia, ela frequenta o Instituto Francês, onde participa do debate La Noche de las Ideas. Ele fala rápido, com fluência latina. Na sua conta no Twitter postou o poster de um manifestante: "Leurs yachts échoueront sur nos grèves" (vossos iates vão encalhar em nossas greves). 

Pode explicar o cartaz?

Gostei. Os iates são o símbolo da predação neoliberal do mundo, da sua obscenidade.

Diz que estamos todos imbuídos de neoliberalismo. E que os partidos de esquerda também estão lá enquanto acreditam que estão a lutar contra isso.

Isso mesmo. A esquerda tem tido dificuldade em perceber as diferentes formas que o neoliberalismo assume. Para os partidos socialistas franceses, ingleses, alemães..., implementar políticas públicas significava lutar contra o neoliberalismo. Não entendiam que muitas políticas públicas estatais eram perfeitamente neoliberais. Estamos todos impregnados da sua hegemonia.

Poderia dar um exemplo?

Vamos falar de igualdade de oportunidades. Os responsáveis pela educação de esquerda dirão que ela é muito importante. E, se os ouvir, entenderá que eles se referem à igualdade para competir. A ideia é que, na linha de partida, todas as crianças tenham tido oportunidades iguais. Os mais pobres receberão mais meios, os mais ricos menos, e isso garantirá a vitória dos melhores. Isso é um olhar neoliberal! Significa acreditar que a educação é a seleção dos melhores. Mas para mim é emancipação, formação coletiva e de si mesmo. É um bom modelo? Não acredito. E certamente não é da esquerda.
Quando começou a debater o que é o neoliberalismo?
Houve um debate teórico na década de 1930 nos Estados Unidos, após a crise de 1929. Os liberais afirmavam que o liberalismo deveria ser refundado num Estado forte. É então que o sistema educacional se adapta à globalização. A princípio era apenas uma corrente teórica que não governava. Mas pouco a pouco eles prosperaram e nas décadas de 1970 e 1980 chegaram ao poder em todos os lugares. A partir dos anos 2000 – com a crise climática, a Grande Recessão – os cidadãos começaram a mobilizar-se. Por uma brilhante coincidência coincidiu com a publicação do curso do filósofo Michel Foucault Nascimento da biopolítica, em 2004, no qual identificou o objeto neoliberal. E quando você identifica algo é quando você consegue se distanciar disso. Se você não é como um peixe na água, você não vê a água. Teve um grande impacto nas universidades de todo o mundo.

Em que consistiu aquele debate entre Lippmann e Dewey sobre o qual fala no seu livro que levou a esse erro que afirma ainda existir?

John Dewey, que tinha muita influência, queria que os EUA iniciassem uma democracia. Eu achava que o sistema que eles tinham não era muito democrático, era tudo muito hierarquizado. Ele acreditava que a ideia de democracia deveria ser estendida a todos os lugares: escolas, locais de trabalho… Ele foi o mais afamado filósofo americano da primeira metade do século XX. Quando ele conhece Lippmann, que também foi um cronista muito influente, eles se chocam. Lippmann critica o excesso de democracia e afirma que isso supõe fabricar as ideias do povo em escala industrial. Será Lippmann quem vencerá esse confronto, já que Dewey morreu durante a Segunda Guerra Mundial e acabará sendo varrido por outros pensadores. E é esse olhar neoliberal e antidemocrático é o que prevalece. Hoje, em todas as universidades, o pragmatismo de John Dewey e sua exigência de democracia estão a ser redescobertos. 

Vê esperança nisso?

Venho de um ambiente comunista ao qual não aderi plenamente. Eu vi Brezhnev e o resto, eles me pareciam pessoas horríveis. Por anos eu estava politicamente entediada. Os anos noventa foram cinzentos para mim. E a partir de 2000, com a crise ecológica aproximando-se e a busca por democracia, comecei a ver que algo estava a acontecer. Em 2005, quando a França rejeitou o projeto de Constituição Europeia, senti que vivíamos um momento de debate muito emocionante. O meu país tem se tornado cada vez mais autoritário e eu e muitos temos desejado mais democracia. Tenho uma relação complexa com o meu país: é muito autoritário e felizmente também muito revolucionário.

Afirma que estamos em um momento incomum.

É um momento extraordinário. Estamos a viver coisas que eu nunca vi como cidadã, há violações do estado de direito que eu nunca vi. Aos 51 anos, nunca tinha visto um Presidente da República fazer coisas tão sérias quanto proibir ir a manifestação com instrumento de som. Juristas e intelectuais estão muito preocupados com esse desvio. E isso por si só já é extraordinário, assim como a revolta que causou. As pessoas pedem mais democracia. Sabe o que é uma democracia? Isso não é tão claro.

E o que é uma democracia?

É o governo do povo pelo povo que os atenienses puseram em movimento. Nos nossos países o povo não governa, o povo vota nos governantes que deveriam ser mais capazes. E o povo, ao votar, delegar, dá poder aos eleitos. O povo não decide. Portanto, não conhecemos a democracia como tal. E o que as pessoas agora estão a pedir é democracia. Alguns querem mais estado de direito, outros um governo mais representativo e outros realmente querem uma democracia.

Está no último grupo.

Vamos começar uma democracia ao estilo de Atenas. Ainda não o experimentamos. Funcionaria.

Expressaríamos a nossa opinião sobre tudo o tempo todo?

Não, os atenienses encontraram maneiras de fazer isso. As pessoas foram chamadas por sorteio para debater em um morro chamado Pnyx que os turistas nem sabem que existe. Entre 6.000 e 10.000 atenienses representavam toda Atenas. Havia trabalhadores, gente simples, nem todos eram privilegiados. Era o povo, embora sem mulheres nem escravas, e decidia absolutamente tudo. Se eles votassem para ir à guerra, todos iriam lutar. Aqui, um homem decide, no máximo com um punhado de representantes, mas eles ficam em Paris. O governo do povo para o povo é um assunto muito sério. Poderíamo-nos governar assim perfeitamente.

sábado, 27 de maio de 2023

Pela Sua Saúde, Fume. É "Recomendado Pelos Médicos"!


Não há tanto tempo assim, os médicos - não sei se nesse tempo já eram pela "verdade" ou não! - recomendavam que se fumasse. Ou a propaganda dizia que sim "recomendado pelos médicos", talvez como hoje os cremes são recomendados pelos "dermatologistas". Mas coloquemos por isso as coisas sempre em perspectiva e decidamos ousar pensar sempre pela nossa cabeça. Ir à procura daquilo que se possa aproximar da verdade e não por aquilo que a propaganda nos dá a comer. Sempre! 

Há uma Baixíssima Tolerância ao Sofrimento

Entrevista publicada hoje no Jornal de Negócios a Júlio Machado Vaz. O artigo só está disponível para assinantes e, porque é muito bom o que é dito, aqui fica para mim para memória futura e para quem quiser ler. 


 Quando admitiu numa entrevista que tinha estado deprimido, o psiquiatra Júlio Machado Vaz recebeu telefonemas de colegas e amigos preocupados, que lhe disseram que tinha cometido um erro ao expor-se dessa forma. Corria o risco de perder doentes. Não aconteceu. Pelo contrário. A sua agenda está totalmente preenchida. Hoje, percebe melhor os doentes. Algo fundamental na sua profissão. Afinal de contas, todos querem ser compreendidos, mas para isso é preciso tempo. Algo que os médicos de medicina geral e familiar do SNS não têm. Assim, “é mais fácil medicar” as pessoas. Esse é um dos motivos por que Portugal é um recordista no consumo de psicofármacos. Em muitos casos, está a medicar-se a tristeza, um sentimento que precisa de ser vivido e não “apagado”.

Foi difícil para si, enquanto psiquiatra, admitir numa entrevista que esteve deprimido?

Falei nisso com a maior das naturalidades numa entrevista há mais de 20 anos. Se bem me lembro, o assunto surgiu quando estava a explicar a necessidade de destrinçar a tristeza da depressão e no problema que se tem vindo a agravar de medicalizarmos a tristeza, um sentimento que não é agradável, mas que é natural. Só que, nessa altura, não havia redes sociais, por isso não teve as mesmas repercussões que agora, quando voltei a falar no assunto numa entrevista à Fátima Campos Ferreira, no programa “Primeira Pessoa”, na RTP. Houve colegas meus e amigos que ficaram assustados. Disseram-me que corria o risco de perder doentes e que a minha clínica privada, provavelmente, ia falecer. (risos) Fiquei a pensar que, se calhar, juntei à naturalidade a ingenuidade. Eles podiam ter razão.


E tinham?

Não. Tive mais procura e ainda hoje há pessoas que marcam consulta e depois, quando chegam ao consultório, dizem: “acho que o senhor vai perceber melhor a maneira como me sinto”.


O facto de ter passado por essa experiência aproximou-o mais dos seus doentes?

Sim. Não é uma experiência nada agradável. Dispensava bem ter estado deprimido. Mas que me deu uma visão diferente das coisas, deu. Acontece a pessoa na consulta tentar explicar-me o que sente, a apatia, a dificuldade em “arrancar” de manhã e eu simplesmente dizer: “às vezes, até abrir a persiana custa, não é?” A pessoa fica surpreendida e diz: “É exatamente isso!” Mas, afinal, antes de tudo o resto, qual é o grande objetivo da psiquiatria e da psicologia? É fazer com que o outro se sinta compreendido. É por isso que fico preocupado quando oiço cada vez mais as pessoas dizerem que foram a um psiquiatra que os medicou, marcou consulta para daí a três ou quatro meses e que lhes deu o nome de um psicólogo porque eles precisam de falar da sua vida. Se a psiquiatria só confia na medicação e deixa a relação com o doente para os psicólogos, fica terrivelmente empobrecida. As pessoas precisam de sentir-se ouvidas. Mas vamos ser justos. Não estou a falar só da psiquiatria. A primeira linha da psiquiatria são os médicos de medicina geral e familiar, que têm às vezes uns miseráveis minutos para falar com as pessoas, que têm listas de utentes de 1900 pessoas, etc.


A saúde mental é o parente pobre do SNS? Há vários médicos e psicólogos a dizer que a situação é muito preocupante porque o sistema público não consegue responder às necessidades que são cada vez maiores.


Estive pouco tempo no SNS. Fui muito mais um professor universitário do que um médico e depois um psiquiatra em funções. Mas não é preciso ter 40 anos de SNS para saber que houve sempre um olhar parcimonioso em relação à saúde mental. Aquilo que nós [profissionais de saúde mental] ambicionamos é que a pessoa, ao sentir-se entendida, consiga dar mais uns passinhos na perceção do que está a acontecer consigo. Que fatores externos estão a contribuir para o “burnout”, para a depressão, para a ansiedade, etc. Esse é o primeiro passo para modificar as coisas. Algumas coisas estão completamente fora do nosso controlo, mas outras estão. E, portanto, temos de mudar de vida. Não podemos pedir isso às “pastilhas”. A Organização Mundial de Saúde tem vindo a passar a mensagem de que tem de haver uma abordagem holística da saúde da pessoa no seu todo. Hoje não passa pela cabeça de ninguém dizer que há doenças exclusivamente físicas ou exclusivamente psicológicas. E sabemos, cada vez mais, que as pessoas com depressão têm o sistema imunológico mais fragilizado. Mas, voltando ao SNS, mesmo que um colega de medicina geral e familiar decida encaminhar um doente para uma consulta de psiquiatria, isso pode significar meses de espera, o que é completamente inaceitável.

Houve sempre um olhar parcimonioso em relação à saúde mental.


Essa abordagem holística tarda em ser implementada?

O que é trágico é que quando surgiu a pandemia cavou-se um fosso ainda maior entre os recursos dados a uma medicina considerada mais “respeitável” e a saúde mental. Recentemente, o professor Miguel Xavier, que é o diretor do Programa Nacional de Saúde Mental, disse que é necessário duplicar o orçamento para a saúde mental. Ele reforçou que é preciso, no mínimo, duplicar os psicólogos nos cuidados de saúde primários. O bastonário da Ordem dos Psicólogos entoa a mesma canção há anos e anos. Depois, tivemos o professor Caldas de Almeida [ex-coordenador nacional para a saúde mental] a dizer numa entrevista ao Expresso que as questões da saúde mental também estão ligadas às questões sociais. Os pobres não sofrem da mesma maneira. E também referiu que aqueles que ainda não eram pobres estão a sofrer horrores. E é verdade. A classe média e média baixa, de repente, começou a ver-se deslizar para situações que eram impensáveis. No fundo, é a velha questão do fosso que existe entre os que têm muito e os que têm pouco.



Quando é que a tristeza deixa de ser normal?

Quando “enquista”, se prolonga e sobretudo nos impede de fazermos a nossa vida normal e de conseguirmos ter momentos de prazer. Aí é preciso parar e avaliar. Há situações em que o que é preocupante é não ficar triste. Por exemplo, alguém que amávamos deixou-nos ou morreu, o nosso negócio foi à falência... Viver essa tristeza não significa que fiquemos paralisados por ela. A pouco e pouco, a pessoa que perdemos mantém-se viva dentro de nós, mas não nos impede de seguirmos caminho. Se, pelo contrário, passamos a estar obsessivamente colados a essa imagem psicológica interna e estamos paralisados naquilo que é o nosso quotidiano, a probabilidade de estarmos a começar a lidar com um plano inclinado para uma depressão é muito grande.


Há agora, depois da pandemia, uma maior literacia sobre saúde mental?

Há uma iliteracia que se desenha sobre um pano de fundo de iliteracia global. Neste momento, ainda se junta um outro condimento que torna a situação mais complicada, que o facto de termos o “doutor Google” à disposição. As pessoas vão para a internet angustiadas porque têm medo de ter esta ou aquela doença, a informação que lá consta está longe de ser toda de boa qualidade e depois há uma tendência para ir buscar as piores hipóteses. Uma coisa que acontece muito é as pessoas chegarem ao meu consultório já com o diagnóstico feito. O mais clássico é a doença bipolar. A pessoa chega e diz que acha que já sabe o que tem. Diz: “Acho que sou bipolar porque tenho dias em que estou bem disposto e outros em que estou mal disposto”. Isto não tem nada a ver com ser bipolar. A iliteracia, de mão dada com a incapacidade de triar informação, num mundo que está cheio de notícias falsas, é algo que é muito complicado.


O facto de o SNS não estar a dar resposta, pode estar a contribuir para em Portugal haver um elevado consumo de psicofármacos?

Sim, mas não é a única razão. Nesta sociedade há uma tolerância baixíssima aos sentimentos negativos, ao sofrimento. Existe uma enorme nostalgia da “pastilha” que resolve tudo. Há pessoas que nos vêm consultar que ficam completamente desiludidas se não levarem uma receita. Mas o mais importante é do lado dos médicos. A consulta de medicina geral foi completamente espartilhada em termos temporais. Há uma sobrecarga de variáveis que os médicos têm de controlar, de campos de computador para preencher, etc. Começaram a surgir queixas dos dois lados da secretária – dos médicos e dos doentes. Os utentes dizem: o médico nem olhou para mim na consulta, esteve sempre a olhar para o computador. O que é verdade. E os próprios médicos também se queixam porque isto compromete a relação médico-doente, que é a base de tudo. As pessoas não se sentem ouvidas e muito menos escutadas, e do outro lado da secretária os profissionais de saúde sentem uma pressão brutal para apresentar números. Neste tipo de situação e com esta pressão, é muito mais simples receitar medicamentos. Mas há mais um fator. A indústria farmacêutica também exerce pressão sobre os médicos. Não vamos iludir-nos. Sempre exerceu. Mas, na minha opinião, o que mais contribui para os números recorde no consumo de psicofármacos é o facto de não haver as condições ideais para consulta. Não há tempo para falar com as pessoas.


No primeiro semestre de 2022, os portugueses compraram 10,9 milhões de embalagens de ansiolíticos, sedativos e antidepressivos. Estando tanta gente medicada, que implicações isto tem tanto para os próprios como para nós, enquanto sociedade?

Em primeiro lugar, isso não é um bom sinal em termos de sociedade. Uma das coisas que esta sociedade não tem sido capaz de impedir é o isolamento progressivo de cada vez mais pessoas. O que é terrível para a saúde mental. Por outro lado, o facto de haver mais pessoas que estão medicadas, traduz-se em riscos. Nós, sobretudo depois de uma boa jantarada, estamos sempre a pensar se aparece a brigada de trânsito. Se a brigada aparecer e, além de dosear o álcool, for dosear ansiolíticos, antidepressivos, etc.…, apanhamos todos um susto enorme. Há, ao volante ou a atravessar a rua, milhares e milhares de pessoas cujos reflexos estão lentificados porque estão medicadas. E, além disso, grande parte desses medicamentos provocam dependência. Aparecem-nos pessoas que dizem que tomam aquela medicação há 15 ou 20 anos. Aquela “pastilha” já faz parte da sua rotina. Outras dizem: sinto-me embotado em termos de sensibilidade ou, quando tomam medicações mais pesadas, dizem que se sentem embrutecidos, a cabeça não funciona com a clareza que desejavam, etc. Haverá sempre pessoas que têm de ser medicadas, algumas sem fim à vista. Mas o que temos neste momento são pessoas que, por vezes, são medicadas quando não deviam ser. A melhor maneira de abordar a situação, pelo menos naquela altura, não é essa. Na verdade, muitas vezes o que as pessoas sentem é um enorme vazio dentro de si. Uma rede social de apoio, por exemplo, é algo com um efeito terapêutico brutal para as pessoas. Nomeadamente para os mais velhos, mas não só.


De que é que as pessoas se queixam no seu consultório?

Se a brigada de trânsito aparecer e, além do álcool, dosear ansiolíticos e antidepressivos, apanhamos todos um susto enorme.

Há um desencanto nas pessoas com aquilo que as rodeia.

Há de tudo. Uma das queixas que mais tem aumentado é o desencanto com o que as rodeia. As pessoas dizem-me: ontem desliguei a televisão porque passaram horas a cobrir isto ou aquilo. Estamos numa situação política muito pouco agradável. Há problemas que, obviamente, têm de ser abordados, investigados e esclarecidos. Mas é uma espécie de telenovela que está a anos-luz das preocupações reais da população. Neste momento, o português médio está preocupado com o desemprego. A precariedade laboral é terrível. Há pessoas que dizem que não sabem se para o mês que vem ainda têm emprego. Também existe uma preocupação com as condições de vida e o receio do que o futuro pode trazer. Uma pessoa cuja prestação da casa aumentou 80 ou 90 euros e, ao mesmo tempo, leu que no primeiro trimestre os bancos lucraram mais de 950 milhões de euros, como é que se sente? Daí o desencanto. As pessoas estão céticas e, muitas vezes, de uma forma injusta acabam por meter tudo no mesmo saco. Dizem-me que deixaram de acreditar nos políticos. Quando se ouve as pessoas dizer “é tudo igual”, é muito mau. Agora, indo mesmo para a clínica, sem surpresa, aquilo que eu tenho encontrado mais são síndromes depressivo-ansiosos.


As questões económicas são determinantes para a saúde mental?

O agravar do fosso entre pobres e ricos não só tem consequências em termos sociais, porque as pessoas ficam revoltadas, mas tem obviamente consequências ao nível da saúde mental. Há artigos a dizer que em Portugal pode demorar quatro gerações para sair da pobreza e chegar à classe média. Quatro gerações? Isto é obsceno! As políticas de saúde, cada vez mais, têm de ser multidisciplinares. Não podem estar concentradas só no Ministério da Saúde. A Segurança Social, o Ministério da Educação e a própria arquitetura das cidades, que se tornaram selvas de concreto, têm de estar envolvidos.


Ainda existe um estigma sobre a doença mental. Haver figuras públicas a admitirem que tiveram uma depressão ou que têm transtorno obsessivo-compulsivo, por exemplo, contribui para diminuir o estigma?

Contribui. Pessoas com prestígio social, cujas intervenções são seguidas por muita gente, que são bem-sucedidas na vida (seja lá o que isso signifique), ao admitirem que sofrem disto ou daquilo, faz com que as outras pessoas percebam que não é impossível obter determinadas coisas nesta sociedade mesmo tendo este problema.