sábado, 15 de janeiro de 2022

Coisas que se Compram por 1 Euro


Os portugueses conhecem bem o filho. O pai, o escritor Orlando da Costa poucos conhecerão, tal como eu não conhecia muito. Aderiu ao PCP em 1954 e foi preso pela PIDE e, antes de morrer (segundo a Wikipedia) desenvolvia no PCP atividade na área da cultura literária. Talvez não tenha sido por acaso que o filho mais velho tenha sido o único líder do PS a conseguir fazer um acordo de governo com os comunistas, nove anos depois da sua morte. 

É sempre curioso quando encontramos estes achados por um preço simbólico, e depois ainda por cima abrimos a capa e encontramos lá dentro uma dedicatória do autor.

Mãe: Tive 2K no Twitter!


Chego à conclusão que, claramente, sou melhor a tweetar do que a colocar fotos no Instagram ou vídeos no Youtube.

Nunca consigo antever se determinado pensamento em forma de frase vai ter, ou não, destaque. Se vai criar bastantes reações ou nenhumas. Por vezes penso "olha que coisa que inteligente que me lembrei e vou partilhar" e depois não acontece nada. Noutros casos, quase sem querer, partilho algo tão simples como a minha sebe de heras e os bonsai que dela fiz, e uma figura mediática partilha dizendo que é das melhores coisas que se vê no Twitter.

A verdade é que, além da importância (ou estupidez do conteúdo) tudo depende de muitos fatores, como a hora a que se partilha, mas principalmente se é visto e partilhado por outras pessoas que, tendo milhares de seguidores, permitem uma exposição muito maior. 

Contudo, não deixa de ser curioso observar que, essas mais de duas mil aprovações em formato coração, ficam ainda muito longe de uma publicação no Bucólico-Anónimo que, num texto sobre eucaliptos, em três dias teve mais de onze mil visualizações, e num tempo em que eu ainda nem sequer estava nas redes sociais. 

domingo, 9 de janeiro de 2022

As Vinhas da Ira do Interstellar

"Nas estradas, onde o gado transitava e onde as rodas dos carros moíam o chão e as patas dos cavalos calcavam a terra, rompia-se a crosta de lama e formava-se a poeira. Tudo que se movia lançava a poeira no ar; um viandante levantava uma camada, que lhe chegava à cintura, uma carroça fazia-a subir até aos taipais e um automóvel deixava uma nuvem atrás de si. E só muito tempo depois a poeira acabava de assentar". 

"Homens e mulheres refugiavam-se precipitadamente nas casas e, quando saíam, atavam lenços ao nariz e punham óculos para proteger os olhos. 

Entre o Natal e o Ano Novo vi vários grandes filmes de vários géneros como: O Labirinto do Fauno, Amadeus, Efeito Borboleta (director's cut) e Interstellar. Relembrar que são filmes provenientes dos enormes lotes de DVD que comprei mas não esquecer também que, muitas vezes, faço verdadeiras séries com os filmes que vou vendo ao longo de vários dias. Ou seja, não vejo assim tantos filmes ao longo do ano.

Interstellar havia-me sido recomendado pelo meu ex-patrão. Se nada das suas opiniões políticas me interessava como, por exemplo, me ter massacrado que Trump merecia o Nobel da Paz ou que a pandemia era uma gripezinha, já no campo cinéfilo coincidíamos bastante. E, se já por sua sugestão acabei a ver Inception, primeiro filme que vi em 2016, curiosamente acabei agora por ver este Interstellar, primeiro filme de 2022. 

Apesar de não ser propriamente fã de filmes sobre a conquista do espaço, não posso dizer que o filme não seja bom (e ainda por cima tem o sorriso de Anne Hathaway, não é?) mas, para mim, o mais curioso de tudo foi ser transportado para os cenários narrados por Steinbeck em "As vinhas da Ira". 

Não é subliminar. Está tudo lá escarrapachado! A casa; o pó por todo o lado e os pratos em cima da mesa virados ao contrário; as máscaras e os óculos que as pessoas usavam para se proteger; os campos de cultivo cada vez mais improdutivos e a fome generalizada; o êxodo dos carros carregados com os haveres em cima do tejadilho; e até há um Tom no filme.

O filme, de facto  é muito bom, mas vão por mim, o livro é um clássico assombroso. 

E a Ira começou a Fermentar

sábado, 8 de janeiro de 2022

Pequenas Coisas para Melhorar a Vida (sem grande esforço)

https://addicted2success.com/

No primeiro dia do ano, geralmente dado a resoluções de ano novo, o The Guardian publicou um artigo leve e descontraído sobre como podemos mudar pequenas coisas no dia-a-dia para melhorarmos as nossas vidas. Não são aquelas "grandes" decisões, o deixar de fumar ou passar a fazer mais exercício depois de terem enchido o bandulho com toda a porcaria que poderiam ter dividido ao longo do ano. São pequenas coisas, mas algumas fazem todo o sentido. Só um apanhado:

1. Exercício 2a feira à noite - nada de divertido acontece 2a à noite!
2. Em dúvida sobre uma compra? Então espera 72h antes de comprar.
4. Leva frutas para o trabalho. E para a cama também!
16. Reserva 10 minutos por dia para fazer algo que realmente gostes - seja ler um livro ou jogar.
24. Começa a manhã de sábado com um pouco de música clássica - dá o tom para um fim de semana tranquilo.
30. Sê educado com estranhos mal educados - é estranhamente emocionante!
32. Liga-te com a natureza: fica lá fora descalço por alguns minutos - mesmo quando está frio.
33. Junta-te à tua biblioteca local - e usa-a!
34. Dá um passeio sem telefone.
38 .Dorme com o telefone numa divisão diferente (e compra um despertador).
42. Não tenhas Twitter no telefone
43. Se encontrares uma peça de roupa que adores e tiveres a certeza que a usarás para sempre, então compre três.
44. Experimenta tomar um banho frio (30 segundos a dois minutos) antes do banho quente. Faz bem à saúde saúde - tanto física quanto mental.
47. Tira os fones do ouvido ao caminhar - ouve o mundo.
48. Compra em 2a mão
51. Se alguma coisa no mundo está a deixar-te com raiva, escreve educadamente ao teu deputado - eles vão ler.
52. Diz olá aos teus vizinhos.
53. Aprende o básico para consertar as tuas roupas.
55 Aprende os nomes de 10 árvores.
56. Liga a um velho amigo do nada.
62. Vai para a cama mais cedo - mas não leves o telefone.
78. Tira sempre  um dia extra de folga a seguir a um feriado.
79. Ignora o algoritmo - ouve música fora do teu gosto habitual.
80. Silencia ou sai de um grupo do WhatsApp.
83. Junta-te a um grupo local de apanha de lixo.
85. Não compres um animal de estimação.
88. Compra uma bicicleta e usa-a. Aprende a consertá-la também.
89. Recusa convites educadamente que não queres ir.
92. Não olhes para o telefone durante o jantar.
93. Faz aquela coisa que vens adiando.
94. Elogia ampla e livremente.
96. Anda com um livro na bolsa para resistir à tentação de vegetar no telemóvel.

98. Faz um amigo de uma geração diferente.

Esta lista foi inspirada na de 2000, 100 Maneiras de Tornar o Mundo um Lugar Melhor

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

A Origem do Bolo-Rei (que deixou de ter fava)

"Se calhar a maioria das festas do meu quinteiro teve origem em comemorações remotas adaptadas a novos tempos. Assim, folguedose e costumes da Natividade foram - digamos - a cristianização das saturninas romanas. 

As saturninas, celebradas a 16 e 17 de Dezembro - quando começa a novena de Natal -, eram grandes festejos a Saturno (que, na tradição romana promoveu a paz, trouxe a abundância e ensinou a agricultura aos homens). Tais honrarias celebravam a igualdade entre os indivíduos e davam origem às maiores licenciosidades e liberdades. Incusive dos escravos, a quem tudo permitiam. Rezam as crónicas que pessoas de bem e gent séria até abandonava Roma, ness ocasião, para não serem incomodadas. 

Porém, não só herdámos do passado as grandes festividades - Natal, Páscoa, Entrudo, São João e outras - mas também pequenas tradições, humildes e significativas. É o que caso da fava que aparece no bolo-rei, estranho costume hoje visto ao contrário do seu significado original. A história é assim: o alimento base dos primeiros romanos, camponeses e rudes e sóbrios, tinha o nome de pulmentum, composto de farinha de trigo (ou cevada) e água. No serão que precedia a festa saturnal - que tem evidente analogia com a atual consoada -, era costume comer daquela espécie de pão, em cujas entranhas se escondia uma fava seca. O comensal que, bafejado pela sorte, a recebesse no prato convertia-se no homem principal da comemoração de Saturno. E isto independentemente da sua condição social, já que, por sorteio, a igualdade da condição humana era proclamada.

O crescimento do Império transformou o pulmentum em pão de qualidade e a própria festa saturnal em extensa e imaginativa orgia. Neste novo contexto festivo-luxirioso, os escravos, vestidos como os amos, vinham para as ruas fazer pantominas nas calendas de Januaris, e o velho costume do sorteio gastronómico da fava converteu-se em jogo erótico. Mediante ele elegia-se o rei escravo que encontrasse o fruto seco, aquando da partilha de um grande doce chamado scriblita. O poder daquele "rei por um dia" não era mais do que possuir mulher (ou homem - conforme os gostos) que quisesse escolher, de qualquer condição social. 

Estes saturnais, criticados por Séneca na frase non semper sunt saturnalia (nem tudo são saturnais), foram abolidos após a cristinização do Império, que, todavia, não conseguiu evitar o enraizamento da crença nas virtudes da fava. Desde há mais de 2000 anos ela adquiriu novos cambiantes, deslizando das formulações eróticas e sexuais romanas para as interpretações que atualmente lhe damos: encontrar a fava é pouca sorte, pois implica comprar um novo bolo-rei para a festa seguinte. 

No entanto, mesmo este costume pacífico e amigável não corresponde à lenda cristã sobre a origem do bolo-rei e do uso da fava: aquando do nascimento do Menino-Deus, começaram a chegar a Belém sábios, sacerdotes e magos. Vinham prestar homenagem ao anunciado redentor do mundo. Os magos não chegaram, todavia, a acordo sobre qual deles seria o primeiro a oferecer os presentes ao Menino. Resolveram então fazer um bolo contendo, no interior, uma fava (a continuidade do uso romano). O bolo seria repartido por todos, em partes iguais, e aquele a quem saísse a fava teria sorte de oferecer o presente antes dos outros (é a crença num objeto benfazejo e signo da sorte). 

A lenda não diz a quem saiu. Mas o facto correu de boca em boca e, a partir daí, propagou-se o hábito de cozinhar um bolo com a fava dentro sempre que fosse necessário resolver - pela sorte - qualquer divergência. Posto isto, se lhes sair a fava, em vez de chorarem o que vão ter que pagar, pensem como, há milhares de anos, em Roma, ficaria o felizardo a quem caberia ser rei por um dia - com os atributos e facilidades daí advindas. 

"Vistas do Meu Quinteiro" / Hélder Pacheco (1995)

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Tinder Surpresa

 


Comprar lotes de livros sem saber bem o que está lá dentro é como uma criança abrir um Tinder Surpresa.  

Não sei se fui eu que coloquei o número errado no GPS ou se, pelo contrário, foi ele que se arrogou na vontade própria de me levar quatrocentos números adiante do antiquário. E como ainda por cima era numa estrada de sentido único, e porque meia hora depois tinha outro compromisso (e ultimamente sou um gajo de tantos compromissos que hoje até tentei comprar uma agenda. Tentei mas a menina da papelaria disse-me que já tinha vendido todas) então, acabei por deixar o carro onde estava e caminhar os quatrocentos números a pé. 

Lá chegado fiquei surpreendido pelo peso dos livros. Mas o caminho é em frente. A senhora arranjou-me um daqueles sacos resistentes das compras, e eu ainda coloquei o saco que levei por cima, não fosse os pingos de chuva conspurcarem-me as raridades e fiz-me ao caminho, primeiro carregando os livros numa mão, depois passei para outra e, por fim, carreguei-os com as duas mãos até à mala do carro. E sou tão pouco curioso - à semelhança de quando recebia cartas de amor - que, só quando cheguei a casa, depois do outro tal compromisso, é que fui ver o que me me tinha calhado em sorte. 

Devo ter parecido uma criança com os olhos a brilhar enquanto retirava os livros, um-por-um, com muito cuidado dentro dos caixotes, e, sempre surpreendido com o título que ia saindo. E tanta coisa absurdamente interessante e valiosa me calhou em sorte pelo preço de uma ida ao cinema...