"A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão."
sábado, 15 de janeiro de 2022
Coisas que se Compram por 1 Euro
Mãe: Tive 2K no Twitter!
domingo, 9 de janeiro de 2022
As Vinhas da Ira do Interstellar
"Nas estradas, onde o gado transitava e onde as rodas dos carros moíam o chão e as patas dos cavalos calcavam a terra, rompia-se a crosta de lama e formava-se a poeira. Tudo que se movia lançava a poeira no ar; um viandante levantava uma camada, que lhe chegava à cintura, uma carroça fazia-a subir até aos taipais e um automóvel deixava uma nuvem atrás de si. E só muito tempo depois a poeira acabava de assentar".
"Homens e mulheres refugiavam-se precipitadamente nas casas e, quando saíam, atavam lenços ao nariz e punham óculos para proteger os olhos.
Apesar de não ser propriamente fã de filmes sobre a conquista do espaço, não posso dizer que o filme não seja bom (e ainda por cima tem o sorriso de Anne Hathaway, não é?) mas, para mim, o mais curioso de tudo foi ser transportado para os cenários narrados por Steinbeck em "As vinhas da Ira".
Não é subliminar. Está tudo lá escarrapachado! A casa; o pó por todo o lado e os pratos em cima da mesa virados ao contrário; as máscaras e os óculos que as pessoas usavam para se proteger; os campos de cultivo cada vez mais improdutivos e a fome generalizada; o êxodo dos carros carregados com os haveres em cima do tejadilho; e até há um Tom no filme.
sábado, 8 de janeiro de 2022
Pequenas Coisas para Melhorar a Vida (sem grande esforço)
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1. Exercício 2a feira à noite - nada de divertido acontece 2a à noite!
2. Em dúvida sobre uma compra? Então espera 72h antes de comprar.
4. Leva frutas para o trabalho. E para a cama também!
33. Junta-te à tua biblioteca local - e usa-a!
34. Dá um passeio sem telefone.
42. Não tenhas Twitter no telefone
43. Se encontrares uma peça de roupa que adores e tiveres a certeza que a usarás para sempre, então compre três.
47. Tira os fones do ouvido ao caminhar - ouve o mundo.
48. Compra em 2a mão
52. Diz olá aos teus vizinhos.
53. Aprende o básico para consertar as tuas roupas.
55 Aprende os nomes de 10 árvores.
56. Liga a um velho amigo do nada.
62. Vai para a cama mais cedo - mas não leves o telefone.
92. Não olhes para o telefone durante o jantar.
93. Faz aquela coisa que vens adiando.
94. Elogia ampla e livremente.
98. Faz um amigo de uma geração diferente.
Esta lista foi inspirada na de 2000, 100 Maneiras de Tornar o Mundo um Lugar Melhor
quinta-feira, 6 de janeiro de 2022
A Origem do Bolo-Rei (que deixou de ter fava)
"Se calhar a maioria das festas do meu quinteiro teve origem em comemorações remotas adaptadas a novos tempos. Assim, folguedose e costumes da Natividade foram - digamos - a cristianização das saturninas romanas.
As saturninas, celebradas a 16 e 17 de Dezembro - quando começa a novena de Natal -, eram grandes festejos a Saturno (que, na tradição romana promoveu a paz, trouxe a abundância e ensinou a agricultura aos homens). Tais honrarias celebravam a igualdade entre os indivíduos e davam origem às maiores licenciosidades e liberdades. Incusive dos escravos, a quem tudo permitiam. Rezam as crónicas que pessoas de bem e gent séria até abandonava Roma, ness ocasião, para não serem incomodadas.
Porém, não só herdámos do passado as grandes festividades - Natal, Páscoa, Entrudo, São João e outras - mas também pequenas tradições, humildes e significativas. É o que caso da fava que aparece no bolo-rei, estranho costume hoje visto ao contrário do seu significado original. A história é assim: o alimento base dos primeiros romanos, camponeses e rudes e sóbrios, tinha o nome de pulmentum, composto de farinha de trigo (ou cevada) e água. No serão que precedia a festa saturnal - que tem evidente analogia com a atual consoada -, era costume comer daquela espécie de pão, em cujas entranhas se escondia uma fava seca. O comensal que, bafejado pela sorte, a recebesse no prato convertia-se no homem principal da comemoração de Saturno. E isto independentemente da sua condição social, já que, por sorteio, a igualdade da condição humana era proclamada.
O crescimento do Império transformou o pulmentum em pão de qualidade e a própria festa saturnal em extensa e imaginativa orgia. Neste novo contexto festivo-luxirioso, os escravos, vestidos como os amos, vinham para as ruas fazer pantominas nas calendas de Januaris, e o velho costume do sorteio gastronómico da fava converteu-se em jogo erótico. Mediante ele elegia-se o rei escravo que encontrasse o fruto seco, aquando da partilha de um grande doce chamado scriblita. O poder daquele "rei por um dia" não era mais do que possuir mulher (ou homem - conforme os gostos) que quisesse escolher, de qualquer condição social.
Estes saturnais, criticados por Séneca na frase non semper sunt saturnalia (nem tudo são saturnais), foram abolidos após a cristinização do Império, que, todavia, não conseguiu evitar o enraizamento da crença nas virtudes da fava. Desde há mais de 2000 anos ela adquiriu novos cambiantes, deslizando das formulações eróticas e sexuais romanas para as interpretações que atualmente lhe damos: encontrar a fava é pouca sorte, pois implica comprar um novo bolo-rei para a festa seguinte.
No entanto, mesmo este costume pacífico e amigável não corresponde à lenda cristã sobre a origem do bolo-rei e do uso da fava: aquando do nascimento do Menino-Deus, começaram a chegar a Belém sábios, sacerdotes e magos. Vinham prestar homenagem ao anunciado redentor do mundo. Os magos não chegaram, todavia, a acordo sobre qual deles seria o primeiro a oferecer os presentes ao Menino. Resolveram então fazer um bolo contendo, no interior, uma fava (a continuidade do uso romano). O bolo seria repartido por todos, em partes iguais, e aquele a quem saísse a fava teria sorte de oferecer o presente antes dos outros (é a crença num objeto benfazejo e signo da sorte).
A lenda não diz a quem saiu. Mas o facto correu de boca em boca e, a partir daí, propagou-se o hábito de cozinhar um bolo com a fava dentro sempre que fosse necessário resolver - pela sorte - qualquer divergência. Posto isto, se lhes sair a fava, em vez de chorarem o que vão ter que pagar, pensem como, há milhares de anos, em Roma, ficaria o felizardo a quem caberia ser rei por um dia - com os atributos e facilidades daí advindas.
"Vistas do Meu Quinteiro" / Hélder Pacheco (1995)
terça-feira, 4 de janeiro de 2022
Tinder Surpresa
Comprar lotes de livros sem saber bem o que está lá dentro é como uma criança abrir um Tinder Surpresa.
Não sei se fui eu que coloquei o número errado no GPS ou se, pelo contrário, foi ele que se arrogou na vontade própria de me levar quatrocentos números adiante do antiquário. E como ainda por cima era numa estrada de sentido único, e porque meia hora depois tinha outro compromisso (e ultimamente sou um gajo de tantos compromissos que hoje até tentei comprar uma agenda. Tentei mas a menina da papelaria disse-me que já tinha vendido todas) então, acabei por deixar o carro onde estava e caminhar os quatrocentos números a pé.
Lá chegado fiquei surpreendido pelo peso dos livros. Mas o caminho é em frente. A senhora arranjou-me um daqueles sacos resistentes das compras, e eu ainda coloquei o saco que levei por cima, não fosse os pingos de chuva conspurcarem-me as raridades e fiz-me ao caminho, primeiro carregando os livros numa mão, depois passei para outra e, por fim, carreguei-os com as duas mãos até à mala do carro. E sou tão pouco curioso - à semelhança de quando recebia cartas de amor - que, só quando cheguei a casa, depois do outro tal compromisso, é que fui ver o que me me tinha calhado em sorte.
Devo ter parecido uma criança com os olhos a brilhar enquanto retirava os livros, um-por-um, com muito cuidado dentro dos caixotes, e, sempre surpreendido com o título que ia saindo. E tanta coisa absurdamente interessante e valiosa me calhou em sorte pelo preço de uma ida ao cinema...
