domingo, 5 de novembro de 2017

Para Ti Meu Amor



Poema de amor, escrito por Mário Soares a Maria Barroso em 1962, quando se encontrava detido na prisão do Aljube.


Telecrã

Saí do centro comercial em frente do Estádio do Dragão e, já depois de me terem perguntado se eu queria "Tickets?", dirigi-me para o carro que tinha ficado estacionado no exterior. Já dentro do carro e com os vidros fechados, um sujeito aparentando ser de etnia cigana, aproxima-se e começa-me a chatear, mostrando-me um telemóvel (ou telecrã como diz agora uma amiga minha que acabou de ler o 1984 do Orwell) e onde eu só reconheci a marca a prateado Samsung (lá está, uma marca que reconheço dos televisores), enquanto que o vou ignorando. 

Até que, perante tanta insistência, tenho mesmo de lhe dizer:
"Ó amigo, isso não vale nada. Eu tenho um telemóvel muito melhor que esse. Não quero isso para nada". E enquanto isso, vou ao bolso e mostro-lhe o meu Nokia 6630 de 2004 e digo-lhe: "Isto é que é que uma máquina!"

Ele riu-se e eu arranquei e fui-me embora. 

Um Estado que Premeia os Preguiçosos

Arderam centenas de casas este ano e muitas empresas também. E o Estado, que somos todos nós, vai pagar isso tudo porque coitadas das pessoas, ficaram sem casa. 

Mas imaginemos a seguinte situação:
Eu pego numa mala cheia de dinheiro, e deixo-a dentro do carro, aberta, com as notas a verem-se. E resolvo deixar as janelas abertas para entrar o ar, enquanto vou dar um passeio a pé. Mas quando chego, fico muito surpreendido ao ver que me roubaram a mala cheia de dinheiro. Então, reclamo veementemente que a culpa é do meu país que é o uma merda, porque o meu país não defende as pessoas. O meu país falhou comigo. Afinal, uma pessoa já nem pode deixar o carro na cidade com o vidros abertos porque é logo roubado! Vou para a rua gritar que a culpa é do Estado! O meu país falhou! O meu país deveria colocar um polícia junto de cada carro, para que nenhum carro possa ser roubado! E vou exigir que o Estado me pague os prejuízos. 

Não acham que isto seria realmente muito estúpido?


É mais ou menos a mesma estupidez que eu acho que o Estado pague casas a particulares e danos em empresas, a pessoas que deixaram o mato entrar pelas casas e empresas adentro. Nem as pessoas  cumpriram a lei, nem as câmaras municipais fizeram com que a lei se cumprisse. Mas pela incúria de uns, todos vão pagar. E afinal o desleixo e a preguiça compensam sempre. É mais ou menos como quando o mesmo Estado beneficia quem não paga os impostos a tempo e horas e depois aplica perdões fiscais permitindo que os incumpridores paguem, sem juros, o que já deviam ter pagado aquando todos os outros. E quem cumpre acaba sempre por sair prejudicado. 

Este Outono eu tinha planeado limpar o terreno em volta da minha casa, como o faço todos os anos, se bem que, desta vez, tinha mesmo pensado cortar vários pinheiros, para estar a salvo de qualquer incêndio no futuro. Mas afinal não preciso de o fazer. Se a minha casa arder, não há problema, todos ma vão pagar!

sábado, 28 de outubro de 2017

Pêssego ou Manga Laranja?

Acho que foi no fim-de-semana passado que comecei a pensar que no tinha acabado de pedir na roulotte. Perante a pergunta sobre qual molho eu queria no prego, respondi prontamente "Ketchup". Mas por que é que eu pedi Ketchup e não Mostarda ou Maionese? Eu estaria a pedir Ketchup porque de facto é um molho que eu muito aprecio, ou estaria a pedir por outro motivo?

Sinceramente já não me lembro quando comi pela primeira vez um prego em pão de hamburguer. Mas tenho quase a certeza que estaria com ela. E de certeza que até então nunca que tinha provado um prego com maionese, com mostarda e com ketchup para já ter formulado a minha escolha. Hoje, tantos anos depois, continuo a pedir Ketchup nos pregos em pão de hamburguer, porque era assim que ela me dizia que gostava. Que assim era melhor. Mas era melhor para ela. Será que era mesmo o melhor para mim? 

Há pessoas que chegam à roulotte e pedem tudo. Pedem todos os ingredientes que estejam disponíveis: alface, tomate, cogumelos, milho, cebola, ervilhas, batata-palha, ovo, queijo, fiambre, tabasco no bife, e mais algum ingrediente que me possa estar agora a escapar! E à pergunta - molhos? Respondem: "todos"! E a senhora ou o senhor, apertam no frasco de cada molho que está pendurado, e apertam-no como se estivessem a ordenhar uma vaca, e ejaculam para cima da sande montes de molho em círculos e mais círculos. E depois repetem no segundo molho e no terceiro, e fica para ali uma bela bodeguice. 

Talvez porque estas pessoas nunca que tiveram a oportunidade de parar para pensar sobre qual será o seu molho preferido. Então, na dúvida, pedem todos. Afinal, estão a pagar, e assim sentem-se reconfortados, estão a pedir o máximo de comida possível, o máximo de ingredientes, e o máximo de bodeguice. 

Por mim escolheram o Ketchup. E eu aprendi a gostar de Ketchup no prego. Talvez fosse agora preciso nascer de novo, para conseguir decidir o que eu gosto verdadeiramente. Ou então talvez de uma nova namorada, para me dar a provar outro molho, para eu provar outro sabor, e ver como afinal este novo melhor é melhor que Ketchup.

No filme Runnaway Bride, que saiu no mesmo ano que comecei a namorar com a pessoa que me fez gostar de Ketchup no prego,  também podemos ver a protagonista, a sorridente Júlia Roberts, que em determinado momento do filme é confrontada pela personagem de Richard Gere, que nem sequer nunca soube como gosta dos ovos. Ela gosta dos ovos conforme for a forma que o namorado com quem estiver no momento gostar. 



E, durante muitos anos pedi, a acompanhar, por norma, uma torrada ou uma tosta mista, um néctar de pêssego. E também agora vejo que era como ela gostava. Era o que ela bebia. E será, ocorre-me agora, que também ela ainda hoje, sem se aperceber, faz determinadas escolhas porque fui eu que lhas plantei sub-repticiamente? E que escolhas serão essas? Ou será que, por ter passado a dividir a sua vida com outra pessoa, já não restará qualquer resquício da minha influência? Se é importante para mim saber? Claro que não é importante! São só meras curiosidades retóricas. 

Mas nós estamos sempre a ser influenciados nas mais pequenas coisas, mesmo sem nos apercebermos. E há coisas que nos ficarão para sempre. Sim, eu sei, "sempre" é muito tempo. Professora de química do oitavo ano: "As tampas colocam-se sempre viradas para cima". E não sei porquê mas esta frase ficou.me sempre na cabeça, e sempre que abro uma rolha de uma garrafa e a coloco em cima de uma mesa, a verdade é que a viro sempre para cima. Sim, muito provavelmente  os professores, depois dos pais, talvez sejam das pessoas que mais nos influenciam ao longo da vida. 

E sempre que vou dar saída de um Hotel, ouço a frase dela: "Vê se não deixamos nada caído". E sempre que vou dar saída num Hotel, reviro os lençóis, espreito debaixo da cama, vou duas vezes à casa-de-banho e olho por todo o lado, para ver se não deixo nada caído em nenhum lado. 

E muitos anos depois, provei um néctar de Manga Laranja. "Mas isto é muito bom", disse-lhe. Mas e eu, afinal, de qual é que gosto mais? De Pêssego ou Manga Laranja? 

Nos Meus Sonhos Beijo a Tua Cona...




In my dreams I kiss your cunt, 
your sweet wet cunt. 
In my thoughts I make love to you all day long.








Atonement / Joe Wright / 2007