quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

The Magdalene Sisters

Porquê? Em nome de Deus que fizemos para merecer isto? Não somos escravas... Nem inválidas, e o que é que fizemos? Ter um filho não é um crime. 
Tê-lo não sendo casada é pecado mortal. 
Pecado mortal nenhum justificava este lugar. Mas eu cometia qualquer um, mortal ou não, para sair daqui.
 

Calcula-se que umas 30 mil mulheres foram enclausuradas em Asilos Madalena por toda a Irlanda. A última lavandaria foi fechada em 1996.

"As irmãs de Maria Madalena" (The Magdalene Sisters) é um filme de 2002, muito bom, mas muito perturbador e revoltante também. O filme, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, é baseado em factos reais, que não são passados na Idade Média mas sim há meia dúzia de anos. Somos confrontados com a realidade dos conventos irlandeses até 1996 (mas que por certo serão a realidade dos conventos por esse mundo fora).

Os conventos de Maria Madalena na Irlanda eram administrados por freiras da Misericórdia em nome da Igreja Católica. A estes conventos (ou asilos?) iam parar jovens mulheres por motivos tão diferentes como: ser violadas, mãe solteira (os filhos eram-lhes retirados mal nasciam), ser demasiado bonita ou demasiado feia, demasiado ingénua ou demasiado inteligente. Ali eram levadas e fechadas e eram obrigadas a trabalhar numa lavandaria durante anos (às vezes toda a vida) sem qualquer pagamento. 

O filme acompanha a vida de quatro mulheres reais: Crispina, Rose Margaret e Bernadette ali encerradas para expiarem os seus pecados: serem mães solteiras, abusadas, demasiado bonitas ou demasiado simples ou inteligentes. 

Mas além de serem prisioneiras e escravas e, estarem impedidas de contactar com os filhos,  não pensem que as suas vidas dentro dos conventos eram mais fáceis. Não podiam falar umas com as outras (no filme mostram-nos as estratégias que arranjavam, por exemplo, enquanto dobravam os lençóis, era quando se aproximavam que iam trocando palavras por forma às freiras não ouvirem), eram espancadas e rapavam-lhes o cabelo se tentassem fugir, e eram alvo de constantes humilhações, por exemplo, no filme mostram isso quando as freiras as puseram nuas e faziam comentários sobre os seus atributos físicos.  

É perturbador pensar que, aqueles que se arrogam de defensores da moral e dos bons costumes, defensores da suposta palavra de Deus, acabam no fundo por ser os piores, opressores, que escravizam, humilham e maltratam os seus semelhantes. Pior ainda quando falamos de freiras, que também são mulheres, a ostracizar sadicamente outras mulheres. 

Os conventos Maria Madalena foram encerrados em 1996, mas podemos olhar para estes conventos como uma metáfora da nossa vida atual, em que as mulheres ainda são vítimas de discriminação a todos os níveis, discriminação essa perpetuada nos últimos dois mil anos pela religião católica, discriminadas ainda, seja no trabalho ou na sociedade, e vítimas de violência nas casas onde habitam, pagando tantas vezes com a própria vida só pelo simples facto de terem nascido mulheres.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

O Verdadeiro Tamanho de Portugal

Para termos ideia da área que Portugal com as ilhas ocupa, fiquei agora a saber que, se a Ilha das Flores estivesse situada na cidade do Porto, Portugal Continental ocupava a Itália!

E, se Portugal continental estivesse situado no Rio de Janeiro (outrora capital do Império), as Ilhas dos Açores ocupavam Paraguai e Bolívia!

Interessante ver a dimensão do Brasil, um verdadeiro continente, mas no entanto também se pode perceber toda a área de mar que Portugal tem e a distância de Lisboa ao Corvo e Madeira. 

Podem fazer todas estas brincadeiras aqui.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

O sol nasceu, A casa está vazia e Amanhã é dia dos Namorados.

 

... Pareces tão real, ainda mais real 
que as ondas desse mar sempre tão cúmplice
durante as poucas horas absorvidas
entre um bar sem ninguém e o silêncio
dentro do carro, ali onde abrigámos
a nossa mágoa, a sós, fora do mundo,
e o peso gelado de um remorso
até explodir, baixinho, sob um véu de lágrimas
nos teus e nos meus olhos. Não adianta,
a vida sabe sempre acontecer
quando menos esperamos, em segredo,
e eu regresso a ti, num arrepio sem glória,
mas tão preso ao destino que nos coube,
à música do cosmos antes de nascer,
enquanto alguém dedilha num piano
os acordes febris que estilhaçam a noite
e escorrem pouco a pouco dos meus lábios
como a baba de um anjo alucinado
que só por tua causa enfim reconhecesse
o rosto mais fiel do paraíso.

Estou mais tranquilo, agora, sei que dormes
algures nesta cidade venenosa:
consigo mesmo ouvir daqui a tua
respiração submersa,
tão perto de outro corpo e já tão dentro
da minha alma. O sol nasceu,
a casa está vazia e amanhã
é dia dos namorados.


My Funny Valentine / Fernando Pinto do Amaral 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Conversas Improváveis (59) - Se Houvesse Cucos no Brasil...



Nunca me tinha dirigido a ela nestes moldes. 
Cheguei e quis surpreendê-la simplesmente com um: "Cucu"!
Mas aqueles seus olhos gigantes olharam-me, intrigados. 

Eu já pensei diversas vezes, especialmente quando nos divertimos com as diferenças das palavras, que falamos a mesma língua mas às vezes parecemos estrangeiros.
"Mas nós somos estrangeiros" já me disse ela. 

Ela olhou-me intrigada porque não existem cucos no Brasil. Pareceu-lhe que disse cu ... cu! E a única coisa que existe no Brasil são os relógios-de-cuco. 

Se houvesse cucos no Brasil eles certamente não cantariam "cucu". Cantariam sim "bumbum bumbum" e não se chamariam cucos. 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Ah e Tal as Pessoas Gostam é de Ver Gatinhos na Net

 


Demos fé que a eletricidade tinha faltado já estávamos a almoçar. A chuva tinha parado. A minha mãe do nada diz "aquela laranja tem um bico"? Eu olho e, à distância, parece-me uma ilusão ótica. Mas não há problema. Vou ao quarto, pego na máquina fotográfica com a lente de 300mm e disparo. Era o que eu pensava: uma ilusão ótica perfeita, mas não deixava de ser uma ilusão ótica. Um folha por trás, como que colada à laranja, balouçava no mesmo ritmo da balança, fazendo parecer que a laranja tinha de facto um bico, ou como se fosse uma laranja com uma máscara dos tempos da peste negra.

Aproveitando o facto de estar com a máquina fotográfica começo a seguir o gato. Aquele que nasceu aqui, e que é "nosso" mas que ninguém mete a mão. Ele vai para o meio da erva e eu disparo várias vezes conseguindo uma ou outra fotografia razoável. Decido colocar no Instagram. 

No dia seguinte, ontem, andava lá por casa a telejardinar e olho para o espaço das tartarugas, totalmente renovado, e vejo a tartaruga em cima da pedra que eu ali tinha propositadamente colocado para que elas ali se fossem esticar ao sol. Tinha pensado bem! Elas iam gostar daquela pedra ali. Decido pegar no telecrã e tirar uma fotografia, que, também depois coloquei no Instagram. 

Conclusão, fui agora passar os olhos na minha conta e, qual é que acham que teve mais gostos? Pois bem, foi a fotografia das tartarugas, e de longe. Mais do dobro! Gatinhos? Pfff!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

E Não Sobrou Ninguém

 "A cor da nossa pele, com quem nos deitamos, o que temos entre as pernas, que língua falamos, em que país nascemos, a que Deus rezamos, quanto ganhamos por mês. Nada disto nos faz melhores pessoas." (Linda Martini)



Por cada braço em riste, será que te riste ou levaste a sério? 
Quando vierem por ti amanhã vais gritar Ai mamã ai mamã.


"E não sobrou ninguém" / Linda Martini (2020)