sábado, 22 de outubro de 2022

Explicar o Delírio Coletivo



"Um espectro ronda o mundo - o espectro da dissonância cognitiva coletiva. Espectro materializado em um movimento transnacional, favorecido pela onipresença do universo digital e das redes sociais no dia a dia planetário.

Crimes e irresponsabilidades

Nas (não) comemorações do 7 de Setembro, Jair Messias Bolsonaro se superou: presenciamos um festival de mentiras, dados falsos, declarações preconceituosas e crimes de responsabilidade, em uma rapidez surpreendente mesmo para os padrões hiperbólicos do mito. Os quatro eternos anos da Presidência resumidos em 24 intermináveis horas. Síntese, aliás, desafiadora.

Ultrapassamos 680 mil mortes em função da pandemia de Covid, número que poderia ser muito menor se o governo não tivesse flertado coma criminosa noção de imunidade de rebanho por contágio direto.

Assistimos, consternados, ao retorno do Brasil ao mapa da fome. Indefesos, somos assaltados pelo dragão da maldade da inflação toda vez que vamos ao supermercado para comprar uma quantidade sempre menor de produtos.

Muito pouco surpresos, soubemos das “comissões” que seriam cobradas por intermediários improváveis de vacinas que não existiam no balcão de negócios escusos que se tentou montar no Ministério da Saúde, eque só não prosperou pelas denúncias da CPI.

Nada pasmos, fomos informados de que, agora sim com êxito, converteu-se o Ministério da Educação em um armazém de secos e molhados, cujas improvisadas gôndolas traficavam barras de ouro e bíblias superfaturadas, além de profanadas com fotografias do pastor ex-ministro e de dois pastores velozes e furiosos, indicados para tenebrosas transações pelo Messias Bolsonaro, responsável pelo apocalipse da educação pública.

Pela primeira vez na história da Nova República, um presidente em exercício acrescentou à sua já rica ficha corrida todos os crimes eleitorais possíveis e imagináveis, usando com o despudor que melhor define o personagem recursos da máquina pública em proveito próprio, em uma rachadinha eleitoral de proporções épicas.

A enumeração do caos da administração do governo enquanto arquitetura da destruição poderia seguir indefinidamente. Contudo, Bolsonaro mantém uma base sólida do eleitorado, tendo chegado a 51 milhões de votos no primeiro turno.

(Mas devagar com o andor que Bolsonaro é feito de barro. Em uma inegável derrota pessoal, também pela primeira vez na história da Nova República, o presidente ficou em segundo lugar no primeiro turno das eleições. Um fracasso que ameaça reduzir o mito à impotência política.)

Passemos a palavra à Esfinge: “Qual o ser que, em todas as idades, troca verdades por óbvias mentiras e, confrontado com a falsidade, desafia o mais elementar princípio de realidade? Em que teia foi enredado?”.

Vamos passo a passo - o caminho é longo e árduo.

Dissonância Cognitiva Coletiva

O bolsonarismo, como fenômeno de massa, enraizado em diversos setores da sociedade, como a eleição comprovou, é a expressão brasileira de uma onda transnacional que levou a extrema direita ao poder por meio do voto, ou seja, conquistando corações e mentes. É preciso reconhecê-lo para clarear o horizonte plúmbeo que nos ameaça.

Trata-se de constelação inédita, favorecida pela onipresença das redes sociais. A fim de enfrentar esse desafio, proponho dois conceitos: dissonância cognitiva coletiva e midiosfera extremista.

Dissonância cognitiva é um desconforto subjetivo causado pela consciência da distância entre crenças e comportamentos. Em 1957, o psicólogo social norte-americano Leon Festinger lançou o livro “Uma Teoria da Dissonância Cognitiva”, sistematizando uma experiência que viveu como pesquisador, relatada em uma obra anterior, “Quando a Profecia Falha” (1956).

Festinger tomou como base de sua teoria a Fraternidade dos 7 Raios, desenvolvida ao redor de Dorothy Martin, uma moradora de Chicago que dizia receber mensagens de seres extraterrestres de um planeta distante, Clarion.

O conteúdo era perturbador: em 21 de dezembro de 1954, um dilúvio de proporções bíblicas destruiria boa parte da Terra. Contudo, seus seguidores sentiam-se confiantes, pois no dia D, na hora H, um disco voador pousaria no quintal da senhora Martin e resgataria os que atendessem a seu chamado.

O dia azado chegou, mas também duas decepções amargas se apresentaram, embora a segunda tenha representado um alívio. O disco voador não apareceu, mas pelo menos o dilúvio também faltou ao encontro marcado.

Leon Festinger e alguns colegas conseguiram infiltrar-se na seita. Puderam, assim, responder à pergunta-chave: o que ocorre na dinâmica de um grupo de fanáticos quando a profecia falha?

Ora, como reagiram os bolsonaristas após o 7 de Setembro de 2021? Vale dizer, quando, após incitar sua base a violentas ações golpistas, o mito recuou e, dócil, demasiadamente dócil, assinou uma cartinha contrita que, emasculação máxima, foi redigida por Michel Temer. E, ao que consta, em ligação para o ministro do STF Alexandre de Moraes, não se esqueceu das lágrimas, muitas e nada caladas.

Festinger e seus colegas fizeram duas descobertas de grande relevância. De um lado, os adeptos da Fraternidade não abandonaram suas convicções. Pelo contrário, racionalizaram o fracasso da profecia dobrando a aposta: o anúncio do dilúvio teria prevenido sua ocorrência! A energia mental empregada na advertência da catástrofe foi razão suficiente para alterar os desígnios dos habitantes de Clarion.

De outro, a última frase do livro inaugura uma radicalidade para a qual o próprio Festinger não estava preparado, mas que explodiu no século 21: “Eventos conspiraram para oferecer aos membros da seita uma oportunidade verdadeiramente magnífica para que crescessem em números. Tivessem sido mais efetivos, a fracassada profecia poderia ter sido o começo, não o fim”.

A publicidade vertiginosa, gerada pelo espetacular malogro da predição, permitiria converter o insucesso em fator de crescimento, em uma fase inédita de expansão da fraternidade, em lugar de seu desaparecimento. Soa familiar?

A suprema humilhação de Bolsonaro diante do ministro Alexandre de Moraes não esmoreceu o ânimo de seus seguidores para novas escaladas golpistas, combas e em ridículas teorias conspiratórias a respeito das urnas eletrônicas. Como explicar esse comportamento de povo marcado, ê, povo feliz?

Midiosfera Extremista

A abertura de “Quando a Profecia Falha” ata as pontas do argumento que fez Festinger hesitar: “Um homem convicto é resistente à mudança. Discorde dele, e ele se afastará. Mostre fatos e estatísticas, e suas fontes serão questionadas. Recorra à lógica, e ele não entenderá sua perspectiva”.

Retrato acabado do tipo ideal do bolsonarista? Acrescente a essa certeza paranoica o caráter coletivo de um poderoso circuito comunicativo e o caldo entorna, ou seja, o caos cognitivo torna-se realidade alternativa. Como lidar com o Brasil paralelo de dezenas de milhões de pessoas?

Festinger escreveu “Uma Teoria da Dissonância Cognitiva” para responder à perplexidade causada pela história interna da fraternidade. A petição de princípio é inequívoca: “A presença de dissonância gera pressões para reduzir a dissonância. [...] A presença de dissonância estimula ações para sua redução; de igual modo, a presença de fome leva a ações para reduzir a fome”.

Os itálicos são do autor, assim como o estilo tautológico. A reiteração angustiada retorna no último parágrafo do ensaio: “É também evidentemente necessário ser capaz de especificar quais são as mudanças específicas na cognição, ou quais os novos elementos cognitivos, que reduziriam a magnitude da dissonância assim determinada”. A redundância, deselegante, e a expressão, convoluta, sugerem o desconforto do autor.

Na verdade, o desconforto tornou-se parte do mundo contemporâneo na figura do que sugiro chamar dissonância cognitiva coletiva, circunstância tornada possível pelo contágio favorecido pela mais poderosa máquina de desinformação da história: midiosfera extremista.

Trata-se de uma poderosa máquina de produção de narrativas polarizadoras, com base em fake news e teorias conspiratórias. Combustível da retórica do ódio, compõe-se de cinco elementos, quatro internos e um externo. Complexo sistema integrado que gera conteúdo radicalizador ininterruptamente.

Nele se encontram as malfadadas correntes de Whatsapp, as indefectíveis redes sociais, uma rede altamente tóxica de canais de Youtube e, por fim, aplicativos como TV Bolsonaro e Mano.

No interior dessa teia, circula sem cessar produção audiovisual que difunde o sistema de crenças bolsolavista, com exortação incessante a golpes de Estado e à eliminação física de adversários. Ainda mais importante: os membros da seita firmaram um pacto que atemorizaria o próprio Mefistófeles —ignorar toda informação que não provenha da midiosfera extremista.

O elemento externo é muito grave: a “mídia amiga” dos donos do poder, que, ao dar voz para fantasias as mais lunáticas, desestabiliza seriamente a democracia e estimula, no limite do crime, o projeto autoritário do bolsonarismo.

Na iminência do segundo turno das eleições, a midiosfera extremista transformou-se em uma usina sórdida de desinformação e seus artífices incorrem nos mais variados tipos criminais como se não houvesse amanhã. Todavia, se eles pararem para pensar, na verdade, descobrirão que o amanhã sempre vem.

O propósito da midiosfera extremista é a criação de dissonância cognitiva coletiva: temível máquina eleitoral pela transferência para a política da alta intensidade de engajamento das redes sociais. A fim de despolitizar a pólis, esteio de seu projeto político autoritário, o bolsolavismo tornou o Brasil um laboratório mundial de criação metódica de realidade paralela.

Eis a Esfinge que desafia a pólis brasileira. Sem decifrar sua dinâmica, não saberemos como superar o desafio maior da história republicana: a barbárie-bolsonaro.

Artigo de João Cezar Rocha publicado no jornal Folha de São Paulo a 9 de Outubro

Coisas da Minha Infância - Dartacão

Esta semana morreu aos 82 anos Claudio Biern Boyd, o criador de Dartacão e de Volta ao Mundo de Willy Fog, desenhos animados de grande sucesso na década de oitenta. 

Dartacão estreou na RTP em 1983, teria eu uns seis anos e o impacto foi tão grande que é das coisas que mais recordo da infância. Tudo naquilo cativava, da música do genérico aos desenhos das personagens que eram quase todas cães (excetuando Milady que era um gato e Richelieu que é um graxaim-do-campo) bem como o enredo e as aventuras em que Dartacão e os Moscãoteiros se envolviam. 

Contou o autor que quando nasceu não havia televisão, então, tornou-se um devorador de livros e os que havia na sua época era o Dumas, Júlio Verne, Salgari, Dickens. 

Como toda a gente sabe Dartacão foi a transposição para a animação da obra clássica "Os três mosqueteiros" de Alexandre Dumas que, confesso, que nunca li. 

Como é normal quando era criança eu consumia desenhos animados que, diga-se, quando tinha seis ou sete anos nem davam muito na televisão porque, não esquecer, quase só havia um canal. Dava ao fim-de-semana de manhã (e ainda tínhamos que gramar com a missa, o TV Rural ou o 70x7) mas depois sim,  com o passar do tempo começou a dar cada vez mais. 

Nessa altura os desenhos animados tinham conteúdo, não eram violentos e transmitiam uma mensagem. Eu só vi desenhos animados aí até aos meus 15-16 anos. E como não tenho filhos nem sobrinhos não acompanho o que se dá agora às crianças para ver, mas suspeito, até pelo que vou ouvindo, que muito disso se perdeu.

Os episódios de Dartacão tinham 25 minutos. Hoje, pelo que vou ouvindo, duvido que uma criança consiga estar quietinha durante quase meia hora como eu estava quando tinha seis anos. 

Outra coisa que se irá perder é que, daqui por quarenta anos esta geração de crianças que tem hoje seis anos não terá memórias coletivas. Hoje, todas as pessoas na casa dos quarenta recordam Dartacão, Wily Fog ou Era uma vez... Como também todas as pessoas na casa dos setenta recordam hoje a Gabriela que parava o país à hora que dava. Hoje cada pessoa vê a sua série, a sua novela, e cada criança tem o seu próprio canal de desenhos animados preferidos.

Há quarenta anos todos víamos à mesma hora Dartacão na RTP.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

O Presidente dos Afetos Pedófilos


Numa altura em que os portugueses sofriam cortes salariais e de pensões, Cavaco Silva, então Presidente da República em 2012, com 73 anos, veio queixar-se que com os 15 mil euros que recebia mal dava  para pagar despesas. 

Marcelo Rebelo de Sousa, com os mesmos 73 anos disse há dias que quatrocentos abusos sexuais na Igreja (que são muitos mais) nem é muito!

Não, não vou avançar com a teoria que é a partir dos 73 anos que os políticos começam a dizer e a fazer disparates! Até porque hoje mesmo, dia 20 de Outubro de 2022, demitiu-se Liz Truss, a senhora primeira-ministra do Reino Desunido que era contra a monarquia e depois a favor, que era contra o Brexit e depois foi a favor, que ia revolucionar a economia britânica baixando os impostos aos mais ricos, ou talvez não, e demitiu-se! 

Perguntaram-me se este seria o ponto de viragem na popularidade de Marcelo. Não creio. Se  Trump e Bolsonaro podem dizer e fazer o que querem que não perdem eleitorado, também não me parece que o comentador-presidente e rei das sefies vá perder popularidade por dizer esta enorme aberração. 

E depois as indignações das pessoas (e principalmente dos media) são muito seletivas. Na mesma semana que ficamos a saber da podridão da Igreja Católica portuguesa, que no fundo não é nada diferente do resto do mundo e, na mesma semana em que soubemos do esquema da Federação Portuguesa de Futebol que fugiu ao fisco em milhões de euros no pagamento do salário do selecionador, as pessoas indignam-se com o facto da Catarina Furtado cortar as pontas dos cabelos ou o Casillas dizer no Twitter que é gay. 

Voltando ao nosso comentador-presidente, relembrar que o senhor telefonou para um programa de televisão para desejar boa sorte a uma apresentadora de televisão. Agora, antes que a bronca rebentasse, ele mesmo serviu a vichyssoise e veio dizer que avisou o bispo, desculpando-se, que tinha encaminhado o processo para o Ministério Público. 

Só foi pena que Marcelo não tenha ligado à viúva do ucraniano assassinado pelo SEF para "não abrir uma exceção" quando estava "uma investigação criminal em curso"!

Como disse, não creio que Marcelo vá perder muita popularidade com o caso da pedofilia na igreja, contudo, considero que o presidente dos afetos pedófilos começa a meter-se num caminho muito apertado.

sábado, 15 de outubro de 2022

Coisas que as Pessoas Deixam Dentro dos Livros (3)


Em 1975, o ano em que fui fabricado, Portugal vivia o "verão quente" com ataques à bomba da rede bombista de extrema-direita (MDLP e ELP com o apoio da Igreja, do CDS e do PSD) e um bilhete dos Serviços de Transportes Coletivos do Porto (STCP) custava 2$50 (1,25 cêntimos).

A Velocidade da Trolltinete e o Carrinho-de-Mão Parado


Aqui há uns dias parece que circulou pela net (eu não cheguei a ver) um vídeo que mostrava uma Trolltinete a circular em Oeiras a 100Km/hora.

É verdade que isso me surpreendeu um pouco porque eu, no meu novo maquinão, de quarenta e poucos cavalos acho que ainda não ultrapassei essa velocidade estonteante!

Mas isso isso não é nada! Um carrinho-de-mão parado em Santa Maria da Feira, foi apanhado em Lisboa a circular a 112Km/hora!

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Desgostos de Amor em Tempos de Instagram


No Instagram, a rede do ego por excelência, o amor não só é maravilhoso e mais intenso do que na vida real; a água do mar é mais turquesa, os diamantes brilham mais e ninguém tem barriga ou rugas. As separações também são idílicas e harmoniosas... até que deixem de ser.

Um dos primeiros a patentear esse modelo de separação acordada e em bons termos foram Sara Carbonero e Iker Casillas, que há poucos dias se meteu numa chatice ao declarar-se gay no Twitter, farto de tantas namoradas que lhe atribuem desde que estão separados. 

Belas fotos e palavras sinceras são escolhidas para dizer adeus. Exalam tanta harmonia que nem parece o fim de um relacionamento romântico.
Shakira e Piqué também compartilharam uma imagem juntos no Dia dos Namorados deste ano, quando ele já arrastava a asa para outra. A imagem já tem 33 semanas e não há um dia que um seguidor não peça para a colombiana apagá-la.

Em tempos de exibição da vida privada nas redes, o ditado "diz-me o que presumes que eu dir-te-ei o que te falta" foi superado por outra teoria: as imagens mais açucaradas e com os protagonistas mais apaixonados do que nunca assinando mensagens de amor eterno, o mais provável é que a coisa termine de forma conturbada. 

Excerto traduzido do texto "El desamor en tiempos de Instagram" publicado no jornal La Vanguadia.