terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Presidenciais: Manipulação tão evidente

Abro agora o site do Diário de Notícias e fico a saber que o Tribunal Constitucional aprovou as dez candidaturas propostas à presidência da república. Dez candidatos e o que vemos na fotografia da notícia? Um só candidato, o mesmo candidato da direita, o tal que, apesar de nunca ter ganho umas eleições na vida, se diz há muito que, "nem que Cristo desça à Terra", ele ganha as presidenciais de 2016 à primeira volta. E porquê? Porque as sondagens existem unicamente para isso, para manipular a opinião pública.


E é também assim, que as pessoas, quase sem se aperceberem votam sempre nos mesmos. Nos mesmos que andam em todos os canais, anos a fio, promovendo-se, vendendo sempre a mesma banha da cobra. Votam nos mesmos que têm todo o destaque nos órgãos de comunicação social. 
Os outros, esses que têm opiniões diferentes, que não interessam ao sistema, esses são varridos para debaixo do tapete, para ninguém os ouvir. Não vá o povo ignorante começar a abrir os olhos.  

domingo, 27 de dezembro de 2015

Tão autobiográfico




"Fico contente que digas isso porque  eu sempre me senti assim, uma aberração, porque eu nunca fui capaz de seguir em frente...assim (num estalar de dedos)! Tu sabes. As pessoas simplesmente têm curtes, ou relações inteiras...acabam e esquecem! Seguem em frente como fariam se trocassem de marca de cereais! 
Tu nunca podes substituir ninguém. O que se perdeu perdeu-se. Cada relação, quando acaba, dá realmente cabo de mim. Eu nunca recupero completamente. É por isso que eu sou muito cuidadosa em envolver-me, porque... Magoa demais! Mesmo dar uma trancada! Atualmente eu não faço isso.... E vou ter saudades da outra pessoa, das coisas mais mundanas. Tal como eu sou obsecada com as pequenas coisas. Talvez eu seja louca, mas... "


Celine / Before Sunset (Antes do Amanhecer) / 2004

sábado, 26 de dezembro de 2015

Da importância do tempo




"Foi o tempo que perdi com a minha rosa que a fez tão importante."




Capítulo XXII - O Principezinho - Saint Exupérie

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Brave new World: livro e música



Dying swans twisted wings, beauty not needed here
Lost my love, lost my life, in this garden of fear
I have seen many things, in a lifetime alone
Mother love is no more, bring this savage back home

Wilderness house of pain, makes no sense of it all
Close this mind dull this brain, Messiah before his fall
What you see is not real, those who know will not tell
All is lost sold your souls to this brave new world...


"Brave New World" / Brave New World / Iron Maiden / 2000





- Não estou contente? - O selvagem olhou-a com ar de censura. Caiu inesperadamente de joelhos diante dela e, pegando-lhe na mão, beijou-a com reverência. - Não estou contente? Ah! Se soubesse! - murmurou. E reunindo toda a sua coragem para erguer os olhos para ela, continuou: - Lenina, como eu a admiro, verdadeiro píncaro da admiração, digna de tudo o que de mais precioso há no mundo... - Ela sorriu-lhe com ternura deliciosa. Oh, tão perfeita (ela inclinou-se para ele, os lábios entreabertos), criada tão perfeita e incomparável (cada vez mais próxima), criada com tudo o que há de melhor em todos os seres... - Lenina estava ainda mais próxima. O Selvagem pôr-se sùbitamente de pé.
- É por isso - disse ele, desviando os olhos - que eu queria primeiro realizar alguma coisa ...Quero dizer: provar que era digno de si. Não que eu julgue vir alguma vez a consegui-lo. Mas queria, pelo menos, provar que não sou absolutamente indigno. Queria realizar alguma coisa.
- Porque acha isso necessário?...
Lenina começou a frase, mas não a acabou. Havia uma nota de irritação na sua voz. Quando nos inclinámos para diante, cada vez mais perto, os lábios entreabertos, para nos vermos de repente e sem mais nem menos, enquanto um pateta imbecil se levanta, inclinados para um lugar vazio, meu Ford, tem-se razão, para estar sèriamente contrariada. 
- Em Malpaís -gaguejou o Selvagem em tom incoerente - era preciso trazer a pele de um leão das montanhas, quero dizer, quando se queria casar com alguém. Ou então um lobo. 
- Mas não há leões na Inglaterra - objetou Lenina com voz quase cortante. 
- Mesmo que os houvesse - acrescentou o Selvagem, com um ressentimento brusco e desdenhoso-, seriam destruídos com gases tóxicos ou qualquer coisa do género lançada de helicópteros. Mas eu não farei isso, Lenina! - Atirou o peito para a frente, animou-se a olhá-la e cruzou-se com o seu olhar de incompreensão contrariada. - Farei tudo - continuou com crescente incoerência -, tudo o que me ordenar. Existem jogos dolorosos, como sabe. Mas a dificuldade realça-lhes as delícias. Eis o que sinto. Quero dizer que, se me ordenasse, varreria  chão. 
- Mas nós aqui temos aspiradores - observou Lenina, assombrada-, e isso não é necessário.
- Não, já se vê que não é necessário. Mas há algumas coisas vis que se suportam nobremente. Eu quisera suportar qualquer coisa nobremente. Não me compreende? 
- Mas desde que existem aspiradores...
- Não é essa a questão.
- E Epsilões semiabortos para os fazer funcionar - continuou ela. - Assim, na verdade, porquê?
- Porquê? Mas por si, por si, por si! Apenas para provar que eu...
- E que relação poderá existir entre os aspiradores e os leões?...
- Para lhe provar quanto...
-Ou entre leões e o facto de estar contente por me ver?
Ela exasperava-se cada vez mais.
- Como eu a amo, Lenina - conseguiu ele dizer, quase em desespero de causa.

Brave New World / Aldous Huxley / 1932

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O que se quer

"Querer alguém, ou alguma coisa, é muito fácil. Mesmo assim, olhar e sentirmo-nos querer, sem pensar no que estamos a fazer, é uma coisa mais bonita do que se diz. Antes de vermos a pessoa, ou a coisa não sabíamos que estávamos tão insatisfeitos. Porque não estávamos. Mas, de repente, vemo-la e assalta-nos a falta enorme que ela nos faz. Para não falar naquela que nos fez e para sempre há-de fazer. Como foi possível viver sem ela? Foi uma obscenidade. Querer é descobrir faltas secretas, ou inventá-las na magia do momento. Não há surpresa maior. (...)

Querer é mais forte que desejar, pelo menos na nossa língua. Querer é querer ter, é ter de ser. Querer tem mesmo de ser. Na frase felicíssima que os portugueses usam "o que tem de ser tem muita força". Desejar tem menos. É condicional. Quem deseja, desejaria. Quem deseja, gostaria. Seria bom poder ter o que se deseja, mas o se deseja não dá vontade de reter, se calhar porque são muitas as coisas que se desejam e não se pode ter todas ao mesmo tempo.
Querer é querer ter e guardar, é uma vontade de propriedade; enquanto desejar é querer conhecer e gozar, é uma vontade de posse. O querer diminui-nos, mas o desejar não. Sabemos que somos completos quando desejamos - desejamos alguém de igual para igual. Quando queremos é diferente - queremos alguém com a inferioridade de quem se sente incapacitado diante de quem parece omnipotente. O desejo é democrático, mas o querer é fascista.
O que desejamos, dava-nos jeito, o que queremos fez-nos mesmo falta. Mas tanto desejar como querer são muito fáceis. Ter, isto é, conseguir mesmo o que se quer é mais difícil. E reter o que se tem, guardando-o e continuando a querê-lo, tanto como se quis antes de se ter, é quase impossível. Há qualquer coisa que se passa entre o momento em que se quer e o momento em que se tem. O que é?
"Cada pessoa - dizia Oscar Wilde - acaba por matar a coisa que ama". Mata-a, se calhar, quando sente que a tem completamente. (...)




A verdade, triste, é que uma pessoa completa, a quem não falta nada, não é capaz de querer outra pessoa como deve ser. No momento em que se sente que tem o que se quer, foi-lhe devolvida a parte que lhe fazia falta e passou a ter tudo outra vez. Fica peneirenta, sente-se gente outra vez. É feliz, está satisfeita e deixou de ser inferior à sua maior necessidade. O ter destrói aquilo que o querer tinha de bonito. Uma necessidade ocupa mais o coração, durante mais tempo, que uma satisfação. Querer concentra a alma no que se quer, mas ter distrai-a. Nomeadamente, para outras coisas e outras pessoas que não se têm. (...)

Querer é poder, não só porque porque há coisas que não se conseguem sem que sejamrealmente queridas, mas porque é realmente um poder. Quem não quer nada sofrer, por definição, de uma fraqueza. Por outras palavras, quem não quer nada a não ser o que se tem, não avança - tem uma situação que não arrisca, que não aquece nem arrefece. Porque é que estas pessoas, que parecem nada querer, são sempre as pessoas que queremos mais? Entre duas pessoas, quem está sempre prejudicado junto da outra pessoa, porque o querer é uma coisa que lhe está na cara. As vontades verdadeiras não se disfarçam. 

Como então resolver o problema? Em primeiro lugar, nunca se pode ter nada ou ninguém tão completamente quanto se quis. No caso de se ter a pessoa que se quer, e haver outra que nos quer ter, nunca nos podemos dar completamente. Quem nos quer, quer-nos in toto, mas satisfaz-se com pouco. Não se pode dar mais. Um bocadinho tem de parecer bastante. E se dermos tudo, tem de parecer pouco. Ela nunca pode perceber. Senão perdemo-la. É preciso haver sempre uma parte que parece inacessível. O que é o mistério de uma pessoa senão a parte dessa pessoa que adivinha, que se sonha que (sobretudo) se desconhece? É preciso haver bocados de nós que não se dão, que permanecem por descobrir, que pareçam uma espécie de desafio, mesmo que apeteça dá-los totalmente. 

No caso de ser uma pessoa que se quer, é preciso querer manter essa vontade, como uma coisa que é rara e boa só por si. É preciso ver que é a própria vontade a coisa mais querida que pode haver. Querer é como fazer luz. Aquilo que a luz ilumina (que pode ser tudo) nunca pode ser tão importante como a própria luz (que tudo pode iluminar). Em certo sentido, é necessário não querer o que se tem, e não ter o que se quer. Porque é muito difícil querer o que se tem e ter o que se quer. Só por isso. 
Quando se quer realmente, dar-se-ia tudo por ter. A coisa ou a pessoa que se quer têm o valor imediato igual a todas as coisas e pessoas que já se têm. Trocavam-se todas as namoradas, ou todos os namorados, que já se namoraram pelo namoro de uma única pessoa que se quer namorar. É esta violência. É esta injustiça. Mas é também a beleza, Quem aceitaria que um novo amor significaria apenas parte de uma vida? Não sendo a vida inteira, não sendo tudo o que importa, numa dada altura, num dado estado do coração, por que nos haveríamos de ralar?

Querer é uma arte delicada. Ser querido também é. Idealmente quem tudo quisesse nunca aceitaria tudo o que lhe fosse dado, para não perder a prenda principal, que é a vontade verdadeira de outra pessoa, e tudo faria, até, para causar problemas, entraves entre uma pessoa e outra, exagerando diferenças entre elas, esquecendo semelhanças. Nada atrai como a diferença e a estranheza ligeiramente longínquas. Por outro lado, quem fosse querido nunca daria mais do que é necessário para a outra pessoa continuar a querer. Ora continuar a querer - coisa que se deve tentar conseguir - não é nada a mesma coisa que ter. Continuar a ser querido não é a mesma coisa que ser tido. 

O querer é bonito porque, concentrando-se na coisa ou na pessoa que se quer, elimina o resto do mundo. O resto do mundo é uma entidade muito grande que tem graça e tem valor eliminar. Querer um homem em vez de todos os homens, uma mulher em vez de todas as mulheres é fazer a escolha mais impossível e bela. Acho que se pode ter tudo o que se quer de muitas pessoas ao mesmo tempo, mas não se pode querer senão uma pessoa. Ter todas as pessoas não chega para satisfazer, mas basta querer só uma, e não a ter, para nos insatisfazer, É por isso que se tem de dar valor à vontade. Poder-se-á querer ter alguém sem querer também ser querido por essa pessoa? Eu não sei. (...)

Ter o que se quis não é tão bom como se diz, nem querer o que não se tem é assim tão mau. O segredo deve estar em conseguir continuar a querer, não deixando de ter. Ou, por outras palavras, o melhor é continuar a ser querido sem por isso ser deixado de ser tido. O que é que todos nós queremos no fundo dos fundos? Queremos querer. Queremos ter. Queremos ser queridos. Queremos ser tidos. É o que nos vale: afinal queremos exatamente o que os outros querem. O problema é esse. 

"Os meus problemas" / Miguel Cardozo / 1988

sábado, 19 de dezembro de 2015

A Morte do Amor




Her penultimate sighs

Called softy on the kindling wind

Her saintly eyes filling with tears, lifting with truth

And then a golden flash like the onset of Heaven

Leaving her screams breaking my heart

And in the grip of fire

I knew the death of love...


The Death Of Love /  "Godspeed On The Devil's Thunder"/ Cradle of Filth / 2008