terça-feira, 26 de janeiro de 2021

O Que é Que Isso Interessa? Nada


Eu disse "é o medo o que nos vem acariciar"
Tu disseste "eu também já tive medo. muito medo. recusava-me a abrir a janela, a transpor o limiar da porta"
Eu disse "acabamos a gostar do medo, do arrepio que nos suspende a fala"
Tu disseste "um dia fiquei sem nada. um mundo inteiro por descobrir"
Eu disse "..."
Eu disse "o que é que isso interessa?"
Tu disseste "...nada"

"Tu disseste" / Mão Morta (2001)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Then We Take Berlim


Nestas presidenciais de 2021, a sensatez mental dos 40% de portugueses que votaram está situada na Alemanha, mais concretamente em Berlim. 


domingo, 24 de janeiro de 2021

Por Todo o Mundo Falam de Portugal Por Causa da Pandemia mas Mostram a Fotografia Deste Café?


Ontem passava os olhos por notícias no estrangeiro até para perceber o que se dizia de Portugal e deparamo-me com esta fotografia. Olhei melhor e pensei "Espera lá, mas isto não é um Hospital! Isto é a montra de um café"! Num hospital não há montras com lanches e croissants! 

Agora com certeza que os diferentes sites de informação não se lembraram todos de pegar nesta imagem do nada. Esta foto é da Associated Press, uma agência de notícias independente, que lança as notícias e depois muitos outros pontos de informação vão lá bebê-las. 

Movido pela curiosidade decidi tentar investigar e com recurso ao Google Maps consegui mesmo chegar à identificação! Isto é na rua Silva Carvalho em Lisboa, e está sinalizado com sendo um edifício da Sociedade Filarmónica Aluno de Apolo. 

Alguém precisa de um detetive?

sábado, 23 de janeiro de 2021

A Pandemia por um Especialista em Senso Comum


"A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões é estatística"

Neste dia em que estou a escrever, Portugal tornou-se no pior país do mundo da pandemia. Em nenhum outro sítio do mundo se morre tanto como em Portugal. E de março até agora, quem por aqui passa mais frequentemente sabe que eu nunca escrevi aqui no blogue sobre a pandemia no que se refere à análise da situação. Bem sei que o que não falta agora são especialistas ou treinadores de bancada do coronavírus e da COVID-19. Gente que mais parece que fez um doutoramento em epidemiologia ou saúde pública, mas não é o meu caso.

Agora há pessoas que sabem tudo sobre os testes, como funcionam, se são fiáveis ou não e as percentagens de erro; pessoas que até nunca meteram os pés dentro de um hospital público mas sabem de tudo que se passa lá dentro, e até são capazes de discutir comigo, porque acham que sabem melhor do que eu, que há trinta anos frequento hospitais público. Pessoas que sabem que não faz sentido fechar as escolas e outras pessoas que sabem muito o porquê da aberração que é deixá-las abertas. Pessoas que sabem tudo sobre as vacinas, quais as marcas, as percentagens da eficácia de cada; enquanto outras pessoas sabem que tudo isto não passa de um plano para nos injetar um chip para nos tornar em zombies e controlar o mundo, criando uma nova ordem mundial liderada pelo Bill Gates.

Eu não sou médico, não sou político, não sou especialista de coisa alguma. Sou um cidadão comum, que tem que cumprir as regras que mandam. Contudo tenho opinião e tenho mantido a mesma desde o início da pandemia: se quisermos, estamos sempre a quinze dias de acabar com a pandemia. Eu informo-me o suficiente, consumo a informação que considero suficiente, sem excessos, muito menos sem televisão, no entanto vejo as coisas de modo empírico, com aquilo que o senso comum me dotou.

E eu sei que lidar com uma pandemia não é uma coisa nada fácil. Por cá nunca ninguém lidou, apesar dos historiadores saberem o que se passou há cem anos. E é sempre mais fácil estar na posição de esperar para depois criticar. Mas nessa tarefa eu também me sinto muito confortável porque desde a primeira hora elogiei e disse que, se calhar, tivemos o governo mais competente no momento em que mais precisávamos. E elogiei a forma rápida como confinamos porque evitou todos aqueles milhares de mortos que, infelizmente, se verificaram nos países aqui ao lado e, nem quero imaginar se ainda estivéssemos a ser governados por Passos e Portas. Não quero mesmo imaginar. 

Mas o tempo foi passando e a pandemia para nós tornou-se naquela espécie de gripe mal curada, que nunca desaparece. Passamos o verão com mais casos que a média europeia e fomos até excluídos do corredor aéreo do Reino Unido. 

Acabamos também por perceber aquilo que o senso comum nos dizia, e dizia-me pelo menos a mim, que no verão as coisas melhorariam, até porque no verão também quase não há gripe. E assim foi. Apesar de tudo ter reaberto em Junho, com centros comerciais, teatros e cinemas, mas verdade é os números andaram sempre abaixo dos 400 novos casos diários, mas não esquecer que as escolas e universidades também estavam fechadas.

E até que as escolas e as universidades reabriram a meio de setembro e a verdade é que foi a partir daí que os números começaram a disparar. No início de outubro os novos casos tinham já subido para 750 e, no fim do mês eram 3500 novos casos. Apontava-se na altura que tinham sido as festas universitárias e festas familiares as responsáveis pelo disparar de novos casos. 

E foi por esta altura, em meados de Outubro, que resolvi encerrar temporariamente com os treinos de ténis-de-mesa. Ninguém me disse que tinha de confinar obrigatoriamente, ninguém me proibiu nem me senti coartado na minha liberdade individual. Não, fui eu mesmo que decidi fazê-lo, voluntariamente, quer para me proteger, quer para proteger os meus pais que têm setenta anos. Chama-se a isto "senso comum", não é?


Em meados de outubro morriam cerca de 11 pessoas por dia em Portugal de COVID-19. Os casos disparavam e o primeiro-ministro achava que a salvação disto tudo - mesmo indo contra as indicações da Organização Mundial de Saúde - era que uma aplicação no telemóvel que ia resolver o problema, e meteu mesmo na cabeça que ia obrigar a polícia a pegar nos telemóveis das pessoas e multar quem não tivesse a aplicação instalada no telemóvel. Felizmente que a proposta (ridícula) foi chumbada no parlamento. 


Mas, curiosamente, dias antes, Rui Rio, líder da oposição, queixava-se no Twitter, mostrando a sua ignorância sobre o funcionamento da aplicação. E se o líder da oposição, economista e que até fala alemão e tudo, não sabe como funciona uma aplicação, será que a maioria dos portugueses iria saber? Não me parece.

Os números foram escalando por toda a Europa e, enquanto por cá discutíamos uma APP e a constitucionalidade da lei, nos outros países tomaram-se medidas a sério. Deixo só um exemplo de um país que tem mais ou menos o mesmo número de habitantes que nós: a Bélgica. A Bélgica confinou com medidas a sério em Outubro, quando estava com oito mil novos casos por dia. A Bélgica teve o número máximo de novos casos em 31 de Outubro e os resultados estão à vista: hoje tem cinco vezes menos mortos que Portugal. 

Entretanto chegamos à festa americana do Dia de Ação de Graças que nos dias seguintes resultou num escalar absurdo de novos infetados e milhares de mortos e, mesmo não percebendo um cu de saúde pública, mas já antevendo o que iria acontecer no final do ano se deixássemos as pessoas todas à solta, escrevi no Twitter, quando já tínhamos um recorde de 70 mortos por dia:



Entretanto chegamos ao Dia de Todos os Santos e Dia de Finados, 1 e 2 de Novembro e o governo decidiu proibir as viagens e os cemitérios tiveram regras apertadas. Os Estados de emergência sucederam-se e os partidos da oposição começaram-se a manifestar contra! Ou seja, eu criticava o governo por deixar toda a gente à solta, e olhava para a oposição e via todos os partidos, da esquerda à extrema-direita a maniffestar-se contra regras mais apertadas! Se os partidos de esquerda quase só falavam no reforço de meios para o SNS, já os partidos de direita, sempre ao lado do patronato, mostraram-se sempre contra os confinamentos, não percebendo esta coisa simples: enquanto não debelarmos a pandemia e a confiança não for recuperada, a economia não se levanta. 

Entretanto as coisas começaram a piorar e, aqueles que gritavam contra os confinamentos, gritam agora que a culpa dos mortos é do governo! Já tardava a demagogia da direita. O candidato neoliberal às presidenciais, Tiago Mayen (o tal que trabalha no ISMAI mas declarou que ganha menos do que o calceteiro Vitorino Silva) que sempre se mostrou contra confinamentos, teve mesmo a lata de afirmar que a culpa dos mostos é da ministra Marta Temido! 

Eu acho que não era preciso ser-se médico ou comentador-tudólogo, para perceber o que iria acontecer no Natal e passagem de ano. Se elogiei o governo no início da pandemia pelas rápidas medidas de ataque ao vírus, agora não posso deixar de criticar este deixa andar e decretar sucessivos Estados de Emergência com medidas que mais parece que são para chatear as pessoas, tal como criticar a oposição que não exigiu medidas para conter o vírus e proteger as pessoas. Se é para atacar o vírus, então que se feche, mas que se feche tudo de uma vez, que se fecham as fronteiras e que nenhum avião levante ou aterre. Que se esmaguem os números de novos infetados e que se pare com esta mortandade. Se estamos a pensar na economia, pois então esperem por um 2021 exatamente igual a 2020 e ainda teremos muito que penar  nesta pandemia. Ainda assim, independentemente do que os governos decidam, nós temos sempre uma grande vantagem: é protegermo-nos e evitar contactos desnecessários. Protejam-se, que isto não está fácil. 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Eleitor do PS: Temos que Falar



Hei, tu aí! Sim, tu aí que votas sempre no Partido Socialista, chega aqui num instantinho.  

Que é que se passa?

Passa-se que ouvi dizer que tu e a maioria dos teus camaradas vai votar no Marcelo. Isso é verdade? 

- Ah, sim, é verdade. Porquê? Queres-me agora tu dizer-me em quem é que eu devo votar?

Não, eu não te quero dizer em deves votar, quero-te é pôr a pensar. Se preferires quero-te dizer em quem, se calhar, não deverias votar, para mal dos próprios interesses do teu partido. Mas diz-me lá, queres votar no Marcelo afinal porquê?

Oh pá, porque é o candidato preferido do António Costa, o nosso grande líder. E olha que o Costa é o político com os olhos mais abertos que anda por aí...

Sim, nesse ponto tens razão. O Costa quer que o Marcelo continue. Aliás, já o tínhamos percebido há cinco anos, quando o Marcelo (que foi professor de Costa na universidade) se candidatou pela primeira vez. O António Costa não queria nem a Maria de Belém nem o Nóbrega, queria sim o Marcelo do PSD/CDS, o que não deixa de ser muito curioso. Tu não achas estranho que o Partido Socialista, um dos maiores partidos portugueses abdique de apoiar um seu candidato natural, uma pessoa com um passado histórico e impoluto como a Ana Gomes para apoiar o candidato da direita?

Se calhar é... 

E digo-te já, que foi graças a essas trapalhadas do PS, guerras internas e más escolhas, que acabamos por levar com o Cavaco dez anos e vamos agora ter de levar com o ex-comentador mais dez. Antes o Presidente da República era sempre uma figura do PS (Mário Soares, Jorge Sampaio) e com alguma simpatia das pessoas de esquerda, agora vamos completar vinte anos com presidentes de direita.
Sim, mas o Marcelo até nem tem estado muito mal...

Depende do que tu consideras mal. Se comparares com o Cavaco Silva, qualquer outro presidente da república é excelente! Mas então porque não votas tu na candidata do teu partido?

Oh pá, porque se calhar o Marcelo é o que vai complicar menos a vida ao governo. Menos até do que a Ana Gomes que faz muito barulho.

Muito bem, é um argumento. Mas eu relembro-te que a direita saída das legislativas foi um ninho de gatos, quer com as guerras internas do PSD tentando atingir Rio, quer com a implosão do CDS com a saída de Cristas em 2019. Competia ao Marcelo, que já tinha herdado a coligação de esquerda, gerir as coisas e a verdade é que o Governo do Costa foi um sucesso que se calhar ninguém estava à espera.
Mas achas mesmo que a Ana Gomes, socialista, se identifica menos com as ideias do teu próprio partido do que o Marcelo, candidato natural apoiado por PSD e CDS?

Não, mas... Ela vem com aqueles discursos exaltados da corrupção...

Mas tu defendes a corrupção?

Não mas...

Mas o quê? Tens uma candidata do PS a concorrer e vais votar no candidato da direita? Tu já pensaste na merda que vais fazer?

Mas porquê? Até agora correu bem, ou não?

Ainda perguntas porquê? O Marcelo deu posse a um governo de uma aliança com a extrema-direita nos Açores! Já viste o que aconteceu por lá depois do Rui Rio se coligar com os fascistas? Tu achas isso bem?

Não. Aquela malta do Chega é tudo uma cambada de grandes fascistas, são uns filhos da puta da pior espécie, que só mentem, apoiados por grandes empresários, corruptos, e apoiados pelas igrejas evangélicas e do reino de Deus, mais ou menos como o Trump e o Bolsonaro. Aquilo é gente que não interessa nem ao Diabo. Eu vi a reportagem do Pedro Coelho na SIC e fiquei abismado com aquela máfia..

Ainda por cima sabes o que aquela corja é! E tu ouviste o que o Marcelo disse sobre esse partido ilegal que se formou com assinaturas falsas que está inclusive a ser investigado pelo Ministério Público? Disse que não impediria uma coligação de direita com esses nazis!

Pois...

Então, meu caro eleitor do PS, pensa comigo. O governo do António Costa já vai com mais de cinco anos. Começou com uma coligação no papel, porque o Cavaco assim o quis, mas houve em 2019 novas eleições legislativas e saiu reforçado (ao contrário dos partidos de esquerda que perderam votos) mas já não quis aliança escrita nenhuma. Mas entretanto já viste a dificuldade que houve para fazer passar o Orçamento do Estado. E tu achas que o PS estará no governo durante mais quanto tempo?

Para já continuamos destacados nas sondagens...

Pois continuam, mas as sondagens valem o que valem e estamos em plena pandemia com o desgaste inerente da governação e do cansaço que isto tudo provoca.

Por isso mesmo, o Marcelo por estes dias até disse que não devíamos mudar de presidente a meio de uma pandemia e eu se calhar até concordo com ele.

Mas ouve lá, a presidência da república por acaso agora é uma monarquia? Não! Um presidente ou um governo merece continuar se tiver desempenhado bem o seu papel. Só. Isso que ele disse é mais uma laracha sem qualquer sentido. Um presidente da Junta ou de Câmara é que ainda pode dizer que tem obra para acabar. O Marcelo quanto muito pode ter é ainda muitas selfies e viagens por fazer - ou mais uns telefonemas para fazer para os programas da manhã!, mas agora com a pandemia não há-de tirar muitas selfies! E a verdade é que estamos em plena pandemia, por isso mesmo não sabemos quais as implicações disto tudo. Agora imagina que o PS cai nas intenções de voto. Eu vi o governo do Cavaco cair, principalmente por coisas tão "insignificantes" como as portagens na Ponte 25 de Abril e as gravuras rupestres de Vila Nova de Foz Côa! Agora imagina que os partidos de direita, conjuntamente com o partido fascista a crescer (porque lhes está a roubar votos) tira o PS do governo numas próximas legislativas. O que é tu achas que vai acontecer?

Olha, que não tinha pensado nisso.

Pois, pelas sondagens eu já tinha percebido que no eleitorado do PS ninguém pensado nisso, e sois vós do PS que ides eleger o Marcelo. Nunca te esqueças disso, nem que esqueças que, um primeiro mandato de presidente é para garantir o segundo, e depois no segundo é que tu lhe vais conhecer a face. O que vai acontecer é que o Marcelo, candidato natural de direita (apesar de querer passar por equidistante entre esquerda e direita pois é aí que está o grosso dos votos), não se vai opor (como já disse) a uma coligação do PSD com o partido fascista, coligação essa que Rui Rio já colocou no papel (para mal dos seus pecados). E, de um dia para o outro, quase cinquenta anos depois do 25 de Abril, teremos um partido, sem vergonha de se assumir como fascista, no governo. O Marcelo, como Presidente da República, deveria ser o garante máximo da Constituição, mas já disse que vai cagar no juramento que vai fazer - de defender a Constituição, que não permite ideologias fascistas - e dar posse a esse governo! E nesse momento tu vais-te arrepender de ter votado nele, mas aí, meu amigo, já será muito tarde! Quando ainda por cima tu tinhas uma mulher, candidata pelo teu Partido Socialista,  que, perentoriamente, já disse que não o faria ou que usaria todos os seus poderes para não o permitir. Mulher e candidata essa que tu ignoras e decides votar no candidato de direita que fecha os olhos ao fascista! Não te esqueças e tem isso bem presente: vamos ter que levar com o Marcelo durante cinco anos! E em cinco anos muitas coisas acontecem! 

Estou a ver onde queres chegar.. Mas tu vais votar na Ana Gomes?

Para ser politicamente correto, diria que, entre a Marisa, o João Ferreira, que é o pregador da Constituição e que deve ser o candidato que melhor campanha está a afazer, e a própria Ana Gomes, mulher de coragem e de pensamento livre, diria que tens aí três excelentes candidaturas que em poderia votar... 

Não querer é dizer em quem vais votar!

Bem, até domingo, e vê se refletes bem!

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

A Absoluta Liberdade de Pensamento

"Mas o Murray disse, por fim, rindo de mansinho: - Aquilo mexeu comigo.
- A sério? Porquê?
- Saudades da minha filha.
- Onde está ela?
- A Lorraine morreu.
- Quando foi isso?
- A Lorraine morreu há vinte e seis anos. Em 1971. Morreu com trinta anos e deixou dois filhos e um marido. Uma meningite, morreu de um dia para o outro.
- E a Doris já morreu?
- A Doris? Claro.
Fui ao quarto levantar a agulha e repô-la no descanso. - Quer ouvir mais? - perguntei lá de dentro ao Murray.
Ele riu-se, desta vez abertamente, e disse: - Estás a ver até onde aguento? A ideia que tens da minha força, Nathan, é um bocadinho exagerada. A "Dubinuchka" já me chegou.
- Não sei, não - disse eu, saindo outra vez lá para fora e voltando a sentar-me na minha cadeira. - Estava a dizer-me...? 
- Estava a dizer-te... estava a dizer-te... já sei... que, quando o Ira levou um pontapé no traseiro, a Lorraine ficou furiosa. Depois de o Ira ser despedido da rádio por ser comunista, ela recusou-se a fazer a saudação à bandeira.
- À bandeira americana? Onde?
- Na escola - disse o Murray. - Onde é que achas que se faz a saudação à bandeira? A professora tentou protegê-la, puxou-a para o lado e disse-lhe que tinha de saudar a bandeira. Mas a miúda recusou-se terminantemente. A raiva era muita. A verdadeira raiva dos Ringolds. Adorava o tio. Parecia-se imenso com ele.
- E depois?
- Tive uma longa conversa com ela e ela voltou a fazer a saudação à bandeira.
- O que foi que lhe  disse?


- Disse-lhe que também amava o meu irmão. Que também não achava que nada daquilo era correto. Disse-lhe que pensava como ela, que era muito mal feito despedir uma pessoa por causa das suas ideias políticas. Que acreditava na liberdade de pensamento. Na absoluta liberdade de pensamento. Mas disse-lhe que aquela não era a maneira certa de lutar. Que a verdadeira questão não era essa. O que conseguia ela com isso? O que ganhava ela com isso? Disse-lhe: não entres numa luta que sabes que não podes vencer, uma luta que nem te interessa vencer. Disse-lhe o que costumava tentar dizer ao meu irmão a respeito dos discursos inflamados... o que tentava dizer-lhe desde que ele era pequeno mas que nunca serviu de nada. O que importa não é estarmos zangados, é estarmos zangados com as coisas certas. Disse-lhe: Vê a questão pelo prisma darwinano. A raiva deve-nos tornar eficientes. É essa a função da sobrevivência. É por isso que ela nos é dada. Se te torna ineficiente, larga-a como uma batata a escaldar.

"Casei com um comunista" / Philip Roth (1998)

Casei com Um Comunista é a história da ascensão e queda de Iron Rinn, uma popular estrela da rádio, que vê a sua vida pessoal e profissional destruída na era da caça às bruxas de McCarthy. Nos seus dias de glória, casa com a famosa estrela de cinema mudo Eve Frame. O idílio romântico é breve e o seu casamento transforma-se num drama de lágrimas e traições, passando da esfera privada a escândalo nacional quando Eve faz revelações estrondosas a um colunista, denunciando o seu marido como espião comunista e sabotador. Uma história de crueldade, humilhação, traição e vingança, onde Philip Roth retrata de forma brilhante a conturbada época do pós-guerra, quando a febre do anticomunismo não só contaminava a política nacional mas também a intimidade das vidas de amigos e famílias, maridos e mulheres, pais e filhos.