quarta-feira, 9 de outubro de 2019

As Últimas Ameixas da Vida

Há coisa de um mês decidi-me a arrancar a enorme estrelícia que tinha em frente da casa. Não, não foi propriamente um "Querida Mudei o Jardim", foi mais um já-estava-farto-de-tanta-raiz-a-tomar-conta-do-relvado-e-farto-de-ter-que-a-cortar-e-podar-em-volta-que-vou-fazer-uma-limpeza-nisto-tudo. Já tinha até começado a cavar em volta (a tarefa não é propriamente fácil) até que os pais, como estão por casa, ofereceram-se para ir lá a casa arrancar aquilo.

No dia em causa que isso aconteceu, cheguei a casa e passado um bocado ouço o meu vizinho a chamar por mim. Este meu vizinho mora duas casas ao lado mas que inicialmente até viveu mesmo ao lado porque aquelas casas são todas da mesma família. Eu cresci ali, naquela rua, e desde pequeno que fui convivendo, ainda que à distância, com os vizinhos, e sempre me habituei a respeitar aquele senhor, que inicialmente usava um bigode e que para ali veio morar porque casou com a filha dos donos daqueles terrenos e que na altura conduzia um Opel Kadett preto de matrícula AU.

Ele chamou por mim e foi subindo o passeio com um saco plástico na mão. Disse-me que, como tinha visto os meus pais por ali, foi apanhar umas ameixas para lhes dar, mas que entretanto quando voltou já os meus pais tinham ido embora. Confiou-mas então a mim para as entregar aos meus pais.

Via Piterest
Não muitas semanas antes tinha-o apanhado a passar na rua e estivemos a conversar. Falamos de várias coisas. Disse-lhe que tenho sempre muito que fazer no jardim, falei-lhe do relvado e ele disse-me que não há nada como andarmos entretidos a jardinar a cuidar das nossas coisas. Quando falamos do relvado, contei-lhe até da minha pequena extravagância de ter comprado um escarificador e até o convidei a ir lá à garagem ver, e ele ficou admirado com a grande máquina que comprei. Grande e potente, "fizeste uma boa compra por esse preço", disse-me. Por momentos parecíamos dois homens a apreciar o novo bólide que um dos dois tinha comprado!

Foi há cerca de cinco anos que soube que ele estava doente e isso revoltou-me porque parece mesmo que "coisa ruim não tem desvio" e que só os bons é que se vão antes do tempo. Ele deixou de trabalhar e estava sempre por casa. Mas sempre o vi a trabalhar em casa, nas mais variadas tarefas como cuidar do jardim e do pequeno quintal por onde andam galinhas e patos por entre árvore de fruto, e sempre o vi bem disposto e alegre, ainda que muitas vezes, como é compreensível, se protegesse e recolhesse mais.

E se é verdade que eu sempre tive o hábito de me despedir das pessoas como se fosse a última vez que as vou ver - "tudo de bom!", até porque um dia isso irá mesmo acontecer, com ele, fazia mesmo sempre questão de, sempre que por ele passasse na rua, de carro, ou o via passar da minha casa, sempre fiz questão de lhe dar um aceno e um sorriso sincero. Em boa verdade, já fazia antes de saber que estava doente, mas agora fazia-o ainda com mais sentimento, como que a transmitir-se uma força subliminar, que estamos todos a torcer por ele.

Mas, inesperadamente, no penúltimo fim-de-semana, que ainda por cima fui passar fora, liga-me a minha mãe em choque. Ele tinha morrido e sido enterrado no dia anterior, sem que os meus pais, que moram a setecentos metros de distância, tivessem sabido e podido ir ao funeral, porque não tocou o sino da igreja, que na aldeia serve de alerta que alguém morre.

No telefonema a minha mãe dizia-me que já tinha chorado mais do que se fosse uma pessoa de família, porque, digo eu, não são os laços de sangue que obrigatoriamente nos fazem estar mais ou menos ligados a alguém, é o sentimento que temos por alguém que faz com que determinada pessoa seja importante para nós. E um vizinho, a quem quase só dizemos "olá", mas que temos em grande conta, pode-nos ser mais precioso que alguém da nossa família com quem não temos ligação e que só vemos, com sorte, de dez em dez anos em algum funeral.

A minha mãe viu naquele gesto generoso naquele saco de ameixas (que eram mesmo muito boas) oferecido semanas antes de partir, o simbolismo de se despedir de nós. Talvez tenha sido... não sei, só ele saberá. Mas o que sei é que aquela Rua das Flores ficará mais silenciosa, mais pobre e, senão todos, eu, pelo menos, lhe sentirei bastante a falta. Até sempre R...

sábado, 5 de outubro de 2019

Sinais em Dia de Reflexão Eleitoral

Depois de percorrer os quatorze quilómetros da Pista de Cicloturismo de Guimarães e ter chegado a Fafe, deparo-me com a placa que dá nome ao local: Praça Mártires do Fascismo. 
Em dia de reflexão eleitoral é um sinal a não menosprezar com tanto partidozinho fascista travestido de amiguinho do ambiente e neo-liberal-da-treta que por aí anda. 


quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Lei de Murphy na Vida Real

Quanto mais depressa fores meter o mata-vacas novo no todo terreno (em-fibra-todo-pipi-que-não-mata-nem-um-ouriço-cacheiro-quanto-mais-uma-vaca), mais depressa te dão uma traseirada sem saberes quem foi e ainda te metem o pára-choques dentro. 

via www.reddit.com

terça-feira, 1 de outubro de 2019

A Sabedoria da Experiência

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Na juventude, e depois de um ou outro namorico pouco mais que inocente, lá chega o dia (até porque agora sim as coisas começam a tomar contornos sérios) em que pela primeira vez lá temos que ir a casa dela para sermos apresentados aos pais, para que eles conheçam, finalmente, o malandro que chegou ao coração da filha.

Se é verdade que não são os pais que vão namorar connosco, e ainda por cima também já não estamos no tempo de pedir permissão para sequer poder falar com a filha, por outro lado há sempre uma avaliação que é feita a nosso respeito no exato momento em que nos damos a conhecer. Não estivéssemos nós sempre a ser avaliados onde quer que vamos, mais não seja pela imagem que passamos, se somos mais ou menos atraentes, mais ou menos simpáticos, mais ou menos inteligentes e/ou cultos ou mais ou menos broncos e/ou idiotas.

E eu acho que não é preciso ser pai para perceber que, e sem querer generalizar, que os pais querem sempre o melhor para os filhos. É normal que assim seja, muito estranho é quando isso não acontece. Os pais querem que os filhos tenham um bom futuro profissional e que arranjem o melhor partido possível, de preferência daqueles que elegem deputados suficientes para poderem governar sozinhos.
Ou então, que pelo menos, que sejam felizes.

E causa sempre alguma ansiedade quando sabemos que vamos ser avaliados. Pelo menos a mim causa. Ao longo da vida muitas são as situações em que somos avaliados, seja no teste lá da escola, no exame de condução, na entrevista de emprego, e, logicamente, também quando vamos conhecer pela primeira vez os pais da namorada. E esta avaliação, muitas vezes acaba por ser contínua, dia após dia, em que não conta só o exame da apresentação. Houve um primeiro impacto, as primeiras impressões que contam sempre muito e, claro, vale sempre mais cair em graça que ser engraçado, ainda que, a longo prazo, estas depois possam ser confirmadas ou não.

Entretanto os anos vão passando e perdemos as ilusão que o primeiro amor será para sempre. Também um dia nos tocará a nós e todo aquele amor que se jurou ser eterno irá implodir  Novos amores, mais ou menos platónicos, novos enamoramentos, vividos ou por viver se seguirão e, um dia damo-nos conta que, aquele miúdo que sempre fomos e que brincava lá na rua, é o único que entretanto chegou aos quarenta solteiro e sem filhos.

Sim, é quase como se nos tivéssemos tornado numa espécie quase em vias de extinção. Mas está tudo bem, sem pressão nenhuma, nem medo de ficarmos para tio, ainda por cima quando até somos filhos únicos que nunca serão verdadeiros tios! E depois, como não casamos, até temos  vantagem de não termos uma proeminente barriga de grávida com, pelo menos, uns seis meses!

Mas aos poucos começamos a notar que há algo que se passa com a nossa vista. Será que devemos marcar consulta no oftalmologista? Do nada começamos a olhar para mulheres com mais de trinta anos, mulheres até mais velhas que nós. Talvez não seja nos olhos, quem sabe o problema esteja mesmo no nosso cérebro. Ou então, se calhar está tudo bem e estamos só a ficar mais velhos.

Certo dia saímos achamos imensa graça quando, pela primeira vez saímos com uma mulher cinco anos mais velha, e continuamos fascinados mesmo depois dela ter feito quase um escândalo com um empregado que, delicadamente só nos queria colocar numa mesa para duas pessoa para não ocuparmos o espaço de seis. E é por isso que cada vez mais tenho a certeza que a visão só atrapalha. Não tivéssemos nós olhos e certamente que as nossas escolhas seriam outras. (mas isso se calhar será tema para uma próxima publicação)

Até que acabamos por sair pela primeira com uma mulher divorciada, e só esse nome quase nos faz pensar que a pessoa tem uma espécie de doença venérea. Mas não tem. É só uma mulher, como tantas outras, mas que não admitiu que certas situações se continuassem a repetir. E até acabamos por lhe conhecer a filha, uma criança encantadora, com imenso jeito para jogar à bola!

Até que, pela primeira vez (até morrermos há sempre muitas coisas que vamos fazendo pela primeira vez) experimentamos, por sugestão alheia, entreter os filhos da nossa colega de trabalho (aquela que até namoraria connosco se não tivéssemos o cabelo quase até ao cu!), com o ténis-de-mesa e percebemos de imediato que educar duas crianças de idades muito próximas não será certamente  da tarefas mais fáceis, e mais  ainda quando o tivemos que fazer sem nenhuma ajuda do outro progenitor.

Quando somos jovens, mais ou menos adolescentes, começamos inicialmente por recear ser apresentados e avaliados pelos pais. Ironicamente, quer-me parecer que, se calhar, também um dia seremos nós a ser avaliados por outros filhos que, tal como nós, certo dia tivemos que ser apresentados aquele que veio a ser o companheiro da nossa mãe até durante mais tempo que do aquele que foi o nosso pai.

Não sei se ultimamente tenho envelhecido muito ou não. Sei apenas que as minhas telhas têm voado mais depressa do que aquilo que eu gostaria. No entanto, uma coisa mais importante eu sei de certeza, que ultimamente a vida tem-me colocado em perspectivas bem diferentes das que tinha vivido no passado. Se numa determinada altura da minha vida estou num determinado vértice, mais à frente a vida faz questão de me colocar num outro, com vista privilegiada para o vértice onde estive outrora, para que possa assim perceber da melhor forma como é estar numa situação e noutra, estar no nosso lugar e sentir na pele o que é estar do outro lado. Por alguma coisa se diz que apenas podemos transmitir o conhecimento, não a sabedoria. Porque a sabedoria, essa só a encontramos quando somos nós mesmos a trilhar o caminho do conhecimento. 

O Triunfo dos Gatos

"O gato aderiu ao Comitê de Reeducação e foi muito ativo durante alguns dias. Foi visto um dia sentado no telhado a conversar com uns pardais que estavam fora do seu alcance. Estava a dizer-lhes que agora todos os animais eram camaradas e que os que quisessem podiam empoleirar-se na sua pata; mas os pardais mantiveram-se à distância."




Acabava de sair de casa neste primeiro dia de Outubro e estava a chover. "Ainda bem", pensei. É da maneira que me rega o jardim e as plantas certamente que agradecem. Porque nenhuma água se compara à água da chuva. 

Saí da garagem, e preparava-me já para rumar para o trabalho, quando de repente algo me chamou a atenção. 

Surpreendentemente, no terreno do antigo pinhal que foi ceifado defronte da casa dos meus pais, estava um grande trator dos madeireiros que agora por lá andam a cortar eucaliptos.

Abrigado da chuva e sentada aos comandos estava a gata que a minha mãe adotou!


A citação acima é do livro "O triunfo dos porcos" de George Orwell.