"A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão."
domingo, 24 de novembro de 2024
E o Amor Separar-nos-á... Novamente
domingo, 17 de novembro de 2024
Entrevistas ao Pepe Mujica? Coleciono Todas!
“Dediquei-me a mudar o mundo e não mudei coisa nenhuma”
Aos 89 anos, venceu o cancro e fala sobre a vida e a morte, o rancor, a felicidade e o seu legado.
Numa tarde de 1970, José Pepe Mujica conversava com outros homens numa mesa do bar La Vía, em Montevidéu. Um cliente reconheceu que eram guerrilheiros tupamaros e denunciou-os. A polícia cercou o local. Mujica levou seis tiros. No Hospital Militar foi tratado por um cirurgião que “era um companheiro, um tupa disfarçado”. “Dá-me um balde de sangue e salva-me. É daquelas coisas que nos fazem acreditar em Deus”, recorda Mujica.
Passados exatamente 54 anos, está sentado na pequena sala da sua casa rural em Rincón del Cerro, a 15 quilómetros da capital, rodeado de livros, pequenas esculturas, quadros e fotografias. Mujica recupera de um cancro do esófago. “Deram-me 31 sessões de radioterapia às sete da manhã, todos os dias. Acabaram com o cancro, mas deixaram-me com um buraco assim [desenha um círculo grande com os dedos, como uma laranja]. Agora o buraco tem de se fechar e eu sou um velho, tenho 89 anos. Até estar completamente fechado, não consigo comer. Tenho de cuidar dele até endurecer.” Não esconde o mau humor pelas sequelas da doença, que o deixam “sem energia”.
Minutos depois, Mujica volta a ser o de sempre: o político e o filósofo.
Quando Mujica saiu da prisão, em março de 1985, já em democracia e após 13 anos preso, sabia que queria comprar uma quinta no campo, longe da cidade. Em janeiro de 1986, ele e a mulher mudaram-se. Nunca mais saíram, nem quando Mujica foi presidente.
El País17 Nov 2024 Federico Rivas Molina | Gabriel Díaz Campanella
O Êxodo
Uma das coisas que mais me orgulho e, até poderia colocar no currículo, foi ter saído do Twitter quando a grande maioria ainda decidiu ficar. Sabiam que Musk o tinha destruído, até lhe mudou o nome, deixou de ser o que era e passou a ser mau, mas mesmo muito mau. Mas é sempre bom tentar continuar a ser afagado pelos milhares de seguidores e pelos coraçõezinhos. Apesar das montanhas de publicidade, apesar mentiras, dos milhares de bots, e das novas regras absurdas que mudavam consoante o que o Almíscar queria, as pessoas pessoas por lá foram ficando, entrando em negação, suportando o insuportável na tentativa de manter o pequeno consolo do afago no ego.
É muito bom estar nas redes sociais e ser afagado. É por isso que já há muito poucos resistentes, como eu, que permaneceram nos blogs, porque aqui os comentários e as interações desapareceram. As pessoas já não têm paciência para ler, quando mais abrir um link de uma notícia, quando mais agora ler textos de gente desconhecida e dar-se ao trabalho de comentar.
Ninguém consegue estar na internet a passar o dedo por mais de quinze segundos, porque é imperioso que se passa ao seguinte vídeo de gatinhos, ao seguinte vídeo de outra merda qualquer, num loop estupidificante eterno.
Até que se deu, finalmente o Êxoso. Começaram todos a debandar do falecido Twitter chamado agora de X e começaram em massa a migrar para o Bluesky onde andei no último ano e meio.
Primeiro foi o Guardian a sair, que tinha cerca de oitenta contas oficiais e milhões de seguidores mas a seguir foi o La Vanguardia e muitas outras contas importantes.
Espero que por lá, no X, fiquem apenas o Musk e o Trump e todos os maluquinhos fascistas.
Irracionalmente as Pessoas Votam em Quem as Quer Destruir
Embora a forma dos ensaios de Montaigne fosse o monólogo, quase um fluxo de consciência, o seu instinto não era de isolamento, mas de conversação. Dizia que escrever, para ele, era como começar a falar com um desconhecido na rua. E na origem das suas reflexões e ideias estava um propósito de diálogo frustrado, pois Montaigne quis sempre continuar a conversar com o seu grande amigo e amor da alma, Étienne de La Boétie, que morreu quando ambos eram ainda muito jovens. Nele, Montaigne encontrou, como Adolfo Bioy Casares escreveu sobre outra amizade, “a pátria da sua alma”.
Montaigne não cultivou a tolerância, a liberdade de espírito ou a irreverência face aos dogmas numa atmosfera cultural favorável a esses valores. Fê-no contra a corrente da terrível maré dos tempos, quando protestantes e católicos se massacram com fúria idêntica, e o destino certo de qualquer dissidência era a tortura e a fogueira. O defensor e propagandista dos livros, felizmente multiplicados pela imprensa, que devolviam ao mundo a sabedoria e beleza dos autores gregos e latinos, viu como livros condenados ardiam nas mesmas chamas onde se queimavam os seus autores. E também viu como outros livros propagavam não o conhecimento, mas o obscurantismo, envenenavam consciências, incitavam ao extermínio e forneciam justificações teológicas. Gravuras rudes representavam os inimigos como canibais, ratos, bruxas espetadas em tridentes demoníacos, ou criaturas excrementícias vestidas de frades e freiras, emergindo do traseiro elefantiásico do Papa.
A retaguarda, infelizmente, não é uma escolha, mas um privilégio e, também, um golpe de sorte. Não há espaço para bastidores para as pobres gentes martirizadas de Gaza, agora sujeitas a um cerco de fome, além do terror das bombas; nem houve, há duas semanas, para aquela multidão que, em poucas horas, na província de Valência, viu as suas vidas devastadas por um dilúvio universal que não era só de água, mas de lama, lixo e carros esmagados como brinquedos ridículos. Os antigos conheciam os golpes súbitos de crueldade impessoal da natureza e, sem outro recurso intelectual além de os atribuir à malevolência dos deuses, ao menos tinham acumulado, ao longo dos séculos, as sabedorias necessárias para atenuar a destruição, limpando leitos de torrentes, desenhando ruas e construindo edifícios que, em vez de barreiras ou armadilhas mortais, pudessem ser escoadouros para o colapso das águas, respeitando dunas, pântanos, espécies vegetais e ambientes resistentes e flexíveis às invasões do mar. Precisamos de uma retaguarda, mas somos tão vulneráveis à irracionalidade dos poderosos como às catástrofes naturais, percebendo cada vez mais que uns são tão perigosos quanto as outras, numa escalada assustadora cujo desfecho desconhecemos.
Na véspera da calamidade de 29 de outubro, as principais medidas ambientais do governo valenciano foram extinguir um organismo regional de emergências, cortar fundos dedicados à prevenção e autorizar novas construções ainda mais próximas do mar, seguramente com o objetivo prático de serem varridas rapidamente pelas tempestades, desde que os construtores tivessem tempo de receber os seus lucros e os vereadores e altos cargos corruptos recolhessem as devidas comissões.
Aqui, como em todo o lado, a irracionalidade e a cegueira parecem contagiar uma grande parte da cidadania. Os mesmos que mais sofrem com as alterações climáticas votam massivamente em demagogos que as negam, instigados pela turba macabra da extrema-direita e financiados pelas oligarquias do petróleo, agora aliadas aos antigos apóstolos bondosos das empresas tecnológicas. Nas zonas mais castigadas pelos furacões no sudeste dos Estados Unidos, de Florida às Carolinas, os moradores mal saem das suas ruas inundadas e casas em ruínas para votar em Donald Trump, com o mesmo entusiasmo com que os israelitas estão prontos para votar, assim que possível, em Benjamim Netanyahu e na sua coorte de supremacistas vingativos.
Ligamos o telejornal, e a nossa neta Leonor, de seis anos, que quer ver desenhos animados, pergunta porquê. Quando lhe dizemos que queremos saber o que se passa no mundo, ela fica séria e responde: “Pois eu não gosto do que se passa no mundo.” Nós também não. Assistimos às notícias com apreensão e, às vezes, durante o pequeno-almoço, lemos o jornal em papel ou digital e ouvimos a rádio. Mas o desejo de saber e compreender acarreta o perigo de sermos inundados não apenas pelas informações ameaçadoras, mas pelo lodo pútrido das mentiras, calúnias e bulos, sustentados com fria desfaçatez por quem aprendeu a encobrir a sua incompetência e corrupção acusando outros de serem corruptos. Nesse telejornal que a menina quer que desliguemos rapidamente, vejo Alberto Núñez Feijóo a culpar Pedro Sánchez e Teresa Ribera pela tragédia de Valência. Essa expressão de sarcasmo turvo e máscara de borracha provoca-me um repúdio físico, como uma má digestão. Há graus de vileza que talvez surpreendam, secretamente, até quem os pratica.
Por isso, é necessário recolhermo-nos nos bastidores, desligar a rádio, apagar a televisão, ou deixar que as crianças vejam os seus desenhos animados, buscar o silêncio, passear pelo campo numa manhã de novembro, observar com a paciência de um botânico os últimos abelhões sobre as pétalas desfeitas das últimas dálias, ler um conto às crianças ou assisti-las nas suas leituras.
Ler Montaigne ou o seu parente espiritual, Miguel de Cervantes. Enviar dinheiro à Cruz Vermelha de Valência. E também sair dos bastidores para nos manifestarmos por um ar limpo, uma habitação digna, cidades não colonizadas por especuladores ou turistas, uma educação pública crítica e humanista para todos, um serviço nacional de saúde universal a salvo dos mercadores, um mundo habitável e justo onde, oxalá, essas crianças possam viver quando forem mulheres adultas e nós já não estivermos cá.
domingo, 10 de novembro de 2024
Os Imigrantes que Devem Ser Proibidos de Entrar em Portugal
sábado, 9 de novembro de 2024
Eleições nos Estados Unidos - O Sequestro dos Eleitores
Tal como vaticinei e, contrariamente à opinião de grande parte dos especialistas cá do burgo, Trump venceu as eleições nos Estados Unidos. E na ressaca dos resultados fui lendo muita coisa. Por cá agora alguns comentadores ajustam a argumentação à nova realidade e dão verdadeiras piruetas - mais ou menos como Marques Mendes fez aquando da pandemia, em que primeiro elogiou as medidas do governo de Costa, mas depois, perante a realidade dos mortos, afirmou que se estava mesmo a ver que ia dar mau resultado!
Mas fui lendo também algumas coisas na imprensa internacional e este artigo em particular, do New York Times, foi dos que mais gostei e aqui vai ficar para memória futura:
"Nas vésperas das eleições de terça-feira para o próximo presidente dos EUA, uma grande maioria dos eleitores americanos afirmava que o país estava a seguir um caminho errado e que se sentiam desapontados com os candidatos. Uma pluralidade de eleitores afirmou que, independentemente de quem fosse eleito, o próximo presidente pioraria a situação. Quase 80% dos eleitores disseram que as campanhas presidenciais não lhes inspiravam orgulho na América.
A responsabilidade por este estado deplorável de coisas recai sobre os partidos Democrata e Republicano, que não apresentaram uma visão capaz de atrair a maioria dos americanos. Trump e Kamala Harris jogaram à roleta com o eleitorado, recorrendo frequentemente a ameaças apocalípticas sobre o fim da democracia para convencer as pessoas de que não tinham escolha senão votar conforme lhes era indicado.
Ambos os candidatos ofereceram políticas impopulares até entre os seus próprios apoiantes, servindo um banquete para os seus doadores enquanto distribuíam migalhas aos seus eleitores. Para um dos candidatos, essa estratégia de desdém resultou. Mas, no geral, falhou com o povo americano.
Apesar de toda a sua postura populista, Trump propôs reduções de impostos que favorecem os ricos, defendeu tarifas que quase certamente aumentariam o custo dos alimentos, criticou o pagamento de horas extraordinárias, elogiou o despedimento de trabalhadores em greve e permaneceu em silêncio enquanto os seus aliados falavam em destruir o Affordable Care Act. Insistiu que a questão do aborto fosse decidida pelos estados, apesar de a maioria dos americanos, incluindo muitos republicanos, acreditar que o aborto deveria ser legal em todo o país. E comprometeu-se a opor-se a novas restrições sobre armas, embora a maioria esmagadora dos americanos apoie leis mais rigorosas.
E o que recebiam os apoiantes de Trump em troca de apoiarem essa agenda impopular? Elon Musk prometia um período de sofrimento económico. Tucker Carlson dizia que Trump daria “uma lição” ao país. Por que razão alguém se comprometeria com isso? Porque, disseram-lhes, a alternativa era a guerra nuclear sob Kamala Harris. Que grande escolha.
Entretanto, Biden e os seus aliados ignoraram a crença do público de que ele era demasiado velho para um novo mandato. Quando finalmente decidiu afastar-se — apenas após um desastre televisivo que arruinou a sua campanha cambaleante — o Partido Democrata contornou a democracia, simplesmente coroando a sua sucessora. Em várias políticas — especialmente no que diz respeito aos direitos reprodutivos — Kamala Harris está alinhada com os eleitores. Mas rapidamente começou a dar sinais de que não iria avançar com políticas económicas progressistas que Biden havia conseguido arrancar das amarras do neoliberalismo.
Recusou-se a afirmar que manteria Lina Khan, a presidente da Federal Trade Commission, conhecida pelo seu combate aos monopólios e altamente popular entre democratas e até alguns republicanos (mas não, essencialmente, entre os seus doadores). Recusou-se a apoiar um embargo de armas contra Israel, embora uma sondagem de Junho tenha revelado que 77% dos democratas e 62% dos independentes o desejavam. E ao mesmo tempo ignorava os eleitores árabes e muçulmanos, aproximava-se da indústria das criptomoedas e exibia orgulhosamente o seu apoio de Dick Cheney, um homem que deixou o cargo com uma taxa de aprovação de apenas 13%. Harris fez uma aposta de alto risco: como Trump realmente representava uma ameaça para a democracia, quando chegasse a hora da verdade, a maioria dos americanos superaria a sua frustração com ela.
Durante a maior parte da última década, o discurso americano tem sido dominado por uma política de emergência: uma insistência coletiva de que estamos à beira do colapso, uma ansiedade que ambos os partidos exploraram para manter os eleitores reféns. Este ano, esse impulso atingiu o seu apogeu.
O que a nação acabou de viver não foi uma eleição; foi uma situação de reféns. Os nossos principais partidos representam os interesses de magnatas do streaming, da indústria de armamento, dos barões do petróleo, dos “gurus” do Bitcoin e da indústria do tabaco, muitas vezes sem sequer fingir ouvir os eleitores. Um sistema político assim está fundamentalmente falido.
Uma sondagem da primavera passada indicou que cerca de metade dos eleitores com menos de 30 anos acredita que não importa quem ganha as eleições. Descrevendo o crescente niilismo desta geração, um analista disse à Semafor: “Os jovens eleitores não vêem figuras boas na nossa política. Vêem um império em declínio, liderado por pessoas que não prestam.”
A teórica cultural Lauren Berlant observou que “as épocas políticas intensas geram devaneios”, períodos breves de romance em que mudanças súbitas parecem possíveis. Esses devaneios não se baseiam em verdadeira esperança, mas numa espécie de “otimismo cruel” que figuras e processos políticos inevitavelmente traem. Uma forma de entender o estado de espírito do país hoje - e o cinismo daqueles que atingiram a maioridade política após 2008 - é como uma longa ressaca do otimismo cruel da Era Obama: a euforia de uma campanha de “esperança” e “mudança” que acabou por se desmoronar, seguida por três eleições presidenciais de “aceitar ou rejeitar”. Contudo, esta década de desespero pode ser, à sua maneira, uma oportunidade.
“O remédio pode vir da mesma fonte do mal”, escreveu o filósofo Edmund Burke, refletindo sobre a disfunção política do seu tempo. Se alguma vez quisermos sair do ciclo de emergência em que estamos presos - onde Republicanos e Democratas se acusam mutuamente de horrores apocalípticos enquanto impõem políticas que só beneficiam as respetivas elites - precisamos de estar dispostos a exigir mais.
Uma ameaça à democracia não isenta os líderes de apresentar aos eleitores um plano para o futuro, que atenda às suas preocupações e reflicta a América que desejam. De facto, quanto maior a ameaça, mais importante se torna o trabalho de ganhar a confiança dos eleitores, em vez de lhes dar um ultimato.
Se os americanos querem sair deste impasse, precisamos de deixar de permitir que os candidatos se aproveitem de desculpas alarmistas. Quando os candidatos nem sequer têm a decência de nos vender ilusões, e nos dizem que simplesmente não temos escolha a não ser votar neles, precisamos de fugir na direção oposta.
E, no auge da frustração, mais de nós precisa de concorrer a cargos - contra os escolhidos, contra os incumbentes, como independentes, se necessário - mesmo que a derrota seja certa, mesmo que gritem que estás a “estragar” uma corrida que já estava estragada antes de alguém votar.
Dizer aos americanos que não têm escolha a não ser votar neles mostra um profundo desrespeito".
Tyler Austin Harper | The New York Times (7 de Novembro de 2024)









