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sábado, 5 de junho de 2021

Maria João Abreu e a Última Ida ao Teatro

Como bom acumulador de tralha, costumo guardar todos os bilhetes de concertos, idas ao cinema, até pulseiras de festivais! E por estes dias andava aqui no quarto a fazer umas grandes arrumações, quando encontrei este folheto da peça de teatro "Boudoir". 

Tinha visto que a peça, que se inspira na obra do Marquês de Sade iria estar em cena no Teatro Constantino Nery em Matosinhos e comentei na altura com namorada se ela não quereria ir comigo. Quando li "sete diálogo libertinos" pensei que fossem diálogos de vários livros da obra, não estava propriamente à espera que fossem diálogos exclusivamente da "Filosofia na Alcova" (La Philosophie dans le boudoir)! Porque de facto é bastante arrojado e a peça retratou-o muito bem.

A peça foi protagonizada pela Maria João Abreu que interpretou a depravada Madame de Saint-Ange. Eu não sou crítico de teatro, ainda por cima porque contam-se pelos dedos as vezes que fui ver uma peça, mas gostei e acho que a atriz e restante elenco esteve bem. 

Ironicamente, pouco tempo depois de protagonizar esta peça de Sade, que para além dos diálogos filosóficos é como se sabe de cariz sexual e bastante explícito, a protagonista Maria João vê-se envolvida numa sátira à sua pessoa por causa da expressão "chuva dourada" que usou num programa de televisão quando um outro ator esteve internado entre a vida e a morte. 


A segundo ironia é que, com a chuva dourada ou não, o tal ator lá acabou por se salvar e a Maria João Abreu acaba por morrer relativamente jovem, e, se calhar, todos aqueles que a gozaram, acabaram depois por se mostrar todos muito comovidos com a sua partida antecipada.  

quarta-feira, 13 de maio de 2015

O que ando a ler V

- Oh minha senhora, se deveis isso tudo a crimes, a Providência, que acaba sempre por ser justa, não vos permitirá gozá-lo durante muito tempo! redargui-lhe.
- Enganas-te - disse-me a Dubois. - Não julgues que a Providência recompensa sempre a virtude, não permitas que um breve momento de prosperidade te mergulhe em tais erros. É indiferente à manutenção das leis da Providência que este seja pecador enquanto aquele é virtuoso; é-lhe necessária igual quantidade de pecado e virtude, e o indivíduo que pratica uma coisa ou outra é-lhe absolutamente indiferente. Escuta-me, Sophie, escuta-me com um bocadinho de atenção. És inteligente e desejaria finalmente convencer-te. Não é a escolha , pelo homem, do vício, ou da virtude, minha querida, que lhe dá a felicidade, porque a virtude, como o vício, mais do que não é que um um modo de conduta no mundo. Não se trata, portanto, de seguir um de preferência à outra, e sim de talhar apenas o caminho geral. Todo aquele que se afasta desse caminho procede sempre mal. Num mundo inteiramente virtuoso aconselhar-te-ia sempre a virtude, pois, como para ela haveria recompensas implícitas, nela estaria infalivelmente a felicidade. Mas num mundo inteiramente corrupto jamais te aconselharia outra coisa que não fosse o vício. Aquele que não trilha o caminho dos outros acaba inevitavelmente por perecer; todos os obstáculos que se encontra no caminho o ferem e, como é o mais fraco, tem por força de ser destruído. 


É em vão que as leis pretendem restabelecer a ordem de reconduzir os homens à virtude; demasiado viciosas para semelhante empreendimento e demasiado fracas para alcançarem êxito, afastam por instantes do caminho trilhado, mas jamais conseguem que este seja definitivamente abandonado. Quando o interesse geral dos homens os leva à corrupção, aquele que não quer corromper-se com eles luta contra o interesse geral. Ora, que felicidade pode esperar aquele que contraria constantemente o interesse dos outros? Dir-me-ás que é o vício que contraria o interesse dos homens, e eu concordaria contigo se o mundo fosse constituído em partes iguais por pecadores e virtuosos, porque então o interesse de uns chocaria visivelmente com o dos outros, mas não é isso que acontece numa sociedade onde a corrupção impera. Nesta, os meus pecados só lesam os pecadores e determinam neles outros pecados que os desforram...
E ficamos todos felizes! A vibração torna-se geral, dá-se uma multitude de choques e lesões mútuas em que cada um recupera sem demora o que acabou de perder e se encontra constantemente numa posição vantajosa. O pecado só é perigoso para a virtude que, fraca e tímida, jamais ousa seja o que for. Mas se ela for banida da face da Terra, o pecado, lesando apenas pecadores, não incomodará mais ninguém, dará origem a outros pecados e não ofenderá quaisquer virtudes. Argumentar-me-ão com os efeitos benéficos da virtude? Outro sofisma, pois ela só serve para os fracos e é inútil àquele que pela sua energia  se basta a si mesmo e só precisa da sua astúcia para corrigir os caprichos do destino. Como querias não ter falhado na vida, querida filha, se seguiste sempre em sentido inverso ao de toda a gente? Se te tivesses deixado ir onda, terias encontrado o porto, tal como eu encontrei. Aquele que quer remontar um rio chega mais depressa do que aquele que o desce? O primeiro quer contrariar o outro, o segundo abandona-se à corrente. (Marquês de Sade - Justine)

Acabei o segundo livro de Sade, e não poucas vezes senti-me muito identificado com a sua personagem principal, Justine, que tentando sempre fazer o bem, acabava sempre fodida, muitas vezes até literalmente! sempre espezinhada, nunca obtendo nenhuma "recompensa divina" pelo bem que fazia em prol dos outros. Todos os outros, os que só faziam o mal e cometiam os crimes mais hediondos para subir na vida, esses sim, eram sempre recompensados.

Olho para a minha vida e olho em volta, e acho que me prejudico constantemente por ser demasiado frontal, por ser demasiado honesto, por não querer ir contra a minha ética pessoal, por dizer o que penso, por não esconder, por não usar de manhas. A esse propósito, ainda por estes dias, na revista de imprensa da TSF, Fernando Alves fazia referência a uma entrevista a Fernando Dacosta que falava da "manha portuguesa" "- Como é que sobrevivemos se não formos manhosos? Quem diz o que pensa está lixado". É por isso que eu me fodo constantemente, por não usar de manhas. 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O que ando a ler


"O que é o amor? Parece-me que só poderemos considerá-lo como o efeito resultante das qualidades em nós produzidas por um belo objeto; estes efeitos arrebatam-nos; inflamam-nos; se possuirmos o objeto, eis-nos contentes, se nos for impossível tê-lo, desesperamos. Mas qual é a base desse sentimento?... O desejo. Quais são os resultados deste sentimento?...A loucura. Falemos do motivo e provemos o resultado. O motivo consiste em possuir o objeto: pois bem! Tentemos consegui-lo, mas com sagacidade; gozemo-lo quando o tivermos; consolemo-nos no caso contrário: mil outros objetos semelhantes e, frequentemente muito melhores, consolar-nos-ão da perda daqueles; todos os homens, todas as mulheres se parecem; não há amor que resista aos efeitos de uma sã reflexão. Oh! Não há maior engano do que essa loucura que, absorvendo em nós os resultados dos sentidos, nos coloca em tal estado que deixamos de ver e existir, senão para o objeto loucamente adorado! É isso viver? Não será antes privar-se, voluntariamente, de todas as doçuras da vida? Não será querer permanecer devorado por uma febre ardente que nos absorve e devora, deixando-nos apenas a felicidade dos gozos metafísicos, tão semelhante aos efeitos da loucura? Se devêssemos amá-lo sempre, a esse objeto adorável, se fosse certo que nunca devêssemos abandoná-lo, seria indubitavelmente uma extravagância, mas, pelo menos, desculpável. Acontece isso? Têm-se muitos exemplos dessas ligações eternas, que nunca se desmentiram? Alguns meses de gozo que depressa devolvem ao objeto o seu lugar verdadeiro, fazem-nos corar pelo incenso que queimámos nos seus altares e vamos muitas vezes ao ponto de nem sequer conceber que ele tenha podido seduzir-nos até esse ponto.
Oh, raparigas volumptuosas! Entregai-nos, pois, os vossos corpos, tanto quanto puderdes! Fodei, diverti-vos, eis o essencial; mas fugi cuidadosamente do amor."

A Filosofia na Alcova (Os Preceptores Imorais) 1795/ Marquês de Sade