terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

A Geração Mais Aborrecida da História

Alegremo-nos. O futuro da humanidade está nas mãos de uma geração que não bebe nem fuma e que se preocupa muito com a alimentação e com o corpo. Acham que a beleza vem de dentro mas têm pavor de envelhecer. Mas vão conseguir salvar o mundo fechados dentro do quarto a fazer scroll e com pânico de atender o telefone. Mais um excelente artigo que saiu no fim de semana passado no El País:


 "A imprensa anglo-saxónica chama à geração Z (nascida entre 1997 e 2012) "Gen ZZZZZZ". Excessivamente preocupada com a saúde e com fobia ao envelhecimento (apesar de ainda não ter chegado aos 30), não fuma, bebe pouco álcool, evita açúcares e hidratos de carbono de absorção rápida, sai pouco e madruga para fazer 40 agachamentos e 80 flexões enquanto os seus gurus da produtividade sussurram no TikTok: “Ganha a manhã e ganharás o dia”. “Ter barriga e banhas é coisa de quem ganha pouco”.

Uma geração que poupa para pagar subscrições em ginásios premium e que se suplementa com colagénio, magnésio, proteínas e adaptogénios. Venera a ordem, a disciplina e a doutrina estóica, onde os seus pais e avós teriam escolhido o hedonismo epicurista. Note-se que os últimos relatórios de saúde indicam que os hábitos de vida “problemáticos”, o elevado consumo de álcool e as doenças sexualmente transmissíveis já não são predominantes entre os mais jovens, mas sim entre os maiores de 55 anos, os seus pais e avós.

Por outro lado, os mais jovens sentem vergonha (com frequência ou muita frequência) se o seu estilo de vida não for considerado saudável, e quase 80% tem em conta critérios de saúde ao decidir o que come e bebe. E isso inclui o bem-estar físico e emocional, conclui um estudo global encomendado, entre outras empresas, pela Ikea, Pepsi-Cola, Visa e WWF International, abrangendo 27 mercados. O relatório indica que, à medida que a idade diminui, aumentam as horas dedicadas ao ginásio, a preocupação com a saúde mental e a gestão do stress.

Pouco dados à ironia, interpretaram literalmente a ideia de que a verdadeira beleza vem de dentro. Aterrorizadas com a possibilidade de envelhecer, as mulheres investem em produtos de skincare e, apesar de dominarem melhor as técnicas de maquilhagem do que as suas mães e avós, submetem-se a massagens linfáticas e dietas anti-inflamatórias que prometem eliminar olheiras e celulite, não apenas disfarçá-las.

Os homens querem abdominais six-pack e músculos bem definidos. Não procuram calças de ganga que lhes assentem bem no rabo – querem esculpi-lo no ginásio com exercícios de glúteos e creatina. Querem ver no espelho um rosto firme, sem sinais de cansaço, manchas ou acne e, quando não se sentem bem, afirmam nas redes sociais que têm “cara de cortisol”. Exibem uma pseudo-gíria especializada que traduz uma visão da estética e da beleza como sinónimo de optimização da saúde, mesmo que isso implique uma disciplina monástica e intermináveis rotinas detox.

Vidas organizadas e o medo de envelhecer

Viver segundo folhas de produtividade, aplicar critérios de eficiência a cada aspecto da vida e seguir horários rígidos é compatível com a loucura da juventude? Estaremos perante a geração mais organizada, saudável e aborrecida da história?

“Provavelmente é uma das gerações mais bem informadas de sempre sobre nutrição e os efeitos nocivos do álcool, mas também apresenta algumas obsessões e mudanças de hábitos. É provável que não morram de um ataque cardíaco antes dos 50, mas podem enfrentar outros problemas relacionados com o uso de esteroides anabolizantes no ginásio para atingir um físico específico, com músculos definidos e hipertrofiados”, refere o psicólogo Luis Miguel Real. Segundo ele, para estes jovens, a identidade está no corpo, e ganhar dinheiro é o auge da felicidade. “O que vejo em consulta é a adopção de hábitos produtivos tóxicos que colocam em risco a saúde mental. Não investem em relações saudáveis e têm a ideia perigosa de que tudo depende apenas deles próprios.

O lema “normalizemos cancelar planos” é uma categoria popular de conteúdos no TikTok e ilustra o que muitos consideram um plano ideal para o fim de semana: ficar no quarto com o telemóvel e evitar os riscos da vida social. Sentem-se muito mais confortáveis a fazer scroll do que a conversar com desconhecidos.

Oriol Bartomeus, director do Institut de Ciències Polítiques i Socials (ICPS), da Universitat Autònoma de Barcelona, acredita que a pandemia serviu como um teste para os mais jovens, ensinando-os a estar sozinhos e a relacionar-se com o mundo através de um ecrã. “É uma geração com angústia existencial”, diz. Talvez por isso nunca atendam chamadas. Nada lhes causa mais horror do que o telemóvel a tocar e a expectativa de terem de responder. Segundo a última sondagem da Uswitch, um quarto das pessoas entre os 18 e os 34 anos nunca atende o telefone. Ignoram-no e depois respondem por mensagem. Se não reconhecem o número, pesquisam-no no Google. Mais de metade dos inquiridos associa o toque do telefone a más notícias.

Os especialistas notam que as interacções digitais ultrapassaram, em muitos casos, os contactos presenciais, e esse modelo digital não exige “lubrificantes sociais” como o álcool, cujo consumo caiu drasticamente. Segundo um estudo da HBSC, apoiado pela OMS, apenas 8% dos jovens consome álcool semanalmente, quando em 2006 esse número era de 25%. Além disso, quase 80% considera que beber cinco ou seis copos num fim de semana pode ter “consequências graves”. Felizmente, décadas de campanhas públicas contra o consumo excessivo de álcool começam a dar frutos.

“As cervejas e o vinho deixaram de ser as bebidas padrão”, observa Felipe Romero, sócio da consultora The Cocktail. Segundo dados da Euromonitor International, o mercado de bebidas sem álcool em Espanha tem crescido 18% ao ano nos últimos três anos. Romero descreve um cenário onde dominam as bebidas energéticas, batidos e águas minerais. “E, se bebem, preferem bebidas de menor graduação alcoólica. Existe um forte desejo de estar sempre disponível, activo e produtivo. E o álcool não é um optimizador”, explica.

O preço da disciplina

No Ocidente, triunfam startups que procuram a quadratura do círculo: uma bebedeira sem ressaca. Experimenta-se com novas bebidas que oscilam entre o álcool e a abstinência, oferecendo um ligeiro estado de desinibição e alegria, sem comprometer a lucidez e o controlo. Chamam-lhes “bebidas espirituosas funcionais sem álcool”, sendo a mais popular a Three Spirit, uma infusão de chá verde, ashwagandha e cogumelo melena de leão, com efeitos nootrópicos, ou seja, que acalmam a mente e melhoram a memória e a concentração – três fragilidades da primeira geração nativa digital.

Porém, esta é também uma geração disposta ao sacrifício. Levantam-se todos os dias às cinco da manhã para maximizar o desempenho cognitivo e serem produtivos. Diz-se que todos os bem-sucedidos na vida – de Jennifer Lopez a Tim Cook – começam o dia a essa hora mágica. Um ritual de esforço sustentado por best-sellers como O Clube das 5 da Manhã, de Robin Sharma, e pela comunidade #5amClub do TikTok, que soma mais de 18 milhões de publicações a partilhar rigorosas rotinas matinais.

Bartomeus acredita que esta geração vive angustiada e quer um regresso aos básicos, a um mundo mais simples. “Assumiram que o futuro será terrível, que a festa acabou. Sentem-se vítimas e procuram vingança. Na política, isso traduz-se num desejo de ordem. Muitos rapazes, em particular, seguem com fervor as doutrinas do rigor e da disciplina.”

Segundo o World Happiness Report, esta é uma geração menos feliz do que os seus pais e avós. Desde 2006, os níveis de felicidade dos jovens caíram em todos os continentes. A geração mais saudável e disciplinada da história não parece estar a divertir-se. Ou então, os mais velhos – boomers, geração X e millennials – não estão a perceber nada.

Jovens e Estoicos | Karelia Vázquez | El País (23 de Fevereiro de 2025)

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Grândola 2025

 


Alguém comentou que já se transformava a Grândola no hino nacional. E, de imediato eu comecei a cantar o hino mentalmente, numa versão revista e atualizada para 2025. Então é assim:

Grândola, Vila Morena, 

Terra da Hostilidade

A agência imobiliária (do governo) é quem mais ordena

Dentro de ti, ó cidade

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

A Minha Frase do Dia (2)




Signos para Sempre

 


A propósito do abominável dia dos namorados, a revista New York Magazine publicou um pequeno artigo em jeito de curiosidade sobre os signos: 

"Quão compatíveis sois? O "felizes para sempre" pode ser imprevisível, a menos que conheças os teus signos do zodíaco. Os pares do zodíaco feitos para durar -  e os que vão arder rápido.

Se lês o teu horóscopo, então já sabes que os nossos signos solares determinam como comunicamos, quais são os nossos desejos e se vamos espiar um ex que nos ignorou. (Estou a falar de ti, Escorpião.) Nós, astrólogos, usamos esses traços de personalidade para prever se um primeiro encontro acabará num "felizes para sempre" ou num tribunal.

Para te poupar tempo - e despesas legais - fiz este guia rápido para que possas fazer o mesmo. Este gráfico de compatibilidade astrológica revela a longevidade esperada de cada par do zodíaco (eixo Y: do "para sempre" ao "nunca") e a química entre eles (eixo X: do "nada quente" ao "super ardente").

Posto isto, parece que eu deveria ter investido as fichas todas numa mulher Caranguejo ou mulher Capricórnio. Ainda que na Touro também não pareça que esteja mal de todo.

Editado: Rapidamente este estudo foi trucidado. Paula Neves - que eu conheci da série da RTP "Riscos" e depois numa novela (da TVI? como Trinca-Espinhas), partilhou na net que está com o seu companheiro (marido, não sei nem interessa) há vinte e quatro anos. 


É muito tempo! Fiquei logo curioso com os signos deles! e vai daí manifestei essa curiosidade. Ao que ela me respondeu: escorpião | balança! O que foi ótimo para dar cabo deste trabalho astrológico! Escorpião - Balança encaixa, segundo este trabalho, no quadrante "Never & Not Hot".

domingo, 16 de fevereiro de 2025

O Amor Consumista

Passou mais um dia dos namorados e falou-se novamente de como 75% dos nossos jovens acham perfeitamente normal controlar, perseguir ou agredir psicologicamente. E depois o problema é as aulas de cidadania! Se calhar deveriam era aumentar a carga horária para aprender a respeitar o outro. E obviamente muito se escreveu na imprensa internacional sobre o preço dos chocolates e sobre o amor... Este artigo de José Nicolás do El País foi talvez dos que mais me chamou a atenção e aqui fica:


Se pensamos hoje numa pessoa que procura um parceiro, imaginamos frequentemente alguém que passa parte do tempo colado ao telemóvel, aprovando ou rejeitando perfis numa aplicação de encontros. Obviamente, nem toda a gente o faz, mas é muito comum. O Tinder é a aplicação mais utilizada em Espanha, com mais de três milhões de visitas por mês: agora, pode-se “namorar com toda a gente, a toda a hora e em todo o mundo”, escreve Liv Strömquist em "Não sinto nada". 

A internet e a sua utilização para encontrar um parceiro afastam-nos do momento romântico de começar a sentir algo por um colega de trabalho, de reparar na pessoa com quem coincidimos nos transportes públicos, de trocar olhares num bar… agora, tudo é escolhido. Acabamos por iniciar uma relação não por instinto, mas pela informação que um perfil escrito pelo outro nos fornece.

Strömquist acredita que optamos por esta forma racional de iniciar um relacionamento porque temos a tendência de querer compreender tudo: “A expansão da sociedade de consumo faz com que nos comportemos como consumidores racionais e que tentemos tirar o máximo proveito até mesmo das nossas relações pessoais.”

Neste excelente ensaio em forma de banda desenhada, a autora sueca cita pensadores como Byung-Chul Han, Eva Illouz e Slavoj Žižek, que argumentam que, devido à sociedade consumista e superficial em que vivemos, apaixonarmo-nos – cair de amor (fall in love em inglês ou tomber amoureux em francês) – tornou-se cada vez menos comum: “Em vez de nos deixarmos surpreender por um sentimento e tomarmos decisões intuitivas, pensamos de forma racional, como consumidores”, resume.



Há indícios de que o amor e o consumismo andam de mãos dadas. Nestes dias, as empresas de marketing lançam campanhas para oferecer as melhores experiências para casais, as floristas preparam-se para fazer o seu agosto e as empresas de chocolates e rebuçados faturam, numa semana, um terço dos lucros de todo o ano. No entanto, entre montras repletas de corações, ainda há espaço para a conexão espontânea, para os amores à primeira vista.

Algo assim aconteceu a Francis há alguns meses, durante uma visita ao Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (Malba). Numa das salas, cruzou-se com um rapaz que “lhe pareceu muito interessante”. Foi assim que uma amiga sua o descreveu na conta de Instagram do museu, que publicou um carrossel de imagens com um apelo: “Alejandro, estamos à tua procura”. A série de fotos reproduzia o pedido da amiga de Francis: “Na sala onde estão as obras de Remedios Varo, conheceu Alejandro, um colombiano que está em Buenos Aires em home office”, dizia uma das imagens. “Quando conta a história, sente que conheceu alguém que poderia ser um amigo especial (ou talvez algo mais). […] Agradecia muito se me ajudassem a encontrar o Alejandro. A minha amiga é uma das pessoas mais maravilhosas que conheço, e tenho a certeza de que Alejandro teria muita sorte em conhecê-la melhor.”

Hoje, a publicação tem mais de 36.600 gostos e é, de longe, a mais bem-sucedida da conta do Malba. Nos comentários, centenas de pessoas torciam para que o famoso Alejandro aparecesse e aguardavam ansiosamente a continuação da história. E aconteceu. O próprio Alejandro respondeu: “Uma amiga mostrou-me este post e eu sou o Alejandro. Que loucura e que graça isto.” O museu colocou-os em contacto e, mais tarde, ele publicou um vídeo onde contava que também sentiu uma ligação com Francis e que os dois já trocavam mensagens e se estavam a conhecer melhor. “É muito bonito”, dizia, visivelmente entusiasmado.

Está visto que encontrar o amor nem sempre exige recorrer a uma aplicação de encontros, ao programa A Ilha das Tentações ou ao balcão de um bar. Às vezes, basta visitar um museu – acontece quando e onde menos esperamos.