segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Surpreendente Unanimidade!



Não sei o que mais me surpreendeu aqui. Se o facto de estar inspirado ponto de ter escrito o que escrevi (às vezes calha até bem) ou  se a estranha unanimidade que o comentário obteve.

sábado, 17 de outubro de 2015

O rabo mais bonito do mundo

Calou-se uns segundos, para pensar. Depois recomeçou:
- Dantes diziam-me que eu tinha caraterísticas de mulher, mas não é isso. Não sou uma mulher não porque não quero matar pássaros, nem porque não quero ganhar dinheiro e triunfar na vida. Podia ter feito a vida no exército, facilmente. Mas não gostava de estar no exército. E no entanto dava-me bem com os homens, gostavam de mim e tinham um pouco de medo quando me encolerizava. Não. Era a autoridade suprema, que matava o exército, matava e embrutecia. Gosto dos homens e eles gostam de mim. Mas não suporto a imprudência pretenciosa e as histórias das pessoas que governam o mundo. Não posso seguir esse caminho, odeio a imprudência do dinheiro e de classe. Num mundo como este que poderei oferecer a uma mulher?




- Mas porque é que me hás-de oferecer o que quer que seja?
Não é um negócio. Apenas nos amamos.
- Não, não! É mais do que isso. Viver significa andar para a frente, seguir sempre em frente. E a minha vida não vai correr bem Sirvo para pouca coisa. E não tenho o direito de arrastar comigo uma mulher, para uma vida em que não realizo nada, que não leva a nada. Pelo menos interiormente, para nos manter frescos. O homem tem de oferecer à mulher algum algum significado à vida, se for uma vida isolada e se ela é uma mulher a sério. Não posso limitar-me a ser a tua concubina macho.
- Porque não?
- Porque não sou capar. E acabarias por a odiar.
- Como se não pudesses confiar em mim - disse ela.
Aquele sorriso irónico brilhou no rosto de Mellors.
- O dinheiro é teu, a posição é tua, as decisões têm de ser tuas. E no fundo, eu não passarei do fornicador da minha dama.
- E que mais és tu?
- Perguntas bem. Com certeza é invisível. No entanto, sou qualquer coisa para mim, pelo menos. Compreendo o sentido da minha existência, embora perceba que os outros não o possam compreender.
E a tua existência perde sentido se viveres comigo?
Ele hesitou antes de responder.
- É provável.
Ela também ficou pensativa.
- E qual é o objetivo da tua vida?
- Vou-te dizer. É invisível. Não acredito no mundo, nem no dinheiro, nem no progresso, nem no futuro da nossa civilização. Se a humanidade vai ter futuro, tem de se dar uma grande transformação.
- E como terá de ser o futuro?
- Só Deus sabe. Sinto qualquer coisa dentro de mim misturada com muita raiva. Mas o que isso significa não sei.
- Posso dizer-te? perguntou ela, fitando-o.  - Posso dizer-te o que tens e que os outros homens não têm, e que fará o futuro? Posso?
- Diz-me então - replicou ele.
- É a coragem da tua própria ternura. É o que te leva a acariciar-me e a dizer-me que tenho o rabo mais bonito do mundo.

O Amante de Lady Chatterly / D.H. Lawrence / 1928

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Gostei deste Mellors, e identifiquei-me com ele em alguns aspetos para além dele no romance ter precisamente a minha idade. Filho de mineiros, ex-militar do exército na Índia, invulgarmente culto e de personalidade vincada, irónico e sarcástico, pensa pela cabeça dele e não segue a carneirada, e decide ter uma vida de quase eremita numa cabana da floresta na companhia da sua cadela, como couteiro Clifford, um baronete inglês casado com Lady Chatterly, que ficou numa cadeira de rodas depois da primeira guerra mundial. E é Mellors que Lady Chatterly vai certo dia encontrar num dos seus muitos passeios pelo bosque... 

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Porque estar estar triste ainda não é uma doença

"Não estará na altura de procurares um medico? Isso começa a soar a depressão."

Nunca até hoje tomei uma aspirina, drogas para as dores de cabeça, nem merdas para as constipações ou gripes (que muito raramente tenho), nem nunca tomei a vacina da gripe apesar de até já ma terem prescrito. Tal nunca tomei anti-depressivos, uma das drogas mais consumidas em Portugal. É vê-los por aí, aos drogados, a darem o seu chuto de anti-depressivos e a ficarem com aquele sorriso palerma, com uma verdadeira moca, típica de quem não sente nada. 

E até hoje nunca estive numa cadeira dum psiquiatra ou psicólogo. E o que eu acho é que os médicos ocidentais, infelizmente, estudam e sabem muito mas é de doenças, mas de saúde sabem muito pouco. E o que a medicina ocidental faz, é esconder. É varrer para debaixo do tapete. Fazer de conta que os problemas não existem. Não pretendem curar. Nem convém! Convém é manter a pessoa numa espécie de morto-vivo o mais tempo possível. Uma pessoa curada e com saúde não vais aos médicos, não gasta dinheiro, e a saúde privada é o negócio mais rentável do mundo, só perde mesmo para a venda de armas. Sim, faz-se negócio com a saúde e as vidas das pessoas. 

Mas a medicina ocidental faz de conta. Temos uma dor, não vamos tratar o órgão que está a provocar a dor. Não. Vamos fazer de conta que a dor não existe. Toma-se uma droga qualquer e deixamos de sentir essa dor. Trata-se o desconforto, não se trata a doença. E faz-se de conta que o problema já não existe. E se não dói está tudo bem, problema resolvido. 



E as pessoas hoje em dia - os portugueses como mais ninguém na Europa - correm para os médicos porque estão deprimidas e frustradas. E os médicos lá lhes dão a dose que tomam, e deixam de sentir. Os problemas que motivam essa tristeza e frustração mantêm-se, mas faz-se de conta que está tudo bem e ficam com o sorriso-palerma como se tivessem sido picadas pela mosca tsé-tsé. E ficam agarradas à droga e à sua dose diária para conseguirem suportar viver. E enriquecem médicos e farmacêuticas e todos ficam contentes. 

E eu sei perfeitamente que não tenho andado muito bem. Afinal sou humano não sou um cyborgue como me dizia uma amiga há semanas. E nem sempre os ventos nos são favoráveis. Por vezes vêmo-nos mesmo no meio de uma tempestade que parece não ter fim à vista. Mas não é um médico que me vai resolver alguma coisa. Só eu me posso ajudar. E depois eu não faço de conta, nem gosto de fingir que está tudo bem quando não está. Nem me quero tornar num morto-vivo picado pela mosca tsé-tsé. Porque na verdade eu gosto é de sentir, sou mesmo viciado em sentir, e por vezes quanto mais intensidade melhor. E porque sofrer ainda é viver certo?

Eu não vou ao médico porque estar triste ainda não é uma doença. 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Levar música de casa para o trabalho

Depois de várias tentativas frustradas de arranjar uma rádio decente para ir ouvindo no trabalho, e só de vez em quando, até porque, e ao contrário de muita gente, muitas vezes gosto de estar em silêncio, outras porque até dá jeito para estar na conversa com o camarada que trabalha connosco, decidi então juntar umas quantas músicas e levá-las de casa, mais ou menos como quem leva a marmita para almoçar na cantina, e assim não ter surpresas desagradáveis, como quem vai ao restaurante comer umas moelas e passado um bocado fica com a barriga às voltas.

E na verdade começo mesmo a achar que sou completamente alérgico à música contemporânea, ou pelo menos, à música contemporânea que as rádios que consigo apanhar lá no velhinho rádio que está no tabalho, Made-in-China, e se calhar até nem é tão velhinho assim! vai debitando. Além de que também então não consigo suportar o repetir das mesmas músicas hora após hora. É que não há paciência. 



E estou aqui metido por entre montes de CD a escolher o que vou metendo no leitor de mp3, para depois lá ligar a uma coluna para ter um som ambiente.  E esta é certamente uma das músicas que por lá se vai ouvir:




Temple of Love / A Slight Case of Overbombing / Sisters of Mercy / 1993

domingo, 4 de outubro de 2015

Pára pára chuvinha

Aqui no quentinho da minha cama, vejo o temporal lá fora. E vem-me à memória o tema "Chuva...chuvinha" da Linda de Suza, emigrante portuguesa em França, que almejou grande sucesso , vendendo milhões de discos e livros e que se tornou numa diva por terras francesas.


Un portugais - Linda de Suza - 1978


Então pára lá chuvinha para eu ir lá botar o meu voto!



Chuva, chuva, chuvinha
Vem do céu até a terra
Chuva, chuva, chuvinha
Vem cair na nossa serra

No meu país há tanto sol
Crianças brincam na rua
Sonhandos as vezes
Com um bola
Tão redonda como a lua
Enquanto vivem na ilusão
Vão cantando esta canção

Chuva, chuva, chuvinha
Vem do céu até a terra
Chuva, chuva, chuvinha
Vem cair na nossa serra

No meu país há tanto sol
Que a terra seca com dureza
E o camponês que não tem água
Quer mudar a natureza
Nas colheitas pelo Verão
Ele canta esta canção

Chuva, chuva, chuvinha
Vem do céu até a terra
Chuva, chuva, chuvinha
Vem cair na nossa serra

No meu país, se chover demais
Toda a gente fica triste
As crianças sem brincar
E a colheita não resiste
E a Deus numa oração
Cantam a mesma canção

Pára, pára, chuvinha
Fica no céu deixa a terra
Pára, Pára, chuvinha
Não caias na nossa serra

Pára, pára, chuvinha
Fica no céu, fica lá
Pára, Pára, chuvinha

Fica no céu, fica lá

Pára, pára, chuvinha
Fica no céu, fica lá

Pára, pára, chuvinha

Chuva… Chuvinha / Canta Português / Linda de Suza / 1981

Disfarces de Amor

Sabemos que o amor é uma de entre várias emoções intensas mas a de mais difícil definição. Somos capazes de saber porque sentimos ódio, ciúmes ou inveja, mas incapazes de explicar porque sentimos amor por alguém. No entanto, esta deve ser a emoção mais transformadora do mundo interno, criando uma necessidade que se mantém ao longo da vida.
A procura de um objeto de amor parece ser uma característica da condição humana, sendo uma relação amorosa a que mais poderá contribuir para um desenvolvimento do indivíduo, uma vez que o amor fortalece o Self e este, fortalecido, é capaz de estabelecer e desenvolver relações verdadeiras e com profundidade. No entanto, muitas pessoas vivem constantemente numa indecisão sobre se mais valerá só que mal acompanhado ou mais vale mal acompanhado que só. 
Assim, procuramos compreender como é que o amor se insere numa sociedade onde o mal-estar abunda, assistindo-se a uma procura incessante de excessivos estímulos externos que visam disfarçar o sofrimento, revelado na adoção de pseudo-vidas, mediadas por pseudo-necessidades, estabelecendo-se pseudo-relações que resultam de uma dificuldade em se estar só e com o seu mundo interno.


Livro "Disfarces de Amor - Relacionamentos Amorosos e Vulnerabilidade Narcísica 

Assiste-se nos dias de hoje a um incremento de um pensamento que é da ordem do concreto, onde condutas operatórias consumistas pretendem acalentar as dores e possibilitar um significado ao Self, numa procura de viver tudo freneticamente ainda que com desencantamento, sem veracidade do Eu, visando o alcance de um estado maníaco artificialmente provocado, quer por recurso a álcool e drogas, quer pela compulsão de consumo que mascára o que falta ao Eu transformando-o num deus de posse, dono de uma anestesia afectiva com entorpecimento dos sentidos, aproveitados de modo superficial: toca-se mas não se sente, ouve-se para não se escutar, cheira-se mas não se distingue odores, olha-se para o que está à mostra mas não se vê a essência. Desenrolam-se nestes contextos relações amorosas, pessoais, de trabalho, sem vivacidade nem intimidade, traduzidas numa conduta camaleónica de pseudo-adaptação que não resulta em amor nem em produtividade.
(...)
A verdade é que estamos num tempo onde se estabelecem ligações com pessoas de qualquer parte do mundo através da internet, mas não se cumprimenta sequer o vizinho do lado. Estes meios proporcionam o excesso de estímulos, de informação em massa que impede o pensamento, o homem apenas funciona como receptáculo, sem espaço para processar tão variada informação, sendo que no meio de tanta estimulação surge o risco da perda da própria individualidade de um Eu fragilmente edificado.
(...)
É assim que se vive sem vida, sem objetos contentores, numa sociedade do espetáculo, do teatro de marionetes, manipuladas pelos supostos desejos alheios dos deuses idolatrados, sem qualquer profundidade ou interioridade, numa hiperactividade permanente que permita pôr-se a fugir de si próprio, mas que sem este motor externo se despenham num precipício de inferioridade e vergonha, de apatia e desânimo. Dizia António Variações na sua canção: “Tenho pressa de sair, quero sentir ao chegar vontade de partir para outro lugar. Não sei de que é que eu fujo, será desta solidão? Mas porque é que eu recuso a quem quer dar-me a mão?”
(...)
Por outro lado, assistimos a um crescendo de mal-estar do desejo denunciando uma grande dificuldade em integrar o desejo com o Amor, o que conduz à adopção de condutas sexualizadas desprovidas de afecto, numa preocupação exibicionista com o desempenho envolto numa anestesia afectiva, são estas relações plenas de entusiasmo estéril, fugaz, e sem contacto emocional íntimo. O que se deseja não é um outro, mas a própria imagem idealizada ou uma reparação do narcisismo falhado do próprio. Consideramos que este mal estar do desejo tem subjacente um forte mal estar vincular, que se repete ao longo da história relacional do indivíduo, e que vai minando de maneira nefasta toda a relação supostamente amorosa.