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domingo, 27 de setembro de 2020

A Igreja Sentada à Extrema-Direita do Pai

 "A burguesia portuguesa não dorme tranquila. Tem a intuição do inevitável. Sabe que está condenada, vencida pelo progresso, pela evolução lenta mas segura da civilização mundial, caminhando decididamente, seguramente, para a democracia socialista que não é, afinal, contra ninguém, nem mesmo contra a própria burguesia, mas em que pretender tornar felizes todos os habitantes da Terra, não à força, mas garantindo tão-só a todos os cidadãos o direito ao Trabalho dignamente remunerado e à liberdade codificada pela lei justa, discutida e aprovada pelo Parlamento nacional, eleito pelo povo - isto é: na convergência dos interesses e na fraternidade das intenções. 

Manuel Francisco Rodrigues ia assistindo à morte dos companheiros e elaborando no seu espírito o que seria o grande livro a sair em 74, três década depois:

Sabemos que estamos manietados, que o nosso fim é a cova do cemitério, sob a terra africana, longe da nossa família e da nossa Pátria. Porém, sabemos também que venceremos. Perderemos talvez no temppo; mas ganharemos com certeza no espaço. Cada um de nós sabe que é um pioneiro de uma casa justa e tem a certeza que essa causa triunfará no futuro. E, asism, sentimo-nos ligados por esse porvir que, de quaquer modo, também será obra nossa. E essa certeza, enche-nos de orgulho e de força, a força que anima os estóicos, os santos e os heróis... Por isso sofremos, em silêncio, curvados para a terra, mas os nossos espíritos pairam muito alto... Até os mortos, mesmo amarelos, têm a nobreza imaculada e pura de tudo que é santo... Sim... Todos os nossos mortos pertencem já à História... deram entrada no Panteão dos Heróis... santificados pelo martírio... São os dignos descendentes dos gloriosos bravos das Catacumbas...

E não há uma voz generosa que se levante, um padre, um juiz, um ministro, um homem bom, que esteja em liberdade e que tenha influência moral e social para exigir, pedir ou suplicar, em nome de Cristo, da Lei, da Humanidade, por humanidade ou por piedade, por qualquer coisa e de qualquer modo, que se termine com este horrível sepulcro, onde mais de duzentos homens esperam a hora da morte, entre os quais há, talvez, quem tivesse cometido algum delito, mas onde há, também, com certeza, absolutamente, indiscutivelmente, muitos inocentes...

Aquele horror não podia continuar. Era preciso condenar os delinquentes se os havia, mas acabar com aqueles matadouro indigno da terra lusitana ("os portugueses são tenros" - reconheceu recentemente Leopold Senghor, ao ser entrevistado pela TV italiana). Manuel Francisco Rodrigues escreveu ao cardeal Patriarca de Lisboa de então, a fim de que enfrentasse a prepotência, em nome da liberdade e da consciência humana. Mas foi em vão... Ninguém lhe respondeu. A sua voz clamava no deserto do medo... no pântano da indiferença, conforme explica. 

sábado, 5 de setembro de 2020

O Auschwitz Português

Está muito na moda ler sobre Auschwitz, o campo de concentração da Polónia. O que eu pergunto-me se a maioria das pessoas que lê sobre o nazismo terá consciência do que se passou no campo de concentração do Tarrafal criado pelo fascismo português. Lá não havia câmaras de gás porque a morte demorava a chegar, daí que ficou conhecido por "Campo de Morte Lenta":

"Em Cabo Verde, a colónia penal do Tarrafal terá transcendido tudo quanto de horroroso perpetrou a PIDE. Uma obra digna do nazi Kramer, que foi um dos primeiros instrutores dos agentes da polícia política portuguesa. Pela pena dos escritor português Manuel Francisco Rodrigues poderemos evocar muitos dias do Tarrafal, estação obrigatória n via repressiva pela qual a PIDE fazia passar tantos portugueses.

Sob os raios quentíssimos, os forçados arrancavam e transportavam a pedra e, em longa e interminável fileira custodiada por soldados negros, acarretavam a água do poço para as necessidades do povo da aldeia. Quando um escravo saía vítima do paludismo mortífero, outro era imediatamente escolhido para o substituir. E, depois, como se tudo isto não bastasse, construiu-se a célebre 
... - isto é: a ante-câmara do cemitério. 

A Frigideira é um bloco de cimento, dentro do qual qual há um orifício onde emparedam os reclusos que caem na desgraça de não agradar aos que estabelecem as ordens. Sob a acção do sol, a temperatura vai subindo dentro do buraco....sobe... sobre... sobe! O desgraçado ou desgraçados que lá estão, vão suando... suando... até ficarem cozidos e depois assados. É claro que, submetidos a esse tratamento, morrem muito mais depressa, sobretudo quando  
o ingresso no buraco se faz ao som das chicotadas do cavalo-marinho rasgando as costas 
dos condenados, às quais se seguem os consagrados rigores do jejum periódico forçado. 
Quem defende os reclusos contra os abusos de autoridade dos seus carrascos? - Ninguém, absolutamente ninguém.. Juízes não há aqui, o que não admira, pois já não os havia em Lisboa. 
E, como, apesar de tudo, a moral dos reclusos não cedia, prossegue o escritor - inventou-se um dia A Brigada Brava, cuja divisa era Trabalhar até rebentar! Tarrafal, aldeia de morte (Julho de 1974)

Opressão e Repressão, Subsídios Para a História da PIDE / J.M.Campos, L.Pereira Gil (1975)