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sábado, 9 de novembro de 2019

O que é que Haveria de ser dos Ricos e da Religião sem os Pobrezinhos?

"O "pobrezinho"era uma entidade que povoou a minha infância e que recolhia o amparo e o carinho de todos (...) Em todas as "boas" casas da minha meninice meiga e temente cultivavam-se os pobrezinhos, regavam-se com bocadinhos de pão com conduto, com pequenas moedas de cobre, e cultivava-se sobretudo a sua pobreza. Havia a comida dos pobres, a esmola dos pobres, as visitas dos pobres e a sexta-feira, sobre ser diz aziago, era também o dia dos pobres (...) As coisas para os pobres eram objetos intermédios entre o uso e o lixo. Estavam pré-determinadas e correspondiam ainda à dificuldade do desapossamento das coisas, mesmo as que já não servem, que está na base da civilização em que vivemos.

(...) Sinto que, se não houvesse pobrezinhos, a vida espiritual da minha infância teria sofrido uma lacuna tão grave como se não tivesse havido missa (...) Os ricos deliravam com estes pobrezinhos assim cordatos, submissos e respeitadores. Havia muitas espécies de pobres. Quanto ao modo como adquiriam os meios de subsistência, havia os pedintes, os necessitados e os envergonhados (...) quanto à sua conformação psíquica, havia os preguiçosos, os bêbados e os mmaluquinhos propriamente ditos.
Alguns atrasados mentais davam muito jeito numa casa. Faziam pequenos serviços: regar as flores, ir a uma loja certa buscar isto e aquilo. Acomodavam-se aos trabalhos de uma certa estrutura doméstico-provinciana, ganhavam menos, ficava-se muito bem visto (...) Quem não viveu como eu vivi a monotonia dos anos trinta não pode imaginar como estas coisas eram importantes e divertidas. De resto, com alguma razão a avó do Otto Lara dizia: "Boa criada só meio retardada".

(...) Entre o pessoal efetivo das casas e os pobres de pedir havia uma zona intermédia de seres que viviam da esmola mas não eram tratados, nem gostariam, de ser profissionais propriamente ditos. Eram normalmente mulheres, e eram chamadas "meninas" até à decrepitude. Faziam pequenos trabalhos de costura, algumas tinham jeito para bordados, outras faziam bolos (...) Vestiam do vestir que sobejava dos guarda-fatos quando já estava no fio, comiam do comer que sobejava da mesa quando já estava frio.

(...) Toda a minha infância ficou assim povoada de pobres de que estes eram os mais valiosos, porque mais autónomos, alguns mesmo marginais às estruturas, mas havia outros que estavam completamente integrados no nosso status comum em conluiado contraponto.
Todos os que faziam parte do chamado "mundo do trabalho" também eram pobres se se mantinham submissos e respeitadores. Caso contrário eram "bolchevistas". Quando aprendi a palavra  "bolchevista", longe estava de saber que eles tinham tido coisas lá na Rússia com os "menchevistas".

(...) Todo este clima justificava a filosofia do velho Meneses:
"Nosso Senhor acuda aos ricos, que os pobres com qualquer coisa se governam". E era.

Como o mundo dos ricos tinha grandes contestações ao nível da ética tradicional e porque, evidentemente, havia pessoas muito mais ricas que nós, isso dava-nos alguma margem de manobra para singrar entre a riqueza, que implicaria uma série de imprecações em relação aos preceitos evangélicos e não justificava o ritmo de poupança em que estávamos sendo criados e que era o nosso estilo de viver, e a pobreza, que não era manifestamente o nosso estado.
Recorria-se então a um truque  de linguagem: "éramos remediados". A situação de "remedido" era extremamente cómoda porque, sem as dificuldades da pobreza e sem o odioso da riqueza, permitia que vivêssemos de boa consciência o nosso quotidiano privilegiado, sendo certo também que os pobres, desconhecedores destas subtilezas  linguísticas, nos enquadrava, muito justamente no mundo dos ricos, mas nunca nos trouxeram por isso qualquer espécie de dificuldades (...)

Mansos, cordatos, "òmildes", respeitadores, obedientes ao senhor e ao Senhor, por eles não vinha ao mundo qualquer espécie de males. Pretendiam só que lhes fosse permitido viver o seu dia-a-dia da miséria e que lhes assegurassem aquele mínimo que os deixasse subsistir. Em troca, forneciam a boa consciência aos ricos e deixavam até que os poetas os tomassem para pretexto do seu lirismo barato.
A cariente disso. Não, de maneira dosa burguesia tradicional cultivou por tudo isto a pobreza dos outros com um carinho enternecedor. Nunca lhes passou pela cabeça que cabeça que talvez fosse possível acaba com ela ou, pelo menos, tratar muito seriamnenhuma. A pobreza fazia parte integrante do universo económico, religioso e moral dos ricos que encontraram sempre nos pobres a mais devotada das colaborações (...)

Logo que a classe operária teve, nos tais países desenvolvidos, teve acesso aos benefícios do capitalismo, passou a incomodar-se menos com a transcendente missão de que os outros a tinha encarregado e, muito naturalmente, passou a preocupar-se mais com o frigorífico, a televisão e o automovelzinho, que são coisas que dão muito jeito e só quem as tem é que sabe a falta que isso faz (...)

Acresce que as pessoas talvez não se tivessem dado bem conta de que uma sociedade capitalista cria, muito naturalmente, um proletariado de mentalidade capitalista porque os processos, as motivações, os valores, são exatamente os mesmos. Por essa razão, natural é também que tudo assim aconteça: o condicionamento global em que a sociedade capitalista vive não é de molde a dar ao problema uma solução adequada (...)

Foram quase sempre "traidores" da burguesia que criaram as motivações capazes de mobilizar as forças que originaram as grandes mutações sociais (...)

Este tipo de situação que aparece de forma clara na sociedade em geral tem muito naturalmente os seus reflexos na sociologia duma religião que enfiou como uma luva a sociedade burguesa com as suas grandezas e misérias. Em vez de, como esperava, a religião ter modificado as estruturas, foram as estruturas que modificaram a religião. A conveniência dos pobres dos ricos corresponde exatamente à conveniência dos pobres da Igreja. Os mesmos sinais de perigo iminente soltam-se, simultaneamente, dos senhores da burguesia e dos senhores da Igreja, preocupados com "a agitação e a subversão que se pode provocar nos seus queridos pobrezinhos".

terça-feira, 15 de outubro de 2019

do Triste Temor a Deus

"Fui ensinado a viver sem alegria nem otimismo nenhuns. Para a minha infância, minha e de toda uma burguesia ocupante, o sofrimento era a única razão de viver, mas como obviamente, nós não sofríamos lá grande coisa, havia que construir um mundo de sofrimento que justificasse toda uma conceção roxa e quaresmal da vida, quiçá da história. Onde as pessoas se sentiam verdadeiramente bem era depois das Cinzas, até sábado de Aleluia. Na quaresma se realizava, a pretexto da Paixão da Cristo, todo o adequado encontro entre o objeto homem e aquilo para que tinha sido feito: uma vida que era sofrimento e sacrifício. Isso era vivido em cada gineceu familiar. Antes de adiantarmos já trágicas conceções sobre a tremenda dor humana que, por hipótese lisonjeira, pudessem já estar a imaginar sobre o cenário de infância que me foi dado viver, quero desde já esclarecer que esta dor e este sofrimento não tinham grandeza nenhuma. Era uma tristeza geral e emoldurante que se manifestava em coisas mais ou menos ligadas ao aumento do custo de vida, ao pessoal que era cada vez  mais raro e exigente, aos costumes que se dissolviam a olhos vistos: as operárias já iam ao cabeleireiro e gastavam o dinheiro todo em permanentes. Coisas banais e mesquinhas, coisas mesmo inevitáveis como o frio que fazia no Inverno, mormente numa região montanhosa, ou o calor que fazia no Verão, eram imediato pretexto para os ais justificativos da nossa existência sofredora. A melhor notícia que se poderia dar nessa altura era uma desgraça, quanto mais próxima melhor. Um partir de uma perna, um desastre de automóvel, e então uma morte! Daí resultava que as pessoas se sentiam extraordinariamente importantes e realizadas era em dia de pêsames. No morte dum parente próximo cada um se sentia naquilo para que fora feito, talhando-se a jeito para que dissessem: "Ai", fulano. Era a própria imagem da dor!" (pág. 62)

"Peregrinação Interior - Reflexões sobre Deus" - Alçada Baptista (1971)