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segunda-feira, 30 de março de 2020

E a Ira Começou a Fermentar...

"E os homens em êxodo espraiavam-se pelas estradas e havia fome e miséria nos seus olhos. Não empregavam argumentos nem possuíam um sistema certo de agir; tinham apenas o seu número e as suas necessidades. Quando aparecia trabalho para um homem havia logo dez a disputá-lo, lutavam por ele, aceitando uma paga miserável. "Se aquele tipo trabalha por trinta cents, eu trabalho por vinte e cinco". "Se ele trabalha por vinte e cinco, eu trabalho por vinte".
"Não, eu... eu, que tenho fome. Trabalho nem que seja por quinze". "Trabalho mesmo só pela comida. Os meus filhos. Só queria que o senhor os visse! Estão com o corpo cheio de furúnculos, estão que nem podem andar. Dei-lhes frutas podres, apanhadas do chão incharam terrivelmente. Eu; eu trabalho até por um pedacinho de carne".
E isso causava satisfação, pois, embora os salários diminuíssem, os preços dos géneros mantinham-se altos. Os grandes proprietários estavam contentes e mandavam distribuir ainda mais impressos para atrair mais gente. Os salários baixavam e os preços mantinham-se altos. Não tarda muito que haja de novo escravos no nosso país.

Foi então que os grandes proprietários e as grandes companhias inventaram um novo método. Um grande proprietário comprava uma fábrica de frutos de conserva. E, quando as pêras e os pêssegos amadureciam, ele descia o preço das frutas abaixo do custo de produção. Como fabricante de frutas de conserva, ele pagava a si mesmo um preço baixo pelas frutas e, mantendo alto o preço das frutas em conserva, auferia ótimos lucros. Os pequenos proprietários, que não possuíam fábricas de de fruta de conserva, perdiam as suas propriedades, que eram absorvidas pelos grandes proprietários, pelos bancos e pelas companhias, às quais pertenciam essas fábricas. Com o tempo diminuía a número de propriedades. Os pequenos proprietários não tardavam a mudar-se para as cidades por um certo tempo, onde esgotavam o crédito, os amigos, as relações. Depois acabavam ávidos por trabalho, prontos a assassinar por trabalho. 

As companhias e os bancos trabalhavam para a sua própria ruína, mas ignoravam-no. Os campos estavam prenhes de fruta, mas nas estradas marchavam homens que morriam de fome. Os celeiros estavam repletos, mas as crianças cresciam raquíticas e inchava-lhes o corpo com as pústulas da pelagra. As grandes companhias ignoravam quão estreita é a linha divisória entre a fome e a ira. E o dinheiro, que podia ter sido empregado na melhorias dos salários, gastava-se em bombas de gás, em carabinas, em agentes espiões, em listas negras e exércitos bélicos. Nas estradas, os homens deslocavam-se como formigas, à procura de trabalho e de comida.  
E a ira começou a fermentar.


quarta-feira, 18 de março de 2020

A Diferença Entre Ladrão e Negócio

"Afinal, quer levar o pneu ou não quer? 
Tenho de o levar, tenho mas - por Deus! - isso leva-nos o dinheiro quase todo.
Bem, isto aqui não é nenhuma casa de caridade. Leva-o ou não?
Sim, acho que tenho de o levar. Deixe-me primeiro vê-lo melhor. É melhor abri-lo um pouco. Quero ver como está o forro. Ó seu filho da puta, você não disse que o forro estava perfeito? Olhe para aqui, está quase furado!
Diabo, você tem razão! Como é que eu não vi isso?
Viu, sim seu filho da puta! E quer arrancar-nos quatro dóllars por um pneu quase furado! Tenho vontade de lhe pregar com tudo na cara!


Ora, deixe-se de armar em valente. Já lhe disse que não tinha visto isso. Sabe uma coisa? Dou-lhe este por três dóllars e cinquenta; pode levá-lo. 
Levo o Diabo! Vou mas é chegar até à cidade mais próxima de qualquer maneira. 
Você acha que o pneu aguenta até lá? 
Tem de aguentar. Prefiro gastar o pneu até à jante a dar um tostão que seja aquele bandido. 
Que é que você pensa afinal que seja um negociante? Ele já disse que não estava ali para se divertir. E isto é que é negócio. Pois o que é que você pensava? Um negociante tem ... o que é que é chama-lhe outra coisa. Olhe: vê ali aquela tabuleta, à margem da estrada? "Service Clube". Almoço às terças-feiras. Hotel Colmado? Seja bem-vindo. É um clube de refeições. Faz-me lembrar uma história que ouvi a um tipo. Ele tinha ido a uma daquelas reuniões e então contou a tal história a todos aqueles homens de negócios que lá estavam. Quando eu era miúdo - disse ele - o meu pai mandou-me levar uma vitela pela arreta e disse-me "Anda, leva-a lá abaixo para que a cubram". E eu assim o fiz. E agora, depois daquela partida, quando um negociante se põe a falar de serviço, pergunto sempre aos meus botões quem é que ele pretende levar com aquela cantiga. Quem está metido nos negócios tem de mentir e aldrabar; o que é chama-lhe outra coisa. Isso é que interesse. Se você roubasse o pneu, seria considerado um ladrão e ia preso; ele tentou roubar-nos quatro dóllars em troca de um pneu furado: a isso chama-se negócio.   

As Vinhas da Ira / Steinback (1939)