Quem já passou por uma relação de muitos anos, sabe que, quando as coisas acabam, reunimos uma série de objetos que nos liga à outra pessoa, pois durante esse tempo, passaram muitos aniversários, nossos e da data em que se começou, sem contar que, muitas vezes, até recebemos ofertas, sem que seja precisa uma data especial.
Esta semana andava a arrumar a casa, e dou de caras com um saco que já tinha posto em cima de um móvel há uns tempos, e quando olhei para ele de novo, já nem sabia do que se tratava. Um saco plástico, com uns chinelos azuis, e roupa de trazer por casa da outra senhora.
A relação acabou, mas nunca me senti impelido, a reunir todas as coisas e a desfazer-me delas. Há até quem decida queimar tudo, como se num passe de mágica, todo aquele passado com aquela pessoa desaparecesse, e tudo o fogo exorcizasse. Mas não, pode-mo-nos livrar de tudo, de todas as tralhas, prendas, cartas e fotografias, que nunca apagaremos da nossa vida aquele longo período de tempo. Por vezes, era bom que fosse assim tudo tão simples, mas não é. Teremos sempre de viver, para o bem e para o mal, com o sucesso ou o fracasso das nossas escolhas, e muitas vezes, o medo do insucesso, assombrar-nos-à várias vezes de novo no futuro, e isso vale para tudo na vida, e não só nas relações com os outros.
Claro que reuni as tralhas todas num caixote (acho que foram dois), e arrumei-as bem arrumadinhas, porque um gaijo não quer estar sempre a tropeçar em coisas do passado. Mas muitas outras coisas banais, como a roupa por exemplo, é-me completamente indiferente, e nem sequer me lembro disso, é algo automático. Visto uma peça que me foi oferecida, com a mesma naturalidade, com que visto uma peça comprada por mim. É roupa, gosto das peças pelo bem que (acho) que me ficam, e não vou passar a odiá-las de um dia para o outro, só porque passei a ver a pessoa que ma deu com outros olhos.
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| Via Pinterest |
Não sei se há dados sobre isto, mas é muito provável que a malta da psicologia, que se dedica a estudar estas coisas, saberá se existem padrões de comportamento. Não sei se serão mais os homens ou as mulheres que guardam ou se desfazem das coisas, ou se nem sequer tem nada a ver com sexos, e seja simplesmente uma questão de personalidade, de se ser mais ou menos apegado às coisas, de se gostar ou não de acumular tralhas.
É provável que um dia me desfaça de todas aquelas coisas pessoais... mas não estou certo disso. De qualquer das formas, tê-las hoje, não significa, que mantenho, secretamente, a esperança, de um dia voltar ao local onde fui feliz. Não, pelo contrário, desse passado quero, e felizmente tenho tido distância. Acho que tenho as gavetas do meu passado muito bem arrumadinhas, embora isso não signifique que me tenha esquecido dele. E ainda bem que não esqueci, pois é principalmente com os fracassos que podemos aprender alguma coisa, para não voltarmos a cometer os mesmos erros.
Ainda assim peguei naquele saco, com os chinelos azuis e a roupa de trazer por casa, e resolvi mandá-los para o lixo. Já cheiravam demasiado a mofo.
