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terça-feira, 25 de abril de 2017

Anti-socializar por aí...

Afastei-me do maralhal. O evento surpresa que se realizava no piso superior não era coisa para mim. Apesar de julgar ser muito sociável, na verdade, ironicamente, sou também bastante anti-social. Parece um contrasenso mas não é.
Mas eu conseguia ouvir bem ao longe que aquilo não era mesmo para mim! E pé ante pé, fui-me afastando e acabei por ir até ao pequeno parque de merendas onde tinha um campo de futebol de cinco. Os putos, três da terra, e outros três que tinham ido connosco, andavam por lá a jogar e fiquei a vê-los. Geralmente nestas idades nunca ninguém consegue explicar aos miúdos o que é o futebol: um jogo com duas equipas mas só com uma bola e em que o objetivo é passá-la, de jogador em jogador, até consegui-la enfiá-la por entre os postes. E os putos fazem o oposto, em vez de fazerem a bola correr, correm feitos malucos com ela nos pés. Até a perderem. Para fazerem isso, deveriam inventar um outro jogo, em que cada um jogava com uma bola. 
Um dos putos da equipa da terra, acho que era o mais alto, mexia-se com os tiques do Cristianinho. Talvez seja normal. Eu não via putos a jogar há muitos anos, mas os putos imitam sempre os ídolos. Talvez hoje os putos joguem todos a imitar o Cristianinho. Eu por exemplo, tinha a mania de me movimentar como o Caniggia, ou o Poborsky ou o Kulkov...! Bom, isto depois de me ter passado aquela fase de querer imitar o melhor guarda-redes do mundo. 



Passado um bom bocado chega uma mulher do nosso grupo, e que fiquei a saber que era mãe de um dos putos. Talvez seja mais ou menos da minha idade. Baixa, cabelos pelos ombros, pintados, talvez entre o loiro e o cor-de-laranja. Facilmente a identifico só pela voz grave e anasalada como a da Sónia Tavares. Ela ficou uns metros à minha frente sentada noutro banco. Eu continuava também sentado, sozinho, a observar os putos, mas agora mais interessado em observar a mãe.  A mãe ia dando instruções. Fazia comentários. Até que a mãe foi também jogar e foi para a baliza. E as regras subitamente mudaram: "se alguém chutar de força leva vermelho". 

Mais adiante, lá ao fundo, depois do campo de futebol, tinha saído o grupo de pessoas que por lá tinha estado à sombra. E passado um bocado um puto que passou por lá achou um telemóvel ou televisor. Os telemóveis agora são quase do tamanho dos televisores. Longe vão os tempos em que os homens competiam para ver quem o tinha mais pequeno. O Adulto dizia-lhe que ele ia fazer alguém feliz, alguém que já poderia ter dado conta que tinha perdido o telemóvel. Mas ainda assim o puto advertia "Se não for de ninguém fica para mim"!

Nos dias de hoje não sei qual seria a percentagem de crianças que, achando um telemóvel que mais parece um televisor o iria entregar. Se calhar estou a partir de um princípio negativo, é possível, mas ainda assim, o puto marcou uns pontos, ou melhor, as pessoas que o educaram a entregar o que não é dele marcaram pontos.  

E foi só mais um dia a anti-socializar por aí. 

domingo, 20 de abril de 2014

Na sala de espera

- "Pode descer e aguardar".

Assim fiz. Desci as escadas e mal cheguei ao corredor que desagua na sala de espera, já este estava cheio de gente, com pessoas ocupando todos os lugares sentados e com muitas outras pessoas de pé, espalhadas pelos cantos. Atravessei o corredor e dirigi-me para a sala de espera, também ela lotada e com pessoas de pé encostadas às paredes. Pousei a mochila no chão, e fiquei ali, de pé, no meio daquelas pessoas que estavam encostadas às paredes, e de frente para a plateia que estava sentada, de frente para mim, aguardando a sua chamada. 

Assim que alguém libertou um lugar junto à parede, preenchi-o eu, encostando-me também à parede.
Nas salas de espera, espera-se. Na falta de algo que nos entretenha, como o livro que não levei, ou  a bugiganga eletrónica que não tenho, ocupa-se o tempo a olhar para as pessoas que estão no nosso campo de visão, e para todas aquelas pequenas coisas que vão acontecendo. Chega uma jovem, com a sua bugiganga eletrónica na mão, e na ausência de um lugar sentado, senta-se de imediato no chão na maior descontração. Mais tarde, arranjando um lugar sentado, mantendo o mesmo à-vontade, reclina-se na cadeira, sentando o cu na extremidade do assento, e contrabalançando o reclinar das costas com as pernas esticadas. 

As pessoas vão envelhecendo e perdem aquele à-vontade, pensei. Não é socialmente correto e as pessoas acabam por se auto-censurar. Provavelmente, daqui por uns anos, a jovem deixará de poder sentar-se no chão, e reclinar-se na cadeira como uma criança, porque afinal terá de se comportar, como os outros esperam que ela se comporte, no fundo, agindo adequadamente para a sua idade. Conforme vamos envelhecendo, ninguém nos diz o que podemos ou não fazer, mas cada pessoa sabe o que tem de fazer para aceite pelos outros. 

freeimages.com

Uma outra jovem, lá na última fila de cadeiras, estava de frente para mim, e obrigava-me a cruzar vários olhares com ela. O meu olhar circulava por diferentes pontos no infinito, mas invariavelmente lá acabava por encontrar o seu rosto, como se tivesse um qualquer efeito magnético sobre mim. Ainda assim, alguns olhares, por vezes, tornavam-se desconfortáveis, quando de repente, ao longe, fixávamos o olhar um no outro e depois algum dos dois tinha de o desviar.
A partir de quantos décimos de segundo é que as pessoas pensarão que estamos a olhar fixamente para elas? Deixámos de ser crianças, já somos adultos, e sabemos que temos de estar a olhar para todos os sítios, menos fixamente para os olhos das pessoas, se não ainda pensam que estamos armados em parvos.

A jovem que estava no meu campo de visão, tinha os cabelos escuros pelos ombros e os olhos também escuros. Do meu ângulo de visão só a via do tronco para cima, e via um grande saco preto e branco em cima das pernas. Tinha uma camisola branca ou beije, com um casaco fino da mesma cor, ambos de malha. Avaliando só por aquelas peças de roupa, e porque nós também comunicamos com os outros pela postura e forma de vestir, e eu diria que seria uma jovem um tanto ao quanto conservadora. No entanto depois das pessoas que estavam na sua frente terem saído, pude ver que tinha umas calças justas camufladas e umas sapatilhas verdes, e na verdade aquilo baralhou um pouco a primeira impressão.

Outras personagens foram chegando e entraram também no meu campo de visão. Um homem moreno, mais velho que eu, de cabelos compridos, pelos ombros, e barba, vestindo um tipo de roupa que eu mesmo poderia vestir. Trazia umas calças castanhas, com bolsos na frente, e um casaco de malha. Algum tempo depois entrou uma jovem, toda vestida de preto, de lábios grossos e sorriso fácil. Não sei porquê, mas fiquei com a ideia de que seria boa pessoa. Se calhar caio no engodo de achar que todas as pessoas que sorriem facilmente são boas pessoas. Talvez esteja errado, ou talvez a senhora fosse mesmo boa pessoa. Rapidamente começou a trocar impressões com outras pessoas, mais velhas, que estavam sentadas junto de si, e se era de sorriso fácil, também era de conversa fácil. Também reparei que ela captou as atenções do senhor, mais velho que eu, de cabelos compridos e barba. 

Para lá e para cá, caminhava um outro jovem, ao telemóvel, exibindo umas sapatilhas de uma conhecida marca de bicicletas. Uma outra jovem, que eu identifiquei com a tipicamente beta, levantou-se para ir beber água, e quase espetou com a geringonça dos copos no chão. Um décimo de segundo depois, e eu ter-me-ia oferecido para a ajudar, mas ela lá conseguiu encastrar tudo no sítio. 

Até que chamaram a jovem lá do fundo, de cabelos e olhos escuros. Já teria passado mais de meia hora, e eu impaciento-me quando tenho de esperar. Pouco depois chamaram por mim. Entrei e dirigi-me à pessoa que me iria atender. Coincidência das coincidências, ao meu lado esquerdo, lá estava a jovem de cabelos escuros e olhos escuros. 

Minutos depois saí, atravessei toda a sala de espera, e depois fiquei a refletir. Poderemos realmente saber alguma coisa das pessoas, unicamente por aquilo que elas comunicam connosco, só pela postura e pela linguagem corporal? E qual será a impressão que eu provoco nos outros com a minha presença? Que é que aquelas pessoas da sala de espera, que me observaram porque fiquei no seu ângulo de visão, ficaram a pensar daquele jovem, de cabelos loiros, de calções camuflados e camisola de manga curta? 
Fiquei também a pensar, que certa vez, uma pessoa, que provavelmente nunca conhecerei pessoalmente, certa vez me disse: "se te visse na rua, nunca na vida que diria que serias a pessoa que és".