Muito se tem falado dos lares ultimamente, não pelos melhores motivos e, certamente que, digo eu, não será alheio o facto de serem instituições privadas que, como tal, se baseiam na produção de lucro e não em prestar o melhor serviço possível às pessoas. Mas eu não vou escrever sobre o funcionamentos dos lares nem da cruzada anedótica do líder da oposição, o sindicalista de direita da Ordem dos Médicos até porque isso tem sido tema que me dá tanto asco que até fujo dele.
Venho falar de uma lenda que ouvia em criança. Era a história que se contava que quando os idosos estavam velhos demais para trabalhar era tradição os filhos levavam-nos às costas, monte acima para ali serem abandonados para morrer longe de casa, não dando assim trabalho até aos seus últimos dias. E contava a lenda que, certa dia, um filho carregou o seu pai às costas para fazer o mesmo procedimento. Chegado lá acima, deitou o pai e para o deixar mais confortável cobriu-o com uma manta e foi à sua vida. Mas o pai resolveu cortar a manta a meio e chamou o filho para lhe dar a outra metade. O filho insistiu que o pai ficasse com a manta inteira mas o pai - moral da história - disse-lhe estas sábias palavras:
"Não filho, leva esta metade porque vai-te fazer falta quando os teus filhos te vieram cá trazer."
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| The Wounded Angel - Hugo Simberg |
Hoje em dia já não se vai abandonar os familiares no monte para morrerem. Até há uma lei que não permite que isso não seja feito aos animais de estimação. Contudo a mantinha confortável são agora os hospitais onde os velhos ficam depositados e depois os filhos não os vão buscar, e são principalmente os lares, onde ficam tranquilamente depositados sem chatear nem dar trabalho a ninguém. É este o mundo perfeito onde vivemos. Mas um dia, a mantinha que te levou a depositar os teus pais num lar, será a mesma com que os teus filhos te depositarão a ti. E isto era tudo muito bonito se os lares fossem locais de enriquecimento e de vida feliz. O que a pandemia está a provar é que, por esse país fora, do norte ao sul, os lares simplesmente não dão condições para as pessoas viver. E eu diria mais, vivemos num tipo de sociedade em que, por um lado os pais já não têm possibilidade de educar e estar com os seus filhos, nem depois o têm para acompanhar os últimos dias dos pais. Triste esta sociedade.
