sábado, 28 de fevereiro de 2026

Uma Gota de Bem Neste Oceano Escuro

Provavelmente, a melhor coisa que li esta semana. Uma entrevista do El País a esta senhora húngara (escritora e jornalista) que, em criança, foi deportada e sobreviveu ao campo de extermínio de Auschwitz. Continua a ir às escolas falar do que viveu e analisa nesta entrevista os tempos atuais, com esta nova vaga fascista que se está a espalhar pelo mundo como um vírus. 

 

Edith Bruck, de 94 anos, nasceu numa pequena aldeia da Hungria, numa família judia muito pobre, num ambiente hostil. Aos 13 anos foi deportada para Auschwitz com a família e apenas ela e uma das irmãs sobreviveram. Participou na terrível marcha da morte durante a evacuação do campo, até ser libertada em 1945. Tem um poema que diz: “Nascer por acaso / nascer mulher / nascer pobre / nascer judia / é demasiado / numa só vida”. Mas é uma vida que Bruck viveu intensamente - ainda fuma - e recorda-a conversando com o EL PAÍS na sua casa, no centro de Roma.

Depois de andar de um lado para o outro pela Europa e por Israel, acabou em Itália em 1954, onde começou uma nova vida como escritora, jornalista, argumentista e realizadora de cinema. Em 1959 publicou o seu primeiro romance, Quem assim te ama (editora Ardicia), onde narrava as suas vivências no campo de concentração, pano de fundo de muitos dos seus livros, pouco traduzidos em Espanha. Para além da sua primeira obra, em 2021 foi publicado O pão perdido. Em Itália é uma instituição; até o Papa Francisco foi visitá-la a casa em 2021. Não se cansa de recordar - encara a memória como uma missão.

Porque continua a dar entrevistas? Não é doloroso? Não se cansa de contar a sua história?

Não, posso cansar-me, mas é útil. Também vou às escolas. Às vezes choram e eu choro com eles. Quando me perguntam pela separação da minha mãe, vou-me sempre abaixo. Mas a atenção dos jovens compensa o esforço. Depois da guerra ninguém ouvia, nem sequer nas famílias. “Não tragas Auschwitz para casa”, diziam. Eu comecei logo a contar.

Como vê o mundo hoje?

Muito mal. Este mundo não melhora, nem a humanidade aprende nada com o passado.

Hoje fazem-se comparações com os anos trinta. O que acha?

Não, ainda estamos longe. Não sou tão pessimista. Mas os países não enfrentam a sua própria história. Há 60 anos que vou às escolas e os miúdos estudam as guerras napoleónicas, mas não sabem nada do século XX. Os países tentam apagar o seu passado, mistificá-lo, negá-lo. Tenho medo de que tudo possa começar de novo. Não da mesma forma, nem pela mesma razão. O único país que, até certo ponto, enfrentou o seu passado foi a Alemanha. Itália, nada. Hungria, nada. Hoje temos Orbán, outro reaccionário. Nas escolas ensinam que foram os alemães que deportaram os judeus. Foram os fascistas húngaros. Assim nada mudará.

O que pensa desta vaga de extrema-direita?

O mundo nunca foi muito para a esquerda, por isso não me surpreende. Com a imigração, o racismo aumentou por todo o lado. Vêm para aqui e são desprezados. Gostariam que todos morressem no mar. Mas emigram por desespero, não é que queiram vir para a Europa dançar. Um país católico deveria receber todo o ser humano de braços abertos. O antissemitismo está a crescer, também porque identificam todos os judeus com Netanyahu. Não entendem que eu não tenho de pensar como pensa outro judeu. Em todo o lado dizem: “Vocês, os judeus”. Ouço isto desde que era assim (indica a altura que tinha em criança).


Quando saiu dos campos de concentração estava sozinha no mundo. Alguma vez voltou a sentir-se em casa.

Não. Já não havia casa, já não havia pais, não havia nada. Voltei à minha aldeia na Hungria e expulsaram-nos à machadada. Continuavam a ser fascistas, temiam que denunciássemos alguém. Não é o meu estilo, não sou justiceira. Eu apenas tento fazer algo de útil, uma gota de bem neste mar escuro.

Há anos estava numa loja, aqui perto, e alguém a chamou.

Sim, atrás de mim alguém disse: “Tu és a Edith de Auschwitz”. Era uma mulher, uma kapo (prisioneiros que ajudavam a gerir os campos de concentração). Abalou a minha vida durante algum tempo, esperava-me à porta de casa. Depois desapareceu, tinha medo que eu a denunciasse. Chamava-se Lola Heller, uma carniça, como todos aqueles judeus polacos que sobreviveram e se tornaram nossos chefes. Mas é preciso ter em conta que foram deportados em 1942. Quem sabe quanto sofreram antes. 

Quando cheguei a Auschwitz com 13 anos ofereceram-me ser mensageira entre blocos, um posto que garantia a vida, porque podias levar mensagens em troca de um pedaço de pão. Tinha de anunciar a chamada, que vinha Mengele fazer a selecção. Tinha 13 anos e disse que não. Podia dizer-se não. Mas os seres humanos são frágeis. Por isso digo que não julgo. Discutia isto com Primo Levi; ele dizia que o mal vinha de fora e criava as circunstâncias. Eu dizia que não, que o mal está dentro de nós. Muitos dos que foram deportados connosco tornaram-se imediatamente malvados. O que digo aos jovens nas escolas é que alimentem o pouco de bem que trazemos dentro de nós. Todos podem fazer alguma coisa. Educar os filhos na democracia, no respeito pelo próximo.

Porque acha que Primo Levi se suicidou?

Falei com ele quatro dias antes e estava transtornado com o negacionismo. Telefonou-me e disse: “Percebes que, connosco ainda vivos, já estão a negar o Holocausto?”. Estava desesperado. E disse-me: “Era melhor Auschwitz”.

O que queria ele dizer?

Não sei. Que era melhor Auschwitz, morrer. Quando vinha a Roma passeávamos e ele andava encostado à parede. Eu dizia-lhe: “Vem para o passeio. Está um sol lindo”. Ele não apreciava a luz. Nunca se libertou totalmente do que viveu. Passei anos com ele e não conseguia abraçá-lo. Era rígido. Precisava de muito amor. Dizia que a sua maior dor era que os filhos não lessem os seus livros. É muito difícil ser filho de um sobrevivente.

Mencionou Mengele. Via-o todos os dias.

Quando chegava para fazer a selecção usávamos água e pó para ganhar cor, beliscávamo-nos nas faces. Tínhamos mais resistência do que os homens, que eram como crianças indefesas. Pagaram caro a cultura masculina - mimados, cuidados pelas mães e irmãs, não tinham autonomia.

Também os pobres sobreviviam melhor.

Totalmente. Os burgueses morriam primeiro; dos ricos nem se fala. Os judeus pobres como eu tinham mil vezes mais resistência. Cresci a ouvir “não” a tudo; a pobreza salvou-me a vida.

Mais tarde foi para Israel.

Em 1948 a propaganda dizia que era um lugar maravilhoso. Quando era criança não havia jantar e a minha mãe adormecia-nos dizendo que um dia iríamos para o nosso país, de leite e mel. Mas no barco subiu um homem e, com a sua primeira frase, o mundo caiu-me aos pés: “O que trazem de valor?”. O que podia eu ter? Sabiam que éramos sobreviventes. No barco conheci um rapaz, casei-me e depois divorciei-me. Assim que me divorciei, chamaram-me para o exército e saí do país. Não queria fazer o serviço militar. Não quero fardas na minha vida. Em 1954 acabei em Nápoles e, só de ver o sorriso das pessoas, disse para mim: “Neste país posso viver”. Para mim, a língua foi uma bênção. Era o muro que me protegia da minha língua materna. Aprendi italiano, comecei a escrever e nunca mais parei.

Uma língua estrangeira permitiu-lhe pensar de outra maneira?

Foi uma salvação, uma liberdade total. Nunca escreveria em húngaro. É uma língua que me dói. A palavra “pão” destrói-me. Em italiano não significa nada. Em húngaro, vejo a minha mãe. É uma bela via de fuga.

Íñigo Domínguez / El País

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