domingo, 18 de janeiro de 2026

O Racismo e o Mito do "Arrastão"

Entrevista a Ana Andringa que toda a gente deveria ouvir. 
Aqui ficam alguns excertos para aguçar o apetite. 

"A minha mãe em toda a vida deu-me duas bofetadas (e muito merecido). 

A primeira porque resolvi imitar os outros meninos brancos que via e dei uma canelada num dos meus criados com umas daquelas botas de biqueira de aço e fez sangue. A minha mãe viu aquilo e deu-me um par de bofetadas e disse: ajoelha-te e pede desculpa. Eu pedi desculpa e ela a seguir picou-me, pôs o meu sangue ao pé dele e disse: vês, que direito tens tu de o tratar de forma diferente? Os sangues são iguais..."


"Tínhamos escolas separadas. No meu tempo a escola era segregada, só depois da luta de libertação é que juntaram. E nós tínhamos uma escola de meninos brancos e uma escola de meninos negros. E eu tive a sorte de ter uma professora progressista e um dia disse-nos, porque nós às vezes tínhamos os cadernos sujos: "vocês não têm cuidado nenhum com o que fazem, deveriam ver os meninos da escola negra que não têm hipóteses nenhumas, que por vezes não têm luz em casa, têm que fazer caminhos enormes para vir para a escola e deveriam ver como os cadernos deles são bem cuidados". E disse uma frase que eu nunca mais na vida me esqueci, que é: "eles não se podem dar ao luxo de não estudar", e eu que adorava estudar fiquei a pensar no que é isto de não de se poder dar ao luxo de não estudar. E depois percebi o que é que era. É que se eu não estudasse, apesar de tudo a família havia de ter dinheiro para me alimentar, eles não. E isso acho que me marcou muito. 

Até a missa era segregada, caramba! Tu não podes ser católica e admitir que haja missas segregadas. Mas eram, uma igreja para brancos e uma igreja para pretos. E uma pessoa fica sensível a isso para toda a vida. Depois quando cheguei a Portugal percebi que havia outros pretos, que eram os pobres. Eram brancos pobres que eram tratados como se fossem pretos. Também não tinham casacos para quando estava frio, não tinham sapatos e iam descalços, também não tinham dinheiro para comprar os cadernos, também eram tratados como gente de segunda."

O "Arrastão de Carcavelos"

"É muito engraçado porque as pessoas brancas tinham visto muitos negros. Um miúdo negro que estava lá, filho aliás de um vereador do PSD disse "eram umas vinte pessoas, as pessoas igual a ti são poucas sabes", nós temos medo do diferente. E portanto achou-se que eram muitos jovens e tiveram medo, e umas das coisas que é evidente é uma fotografia que extraordinária e que foi usada como prova de que eles são maus, é um homem negro que está debruçado sobre uma mulher branca, grávida, e então é a prova de como atacaram a mulher grávida. Não! É o marido dela e está a protegê-la, porque está muita gente a correr e a polícia a disparar e não sei quê... A reação é, a criação do medo, tu tens medo do outro. Eu acho muito engraçado porque se diz que isto é um país cristão. É pá, se fosse sabia quem é o outro. Uma das perguntas que mais se faz é "quem é o teu outro". 

Então, mas, se não era um arrastão era o quê?

Era um dia 10 de junho, estava um belo dia de praia e muitos jovens das escolas perto de Lisboa foram a Carcavelos e a praia estava muito cheia e tinha mais gente negra do que era costume. Gente negra que, por natureza é mais expansiva (os portugueses são mais contidos talvez) e eles são portugueses também mas são mais expansivos, e eram jovens, estavam a rir e a cantar e entretanto no meio daquilo há uma desavença entre dois casais e aí sim houve violência, de resto não houve nada daquilo. A polícia chega, vê muitos negros, e o que é que o jovem que é negro faz quando vê a polícia? Foge a correr porque já sabe que é ele que vai ser preso ou que vai levar pancada. Portanto, há uma corrida na praia e ainda mais as pessoas de medo..."

Podem e devem ouvir aqui:

 

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