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sábado, 9 de fevereiro de 2019

Pedro Vieira nas Manhãs da 3

Ó Pedro, o que é que te faz escrever livros? Qual é essa motivação... porque enriquecer não se enriquece... 
Que sarna foi esta que tu gostas de arranjar para te coçares?

Eu gosto muito de falar, de estar sempre a dizer qualquer coisa e isto é uma maneira de dizer durante mais tempo seguido, com a vantagem de as pessoas não terem de ouvir a minha voz. 

Mas dá muito mais trabalho do que só falar....

Dá dá muito mais trabalho. Na verdade eu comecei porque fui desafiado para isso, pelo meu amigo Paulo Ferreira, foi ele que achou que eu deveria escrever livros, que era uma coisa que nunca me tinha passado pela cabeça, porque lá está, eu sabia que era uma coisa que iria dar muito trabalho de certeza. Só que depois pronto, pôs-me este vírus e agora... gosto de contar e escrever em geral. 

É engraçado porque eu pessoalmente (*Luís Oliveira) não te conhecia mas sigo-te até nas redes sociais, e às vezes há aquela ideia de: Ok, este gajo escreve muito bem, eu sigo-o no Facebook porque ele pensa muito bem ou eu gosto da maneira como ele pensa ou da maneira como ele escreve, mas passar daí para a escrita pesadona, para cometer um livro, é um desporto diferente digamos assim. Tu nunca tiveste esse medo, ou seja, muitas pessoas que diziam "é pá, tu até tens jeito", mas se calhar estavam a olhar para um Pedro Vieira mas que não é necessariamente um Pedro Vieira autor, romancista, etc e tal...

Sim sim tive. Agora sinceramente é uma coisa que não me preocupa. Mas sobretudo quando publiquei o primeiro livro tinha esse medo de facto. 

Na escrita há sempre essa questão da legitimação, não é?

Eu quando publiquei o primeiro, aliás, eu só me decidi a escrever o primeiro livro, mas quando os mostrei os dois primeiros capítulos ao editor do meu livro, que foi no caso o Francisco José Viegas, ele mandou-me um e-mail a dizer "isto está ótimo, avança". E eu pensei "eh pá, se este tipo diz isto, deve ter outras coisas que lhe apeteça ler, mas se ele acha que isto tem algum potencial então 'bora. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Ninguém é Aquilo Que Diz que É

"Não, ninguém é aquilo que diz que é. Quanto muito, diz, com alguma sinceridade, aquilo que está. Nós é que, por defeito ou feitio, não sabemos usar a língua e, atrás da língua, lá nos vai também a cabeça. Ninguém é ministro, está ministro. Governar-nos-íamos melhor se evitássemos este tipo de confusão entre os dois verbos. Ninguém é advogado, professor, funcionário, médico, passageiro de autocarro ou de metro. Podemos estar, por algumas horas, nessas funções que, durante algumas horas das suas vidas, ocupam.


Luto pela Felicidade dos Portugueses / Rui Zink (2007)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

"Enfim, As Coisas São Como São... Não é Verdade"?

"Querida Bárbara Alexeievna:

Encontrei hoje a Fédora e estive a conversar com ela, meu anjo. Contou-me que se realiza amanhã o seu casamento e que depois de amanhã segue viagem. O senhor Buikov já alugou os cavalos (...)
Olhe, desejo-lhe muitas felicidades, querida! Que a sorte a proteja sempre é a minha maior alegria ; é verdade, a sua felicidade será sempre para mim motivo de satisfação. Bem queria ir amanhã á igreja, mas não posso; é demasiado violento. 
Mas como havemos de continuar a corresponder-nos? Insito outra vez neste ponto...
Quem se há-de encarregar de fazer chegarem ao seu destino as nossas cartas? (...)

Como sabe, vou mudar deste quarto para o quarto onde você morou, onde a Férola me alugará um compartimento. Jamais me separarei desta honrada e boa velhinha. Demais, trabalha tanto! Ontem percorri os seus antigos aposentos demoradamente. Ainda se vê o bastidor com o trabalho principiado. Deixámos tudo exatamente como estava. Demorei-me também a ver os seus bordados . Ainda por lá ficaram uns restos de coisas . Dei com uma carta minha com linhas enroladas nela. Na sua mesinha encontrei uma folha de carta em que a Bárbara escrevera: Meu querido Makar Alexeievitch..." E nada mais. Certamente entrara alguém no momento em que principiara a carta. No canto, separada por um biombo, está a sua caminha... Oh meu anjo querido!
Bem, com isto, adeus, adeus. Por amor de Deus, escreva-me alguma coisa em resposta à minha carta, o mais breve possível!

Makar Dievuchkin



Meu Querido Makar Alexeievitch:

Está tudo acabado! A minha sorte está lançada e não sei o que o futuro me reserva, mas desde já me entrego nas mãos de Deus.
Partimos amanhã e venho, pela última vez, despedir-me de si, meu único, meu fiel, meu querido e bom amigo. É o meu único parente, a única pessoa que me valeu nas minhas dificuldades!
Não sofra por minha causa, seja feliz, lembre-se algumas vezes de mim e que Deus o abençoe! Pensarei muito em si e não o esquecerei nas minhas orações. Acabou-se a nossa convivência! São poucas as recordações agradáveis do passado que levo para a minha futura vida; por isso mesmo, mais querida e apreciada se me torna a sua lembrança e maior estima lhe consagra o meu coração. É o meu único amigo, a única pessoa que aqui me quis bem. Não sou nenhuma cega, pude avaliar bem o afeto que sempre me dedicou. Um simples sorriso meu era o bastante para o fazer feliz, e uma linha minha tinha o condão de o reconciliar com tudo. Agora tem de me esquecer (..)

Prometo-lhe escrever-lhe, meu bom amigo; mas só Deus sabe o que pode acontecer. Por isso, é melhor despedirmo-nos para sempre, meu amiguinho, meu adorado, meu tesouro, como o senhor me chama a mim. Para sempre!... Ai, que abraço tão apertado lhe daria agora! Adeus, querido amigo. Desejo-lhe muitas felicidades! Deus permita que goze sempre de boa saúde; nunca me esquecerei de rezar por si. Oh, se soubesse como estou triste, que horrível peso tenho na minha alma!
O senhor Buikov está a chamar.
Sou eternamente dedicada.

B.


P.S. - A minha alma está tão cheia, tão cheia de lágrimas! Parecem querer afogar-me, despedaçar-me... Adeus, adeus, Makar Alexeievitch! Que tristeza meu Deus! 
Não esqueça, não esqueça nunca a sua pobre Bárbara

B.


Pobre Gente - primeiro livro de Fiódor Dostoiévski (escrito com 25 aos) e publicado em 1846  

domingo, 13 de janeiro de 2019

O Conhecimento É Muito Perigoso

Como contei, na semana passada recebi mais umas cinco dezenas de livros antigos, maioritariamente da coleção "Série Popular" da Livraria Civilização Editora dos anos cinquenta. Estamos a falar de pequenos livros de bolso, de capa mole. Na contracapa o preço: 7$50 (três cêntimos nos dias de hoje)




Comentário da minha mãe:

"Sabes quanto é que nessa altura, o teu avô ganhava a trabalhar (de picareta na mão o dia inteiro) nas obras da marginal? À volta de vinte escudos (seriam hoje dez cêntimos). 




Quando este fim-de-semana comentei com uma amiga, disse-me ela precisamente o que eu penso: o conhecimento é muito perigoso, daí que seja tão inacessível. E isto aconteceu na mesma semana em que ficámos a saber que, Portugal é dos países da Europa onde menos alunos ingressam nas universidades, certamente não porque não tenham capacidades, mas porque, como já sabíamos, Portugal é dos países da Europa em que as famílias mais suportam as despesas com o ensino superior. 




Certamente que nem sempre ensino superior e cultura andam de mãos dadas. Há gente que acaba um curso superior e não tem cultura nenhuma. Ainda assim, o que me parece é que, em Portugal, ainda se vivem tempos idos, salazaristas, onde quem tem dinheiro não gosta de se misturar com a plebe. Gente que tem horror a pobre. Gente que está bem na vida mas que não suporta que os outros também possam vir a estar.

E é por este tipo de coisa que, mal se fala, ainda que só por alto, (como se falou esta semana) em facilitar às famílias portuguesas o acesso dos seus filhos ao ensino superior, que logo venham berrar que não pode ser. Há um certo tipo de políticos de Direita, que representa um certo tipo de pessoas, que tem horror a pobre e veste uma roupa de trazer por casa quando vai aos bairros sociais. Gente que é contra a obrigatoriedade do ensino até ao décimo segundo ano. Gente que queria era que se voltasse ao tempo (como no tempo dos meus pais) em que o ensino era a quarta-classe e dar uma enxada para mão, para as crianças trabalharem. Gente que por certo ainda suspira pelo trabalho infantil, de crianças de doze aos a trabalhar em fábricas, como ainda se via muito no Portugal dos ano oitenta e que fazia as delícias de patrões sem escrúpulos.

E querem agora facilitar o acesso dos pobres às universidades? Onde é que isto já se viu?
De igual forma os livros sempre foram extremamente caros, e são-no especialmente caros em Portugal. O conhecimento é muito perigoso. É muito complicado ter pessoas bem informadas, cultas e com espírito crítico. Assim sendo, é normal que se limite o acesso ao conhecimento. O que se quer é gente acéfala, que come o que as televisões lhes dá a comer, e que sigam as últimas convulsões violentas (que no dia seguinte já ninguém se lembra) nas redes sociais. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Qual é o Livro Mais Antigo que Tens?

Sempre que recebo livros transformo-me numa espécie de criança fascinada como se acabasse de receber um brinquedo. Pego neles, folheio-os, descubro os seus títulos e autores. E se tudo num adulto se explica (ou quase tudo) graças à infância que teve, talvez a explicação para que isto em mim se manifeste resida no facto de eu ter crescido no seio de uma família pobre, onde apesar de haver muito amor não existiam quaisquer livros. E tal como muitos outros portugueses pobres cresci sem o hábito da leitura. Ainda assim, cedo revelava algum jeito para as "redações" (palavra que na altura levava dois "c"), e que depois se começaram a chamar "composições", e tinha algum jeito, principalmente porque acho que sempre fui muito criativo. 


E esta semana recebi mais um saco de livros. Mais de cinquenta! Lembram-se da brincadeira das "Plantas por Livros"? Foi daí a sua proveniência. São quase todos muito antigos, aliás, mais de quarenta são duma coleção da Livraria Civilização dos anos cinquenta.



No meio de todos aqueles clássicos encontrei quatro livros franceses de capa dura, ainda mais antigos. Dois de Física, e um de iniciação à Literatura e Ciência francesa, com duzentas e cinquenta ilustrações. Mas um outro ainda mais antigo, de filosofia, "La Famille - Leçons de Philosophie Morale" de Paul Janet, chamou-me logo a atenção pela dedicatória que tem na primeira página, pois a assinatura é de 1886! Hei lá, isto é antigo! Trata-se de uma terceira edição de 1871. Tem quase cento e cinquenta anos!! Eu não tinha nenhum livro do século XIX!

Eu sei que tenho que ter cuidado com as acumulações, e se continuar assim, a receber aos cinquenta livros de cada vez a coisa pode-se complicar. Outro problema é, com quanto tanto livro para ler, nem sei por onde comece. E hoje acabei, finalmente, "A amizade" do Alberoni. Um bom livro para se oferecer a um amigo.

Talvez pegue neste aqui que se chama "Pobre Gente" de Dostoïewsky e que começa assim:

Ontem fui feliz, excessivamente feliz, como não se pode sê-lo mais! Até que enfim, uma vez na vida, você, sempre tão inacessível, satisfez os meus desejos!

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Tantos corpos nus são todos iguais

Spencer Tunick
"Sobretudo os jovens estão continuamente em busca de experiências eróticas. Podem assim considerar incompleta, parcial, uma relação que não teve como saída uma relação sexual. A busca sexual, a vagabundagem erótica, pode tornar-se paroxismo em certos períodos da vida. Então a pessoa procura "seduzir" ou "conquistar" o maior número possível de pessoas do outro sexo. Em certos aspetos é uma forma de poder, noutros uma exploração, um conhecer. O número, no entanto, acaba por anular o conhecimento, por mascarar as experiências e por destruir, definitivamente, o erotismo. Começando por conhecer, por encontrar pessoas, por viver aquilo que aquela pessoa devia de dar de mais seu e, mesmo, de mais extraordiário, a busca perde exatamente a novidade, o inesperado. As pessoas confundem-se uma com a outra. Tantos corpos nus são todos iguais. O erotismo desvanece-se na diferenciação total.

"A Amizade" / Francesco Alberoni (1984)


domingo, 23 de dezembro de 2018

Sabes o que é um Amigo Verdadeiro?

"Concordaremos que, na maioria dos casos, a palavra amizade tem bem pouco a ver com o que entendemos quando pensamos num verdadeiro amigo. 

Os conhecidos

A maior parte das pessoas que consideramos nossos amigos são, na realidade, apenas conhecidos. Isto é, pessoas que não estão tão longe como a totalidade amorfa dos outros. Sabemos o que pensam, os problemas que têm, sentimo-las perto, recorremos a eles para nos ajudarem e ajudamo-los de boa vontade. Temos com eles boas relações. Mas não temos uma confiança profunda, não lhes contamos os nossos anseios mais secretos. Ao vê-los não nos sentimos felizes, não sorrimos espontaneamente (...)

Solidariedade Coletiva

Devemos sem dúvida distinguir amizade da solidariedade, tal como já o tinham feito o antigos. Neste segundo sentido, amigos são todos aqueles que estão do nosso lado, por exemplo numa guerra. De um lado os amigos, do outro os inimigos. Este tipo de solidariedade nada tem de pessoal. Aquele que exibe a mesma divisa que eu é amigo; mas não sei nada dele. A esta mesma categoria pertencem as formas de solidariedade que se constituem nas seitas, nos partidos e nas igrejas. Os cristãos chamam-se entre si de irmãos ou amigos. Os socialistas chamam-se de camaradas e os fascistas companheiros. Estamos sempre, no entanto, em presença de ligações coletivas, não de relações pessoais. 

Relações de Posição

É a classe das relações de tipo pessoal, mas baseadas na posição social. Tínhamos visto que a amizade pelo interesse era a dos sócios em negócios, era a dos políticos. Este tipo de ligações tem bem pouco de afetivo, e dura enquanto dura o interesse a salvaguardar. Encontrámos, além disso, muitas relações profissionais, em colegas de trabalho e em vizinhos de casa. 

Simpatia e Trato Amigável

Chegamos por fim à categoria das pessoas com quem nos sentimos bem, que são simpáticas, que admiramos. Mas, mesmo neste caso, devemos ser cautelosos na expressão da expressão amizade. Muitas vezes trata-se de estados emotivos transitórios, superficiais (...)

E como surge a Amizade

(...) "A amizade é uma filigrana de encontros." Ninguém sabe antecipadamente se haverá ou não um encontro. O encontro é sempre imprevisível, inesperado. Como a felicidade, que já não está onde a procuramos, onde a esperamos como caçadores em guarda. Se procuramos ansiosamente a felicidade se a queremos, encontramos mais frequentemente a desilusão. Ou o aborrecimento. A felicidade aparece de improviso, quando não pensamos realmente nela, como se nos seguisse e esperasse, para se revelar, que estivéssemos distraídos (...)


Cada um de nós é um turbilhão de desejos, com um núcleo ardente no centro. No encontro tocamos, de qualquer forma, esse núcleo central de nós próprios. Damos uma resposta àquilo que interessa. Que é, pois, a eterna questão: de onde vimos, onde estamos, e para onde devemos ir? O amigo é aquele que nos faz sempre entrever a meta, e faz connosco uma parte de caminho. Do encontro com o amigo espero sempre, portanto, uma revelação (...)

Só com o amigo podemos compreender e apreciar a sua e a nossa singularidade. A experiência do amigo, no entanto, pode até ensinar outras formas de ser que, se se confundem, nos dão desejos de mudar. Não para ser como ele, renegando-nas a nós próprios. Mas para sermos realmente nós próprios. O amigo, com a sua diversidade, pode revelar-se um dos nossos possíveis deuses, no qual nos reconhecemos (...)

Quando encontramos um amigo, mesmo depois de muitos anos, é como se o tivéssemos deixado num momento antes. Retomamos a conversa como se fosse um diálogo interrompido. E no entanto nao é um diálogo interrompido, não é a continuação daquela conversa. O assunto é diferente. Nós mudámos, os nossos problemas mudaram. Não obstante, temos a impressão de continuar aquilo que estávamos a fazer. Como se não tivesse havido um intervalo, como se o tempo não tivesse passado. É um fenómeno desconcertante. Não há nada de semelhante na nossa experiência quotidiana (...)

O amigo é, portanto, aquele que "te faz justiça". Justiça num sentido profundo, vital. A própria vida pode ser justa ou injusta. O amigo que aprecia uma tua qualidade que ninguém tinha valorizado, que te estima por algo que os outros desprezam, faz-te justiça nesse sentido profundo. O amigo está do teu lado, combate e, se necessário, vinga-te. Por isso te faz justiça.

A Amizade / Francesco Alberoni (1984)

sábado, 22 de dezembro de 2018

O Acaso de Pitigrilli

Como já aqui contei, foi por mero acaso que conheci a escrita Pitigrilli. E de imediato me viciei. É fascinante o que se absorve, página após página. Eu não sou de sublinhar os livros pois, para mim, um livro, como tantas outras coisas, é quase como se fosse um altar: sagrado. Mas se fosse como muitas pessoas que são de sublinhar, então não seria fácil encontrar páginas dos livros de Pitigrilli que não estivessem riscadas com chamadas de atenção.

Há de tudo, sejam pensamentos, críticas, argumentos, ideias ou informação de interesse que nos enriquece.  Depois da "Virgem de 18 Quilates" acabei por ler vários livros seguidos dele e, aos poucos comecei a apanhar-lhe a repetição de algumas mesmas ideias, aqui e ali, como por exemplo a admiração da inteligência e da memória dos elefantes. Ainda assim, mais do que as vezes que Pitigrilli se refere aos elefantes, são as inúmeras vezes que se refere ao "acaso".  Aqui deixo alguns excertos:



Tôda a vida é regulada pelo acaso. Um médico salva-nos mercê duma magistral intervenção cirúrgica, outro mata-vos com uma simples picada. O encontro de uma dama no "café" pode ser  causa de uma bifurcação na vida. Essa mulher pode envenenar-vos o sangue com uma doença, levar-vos à loucura, dar-vos um filho, tornar-vos feliz, tornar-vos mau, tornar-vos melhor. Basta olhar em volta de nós: dentistas que por enganam arrancam um dente são, críticos que com um único epíteto arruínam um artista ou uma êmpresa, engenheiros que se enganam num cálculo de resistência. E querem que só o juiz seja justo! Mas tôdas as injustiças do mundo contribuem precisamente para repetir os acasos vários de que resultam as múltiplas aparências do mundo e o imprevisto da vida. É a mistura do perfeito e do imperfeito que forma a beleza das coisas e que indica a colaboração entre Deus e os homens. Todo o acusado tem o seu destino escrito antecipadamente e coisa alguma o pode mudar.: sejam quais forem os argumentos subtis que os advogados invoquem, o que quer que seja de inevitável preside à sorte dos acusados. As razões pelas quais se absolve ou se condena são quási sempre diferentes das previstas pelos requisitórios ou pelas defesas. 

Pegue num caso grave de êrro judiciário, analise-o da origem à conclusão, da prisão aos trabalhos forçados: que série impressionante de acasos desfavoráveis que levam um inocente à grilheta! No mundo meu amigo, tudo é aparência, tudo é apenas representação. A verdade? Oh! Quem é que alguma vez soube o que é a verdade? É uma coisa bem miserável, se são suficientes dois pequenos copos de conhaque para a dissimular ou a transformar. E a Justiça? Basta um sapato que incomode, para mudar uma maneira de sentir e, por conseqüência, de julgar.
- E então?
- E então, é preciso acreditar exclusivamente no acaso. A concordância dos acasos favoráveis chama-se fortuna; a concordância dos acasos desfavoráveis, infortúnio. Quando a êsses acasos se associa a vontade dos homens, chama-se a isso o bem ou o mal, e quando êsses homens fazem profissão de julgar, então fala-se em justo ou injusto. Mas o bacilo que nos fulmina, o automóvel que nos esmaga, o homem que nos calunia, o juiz que nos condena, são apenas variantes dum mesmo fenómeno: o acaso...

(Pág. 87 / "O Homem que procurava o amor" / 1929)

Sete anos depois, no livro "Loura Delicocéfala" de 1936:




- Interessante. 
- Não é interessante - disse Teodoro. - É o acaso

(...)

As coisas parecem singulares quando as vemos do avesso; se um motorista da Cruz Vermelha, depois de vinte anos a transportar feridos do lugar do acidente para o hospital, sofre um acidente mecânico, o episódio é mais do que normal; são coisas que acontecem pelo menos uma vez na vida a todos os automobilistas. Mas para o ferido que justamente daquela vez que estava na ambulância, a coisa tocará as raias do inverosímil; depois de ter sido vítima de um acidente na estrada, é muito esquisito, para ele, ser vítima de um segundo acidente de carro. O mesmo facto que para o motorista não tem importância, para o ferido é uma probabilidade que na matemática se representa com um, dividido por um número seguido de três ou quatro mil zeros. 
Juju acendeu um cigarro. Teodoro tomou-lhe das mãos o isqueiro:
- Para si - continuou - não é esquisito que este objeto esteja cheio de gás. Mas se pensar que o gás foi extraído do petróleo e que o petróleo é a transformação de jazidas imensas de peixes que ficaram nas depressões da terra quando as águas dos oceanos se deslocaram há centenas de séculos atrás, parecer-lhe-á esquisito que para acender o cigarro, queime o que se tem conservado, através dos milénios, de um peixe que ficou a seco em qualquer planalto da Pensilvânia. 

Pág. 81...
... e doze páginas diante:

- Afinal - disse ela - compreendeste que te amo. É inútil que to confesse ou que to oculte. Mas nem te amo pelos teus olhos frios nem pelas tuas têmporas grisalhas, nem porque fazes parar os enterros e tens familiaridade com a raiz de mandrágora. Amo-te porque surgiste num momento propício. Tu compreendes estas coisas. 
- Sim, compreendo essas coisas; nós julgamos que os nossos atos têm grande importância, como os nossos méritos e a nossa vontade, e ao invés somos vítimas ou beneficiários do acaso. Se o "mycoderma aceti" pousa numa ferida, nada acontece, mas se cai num copo de vinho transforma-o em vinagre ; se o bacilo de Nicolaïer cai num copo de vinho nada acontece, mas se pousa numa ferida aí está a morte por tétano. 

(e já a caminhar para o fim do livro na página 317)

Quando Zweifel voltou para casa, não quis ver o quarto que fora de Cinci. Foi procurar a última carta de Juju: "Hoje estou bela... querem vender-me  uma plantação de borracha, em Madagascar..." Mas onde estava? Em Madagascar? Como econtrá-la? Onde encontrá-la?
Queria que Juju lhe desse uma nova Cinci.
Mas uma nova Cinci não se faz por encomenda; não se faz por medida; as coisas mais belas não nascem pela vontade dos homens; nascem por acaso.
Nascem por acaso como o jovem pessegueiro, ao longo da via férrea, florescido entre as pedras engorduradas de lubrificantes, entre os restos das cestinhas de viagem; aquele jovem pessegueiro, nascido de um caroço atirado pela janela por um viajante distraído. 
Por um viajante distraído, como Bob. 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

O Livro para se Oferecer a um(a) Benfiquista neste Natal

Sinopse:
O primeiro livro da trilogia de Smiley, a série que o tornou famoso em todo o mundo e consagrou John le Carré como um dos grandes mestres da literatura de espionagem. 
Smiley e a sua gente deparam-se com um extraordinário desafio: uma toupeira um agente duplo dos soviéticos conseguiu infiltrar-se e ascender ao mais elevado nível dos Serviços Secretos britânicos. A sua traição comprometeu já algumas operações vitais e as melhores redes. A toupeira é um dos seus. Mas quem?



domingo, 2 de dezembro de 2018

A Carneirada do "Sempre se Fez Assim"

"Os homens aglomeram-se na estupidez como a limalha de ferro no íman. É a estupidez, é o carneirismo, que faz andar a multidão de preferência por um lado do caminho e não por outro (...)

Nunca notaste a violenta reação, o simultâneo movimento de defesa de uma comunidade de estúpidos, quando aparece um inteligente? Quando um inteligente entra na sala, os estúpidos riem-se da sua gravata; quando aparece no meio do povo injuriam-no ou crucificam-no; Jesus lutou contra a estupidez dos formalistas; Buda contra a estupidez dos brâmanes. Quando um inteligente diz: "Para ir buscar especiarias à Índia, em vez de dar a volta por África, experimentemos navegar para oeste", acaba por fazer a viagem de regresso com grilhões nos pulsos, ainda mesmo que na ida tenha descoberto um continente. 

Outra pausa. Continuou:
- E este desastre acontece-lhe porque lutou contra a compacta organização daqueles que escolheram por mote a frase: "Sempre se fez assim". Mas se se fizesse como sempre fez, ainda hoje queimar-se-iam nas praças as feiticeiras, atormentar-se-iam com ferro em brasa os epilépticos, enforcar-se-iam como em 1600 os que comem carne na Quaresma, apedrejar-se-ia a adúltura, usar-se-ia a tortura para obrigar à confissão. É por virtude de algum inteligente que do apedrejamento da adúltera se desceu aos seis francos com que o código francês pune o adultério; é por obra de algum inteligente que a tortura não sobrevive a não ser em formas atenuadas numa ou noutra esquadra balcânica, onde os pontapés no baixo-ventre se chamam interrogatório. 


domingo, 25 de novembro de 2018

No Meu País as Touradas Não Têm Touros Nem Bandarilhas

- "Vossa Alteza falou em caçada ao veado? Julgava ter ouvido dizer que em todo o Grão-Ducado era proibida a caça. 
- E assim é - respondeu Giselda - esta selvajaria está proibida há dez anos, desde que subi ao trono; a caça abusiva é punida com seis meses de reclusão, um ano para os reincidentes, mil xelins de multa e a confiscação da arma. Há cinco anos, em França convidada pela Duquesa d'Uzès, tive o desgosto de assistir a uma caçada ao veado. Ao verdadeiro veado. O pobre animal, de olhos errantes, perseguido por imbecis a cavalo, despedaçado pelos cães, no meio de delicadas senhoras que teriam desmaiado se as manicuras lhes tivessem enfiado as tesouras por baixo da unha, fez-me chorar de indignação; sem saudar ninguém, deixei a Duquesa, um ministro, um pretendente ao trono de França, e fugi para Paris. No dia seguinte mandei buscar as malas. Para se justificar, a Duquesa d'Úzès disse que antes da caçada as matilhas, os cavalos e os cavaleiros eram abençoados, numa solene cerimónia, pelo seu capelão privado. Eu disse: "Quanto a isso gostava bem de conhecer a opinião de Jesus". Toda a imprensa da direita, desde a "Croix" até à "Action Française" me atacou. Quando regressei a Glotenburgo o partido clerical tinha-se unido com aos comunistas para me derrubar. Então, mandei que em todos os cinemas do Grão-Ducado os beijos na boca, que antes duravam três metros e meio de fita fossem limitados a um metro e setenta e cinco, e em dois dias acalmei a opinião pública e os jornais. A caça ao veado, no meu país, é uma caçada sem veado e sem espingardas: um pretexto para correr ao ar livre, jogar às escondidas nos bosques, cair na relva. 


Loura Delicocéfala / Pitigrilli (1936)

sábado, 17 de novembro de 2018

Desejada

"Tens sido para mim tão sómente a Desejada, 
pois nunca a minha face aproximei da tua.
O meu amor ideal é com a luz da Luz, 
da Lua que ilumina e não aquece nada.

Apenas surges tu - visão eterea, alada, 
na sombra que me cerca, inteiramente nua, 
a luz do teu olhar sobre a minha alma atua, 
deixando-a de visões e sonhos povoada.

Nudez que ninguem mais descobre ou adivinha!
Nem sabes tu, meu Bem, com quanto ardôr te quero, 
sabendo que és só minha, e toda, toda minha.

E nunca a tua carne em minhas mãos agarro!
- É porque Deus (vê lá que sonho belo gero!)
Não soube traduzir, minha visão, em barro.

Desejada / Poemas / Roberto Macedo (1965)


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A Menina que Via as Horas nos Olhos do Gato

Selligmann trazia-lhe os jornais ilustrados e o cirurgião oferecia-lhe os livros da sua biblioteca. Mas Paulo suplicou:
- Tragam-me cor!
Queria dizer: "Tragam-me flores do Sul, ou frutos do além-mar, ou uma matilha andaluza, ou uma ingénua colcha do Sudão, de cores berrantes." O cirurgião premiu o botão da campainha e a uma enfermeira que apareceu silenciosa, disse:
- Liana.
Pouco depois entrou uma menina de quinze anos, de cabelos tão vermelhos e luminosos, que parecia haver dentro deles uma lâmpada acesa.
- Aqui está a cor - disse o cirurgião.
Era sua filha: tinha os olhos maravilhados e grandes como os olhos das crianças quando lêem os contos de fadas.
- Os enfermos a quem visita - disse-lhe Paulo - curam-se logo; deve trazer a sorte consigo!
(...)


Não havia outra menina com quem brincar. O seu único amigo era o Relógio.
- Um gato.
- Que nome!
- Pus-lhe o nome de Relógio porque os olhos dele marcam as horas. Quando o chamo, ele vem logo, e os seus olhos não erram nunca. A pupila contrai de dia e dilata-se de noite com movimento tão regular que por ela deduzo as horas com exatidão: na obscuridade a pupila é redonda; pela manhã torna-se oval; ao meio-dia é uma vertical finíssima, que progressivamente se dilata pela tarde. Quando o senhor quiser saber as horas pergunte-me.
Paulo pensou em Jutta e confrontou a cerebralidade dela com a candura desta menina.
- Liana - disse-lhe -, você lê as horas nos olhos dos gatos e passa as noites a confiar as suas aspirações às estrelas, mas faz também outra coisa que não me confessou ainda.
A menina enrubesceu.
- Ontem, da minha janela, vi-a, no jardim, desfolhando um malmequer.
A menina baixou a cabeça para esconder o sorriso e a indignação e fugiu. Mas quando, dois ou três dias depois, Paulo Pott deixou a casa de saúde, ela ofereceu-lhe um ramo de malmequeres e presenteou-o com um retrato de Relógio, dizendo:
- Vejamos se aprendeu alguma coisa: a que horas foi tirada esta fotografia?
- Não sei.
- Repare nos olhos. Às quatro da tarde. É tão simples.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Diferentes Traduções do Mesmo Título dum Livro Trazem Ainda Outro Problema

Más Traduções de Títulos que Ainda Por Cima Revelam o Enredo é mau. Decidir-se dar diferentes nomes ao mesmo título traduzido ainda é pior!

Logo após ter publicado esta entrada no blogue fui à estante ver que livros de Pitigrilli ainda tinha para ler, afinal, se gostei tanto do último, porque não continuar pelo mesmo autor?

Só que, de repente pego no livro "O homem que inventou o amor" viro a capa e leio "título orignal: "L'esperimento di Pott". Ou seja, comprei uma série de livros do autor, e dois deles, um dos anos quarenta e outra edição dos anos sessenta, com diferentes títulos, são afinal o mesmo livro. Haja paciência!


domingo, 4 de novembro de 2018

As Coisas Não São Como São, Mas Como Se Consideram

"As coisas não são como são: são como as consideramos: a genebra, se lhe chamarmos genebra, é uma bebida para as pessoas que trabalham nas minas; mas se lhe chamarmos gín, é um licor de grande luxo.
Se enquanto examinar a Ceia de Leonardo de Vinci lhe não disserem: Que rosto de traidor tem o quarto conviva à esquerda!" o senhor não sabe qual dos doze é o Judas. Mas apenas lhe disserem: "Aquele é o Judas", achar-lhe-á um rosto de canalha. 
(...)
Se pronunciar diante de um farmacêutico, ou dum botânico, ou dum bebedor, ou duma porteira, a palavra "ruibarbo", o farmacêutico pensará na raiz, o botânico na planta, o bebedor no aperitivo e a boa mulher em pastilhas digestivas. 
Se um homem vai por uma estrada internacional e não tem dinheiro no bolso, os gendarmes prendem-no, porque o seu caso chama-se vagabundagem; mas, se tem um livro de cheques, toda a gente o respeitará, porque se trata não de vagabundagem, mas de turismo. 
(...)
Um senhor qualquer que dorme com sua própria mãe ou sua própria filha, faz simplesmente um ato imundo; mas, se esse senhor se chama Oedipo, o seu ato torna-se imediatamente um episódio mitológico. Eschilo faz dele uma tragédia. Se se chama Loth , o seu nome é imortalizado na Bíblia e as suas porcarias são contadas em todas as línguas em todas as escolas do mundo. Uma senhora nua será simplesmente imodesta, como dizem os eclesiásticos; mas, se lhe puser uma árvore atrás das costas, torna-se numa ninfa. Se lhe pusermos legumes nas mãos, torna-se Ceres; se for um espelho, será a Verdade; se uma espada, a Vitória; se lhe prender aos pés um pedaço de corrente, torna-se a Liberdade. Com uma camisa de noite, abotoada nos ombros, é a Tragédia. Enfie-lhe uma liga, torna-se uma cortesã. As coisas não são como são, mas como se consideram. 



sábado, 3 de novembro de 2018

O Evangelho da Riqueza

"A santificação da propriedade privada e a conversão de qualquer valor mercantil têm por consequência a profunda desumanidade da classe dirigente, o seu desprezo pelo homem, a maior parte das vezes mascarado sob as aparências de uma falsa filantropia, mas então exibido cinicamente. Os homens são julgados pela sua força de trabalho e considerados como simples instrumentos. As relações humanas são vazadas de qualquer conteúdo que não seja utilitário e o trabalho de um assalariado pode ser comparado a qualquer mercadoria: "O trabalho como farinha ou o tecido de algodão, deveria ser sempre comprado ao preço mais baixo e vendido ao preço mais alto". A regra que comanda a retribuição dos operários ("qualquer salário é equitativo se é igual ao que obtém este tipo de trabalho no mercado livre") não deve sofrer nenhuma exceção nem ser submetida consideração de ordem humanitária. Pois "a beneficiência e os negócios são e devem permanecer eternamente dissociados. Um patrão não está mais adstrito a obrigações financeiras em relação aos seus operários após lhes ter pago salários ordinários, que estes a seu respeito ou ao de um desconhecido". A verdadeira ética do business está completamente contida nesta declaração de um industrial: "Eu considero os meus operários exatamente como considero as minhas máquinas. Enquanto puderem executar o meu trabalho por aquilo que decidi pagar-lhes mantenho-os tirando  deles o que posso tirar". E sem dúvida espera tirar ainda mais convencendo o operário que o triunfo está à mercê de todos, que só depende do mérito individual. Daí o regresso a um puritanismo militante e agressivo. 

O Capitalismo Selvagem nos Estados Unidos - Marianne Debouzy (1972)

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Vens Hoje a Minha Casa?

Um dia, êle disse à menina Schumann:
- Venha hoje a minha casa.
Ela respondeu:
- Não.
Outro dia, êle repetiu:
- Venha a minha casa
Ela respondeu:
- Sim.
Quando ao crepúsculo, se preparava para se retirar, ela disse-lhe:
- Teve-me duas horas em sua casa e nem sequer me deu um beijo.
- Quis demonstrar-lhe que em minha casa não corria perigo algum. Voltará?
- É possível. Ver-nos-emos àmanhã na Sorbonne. 

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Mais Vale Ler um Livro Antigo

"O amigo, efetivamente, ali estava, tendo nas mãos um grosso livro de páginas furadas por uns pequenos orifícios sobre os quais passava vagarosamente os dedos pálidos, cheios de nós como um bambu, olhando para o ar, com o olhar vago.
O presidente sentou-se a seu lado, pegou-lhe na mão e apertou-lha com modo afetuoso.
- Já? - perguntou o cego com um sorriso na direção dele, mas um pouco desviado. - Acabaste?
- Acabei sim. Que estás a ler?
- Vergílio. 
- É o prémio Goncourt deste ano?
- Não. Só leio livros antigos. Todo o livro novo não é mais do que a mistura de ideias, de factos e de nomes tirados de outros livros e dispostos numa ordem um tanto diferente. Apenas impresso, vai tomar lugar nas estantes até que um novo escritor dali o tire para extrair uma ideia, um facto uma data ou um nome, que misturará com outros elementos tirados doutros livros, para deles fazer um novo livro. Mais vale ler um livro antigo.

"O Homem que Procura o Amor" - Pitigrilli (Dino Segrè

Plantas por Livros


A ideia surgiu-me por mero acaso. Eu gosto de ler mas os livros são muito caros, especialmente caros para os baixos salários praticados em Portugal, onde a mão-de-obra é muito barata quando nos comparamos com os outros países europeus e, um livro, mesmo português e que não foi alvo de nenhuma tradução, é quase um objeto de luxo. Por outro lado, há algo que eu tenho em excesso e que preciso despachar, não tanto para fazer dinheiro, que ainda assim nunca é de desprezar, mas para libertar espaço, porque acabei por me tornar um quase perigoso acumulador de plantas, que além de as propagar às dezenas, detesta deitar o que quer que seja fora, porque é uma planta, um ser vivo.

E, se isto é um mero passatempo, se calhar até aqui está uma ideia que poderia ser engraçada para um negócio, porque se calhar não é assim tão disparatada quanto isso. Temos então que eu tenho muitas plantas e as plantas são cada vez mais caras. E se calhar tu até tens muitos livros em casa que te queres desfazer. Porque até deixaste de ser solteiro e foste viver com uma pessoa parecida contigo e que se calhar até tem muitos livros que tu também já tinhas. E qual o sentido de terem livros repetidos em casa não é? E entretanto descobriram o gosto por plantas e queriam começar a comprar algumas mas apercebem-se que até é uma coisa dispendiosa. Ou então já estás reformado e queres começar a despachar mais de metade dos livros que tens numa estante (vê lá que até deitaste uns caixotes de livros fora!) porque já não fazem sentido para ti e queres-te ver livre deles. E assim por mero acaso encontras alguém na internet que até aceita livros como moeda de troca, que até te dá uma série de dicas e, até se voluntaria vê lá tu, para ir lá casa colocar as plantas em vasos novos(deve ser por ser demasiado simpático que estou solteiro!) e sem gastares dinheiro algum, resolves o problema.  

Como disse, isto começou por brincadeira mas estou a gostar cada vez mais da ideia. Quem sabe um dia ainda me vai tornar numa espécie de jardineiro-alfarrabista que fala de Pitigrilli enquanto muda umas plantas de vaso! E se calhar até seria engraçado ter um espaço, uma espécie de viveiro de plantas, onde as pessoas as poderiam comprar, mas em alternativa poderiam levar uns livros e levá-las de borla. Um espaço onde coexistissem plantas e livros, se calhar nem seria assim tão disparatado... Onde até se pudesse ler e/ou aprender sobre plantas. Onde se fizessem oficinas de plantas, para aprender sobre jardinagem, e porque não, onde se fizessem clubes do livro para se aprender mais sobre determinados autores ou diferentes temas. E já agora, curiosamente os livros, (além do pergaminho) primeiro vieram da planta do papiro, e depois das árvores.

E a brincar a brincar, nesta última troca recebi mais de sessenta livros, e só um deles, um livro de poemas dos anos quarenta que me chamou logo a atenção, e que tive a curiosidade de ir investigar, e fui encontrá-lo à venda num alfarrabista por vinte e cinco euros.  Logo, se calhar isto até seria rentável! E se eu tivesse uma sócia muito entendida em literatura para ficar responsável pela parte dos livros, então é que era!