quarta-feira, 30 de novembro de 2016

It's my Lai lai lai



Uma mistura de Bon Jovi com Dr Alban à maneira ucraniana...  Se não é a melhor versão de sempre, anda lá perto!



It's my life (cover) / Selo i Ludy


sábado, 26 de novembro de 2016

Definições: Capitalismo

"A liberdade que há no capitalismo é a do cão preso de dia e solto à noite."
AGOSTINHO DA SILVA

Tropeçava nesta imagem - que vale mais o que mil palavras -  e chegava à brilhante conclusão sobre o que é o capitalismo:

No fundo o capitalismo é mesmo isto: arranjar um problema que não existe, mas convencer o maior número de pessoas que este novo produto ou serviço, na maior parte das vezes completamente supérfluo, e até nefasto à sociedade, que é essencial para a sua vida das pessoas! As pessoas têm mesmo de comprar esta nova coisa, seja ela lá qual for, senão as pessoas serão infelizes. O capitalismo é isso, criar a ideia artificial que vende a felicidade, apesar de, ironicamente, nunca como agora o mundo viver deprimido a Xanax, Valium e Ritalina. 

E no capitalismo é preciso sempre mais. O tão propalado "crescimento económico" é isso. Por isso a propaganda do aumento da taxa de natalidade. São precisos novos exércitos de consumidores. Como é que a economia pode crescer se não se aumentam os salários? Só fabricando novos consumidores! Mais contribuintes! É preciso vender, vender sempre mais, até o mundo rebentar!


"Vendes um peixe a um homem, ele come por um dia. Ensinas o homem a pescar, arruínas uma fantástica oportunidade de negócio".

Toda a gente tem de querer ter o que toda a gente tem, toda a gente quer fazer o que toda a gente faz. Ainda hoje comentava que, desde que recomecei a trabalhar, comecei, de novo, a aperceber-me do que as pessoas fazem, dos seus hábitos e das suas rotinas. E só nos últimos meses, a moda passou de: andar à caça duns bonecos virtuais com o telemóvel, para ir fazer o máximo de compras no Lidl para ter umas miniaturas plásticas ridículas! E toda a gente só fala nisto naquele momento, até que passado um mês, já ninguém se lembra das Pokemonas e do lixo plástico do Lidl e andarão todos completamente excitados com outra idiotice qualquer. 

"A desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do muno das coisas"
KARL MARX

E como tal, para cada nova ideia, completamente idiota, existem exércitos inteiros de gente que quer logo comprar, consumir ainda mais, mais que o vizinho do lado. Ninguém quer ser diferente. Todos querem ser iguais, apesar de todos pensarem que são especiais e melhores que todos os outros.
Pensar diferente exige uma coisa dificílima que é... pensar! Para quê pensar se os outros o podem fazer por nós?

Auditorias de Qualidade: As Visitas Pascais nas Empresas

Já não sei ao certo por quantas auditorias de qualidade passei nas empresas onde trabalhei: internas, externas, nacionais e em maior número estrangeiras. Mas é curioso que, apesar de diferentes, porque as áreas de negócio são diferentes, em todas elas existe existem traços muito comuns.

E neste último dia de trabalho da semana, e enquanto estava sozinho a conversar comigo mesmo, cheguei à brilhante conclusão:

Uma auditoria de qualidade numa empresa é como a visita pascal para um católico!

Vejamos. Na Páscoa os católicos recebem em casa as visitas pascais, o compasso, como vulgarmente é chamado, um grupo, mais ou menos pequeno de pessoas, com a missão de irem abençoar a casa receber o dinheirinho para o entregar ao padre.

E nos dias anteriores, o que é que os católicos fazem?

Limpam avidamente em volta das casas; pegam em lavadoras de pressão e lavam passeios e muros; abrem portas e janelas, arejam as casas e aspiram tudo muito bem aspirado. No fundo, não fossem as visitas pascais e os católicos nunca que estariam com estes trabalhos.


Antes de uma auditoria de qualidade, o que é que se faz nas empresas?

A mesma coisa! Lá vem a empresa de limpeza limpar e encerar o chão. Limpa-se tudo muito bem limpo. Arrumam-se coisas que já deveriam estar arrumadas há séculos. E prepara-se um teatro, tal e qual como na visita pascal, para que no dia da auditoria esteja tudo muito bem ensaiado e se represente muito bem. E os auditores lá façam de conta que acreditam que se procede sempre assim, todos os dias do ano, com vista a receber um certificado de qualidade pelos procedimentos aplicados, ou, mais difícil, em manter os carimbozinhos, assinaturas de e-mail e não esquecer também as bandeirinhas com o logotipo da certificação da qualidade que já se conseguiu nos anos anteriores.

"Benditas auditorias" penso eu muitas vezes.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Conversas Improváveis VI

Hoje, estava eu no trabalho e à hora do lanche e liga-me a senhora minha mãe:

"Olha, ouve isto e vê se sabes o que é..."

Do outro lado quase não ouvia nada, e a minha mãe coloca o telemóvel junto à coluna do televisor e esclarece e aí sim fiquei a perceber o insólito da situação:

"São os Moonspell que estão no programa do Goucha a tocar! O vocalista até tem um cabelo assim do tamanho do teu... e até é muito giro"!!



Enquanto falava com a minha mãe caía uma mensagem no telemóvel. Depois de desligar a chamada fui ler, e era uma amiga minha a contar-me a novidade que eu já sabia!

"É o fim do mundo" disse ela.. "Nota-se que é Black Friday"!

Bom, depois disto eu já esperava tudo, mas de facto, muitas vezes, as pessoas conseguem surpreender-nos!

Depois de uma ida ao Preço Certo do Mendes e de ter estado no programa das manhãs do Goucha, qual será o próximo passo dos Moonspell? Tocar no programinha-peditório deprimente de domingo à tarde da TVI?

- Ou será que o Fernando Ribeiro se prepara para posar nu para a revista da Cristina Ferreira?


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Nunca me deixes IV



"Never Leave Me" / Dusk... and her Embrace - Coffin Box - Cradle of Filth / 1996

# Nunca me deixes III

Conversas Improváveis V

Ao lanche, folheava eu o novo catálogo de pontos da BP que estava por lá pousado. Depois de ter tecido alguns comentários depreciativos sobre estas campanhas de fidelização das petrolíferas, fecho o catálogo, e reparo que a imagem da mulher, mais parecia ter sido colada sobre a imagem de fundo. 

Em conversa com a minha colega:

Nesta impressão, parece que colaram ali a imagem da mulher. Ora vê...

- "Fogo, essa gaija tem é umas mamas grandes para caraças"!




Como fica facilmente demonstrável por esta situação, mais do que os homens, são as próprias mulheres que mais reparam nos atributos físicos das outras mulheres!

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Faz hoje 26 Anos

17 de Novembro de 1990

Durante a semana arranjei a trocar com um colega da escola uma moeda de 2 Centavos (a mais antiga que tinha) e que datava de 1920 por outra de 5 Centavos de 1927, o ano em que o meu avô tinha nascido. Claro que a moeda que eu tinha era sete anos mais antiga, deveria valer mais alguma coisa ou ser mais rara, no fundo eu estava a perder, mas para mim era mais importante ter uma moeda do ano do meu avô, por isso eu saía sempre a ganhar: uma moeda com os mesmos anos do meu avô?isso era espetacular!

Naquele sábado de manhã eu saí bem cedo de casa, bem agasalhado e fui para casa dos meus avós, especificamente só para mostrar, cheio de orgulho, aquela moeda ao meu avô. 
Metade do percurso o caminho era feito pelo meio do mato, e outra metade num estradão largo de terra batida. Eu vestia um casado preto, que na altura lhe poderíamos chamar de Kispo, mas não era Kispo. Era um casaco de marca, de qualidade, com uma letra ou símbolo vermelho do lado esquerdo do peito, mas de outra marca qualquer. Era um casaco que os meus pais nunca que me poderiam ter dado porque não tinham dinheiro para tal. Foi uma das muitas peças de roupa usada que usei em criança e adolescente. 

A casa dos meus avós era a única casa junto ao rio Douro, num fundão, bem longe das casas mais próximas. Num local daqueles é importante ter um cão, que faz o papel de guarda, avisando quando alguém se aproxima. Quando cheguei a casa do meu avô vi que o cão estava solto mas não liguei, continuei a andar e virei-lhe as costas. Aquele era um cão preto, mas acho que também tinha uns castanhos, e que costumava estar preso a cadeado junto a uma casota, fora de casa e até fora do terreno dos meus avós, abrigado por pinheiros e eucaliptos. 

E eis se não quando, do nada, silenciosamente, e vindo sei lá se onde, sou atacado pelas costas pelo raio do cão. Nunca lhe fiz mal nem bem. Não tinha qualquer relação com o bicho, mas ele conhecia-me bem, pois como é normal eu frequentava a casa dos meus avós com frequência.  

Só sei que do nada senti-lhe os dentes a entrar na minha carne. Ele era grande mas nunca me conseguiu deitar ao chão. Acho que foi a minha sorte. A outra sorte foi aquele casaco bem resistente que trazia vestido. Os meus berros deveriam ser bem altos. Dias depois, algumas pessoas, lá do outro lado do rio, quando por ali passaram por casa dos meus avós - naquela altura havia um barqueiro para atravessar as pessoas de uma margem para a outra - perguntaram o que se tinha passado pois tinham ouvido alguém berrar do lado de cá. 

A minha avó estava a lavar a roupa lá mais abaixo, mesmo perto do rio, num pequeno tanque, aproveitando uma fonte natural que por lá existia. Foram muitos minutos em que estive envolvido com aquele cão a lutar para sair dali o melhor possível. Lembro-me de lhe agarrar com força pelas orelhas e puxá-lo para o afastar de mim.

Foram muitos minutos. Intermináveis. Só quando a minha avó conseguiu chegar cá acima o cão deixou de me atacar. Ironicamente ali mesmo em frente, a poucos metros de mim, dentro de uma pequena casa contígua à casa-mãe que o meu avô construiu para o filho do meio, a mulher desse meu tio escutava tudo o que se passava e não fez nada. Bastava vir cá fora e chamar o cão e tudo acabava. Mas não veio. Deixou-me estar ali a ser mordido uma e outra e outra vez...sucessivamente. 

Lembro-me de estar já deitado na cama dos meus avós e só querer a minha mãe. E a minha mãe haveria de chegar... E haveria de chegar depois a ambulância.

Pediram-me para mentir e eu menti. Quando no hospital a polícia me perguntou, eu disse que tinha sido um cão vadio... como se fosse costume os cães vadios ferrarem as pessoas. Acabou por não acontecer nada ao cão que me mordeu... coitadinho do bichinho lindo! Acabou por morrer mas de morte natural. Também não tomei as injeções que me tinham prescrito por causa da raiva. 

Já não sei em que momento acabei por mostrar a moeda de 5 Centavos de 1927 ao meu avô. Nem sei se ele valorizou... mas claro que ainda a tenho comigo e faz hoje vinte e seis anos que tudo isto aconteceu.


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

As mentiras que se contam na rede

Passava agora pelo Pinterest, site onde por norma vou roubar imagens para ilustrar aqui o blogue (quando não uso as minhas) e deparo-me com esta imagem seguida do seguinte comentário:


"A história: Estas cadeiras foram aqui deixadas para um casamento em 1939 na Polónia. O casamento foi abandonado devido à invasão alemã. Elas foram encontradas novamente depois da guerra com as árvores que cresceram através deles. Todos os anos são repintadas."

A história é enternecedora de facto. "Que bonito" dirá qualquer pessoa. Mas eu comecei a olhar para aquilo e .... quer dizer... Que grande sorte, em cada cadeira nasceu uma árvore. Nenhuma árvore nasceu ao lado, todas acertaram! E depois, para árvores que nasceram nos anos quarenta do século passado, e que têm agora mais de setenta anos, estão umas árvorezinhas muito magrinhas coitadas! 

"Isto não pode ser verdade", pensei.

E não é. Bastou uma breve pesquisa para desvendar o mistério. 

Isto nada mais é que uma obra ( de 2001) do escultor francês Patrick Demazeau "As Quatro Estações de Vivaldi" ao longo da estrada Haut-bois e Faulx em Namur na Bélgica. E muito do trabalho de Demazeau envolve justaposição de móveis e natureza, que simboliza as árvores (que passam a vida de pé) oferecendo assentos para compartilhar com os caminhantes e sonhadores que se deparam com eles:



O meu primeiro CD

Passaram agora vinte anos. Foi no Outono de 1996. 

Eu vivia na era da cassete, mais ou menos pirata, e do Walkman inventado pela Sony que permitia meter-se lá uma cassete, de 60 ou 90 minutos e ouvir as músicas que lá metêssemos. E quando um lado chegava ao fim, abria-se a tampa da cassete e virava-se de lado. Mas eu ainda tive um Walkman muito à frente, que surgiu com a opção de Auto-Reverse (marcha-atrás automática) e então quando o lado A chegava ao fim, o aparelho, de forma automática, invertia o sentido de rotação do motor e reproduzia o lado B.

Já quase toda a gente tinha aparelhagens com leitores de CD e Discman (leitores de CD portáteis) menos eu. Estes novos discos de som digital faziam furor e em breve muita gente deixaria a cassete pirata e começaria a vender o CD pirata, muitas vezes com umas capas ranhosas a um conto de reis.

Por essa altura no meu Walkman rodava um album que tinha saído uns dois meses antes e rodava e rodava sem parar. Foi certamente o álbum que mais devo ter ouvido de sempre. Tratava-se do segundo álbum da banda inglesa Cradle of Filth: Dusk... and her embrace




















Ninguém tinha internet, mas nessa altura eu andava bem mais informado que agora. Lia o Bliz (que era um jornal semanal) comprava fanzines, e ia a lojas de música ouvir o que saía de novo, sem falar nos colegas que arranjavam uma nova cena qualquer e passavam aos outros. Nessa altura ainda estávamos muito longe de ouvir falar em partilha ilegal de música, tão simplesmente porque ainda não existia internet nas casas das pessoas. 

E depois de ter tido conhecimento que tinha saído uma edição extremamente limitada do Dusk...and her embrace, tratei de tentar arranjá-la... sim, mesmo não tendo onde reproduzir o disco! Mas não esquecer que eu já o andava a ouvir, numa cassete com a cópia do disco normal. 


Por essa altura, em plena baixa do Porto, quase em frente ao Via Catarina, existia a Roma Megastore com vários andares só de música e jogos lá mais em cima. Quando surgiu foi uma loucura naquela loja, só que, a uma loucura aparece logo outra, a Virgin Megastore no Via Catarina, que também haveria de fechar portas poucos anos depois, porque surgiu a loucura da pirataria digital e as pessoas deixaram de comprar discos. 

Mas foi na Roma Megastore que comprei essa edição especial, muito rara com duas músicas de bónus. Lá na loja creio que já só tinham uns três exemplares, e um foi para mim. Este caixãozinho especial custou-me três contos e quinhentos, mais ou menos o mesmo preço que uma outra edição especial mas não tão limitada (que nunca tive), e pouco mais cara que a edição normal em caixa de plástico. 

Mas este não foi o primeiro caixãozinho que comprei. Até hoje haveria de comprar mais três. Dois consegui-os para depois vender a bom preço, um a trinta e outro a vinte contos (sim, valorizou muito!) mas mais tarde, ainda haveria de comprar um outro para oferecer, autografado e tudo. Por motivos românticos claro. Ofereci-lhe um caixãozinho autografado por um dos guitarristas e tudo. 

Podia ter ficado com ele para mim e dar-lhe o que tinha, sem autógrafo. Mas não. O meu, aquele que comprei na Roma Megastore por três contos e quinhentos haveria de ficar sempre comigo, afinal foi o meu primeiro CD.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Doce Novembro

Uma das minhas melhores amigas e daquelas pessoas que já me vai aturando há mais tempo e que por isso mesmo me conhece muito bem - nem de propósito, precisamente aquela que um dia me disse "estou-a-ver-uma-série-em-que-o-protagonista-és-tu"-, lembrou-se de convidar pessoas de outros blogues que ela também segue, para escreverem sobre o que lhes apeteça e publicar no seu blogue no início de cada mês. 

E vai daí lembra-se de falar comigo, o que me fez de imediato revirar os olhos. Acho que só sosseguei quando até me deu o tema e tudo: uma crítica sobre um creme que eu estava a aplicar. 

Sim, eu escrevi um texto sobre um creme!



Eu explico. Tinha sido precisamente ela que me tinha indicado um creme da Beleza do Sal para ver como me dava na psoríase, e então faria todo o sentido que eu partilhasse a minha experiência no seu blogue:



domingo, 13 de novembro de 2016

Poses de Estado



O outro lado dos Provérbios

Diz-se, ou dizia-se que:

"Atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher". 

Mas nos dias que correm, em que até já se tinha definido que um dos pré-requisitos para o próximo Secretário Geral das Nações Unidas, além de ser europeu, era que deveria ter uma vagina, este não será por certo um provérbio muito popular.

Via Pinterest
Qualquer pessoa, que nem precisará ser feminista, dirá que este é um provérbio machista, que a mulher não está atrás, mas no mínimo ao lado. Sejamos inclusivos. Mudemos de perspectiva. Podemos então passar a dizer que:

"À frente de uma grande vaca existe sempre um grande boi". 



quarta-feira, 9 de novembro de 2016

na Terra...



... "desejando amar e entender"



On Earth / Reign of Light / Samael / 2004


domingo, 6 de novembro de 2016

Conversas improváveis IV



... sabe que eu estive nove anos sem namorar - claro que não decidi entrar para um mosteiro! - até que no ano passado perdi-me de amores....e olhe perdi-me!

"Compreendo-o bem. Eu estou divorciada há vinte anos e não voltei a estar com mais ninguém. Não encontrei ninguém que me merecesse."


sábado, 5 de novembro de 2016

Será isto definitivamente o Amor?

Foi por mero acaso que o encontrei de novo, e porque depois de o ter reencontrado não o quis perder, voltei à rotina de ouvir o Júlio Machado Vaz na rádio. E ainda por cima agora não há desculpas, uma vez que se não podermos ouvir a emissão em direto (ou em repetição na rádio) temos ali tudo escarrapachado na no site da Antena 1.

E no programa "O Amor é" da semana passada, a propósito de um poema do Valter Hugo Mãe (sem dúvida que o que trouxe do Chico Buarque - conheço-o bem - é mesmo muito potente!) o professor colocou uma questão muito interessante. Será que, depois de uma separação, quando as pessoas desejam o melhor para o outro, estão a ser realmente verdadeiras ou podem estar um pouco iludidas?

E o que me parece é que, só o simples facto de alguém se separar e desejar o melhor para o outro já não será para todos. Mas tudo dependerá sempre da forma como as coisas acabam. 

Ainda assim, como diz o professor, grande parte das pessoas só pensa em si mesmo, e acha que "se não foste feliz comigo,não serás com mais ninguém". Mas há outras pessoas que pensam assim. Racionalmente querem mesmo o melhor para outro. Mas será que, bem lá no fundo estamos a ver o alcance  do "não deu certo connosco, vai lá ser feliz"? 
Seremos assim tão magnânimos? 



O professor disse que nem quer ir muito fundo quando no consultório confronta as pessoas. Nem é preciso entrar logo de chofre e perguntar "e consegues imaginá-la na cama com outro?", porque normalmente nem é preciso. Basta fazer a simples pergunta:

"... portanto, desejas que um dia destes a encontres, à beira mar, com um fulano ou uma fulana, com o braço por cima dos ombros?"

E na maioria dos casos a resposta é a palidez na cara das pessoas. E de imediato as pessoas refletem, caem em si, e percebem que estavam completamente enganadas. 

"Mas ò professor, eu achava que era mesmo que era o que eu desejava, mas agora pôs-me essa imagem e isso horroriza-me". 

Pois é... quer-se mesmo o melhor para o outro, ainda que só do ponto de vista racional, mas há pessoas que não estão preparadas para levar com isso de frente.

Mas é curioso que, enquanto o ouvia, de imediato as suas palavras, sempre sábias, transportaram-me para o seu livro "Estes difíceis amores", onde descreve precisamente isso, onde também há mar e braço por cima dos ombros:


Eis-nos aqui. Domingo de sol, passeio junto ao mar, esses olhos azuis que o desejo nublava fitam-me transparentes, agressivos de tão risonhos, "como estás". Como estou? E tu que achas vendo-te assim acompanhada? Ele tem bom aspeto, sorriso franco, nada indica o ciúme de paixão mal resolvida da tua parte; sente-se seguro. Esqueceste-me. Pior!, já és minha amiga. Pronto querida, vou ser politicamente correto , "bem". O tempo, o amigo comum que encontraste e me acha cansado, a etiqueta, "este é o ...". Que interessa o nome?, é o teu homem, "muito prazer". Ele sorri, sabe que não sinto a frase, mas compreende, afinal sou o tipo que perdeu a mulher que ele não dispensa, "muito prazer". Um silêncio constrangido entre os dois que resolves com à-vontade, "foi bom ver-te". Era necessário humilhar-me tanto? Uma vontade imensa de te abanar - "sou eu lembras-te?, tinhas a certeza que era o amor da tua vida..." -, acorda!, ainda podemos...

Os dois afastando-se o braço dele sobre os teus ombros, o segredo ao ouvido e esse cabelo, onde me perdia, volteando ao ritmo da gargalhada. Serias incapaz da chacota a meu respeito, é outra a razão, simples e infernal - estás feliz. E uma parte de mim, ainda tímida, quase clandestina, deixa cair os braços e reconhece a derrota e culpa, fica grata pelo que me deste e murmura um "boa sorte" que todo o resto do que sou fita horrorizado. 

Será isto definitivamente o amor?


Estes difíceis amores / Júlio Machado  Vaz / 2002 


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Se quiseres conhecer o Porto...


Neste fim-de-semana não, porque já tenho coisas alinhavadas, mas no fim-de-semana seguinte parece que vou estar livre...E como agora até tenho uma carroça de quatro lugares e tudo, trazes o marido que eu mostro-vos a cidade. 

Podes estar à vontade que por norma sou um sujeito simpático e de confiança. E se andares vestida de forma simples, estando comigo ninguém vai suspeitar que estou a passear com a Monica Bellucci. 

Depois um dia, até era simpático da tua parte retribuíres, convidando-me para me mostrares a Lisboa onde te sentes livre... 

Pensa nisso. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

X-ATO e Durex

Estão a imaginar aquele colega de trabalho mesmo muito chato que está sempre a tentar corrigir toda a gente quando alguém diz esta ou aquela palavra de forma menos acertada?
- Pois é, sou eu!

Acho que tudo começou quando estava na cantina e falei na Florida, aquele Estado norte-americano de onde são as minhas tartarugas. E Florida diz-se como em "está tudo florido" e não como toda a gente diz, incluindo como grande parte dos jornalistas dizem: Fló-ri-da. A palavra é de origem ibérica e não de origem inglesa, por isso deve-se pronunciar flurida.

Só que mal pronunciei a palavra corretamente, de imediato comprei uma guerra! Toda a gente ficou contra mim! Por momentos até pensei que estava no ano de 1999 em que eu, contra toda a gente, dizia que a mudança de milénio era de 2000 para 2001 e não de 1999 para 2000. E claro que eu estava certo, e um ano mais tarde todos haveriam de me dar razão. 

Mas a partir daí, da Floria, ficou a curiosidade de todos nos tentarmos corrigir uns aos outros, e isto apesar de eu não ser propriamente um especialista, mas sim alguém que gosta de aprender e de tentar falar (e escrever) o mais correto possível, e, tal como eu gostaria de ser corrigido, também tento elucidar os outros. E não, não é por ter a mania que sei mais do que outros. Talvez seja só por ser muito chato, talvez mais isso!

Entretanto por estes dias o nosso colega que anda por terras de Vera Cruz está por cá, e de vez em quando pergunta-nos se sabemos o que é isto ou aquilo, tal como os brasileiros chamam às coisas.

Sabem o que é um estilete?

Acho que ninguém sabia. Para nós é um X-ATO!

De imediato alvitrei que provavelmente seriam os brasileiros é que utilizariam a palavra mais correta. E na verdade, consultando o Ciberdúvidas:

"A pequena lâmina usada em trabalhos gráficos e papelaria recebeu o nome a partir de uma marca inglesa: x-ATO. É o mesmo processo que trouxe para o Português as palavras gilete (lâmina de barbear) e durex (preservativo em Portugal e fita adesiva ou fita-cola no Brasil). Trata-se de um jogo de palavras com o som de "exact" em inglês. O acessório só é conhecido como x-acto em Portugal. No Brasil é chamado de estilete ou de faca olfa - também o nome de uma marca que o produz."

Sabem como é que os brasileiros chamam à fita-cola?



Pois é, neste caso foram os brasileiros que passaram a usar o nome de uma marca que produz o produto. A fita-cola no Brasil é chamada de durex!

E eu tenho para mim que os por durex os portugueses associarão a outro tipo de produto!

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Sesta na Caleira


Os Inventores de Doenças

"A medicina avançou tanto que já ninguém está são"
ALDOUS HUXLEY


Segundo Voltaire, a arte que os médicos praticam consiste em entreter o doente até que a Natureza o cure. Atualmente, inverteu-se a conclusão do filósofo francês: a medicina faz crer às pessoas que a Natureza as ataca constantemente com novas doenças que só podem ser curadas pelos médicos. Dado o facto de cada cultura e cada povo gerar doenças próprias, até há pouco tempo a doenças era considera ainda um fenómeno social. Neste livro falo de uma alteração ocorrida na Alemanha e no resto dos países industrializados em relação a este assunto: hoje em dia, as empresas farmacêuticas e os grupos de interesse médicos inventam doenças: a doença transformou-se num produto industrial. Para tal, as empresas e as associações convertem os processos normais da existência humana, em problemas médicos, medicalizam a vida.

É fácil inventar novas doenças e novos tratamentos", constata o British Medical Journal. "Muito processos normais da vida - o nascimento, o envelhecimento, a sexualidade, a infelicidade e a morte - podem ser medicados".

O aumento dos diagnósticos nos países industrializados assumiu proporções grotescas. Os médicos dizer ter encontrado cerca de 30 000 epidemias, síndromes e doenças no Homo Sapiens. Mas para cada doença há um comprimido. E cada vez com maior frequência, para cada comprimido, há também uma nova doença. Em inglês, o fenómeno já tem um nome: dicease mongering, tráfico de doenças.

Os inventores de doenças obtêm o seu dinheiro graças às pessoas saudáveis a quem convencem que estão doentes. Por acaso também não sofre de vez em quando de cansaço, mau humor ou de fastio? Tem dificuldades em concentrar-se? É tímido?

A venda de problemas pessoais e sociais como problemas médicos

Em neurologia, a transformação das pessoas saudáveis em doentes funciona especialmente bem, sobretudo porque "não escasseiam teorias, segundo as quais praticamente ninguém está são", como assinala com conhecimento de causa o psiquiatra hamburguês Klaus Dörner.

O número de perturbações reconhecidas oficialmente revela uma tendência: nos Estados Unidos, o número de doenças anímicas existentes aumentou de 26 para 395 a partir da Segunda Guerra Mundial. 

"Sabe do que o senhor precisa? De um grama de farinha".
ALDOUS HUXLEY

"Admirável mundo Novo"






O que a uns dá de comer, a outros tira-lhes o seu bem mais precisoso, a saúde. A crítica norte-americana Lynn Payer verifica o seguinte: a conduta do inventor de doenças "destrói a nossa confiança em nós próprios e isso sim, faz-nos adoecer". Transformando-nos num povo de inválidos saudáveis, não atacados pela enfermidade, mas tolhidos por causa da ilusão de estarmos doentes? O médico e escritor norte-americano Lewis Thomas foi um dos primeiros a alertar para este perigo: "Se continuarmos a ouvir estas charlatanices, corremos o rico de nos transformarmos um povo de hipocondríacos saudáveis, que vive mergulhado no desalento e que se angustia quase até à morte. 

Uma pessoa saudável foi mal examinada.
OPINIÃO MÉDICA


Em aproximadamente metade das pessoas que vão ao médico não é possível provar que padecem de qualquer enfermidade orgânica, mas isso não dá para o sistema sanitário viver: os formulários dos seguros, as caixas complementares médicas e as caixas de aposentação exigem que se registe um diagnóstico.

Com uma desfaçatez de pasmar, inventam-se doenças doenças e epidemias que na realidade não existem. as denominadas "não doenças".

Lista de êxitos das "não doenças"

1. A velhice

2. O trabalho
3. O aborrecimento
4. Os papos nos olhos
5. A ignorância
6. A calvície
7. As sardas
8. As orelhas de abano
9. O cabelo grisalho ou branco
10. Ser feio
11. O parto
12. A alergia ao século XXI
13. O jet lag
14. Ser infeliz 
15. A pele laranja
16. A ressaca
17. O medo do tamanho do pénis/inveja do pénis
18. A gravidez
19. Os acessos de fúria em plena circulação viária
20. A solidão

A "indústria farmacêutica tem nessa altura um papel-chave na medicalização", comenta David Gilbert, perito em saúde de Londres. "Assim que um medicamento está disponível, as campanhas da indústria tentam redefinir a doença na cabeça dos médicos e dos potenciais pacientes." Os supostos problemas de saúde são apresentados como um enfermidade, e a melhor maneira de combatê-los é através de produtos farmacêuticos". 

Muitas pessoas são sensíveis a esta estratégia. É indiferente que se trate de calvície, de mau humor ou de obesidade; assim que a medicina moderna fornece uma causa biológica e a possibilidade de um tratamento para o problema, dá-se uma transformação maravilhosa: o desejo de ser mais feliz, ou a preocupação com a queda de cabelo,transforma-se imediatamente num problema médico. 

Psicofárcos no Recreio


Mas a verdadeira carreira dos SHDA só começa algumas décadas mais tarde. Deve-se a uma descoberta casual de laboratório: Leandro Panizzon, um químico da empresa Ciba, sintetizou o metilfenidato em 1944 e experimentou-o em si próprio, sem obter qualquer resultado digno de menção. Mas a sua mulher Margarita, ou Rita, provou também aquela substância e verificou um efeito bastante estimulante. Posteriormente Rita foi tomando a substância com regularidade antes de jogar ténis, pelo que o químico batizou a substância com o nome dela: Ritalin.

A princípio, o remédio só foi ministrado a adultos para tratar estados de cansaço intenso, quadros depressivos e episódios de confusão no envelhecimento: ainda não fora inventado o quadro clínico que tornaria tristemente célebre o Ritanlin.

O dilema da indicação médica inexistente foi resolvido pelos médicos americanos nos finais dos anos 60 com um truque cujas consequências ainda se fazem sentir hoje em dia: o medicamento em si mesmo podia ser usado, segundos os cientistas, para diagnosticar a doença das crianças: aquele que ingerir o fármaco modificava o seu comportamento, estava doente. Inversamente, as crianças saudáveis não reagiam à substância.

Esta jogada de mestre abriu caminho à venda de psicofármacos a crianças em quantidades industriais.  

Os Inventores de Doenças / Jörg Blech / 2006