domingo, 28 de fevereiro de 2016

À espera de um dia de Sol

Depois daquele dia tão triste, naquele banco de jardim, e que ainda assim, apesar de tudo, mesmo sob toda aquela tensão emocional, conseguimos rir várias vezes - fosse por causa dos galos ou do gato que resolveu trepar a árvore junto a nós, ou porque nós somos duas pessoas muito bem dispostas e tu foste capaz de me perguntar se eu estava a olhar para as tuas mamas! - passariam uns longos três meses, passaria quase todo um verão, comigo enfiado, sozinho, naquele laboratório, sem ar condicionado, com uma simples ventoinha virada para mim, a fazer aquele trabalho minucioso, qual ourives, em piloto-automático, enquanto passava as oito horas a conversar contigo, a fazer-te perguntas, uma atrás da outra, e a tentar disfarçar para que ninguém se apercebesse do que se passar na minha cabeça.

E passariam três longuíssimos meses, que pareceram três longos anos, até chegar o dia de te poder voltar a ver de novo, um dia que, muito sinceramente, eu temi que não voltasse a chegar. E claro que a iniciativa teria de ser tua. Eu nunca poderia saber quando estarias de novo por perto. Terias de ser tu a tomar a iniciativa de querer voltar a estar comigo. E tu quiseste voltar a ver-me e eu disse-te que agiste muito bem. Por mim claro, mas eu sei que o fizeste também por ti. E é tão curioso que eu não mais pensei que nos fôssemos ver... enquanto tu talvez pudesses pensar que fosse eu que já que não quisesse mais voltar a estar contigo.

Tu és uma verdadeira senhora, na forma de estar, na postura, na descrição, mas eu também sei que tirando este meu aspeto de bárbaro, sou também um cavalheiro. Mas mais do que dizer, porque palavras leva-as o vento, tu melhor do que ninguém sabes as atitudes que eu tenho tido para contigo. Ou se calhar, melhor dizendo, as atitudes que eu nunca tive, e que tu se calhar esperavas que eu as pudesse ter tido, e te pudesse de alguma forma atormentar ou complicar.

Daí que não seja de estranhar que, sendo ambos pessoas assertivas, nunca sequer tenhamos discutido, feito uma cena, levantado a voz. Tu sabes que eu nunca te pedi ou implorei que voltasses com a tua decisão atrás, e que eu sei que já tinhas amadurecido há algum tempo. E eu percebi que estavas a mudar comigo, havia algo estranho, sente-se, e tu estavas só a antecipar o golpe de misericórdia da melhor forma possível. Mas eu só quis tentar compreender. Eu sei que não era fácil para ti responder-me pela internet, e é pessoalmente que as pessoas devem conversar. Logicamente. Mas também nem sempre era fácil para mim perguntar-te cara-a-cara. Eu acho que tu sabes porquê... Porque eu estava a ficar sem tempo, e porque todos os minutos que estava contigo eram preciosos demais...

Lembro-me daquele dia, sentados na beira do muro, junto à marina. Tu dizias-me: "pergunta-me tudo o que quiseres saber". Mas eu tinha quase de me concentrar, acho que mais valia ter feito uma lista de perguntas, porque eu perdia-me sempre que olhava para os teus olhos castanhos, clarinhos, cor-de-mel. Eu estava a perder-te e todos os segundos eram preciosos para mim. O que eu queria era abraçar-te, agarrar-te nas mãos ou beijar-te, como se não tivesse sido isso que passei a vida a fazer, durante todo o tempo que estivemos juntos.

"- Olha que estamos no público Konigvs.... 
- Então vamos para o privado!"

Mas naquele dia, tu dizias-me naquele teu jeitinho especial: "Oh Konigvs, não faças isso". Eu sei, tu
estavas a deixar-me ir, enquanto eu tentava agarrar-me a ti de todas as maneiras possíveis.



Também é verdade que não tivemos muito tempo para nos chatearmos, mas olha que eu acho que já tivemos uma pequena amostra do que poderia ter sido se ficássemos juntos durante muitos anos. Ainda assim, apesar de sermos duas pessoas muito cordiais, adultas, racionais e que, mesmo sob a tensão de uma separação, resolvem os seus problemas com diálogo, tu sabes que as coisas poderiam ter acontecido de outra forma, poderiam ter sido mais fáceis para mim e por consequência mais fáceis para ti. Falamos várias vezes sobre isso, eu sei que me compreendeste, eu também compreendi o teu lado. Tu estiveste no meio de uma violenta tempestade, eu era só o Adamastor, mas depois de tomares a tua decisão, sei que tiveste de dobrar um verdadeiro cabo das tormentas.

E foi então que decidiste voltar a ver-me. E eu fiquei triste ao perceber que, apesar de todos os novos desafios em que imagino em que te terás visto, fosse pelas novas rotinas, pelas novas pessoas que terão entrado na tua vida, eu percebi que, ao contrário do que imaginava, tu não estavas nada feliz. E isso surpreendeu-me e até me chocou.
E por várias vezes te agradeci por estares ali, tal como tu repetiste em cada uma dessas vezes, que tu é que tinhas de me agradecer, por apesar de tudo, eu estar ali contigo para te dar um abraço apertado, dos nossos, e de te ouvir. E talvez seja um pouco presunçoso da minha parte, mas eu acho que tu precisavas mesmo do meu abraço. Tal como eu precisava de cuidar de ti, nem que fosse só por aquelas horas. E nestes nove longos meses, foram essas as únicas horas que estivemos juntos. 

E contactaste-me agora de novo, não me tendo conseguido encontrar no sítio de sempre, onde tanto costumávamos  conversar. Disse-te agora que deixei de lá ir por tua causa. Essa é a verdade. Eu ia lá todos os dias, só para ver se te via, só para ver se vinhas conversar comigo. Eu vi-te por lá, uma ou outra vez. O meu coração disparava, parece que me ia sair pela boca. E bem sabes que eu nunca meti conversa contigo, esperava sempre que fosses tu a tomar a iniciativa. Porque achava que, dadas todas as circunstâncias, e apesar de me apetecer tanto, achava e acho que era assim que tinha de ser. E ficava sempre no meu canto à espera, à espera.. mas tu nunca vinhas. Era doloroso demais. E não sabes o quão triste eu ficava por nunca vires ter comigo, e perguntar-me "como é que tu estás"?, "e a tua mãe como tem andado"? e "as tartarugas"? Claro que eu sei que tu sabias perfeitamente como eu estava... não te escrevesse eu longuíssimos e-mails todas as semanas com tudo o que me vai acontecendo! Ainda hoje sinto essa necessidade, e por vezes acho que te conto coisas que nem deveria. Mas conto na mesma. Como na música do CD que me emprestaste "Everything I do I tell all the time". Sim, ainda o ouço de vez em quando. Tu sabes que me faz sentir mais próximo de ti. Foi pena teres-te esquecido de mo trazer antes de teres ido de férias com a tua amiga. E tanto que me custaram aquelas duas semanas a passar. Mas olha, agora que não te tenho comigo, tenho-o sempre para ouvir o resto da vida!

Escrevia-te longos e-mails... entretanto, e passado já tanto tempo, e já com alguma distância dos acontecimentos, é também agora aqui no blogue que te vou escrevendo, apesar de sempre ter pensado que nunca me viesses ler, apesar de saberes que gostaria muito que o fizesses.
Mas bem que gostaria era de te ter escrito cartas. É tão mais pessoal... mas eu já ficava feliz por sentir que, de facto, tu lias os meus e-mails, e que eu percebo que nem sempre seriam fáceis de ler. Se há coisa que eu faço bem, disse-to várias vezes, é saber colocar-me no lugar dos outros. Eu não gostaria de saber que alguém está a atravessar um momento difícil na sua vida por minha causa. Sentimo-nos sempre uma merda por termos magoado alguém que, além de só ter olhos para nós, não merece tal coisa. E eu sei que tu querias ver-me bem, o mais rapidamente possível, de preferência refazendo a minha vida com outra pessoa ao lado, ou então nem que fosse a divertir-me com as mulheres erradas. Mas eu sei bem que torces para que só acontecesse a primeira opção. E olha que eu ainda me lembro muito bem daquela tua frase, mais conselho que outra coisa, que me disseste no último dia que estivemos juntos. Lembro-me tantas vezes dessa frase... Tu estavas a dizê-la e eu a responder-te em silêncio. E eu acho que tu saberás o que eu te estava a dizer.



Mas estivesse eu a dividir agora a minha vida com alguém, ou ande simplesmente na vida airada, tu já me conheces bem. Eu não mudo consoante as circunstâncias. Eu também não sou um homem qualquer. Não sou perfeito, mas não uso de manhas, não manipulo, não tento tirar proveito, não fico à espera, escondidinho de emboscada para aproveitar a oportunidade. Eu ligo-me às pessoas mas não é para me servir delas quando me der jeito. Não é para deixar as portas entreabertas. É porque acho que quando estabelecemos uma forte ligação com alguém, e que nos faz tão bem, devemos sempre manter essa pessoa por perto. Não escolhemos os pais, a família, mas escolhemos as amizades, escolhemos aquelas pessoas que verdadeiramente nos tocaram nesta vida. E tu tocaste-me como ninguém, como já outras pessoas tocaram de diferentes formas. E é por isso que não posso, de maneira nenhuma, perder esta ligação de bem querer mútuo que tenho contigo. Mas não depende só de mim. De mim só depende não te esquecer, nunca. Disso não preciso de ti. Mas para que esta luz tão intensa que nos liga não se eclipse, é preciso que tu nunca me deixes ir.

Eu não te sei explicar o que por vezes se passa comigo...  E tu, que tanto conhecimento tens, que eu nem ao certo saberei quanto, consegues-me explicar o que aconteceu no nosso primeiro abraço? Eu não consigo, mas sei o que senti. Consegues-me explicar, agora a esta distância, aquelas palavras que eu te disse no primeiro dia que nos conhecemos? Eu não te sei explicar as coisas por que passo, as coisas que faço, o porquê das horas a fio que passo a escrever-te, dos tormentos que por vezes sinto...

Tal como não te consigo explicar a felicidade que me inundou, só pelo simples facto de me teres contactado de novo. De termos conversado até te ficarem a arder os olhos, e me teres dito, que um dia destes, quando vier um dia bonito de sol, haveremos de combinar um cafézinho.

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