terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Bactéria multi-resistente

Estaríamos em 1998... 

Todos os dias apanhava o 56, um daqueles autocarros, compridos e articulados. Vestia-me de preto da cabeça aos pés, tinha uma imensa juba loira pelo fundo das costas, de meter respeito, e usava as mesmas botas pretas, todos os dias, quer fizesse calor ou frio. Nos dedos anéis, um verde com uma caveira, outro com um pentagrama prateado em fundo preto, e um outro ainda que era um olho vermelho que refletia a luz de onde quer que olhassem, parecendo que estava a olhar para quem para ele olhasse. Ora usava um, ou todos os anéis numa só mão ou em ambas as mãos, e usava também diferentes fios. Recordo uma Estrela-do-Caos que me acompanhou muitos anos...  e curiosamente ainda nos dias de hoje a uso apesar de já não ser a mesma.

Certo dia, sentado no banco plástico cor-de-laranja do autocarro, que demorava mais ou menos meia hora a chegar ao destino, e enquanto folheava um catálogo em formato revista de uma conhecida editora alemã , um homem mais alto que eu, de cabelo curto e já com entradas na testa e que usava uns pequenos óculos e uma pasta que lhe davam um ar muito intelectual, interpela-me:




"Essa revista..." não sei ao certo o resto das restantes palavras, mas o certo é que um completo desconhecido me interpelou. Eu virei-me para trás, respondi-lhe simpaticamente, como aliás costumo fazer sempre com pessoas desconhecidas que me abordam, e começamos a conversar sobre música.

E se à primeira vista ninguém diria que aquela pessoa, vestida de uma forma completamente diferente da minha, e aparentando ser totalmente diferente de mim, mais à frente descobri que não poderia partilhar gostos mais parecidos, fossem eles musicais, de estilos de vida, como até visões da própria sociedade. 

E um pequeno gesto pode - como já várias vezes falei disso aqui no blogue - mudar muitas coisas na vida de uma pessoa. Se até então esta era uma pessoa desconhecida que simplesmente apanhava o mesmo autocarro que eu, a partir dali começamo-nos a encontrar nas mesmas paragens de autocarro e a conversar.  E foi assim, num pequeno gesto, uma simples interpelação num transporte público, que conheci aquele que, durante muitos anos viria transforma-se no meu melhor amigo.

Curiosamente foi esta pessoa que, já há uns quantos anos, disse certo dia a propósito da minha resiliência, que por mais mais dificuldades que a vida me coloque, eu resisto e resisto, sempre...
Como uma "bactéria multi-resistente". 

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